sexta-feira, 24 de junho de 2011

Marcha vira palco para críticas ao STF

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Líderes evangélicos atacam reconhecimento de uniões homossexuais e liberação de manifestações pró-maconha

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Pastores atraem multidão de fiéis e manifestação se torna exibição de força política em São Paulo Fonte: folha.uol.com.br 24/06

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Líderes evangélicos transformaram ontem a Marcha para Jesus, em São Paulo, em palco para críticas ao Supremo Tribunal Federal e uma exibição de força política.

Os alvos principais foram as recentes decisões em que o STF reconheceu a união estável de casais homossexuais e liberou manifestações pela liberação da maconha.

O pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, chegou a recomendar aos fiéis que não votem em políticos que sejam favoráveis à união gay.

"O povo evangélico não vai ser curral eleitoral", disse. "Se governador, prefeito ou presidente for contra a família, não terá nosso voto."

Para Malafaia, o Supremo "rasgou a Constituição" ao permitir a união civil entre homossexuais. O pastor negou que seja homofóbico.

No Congresso, 71 deputados e três senadores são ligados a igrejas evangélicas.

O apóstolo Estevam Hernandes, líder da Renascer em Cristo e principal organizador da Marcha, disse que a manifestação não tem caráter político, mas reconheceu a influência dos líderes.

Ele também se pronunciou contra as decisões do STF. "Enquanto a maconha não é liberada, é incoerente marchar por aquilo que não é legal", disse Hernandes.

Pastor da Igreja Universal, o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) criticou o "ativismo judicial" e disse que "não é possível que seis iluminados se julguem capazes de decidir por 200 milhões". O STF é composto por 11 ministros.

O senador Magno Malta (PR-ES) afirmou que os evangélicos esperam respeito dos homossexuais. "O verdadeiro Supremo é Deus", disse.

A marcha atraiu uma multidão de fiéis que seguiu sete trios elétricos e percorreu 4 quilômetros do centro de São Paulo até a zona norte. A manifestação é realizada todo ano na cidade desde 1993.

"Meu Deus é dono do ouro e da prata. Enquanto meu Deus age, ninguém pode impedir", disse a bispa da Renascer Sônia Hernandes, no alto de um trio elétrico. Ela afirmou que continua amiga do jogador de futebol Kaká, que era o principal garoto-propaganda da igreja até romper com ela em 2010.

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INTERNET

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48 horas de ataque virtual ao governo

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Nova ofensiva causou instabilidade nos sites do Senado, da Presidência, da Receita Federal e do Ministério do Esporte. Serpro afirma que bloqueou investidas, mas problemas ainda eram percebidos à noite. Vândalos divulgaram dados pessoais de políticos, incluindo a presidente Dilma Rousseff Fonte: correioweb.com.br 24/06

No segundo dia de ataques às páginas eletrônicas de órgãos públicos, a ação dos hackers atingiu os sites da Presidência da República, da Receita Federal, do Senado e do Ministério do Esporte durante toda a quinta-feira. Depois de reivindicarem a autoria de invasões a endereços eletrônicos institucionais do Executivo federal e da Petrobras entre a madrugada e a tarde de quarta-feira, os piratas virtuais divulgaram, por meio de perfis do Twitter, dados pessoais da presidente Dilma Rousseff, do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, do ministro da Educação, Fernando Haddad e de alguns parlamentares, além de listas com supostas informações de acessos relacionadas à estatal petrolífera e ao Ministério do Esporte. Até páginas de empresas privadas foram atacadas.

Inicialmente, o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), responsável pelo gerenciamento dos sites do governo, informou que não havia qualquer problema relacionado aos ataques de quarta-feira e que a equipe técnica não havia detectado novas ações de hackers. Mais tarde, entretanto, o órgão admitiu ter identificado a execução de programas que simulam a tentativa de milhares de acessos simultâneos à página do Planalto. Segundo o Serpro, a ofensiva foi detectada e bloqueada. Carlos Marcos Torres, coordenador de comunicação social do órgão, alega que, provavelmente, essa foi a causa dos problemas de ontem. Na quarta, o Serpro classificou o ataque virtual de dois dias atrás como o maior ocorrido ao governo brasileiro, mas destacou que não houve vazamento de dados. Ontem, entretanto, hackers publicaram no Twitter supostos dados pessoais, como CPF e telefone, do diretor do órgão, Gilberto Paganotto.

O site dedicado à imprensa da Presidência da República ficou desativado durante quase uma hora ontem à tarde. A página eletrônica da Receita Federal também apresentou lentidão e, em diversas tentativas de acesso ao endereço, o site não abriu. Por meio da assessoria, o Ministério do Esporte explicou que o endereço virtual do órgão foi atacado ontem, mas classificou a invasão como “periférica”. De acordo com informações da pasta, os dados sobre investimentos para a Copa do Mundo de 2014 divulgados pelos hackers já são públicos. Por precaução, a equipe de tecnologia do ministério deve divulgar, hoje, um relatório sobre o que de fato ocorreu. O órgão administrado por Orlando Silva, aliás, ainda estava fora do ar às 23h para uma varredura de segurança.

CPFs

Durante a quinta-feira, era possível encontrar informações pessoais de Dilma Rousseff, do vice-presidente Michel Temer, de Gilberto Kassab e do ministro da Educação, Fernando Haddad, na internet. Os dados teriam sido disponibilizados pelos hackers depois das invasões virtuais aos órgãos do governo. Nos links publicados pelos vândalos, havia números de CPF, telefones, e-mails pessoais, datas de nascimento e até o signo dos políticos. Muitos desses dados, contudo, estão disponíveis para o público em páginas do próprio governo e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por exemplo.

Boa parte das informações, especialmente números de telefone, não correspondia às verdadeiras. “Sou vendedor numa concessionária aqui em Brasília. Não conheço o Temer”, afirmou Marcos Vinicius, surpreso com a informação de que o número do seu celular estava na internet como se fosse do vice-presidente da República. Em um dos telefones atribuídos a Haddad, no entanto, uma mulher atendeu à ligação, confirmou que era a casa do ministro e pediu que a reportagem fizesse contato com a assessoria de imprensa do Ministério da Educação (MEC). O aparelho telefônico da casa foi desligado em seguida.

A Presidência e o MEC não se manifestaram sobre o assunto. Já Kassab disse que “a ação de hackers que invadem a privacidade e causam problemas é lamentável”.

A reportagem do Correio tentou contato com a Polícia Federal (PF) e com representantes do Senado, mas não obteve retorno. A PF havia anunciado que está reunindo materiais para monitorar as atividades dos hackers e abrirá inquérito nos próximos dias. Ontem, os cibercriminosos publicaram no Twitter arquivos da Associação dos Delegados da Polícia Federal (ADPF). No entanto, a maioria das informações já estava disponível na internet e tinha sido alvo de hackers em fevereiro deste ano.

O suposto cadastro dos usuários de um blog ligado ao portal UOL também foi divulgado pelos hackers. Constam nomes, idades, profissões e e-mails. O advogado Marcelo Augusto Erbella, especialista em direito digital, esclarece que a invasão e a publicação de dados de usuários dos sites privados só configuram crime se ficar provado que houve prejuízos. “Já a divulgação de dados de órgãos públicos, sim, é crime. O problema é que a legislação brasileira sobre esse assunto é muito fraca. O Código Penal não está adaptado à nova realidade, apesar de alterações já realizadas”, afirma.

Acesso em massa

O tipo de invasão utilizado nos ataques aos sites do governo federal, conhecido como negação de serviço, ou DDoS (sigla em inglês para Distributed Denial of Service), é um dos mais comuns entre os hackers. Esse tipo de ataque utiliza computadores que podem estar em qualquer lugar do mundo. A técnica consiste em inocular previamente alguns vírus em máquinas aleatórias para, em determinado momento, o hacker disparar um comando que provoque o acesso simultâneo ao site que pretende invadir. O elevado número de tentativas de entrada em um mesmo momento provoca o colapso no sistema.

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ERÁRIO

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Festa com dinheiro público no são-joão

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Governo liberou este ano mais de R$ 13 milhões para comemorações juninas. MPF já está de olho em 20 e ainda apura outras 13 de 2010 Fonte: correioweb.com.br 24/06

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E m tempos de são-joão, políticos aparecem no arraial como padrinhos de festas que reúnem multidões. É também o período em que o governo federal abre exceções para bancar as contas das festividades organizadas pelos prefeitos. Cercados pela diversão e pelo forró, os brasileiros poucas vezes se dão conta dos nomes anunciados ao microfone e dos agradecimentos feitos antes do anúncio das bandas que vão entrar no palco. Mas a lista de apoiadores, repleta de homens e de órgãos públicos lembrados graças aos recursos provenientes do erário, é repetida com frequência, com o objetivo de captar a atenção do eleitor em potencial. O jogo que envolve o são-joão já conseguiu liberar este ano cerca de R$ 13,1 milhões do Ministério do Turismo. No ano passado, foram R$ 13,8 milhões.

A conta das festas inclui mais de R$ 1,6 milhão enviado para o são-joão de Campina Grande (PB), considerado pelos paraibanos o maior do mundo. O valor ultrapassa o limite de R$ 600 mil estipulado pela própria pasta por meio da Portaria n° 88/2010, editada no fim do ano passado em resposta a uma série de denúncias sobre a má aplicação dos recursos públicos destinados às festas. A atenção especial com o município é resultado de uma verdadeira ofensiva dos políticos ligados ao prefeito Veneziano Vital do Rêgo (PMDB) em busca de dinheiro federal, depois que o governador do estado, Ricardo Coutinho (PSB), adversário do peemedebista, anunciou que não tinha recursos para ajudar a festa municipal.

Ameaçado de desgaste político se não conseguisse recursos para o são-joão mais famoso do Nordeste, Vital contou com a articulação dos aliados no Congresso e com uma força extra do próprio irmão, o senador Vital do Rêgo (PMDB). O parlamentar conseguiu realocar uma de suas emendas e destinou R$ 1 milhão para o município.

Denúncias

O volume de recursos distribuído pelo Ministério do Turismo para as festas juninas desperta a atenção do Ministério Público Federal (MPF). Denúncias revelam esquemas de direcionamento de licitações, fraudes e uso de empresas fantasmas. A Procuradoria da República em Campina Grande abriu, em 11 de abril, uma investigação para apurar as despesas com divulgação em carro de som e as chamadas de rádio das festas juninas. Em Alagoas, o MPF apura gastos com as festas de são-joão em Penedo e em Atalaia.

O suposto esquema de fraudes em festas, segundo o MPF, segue o modelo da máfia das sanguessugas, que fraudava licitações de ambulâncias. O dinheiro liberado pelo ministério para as prefeituras sai por meio de emendas parlamentares apresentadas ao Orçamento da União. Cabe ao Executivo municipal contratar toda a estrutura da festa. E é nesse ponto que costumam ocorrer os desvios.

Este ano, mais de 20 ações já foram abertas para investigar as festas de são-joão. No ano passado, foram 13 durante o mesmo período. A maioria ainda sem conclusão.

Dividendos

O esforço para liberar dinheiro para essas festas costuma render dividendos perante o eleitorado, ainda que haja o risco de os políticos se tornarem alvo do MP. Desde o início das festividades na Paraíba, em 3 de junho, os nomes dos parlamentares que conseguiram recursos por meio de emendas são lembrados diariamente pelos animadores dos shows. Além de Vital do Rêgo, o são-joão em Campina Grande exalta o nome do senador Cícero Lucena (PSDB-PB), que apresentou emenda de R$ 300 mil, e do deputado Wellington Roberto (PR-PB), que conseguiu R$ 100 mil.

Mas não é somente na Paraíba que as disputas por espaço político em pleno são-joão aparecem. No Piauí, o deputado Marllos Sampaio (PMDB) conseguiu R$ 150 mil do Ministério do Turismo para a realização do 23º Festival Junino de Valença e cacifou seu espaço político na região.

No Rio Grande do Norte, quem tenta se capitalizar é o deputado Felipe Maia (DEM). Depois de conseguir R$ 100 mil em emendas para o são-joão de Portalegre, o parlamentar passou a ser citado pelos políticos locais como “o salvador” do evento, ameaçado por falta de dinheiro.

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Brasileiro é o que mais lê jornais por meio de tablets e smartphones Fonte: folha.uol.com.br 24/06

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DE NOVA YORK - O brasileiro lidera a leitura de jornais por aparelhos como tablets e smartphones, segundo um levantamento feito pela consultoria americana ComScore.

De acordo com a pesquisa, no Brasil, o tráfego de sites de conteúdo jornalístico por aparelhos que não são PCs é mais de duas vezes maior que a média geral de acesso a sites com esses dispositivos.

O segundo colocado da lista é o Chile, onde a visita a sites de notícia é mais que o dobro da média geral, segundo o levantamento, que analisou 13 mercados. Apenas na Índia o acesso a páginas de conteúdo noticioso é inferior à média.

O levantamento mostra que o iPad é o principal responsável pelo tráfego na internet no Brasil por meio de aparelhos que não são computadores, totalizando 31,8% do acesso. Em seguida, vem o iPhone, também da Apple, com 21%.

No caso do tablet, o país só fica atrás do Canadá, em que ele tem 33,5% do tráfego.

Os computadores pessoais, no entanto, continuam a ser a principal origem de acesso à internet para os brasileiros, com 98,1% do tráfego passando pelos PCs.

O número do país é idêntico ao da Alemanha e é inferior somente ao da Argentina, que tem 98,6% do tráfego nos PCs.

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CARLOS HEITOR CONY

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Memorial de inverno

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Envelhecer é porcaria. Um homem depois dos 50 é anti-higiênico. Por isso eu me mataria um dia Fonte: folha.uol.com.br 24/06

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NUNCA, APESAR do esforço que fizera para isso, conseguira se entender. E agora, sentado na primeira fila da classe executiva, em voo da Air France para Genebra, se entendia menos ainda. Tudo acontecera mais ou menos de repente, ouvira sem querer a informação de que na Suíça haviam legalizado o suicídio assistido, garantiam que era indolor e higiênico, nada parecido com a injeção letal que era usada em alguns Estados norte-americanos para execução dos condenados à morte.

Tomara todas as providências que seriam exigidas, pagara antecipadamente quase todas as despesas, entrava na reta final, o avião decolara do Galeão, sobrevoara um pequeno trecho da cidade e ele nem olhou para baixo, poderia significar um desejo de olhar para trás.

Lembrou o início de tudo: a noite em que fora dormir aos 50 anos e acordara com 80, sua idade real. Na véspera, encontrara um amigo pela última vez, Belmiro Medeiros, que morreria dois meses depois, numa espécie de suicídio não assistido: trancou-se em seu apartamento de Ipanema, decidiu não beber mais água, nem comer, evitava dormir, não chamou ninguém, ninguém soube de nada, tomou alguns comprimidos de Seconal e esperou que tudo se desligasse dentro dele, a vida e a miséria da vida.

No último encontro, ele perguntara ao amigo o que achava de tudo, dos livros que escrevera, da vida que levava. Com aquele diabólico senso crítico, Belmiro apenas dissera: "Você vai na onda..." Alguns poucos anos se passaram e ele dava razão ao amigo. Mas não queria mais ir na onda.

Ao chegar em casa, lembrou-se que Belmiro fora o primeiro leitor de seu primeiro livro, ainda em originais. Levava a sério o amigo, que ele considerava o homem mais inteligente que conhecera até então. E Belmiro, com aquele jeito de falar pouco e deixar tudo no vazio, apenas dissera: "É um livro profético para você!"

Sabia que nada mais podia extrair do amigo. Profético por quê? Nesse dia, teve coragem de apanhar na estante o único exemplar que lhe restara desse primeiro livro, que nunca mais lera, nem mesmo quando a editora fazia reedições e mandava provas para ele. Sua secretária fazia as correções de impressão, perguntava se desejava fazer alguma alteração. Não, não queria nada, que ela apenas corrigisse os erros tipográficos.

Mas naquela noite, tantos anos passados (tinha 28 anos quando o escrevera), quis saber por que Belmiro achara o livro profético. A história era banal, dois irmãos, um deles filho bastardo, que amam a mesma mulher, os encontros e desencontros entre os três personagens. Naquele tempo ele lia o autor que estava na onda, Jean-Paul Sartre, o existencialismo entrara em coma, mas ele se identificava mais ou menos com Mathieu, o homem que descobrira estar na "idade da razão".

Por que profético? Começou a ler o que nunca relera, a edição era boa, papel importado, tipos elegantes, capa berrante mas expressiva do amigo Fernando Pamplona.

Não chegou a reler tudo. Antes mesmo da metade do livro, encontrou dois momentos que davam razão a Belmiro:

"Tomei então uma resolução repentina: envelhecer é porcaria. Um homem depois dos 50 é anti-higiênico, começa a cheirar mal, a se decompor. A velhice não é apenas feia. É porcaria no duro. Por isso eu me mataria um dia, por higiene interior, como se fosse tomar um banho. Não iria feder diante dos outros e de mim mesmo, arrastar pelas ruas e pelos caminhos um corpo a se liquefazer em lama, a enojar outros, exibindo os vermes que me comiam por dentro. Os médicos dariam nomes latinos aos vermes, mas todo mundo saberia que eram simplesmente vermes."

E mais adiante: "Já confundia as coisas que não eram mais como nunca ter sido. Nada de morrer como os comerciantes falidos e os amantes traídos. Morrer por conta própria não aporrinha ninguém. Nem os padres para as bênçãos, nem os amigos para as missas de sétimo dia". E ele só tinha 28 anos quando escrevera isso.

Nunca é tarde para um instante de lucidez. A comissária de bordo, uma francesa com cara de Michèle Morgan, lhe oferece uma taça de "Veuve Clicquot". Ele agradece e pergunta como está o tempo em Genebra.

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A crise do palhaço

Ator e diretor ao mesmo tempo, Selton Mello quer casar popular e profundo em comédia lírica Fonte: folha.uol.com.br 24/06

Selton Mello tem 38 anos. Mas, se funcionário padrão fosse, já poderia pedir a aposentadoria por tempo de serviço. "Tenho 30 anos de carreira", contabiliza, sorrindo.

"Nisso, sou meio parecido com os palhaços, que crescem no picadeiro, que se sucedem de geração em geração", diz o ator. "Comecei a ser ator muito pequeno... Era mágico. Adorava ver aquelas câmeras, aquela gente..."

Não é preciso ser psicanalista para perceber que, por trás do nariz vermelho de Benjamin, protagonista de "O Palhaço", esconde-se a face íntima de Selton, aquela que a maquiagem disfarça.

O filme, que será exibido pela primeira vez no Festival de Paulínia, em julho, mergulha no universo circense em busca de uma resposta: o que significa, na essência, ser um artista?

DUAS FACES

Em seu segundo longa como diretor, Selton parece ter unido as duas versões de sua carreira: a cômica e a densa.

É como se, depois de uma década, os personagens de "O Auto da Compadecida" e "Lavoura Arcaica" se reencontrassem, amalgamados.

"Não pensei nisso, mas o circo tem uma mistura de sentimentos, é melancólico, mas divertido...", reflete.

"O filme fala sobre identidade, e este é um momento feliz para mim", diz. "O filme tem essa calma, essa delicadeza. O personagem está em crise, mas o filme homenageia o lado bendito da vida."

Nesse sentido, "O Palhaço" é o oposto de "Feliz Natal", sua estreia na direção. Hoje, Selton define o primeiro filme como um grito. "Era como se eu quisesse dizer: "Também sou isto aqui!" Foi o início de uma nova fase."

Essa novidade contempla, cada vez mais, a direção. Além dos dois longas, Selton dirigiu um episódio da série "A Mulher Invisível" e o talk-show "Tarja Preta".

Seu desejo, com "O Palhaço", "comédia lírica" que estreia em outubro, é fazer algo popular e profundo.

"Não me conformo que, para fazer sucesso, um filme tenha que abrir mão de camadas mais sensíveis."

NA ESTRADA

Antes de construir seu picadeiro, Selton pegou a estrada atrás de circos e histórias. O primeiro palhaço que conheceu, em 2009, foi Biribinha, de Maceió. O que deu nome ao personagem do filme foi Benjamin de Oliveira (1870-1954), ex-escravo que fugiu para seguir um circo.

Antes de tomar para si o papel, ofereceu-o a Wagner Moura e Rodrigo Santoro. Os dois tinham problemas de agenda. E os dois perguntaram: "Por que você não faz?".

Selton achou boa a ideia e chamou, para ser seu pai, também palhaço, Paulo José. "Pra mim, era uma alegria ver o Paulo, o Macunaíma [do filme de Joaquim Pedro de Andrade], ali comigo."

Como em "Feliz Natal", ele se esmerou no elenco. Estão em cena, por exemplo, Teuda Bara, do Grupo Galpão, e o cantor Moacyr Franco.

Selton se prepara, agora, para colocar no mundo seu palhaço. "É um momento novo o de falar sobre o filme. Mas vai ser bom fazer isso. Vou ter muito prazer em apresentar o meu palhaço."

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Regressão e primavera democrática

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CANDIDO MENDES

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Com a tentativa de derrubada das monarquias, expõe-se o Oriente Médio à reaparição de rivalidades clânicas, por conta da rejeição ao autoritarismo Fonte: folha.uol.com.br 24/06

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Realizou-se recentemente, patrocinada pela Academia da Latinidade, no seu 23º seminário, em Barcelona, a discussão de todo o impacto das atuais revoluções democráticas no mundo árabe, bem como do avanço da radicalidade republicana nos Estados Unidos e das novas restrições migratórias, justamente contra essa mesma cultura islâmica.

O que inquieta é a queda da garantia do pluralismo, ou dos dois lados do cenário, nessa configuração do novo mundo global.

O imperativo da democracia confronta os seus ditos universais, por todos os atores da contemporaneidade no próprio imo dos regimes ocidentais. Angela Merkel rejeitou o pluralismo na Alemanha, precedendo as declarações de Cameron, no último G20, ao defender uma imigração "boa", em crescente restrição dos fluxos árabes.

O Ocidente passa, hoje, a uma linha defensiva, em que regimes da liberdade confrontam um sistema de exclusão social, de repto ao completo reconhecimento do outro, implicado pela plena cidadania, na esteira das conquistas dos direitos humanos pela modernidade.

A explosão do mundo árabe evidencia essa irrupção de um inconsciente coletivo, atingido, ainda, no fundo das culturas, pelo peso do histórico secular da dominação.

Emerge, hoje, diante do autoritarismo dos governos, nascidos das independências, com a volta histórica de que a ruptura com os regimes coloniais se teria tornado um símbolo interrompido.

A sublevação tunisiana, no âmago da cultura mais ocidentalizada da bacia mediterrânea, demonstra os impasses da contradição, nascida de uma verdadeira, ainda que tardia, tomada de consciência. Deu a partida a enlace mimético, diante do espaço, dos vários níveis sobre larga variedade de cenários.

Alastrou-se a maratona das ruas no Cairo, em Benghazi ou em Manama, sem nenhuma liderança ostensiva, sem qualquer marca de uma interveniência nem de um efetivo projeto de mudança.

Defrontaríamos esse abalo profundo atingindo toda a mecânica estabilizadora dos sistemas autoritários pós-independência do Oriente Médio. Expõe-se a área, pela rejeição primária e radical do autoritarismo, à reaparição de rivalidades clânicas, com a tentativa de derrubada das monarquias, num claro confronto com a maioria religiosa de tais países.

As mobilizações e o imperativo de autenticidade histórico, brotados pela primavera árabe, podem pagar o seu preço sobre a efetiva nova ordem internacional. Só se começa a entrever o perigo de um Ocidente antiárabe fundado numa globalização de denominadores sociais predeterminados.

É o que só faz levantar a interrogação de se tais segregações refletem o traumatismo da catástrofe no 11 de Setembro ou se enfrentamos, de vez, um novo malthusianismo econômico-social nesse mercado, numa prosperidade cada vez mais concentrada e exclusivista do velho mundo europeu.

CANDIDO MENDES, membro da Academia Brasileira de Letras e da Comissão de Justiça e Paz, é presidente do "Senior Board" do Conselho Internacional de Ciências Sociais da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e secretário-geral da Academia da Latinidade.

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ELIANE CANTANHÊDE

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Saindo das cordas Fonte: folha.uol.com.br 24/06

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BRASÍLIA - Parece sina: Dilma vive enroscada com a antipática palavra "sigilo". Primeiro, o sigilo dos negócios do homem forte de seu governo, depois o sigilo eterno dos documentos oficiais, enfim o sigilo nos contratos de obras para a Copa e para a Olimpíada.

Presidentes, porém, têm caneta, recursos e "Diário Oficial". E Dilma aprendeu com o padrinho que é melhor isolar as crises políticas como assunto de minorias e ir tocando o barco, ou melhor, os governos.

Por isso, Dilma foca as faixas de baixa renda, que nem sabem quem é esse tal de Palocci, e as classes médias, que, se ouviram falar em Palocci, Código Florestal e sigilos, não deram tanta bola assim. O importante é o que bate no bolso.

No setor de telecomunicações, Dilma vai anunciar na próxima semana telefone fixo a R$ 9,50 (sem o ICMS) para a baixa, baixa, baixa renda, telefones individuais e orelhões para a área rural e banda larga a R$ 35. Só coisa boa.

No de atendimento médico, a ANS (Agência Nacional de Saúde) deu um chega pra lá nos planos de saúde, definindo prazos para consultas, que eram a perder de vista.

No de educação, a presidente anunciou 75 mil bolsas de estudo para alunos de graduação e de pós-graduação e entregou, toda sorridente, medalhas para campeões da olimpíada de matemática.

No de moradias, a União doou 200 mil m2 em terrenos para projetos de interesse público em Minas Gerais e no Paraná, a maior parte para casas populares.

Então, que Palocci que nada! Crise com a base aliada, o que é isso? Documentos sigilosos, eu, hein?!

É assim que Dilma vai deixando o episódio Palocci para trás, contando com Lula para controlar o PT, jogando as negociações políticas para Ideli Salvatti e se reservando para dar boas notícias a quem interessa de fato -e dá retorno.

Agora, é torcer para não haver outros casos Palocci voando por aí. Senão começa tudo de novo.

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Prosa de rainha

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Autora de eu só quero um xodó, a forrozeira Anastácia conta em livro biográfico a trajetória pessoal e a convivência no meio musical nordestino Fonte: correioweb.com.br 24/06

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No Brasil inteiro ela é conhecida como Anastácia, forrozeira, parceira de Dominguinhos na composição da clássica Eu só quero um xodó. Mas, antes de ganhar esse nome, era Lucinete Ferreira, pernambucana que, ainda jovem, trocou Recife por São Paulo à procura de melhores oportunidades como artista — levando a tiracolo a mãe viúva e os irmãos pequenos.

Quem a rebatizou de Anastácia a sua revelia foi Palmeira, produtor do primeiro LP, Anastácia no forró, lançado em 1961. Ele achou que Lucinete não era nome de artista. A inspiração veio do filme Anastácia, a princesa da Rússia, protagonizado por Ingrid Bergman. Passado o susto de ver o disco pronto com o nome de “outra”, ela bem que concordou.

Essa história toda, de como Lucinete trocou Recife por São Paulo, virou Anastácia e se tornou compositora conhecida nacionalmente, é mais bem contada no recém-lançado livro Eu sou Anastácia — Histórias de uma rainha, narrado em primeira pessoa, com o auxílio da historiadora Lêda Dias, gerente do Memorial Luiz Gonzaga, em Exu. “A ideia inicial de biografia evoluiu para uma autobiografia, o que se justifica pela eloquência do discurso de Anastácia e pela quantidade imensa de informações que ela é capaz de trazer enquanto pinta um quadro verbal” , explica Lêda. ”Gostaria de que as pessoas lessem o livro como se estivessem conversando com Anastácia, tomando um cafezinho na mesa da cozinha; que tivessem o prazer que eu tive de ouvi-la”, acrescenta a coautora.

Realmente, Anastácia não é só uma exímia contadora de histórias como sabe temperar com humor até mesmo os episódios mais dolorosos de sua trajetória. Humor que ela leva para a vida. Isso é imediatamente percebido por quem se aproxima da artista, que, aos 71 anos, mantém-se em plena atividade — com o livro, está lançando mais um álbum, Amor entre quatro paredes, de produção independente. Ela também demonstra uma energia surpreendente para a idade. A força física, mantém por meio da alimentação vegetariana, que adotou muito antes disso virar moda. A força espiritual, busca no espiritismo kardecista, doutrina que ela descobriu também nos primeiros anos em São Paulo.

Dona de memória prodigiosa, Anastácia começa a narrar sua história a partir de uma época em que nem era nascida, quando a mãe dela, ainda adolescente, viu-se sozinha no mundo depois da morte trágica da mãe e do sumiço do pai. Conta reproduzindo diálogos e com um coloquialismo que lembra um boa conversa na mesa da cozinha, regada a café, como queria Lêda Dias. Nesse ritmo, ela rememora, entre outras coisas, os anos que atuou como cantora na Rádio Jornal do Commércio e de quando chegou “de mala e cuia na terra da garoa”. “Acho que quando vim pra São Paulo, vim porque me empurraram! Nunca achei que fosse um grande talento. Eu tinha jeito pra cantar, comecei cantando e deu certo. Mas nunca me achei uma boa cantora”, confessa.

Gente do forró

Na narrativa, passam personagens conhecidos como Venâncio (da dupla Venâncio e Corumba) — com quem Anastácia se casou pela primeira vez e teve duas filhas —, Cláudia Barroso, Waldick Soriano, Ângela Maria, Marinês… Mas duas pessoas merecem capítulos especiais nessa história: Luiz Gonzaga e Dominguinhos. O primeiro, uma grande influência artística; o segundo, o homem que se tornaria parceiro amoroso e musical da cantora. “Nunca amei verdadeiramente ninguém a não ser Dominguinhos. E isso quero dizer: ele realmente foi o grande amor de minha vida”, assume. Da relação de quase 12 anos, não ficaram filhos… “Quer dizer, não tivemos filhos carnais, mas tivemos mais de 200 criações que me sustentam até hoje”, diz Anastácia, referindo-se à grande quantidade de músicas que compuseram juntos — entre as quais se destacam Eu só quero um xodó e Tenho sede, que ganharam grande repercussão depois de serem gravadas por Gilberto Gil.

A aproximação com Dominguinhos se deu por meio de Luiz Gonzaga. A cantora e o sanfoneiro só se conheciam de vista, até que Gonzagão convidou os dois para compor o grupo que o acompanhava pelo Brasil. “Ficamos quase três meses viajando. Fomos da Bahia a Fortaleza. Gonzaga arranjava os shows e era a atração principal.

Eu abria as apresentações e Domiguinhos me acompanhava”, lembra a artista, que já estava de olho no sanfoneiro.

A aproximação foi inevitável. Essas viagens também foram responsáveis por reafirmar em Anastácia suas raízes nordestinas. “Vivo em São Paulo há 50 anos, já podia ter perdido a referência, mas não perco de jeito nenhum! Toda a minha história de vida vem na minha cabeça, eu vejo tudo!”, diz. E ainda bem que ela guardou muito bem na memória para nos contar.

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FESTA POPULAR

Ilha de são-joão

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São Luís do Maranhão abriga as tradições juninas e espalha a alegria da festa do boi Fonte: correioweb.com.br 24/06

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Uma variedade de cores, ritmos e sabores. Essas são algumas das características que fazem parte da maior festa popular do Maranhão: o são-joão. A preparação para as apresentações dos grupos de bumba bois começa ainda no mês de maio e segue até 30 de junho, Dia de São Marçal, quando ocorre o tradicional Encontro dos Bois, no bairro do João Paulo. Mas é no decorrer do mês que a alegria reina nos arraiais espalhados pelos quatro cantos da cidade, também conhecida como a Ilha do Amor. São mais de duas mil apresentações de 543 grupos juninos durante a temporada junina de 2011. Ao todo, 86 grupos de bumba-meu-boi de orquestra, 48 sotaques da baixada, 47 de matraca, 70 grupos de tambores de crioula e 64 de dança portuguesa se revezam pelos arraiais da Ilha, ao lado de outras danças populares que integram a programação.

No Centro Histórico de São Luís, becos e praças se transformaram em palco. No canto da cultura, as batidas do tambor de crioula e grupos de bumba bois apresentam-se entre os casarões que deram à cidade o título de Patrimônio Cultural da Humanidade. Em frente à Casa do Maranhão, a noite é marcada por shows, revezamento de quadrilhas e outras brincadeiras.

No Centro de Comercialização de Produtos Artesanais do Maranhão (Ceprama), as noites também são marcadas por sons das orquestras, matracas e pandeirões dos grupos de bumba bois. No Parque Folclórico da Vila Palmeira, bairro localizado fora da área central da cidade, famílias prestigiam a cultura maranhense e registram cada momento com fotos das crianças aproveitando a bonita decoração do local. “Eu moro aqui atrás e trouxe as crianças para se divertirem porque é tudo muito seguro. Estou achando tudo organizado”, declarou a moradora Lucilene Arroucha.

Outra opção para quem vem ao Maranhão é conhecer o arraial da Praça Maria Aragão, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer. No local, além de saborear as comidas típicas, como arroz de cuxá, peixe frito, vatapá e pratos feitos à base de frutos do mar, pode-se assistir a apresentação de shows e brincadeiras e arriscar uma dança no Barracão do Forró. A mesma empolgação ocorre no arraial da Lagoa, localizado em dos mais belos cartões-postais de São Luís.

Pelo local passam as principais brincadeiras do Estado que atrai todas as noites uma multidão. Os grupos se apresentarão nos arraiais das Praças Nauro Machado e Saudade, e nos bairros Anjo da Guarda, de Fátima, Cidade Operária, João Paulo, Liberdade, Vila Embratel. Para informar melhor a população e o turista que chega a São Luís, a Secretaria de Estado da Cultura disponibiliza toda programação nos arraiais da cidade. O roteiro também pode ser conferido no site da Secma (www.cultura.ma.gov.br) e no portal do Governo do Estado (www.ma.gov.br/saojoaodomaranhao).

O dia do santo

De acordo com a Ester Sá Marques, pesquisadora e professora do curso de comunicação social da Universidade Federal do Maranhão, os festejos juninos coincidem exatamente com o fim da colheita em Portugal. Lá, é o momento em que as pessoas estão com mais dinheiro no bolso, podem comprar mais roupa, alimentar-se melhor no período relacionado ao solstício europeu. “Do ponto de vista da igreja católica, o 24 de junho foi adotado como dia de São João por conta do solstício de verão que acontece nesta mesma data. É o dia mais longo do ano. Por volta das 23h, o sol ainda está brilhando. A data é considerada um dia especial”, explica a pesquisadora.

Ester Sá Marques ressaltou ainda que a devoção a São João produziu uma festa pagã. Somente após o catolicismo ter se tornado a religião oficial do Império Romano, é que a data foi adotada como o dia de João. Ester Sá Marques explicou que isto aconteceu devido a conversão do imperador ao cristianismo, por meio do batismo do Papa Gregório I (590-604), responsável pela transformação do calendário romano em calendário cristão, ligando a cada dia um santo. Presume-se que São João teria nascido no solstício de verão, por conta disso São Joãzo ficou com o dia 24 de junho. Tornando-se, São João Batista, o protetor do boi. Por conta de todo esse sincretismo religioso que envolve o bumba meu boi do Maranhão, acaba transformando a manifestação cultural em uma das mais belas e envolventes do país.

A rua é o palco

2000 apresentações

543 grupos juninos

86 grupos de bumba-meu-boi de orquestra

48 grupos de sotaque da baixada

47 de grupos de sotaque de matraca

70 grupos de tambores de crioula

64 danças portuguesas, além de outras danças populares

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