segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Primeiro livro de história da arte sai em português. "Vidas dos Artistas" reúne trajetória e técnicas de produção de pintores FSP 30.10

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"O contorno das pernas é belíssimo, enquanto os flancos esbeltos têm inserções divinas; nem se viu jamais pose tão suave e graciosa que se lhe equipare."

A descrição um tanto apaixonada não faz parte de um romance: é como Giorgio Vasari (1511-1574) apresenta o famoso Davi, de Michelangelo, esculpido entre 1501 e 1504.

Seu livro "Vidas dos Artistas", publicado em 1550, lançado, agora, na íntegra, pela primeira vez no Brasil, e mesmo em língua portuguesa, foi o primeiro grande compêndio sobre os artistas do Renascimento, num misto de relato biográfico e considerações pessoais.

Muito do que se sabe sobre Leonardo da Vinci (1452-1519) e sobre o próprio Michelangelo (1475-1564), de quem Vasari era amigo, é conhecido por conta de sua narrativa preciosista e empolgada.

A primeira parte do livro aborda as diferentes técnicas de produção da arquitetura, escultura e pintura da época e a vida de mais de cem artistas, divididos em três fases.

Na primeira fase dos relatos biográficos, que tem início com Giovanni Cimabue, Vasari fala de artistas que começaram a imitar os antigos.

Na segunda, o autor trata dos que inventaram o uso da perspectiva, como Botticelli e Andrea Mantegna.

Finalmente, na terceira fase, ele aborda de Da Vinci até Michelangelo, porque depois dele, deixa claro, nada restava a um imitador fazer.

A narrativa, recheada de adjetivos, nem de longe coloca dúvidas sobre a pesquisa minuciosa para a publicação de 500 anos. Sobre "A Última Ceia", de Da Vinci, o afresco na parede de um convento em Milão, apontada como uma das obras seminais do Renascimento, o autor chega a relatar detalhes de bastidor:

"A nobreza da pintura [...] provocou no rei da França o desejo de levá-la ao reino, coisa que ele tentou por todos os meios, pensando em recorrer a arquitetos que com vigas de madeira e ferros a sustentassem de tal maneira que ela pudesse ser levada incólume". O esforço, conclui, foi em vão.

Vasari foi também pintor e arquiteto, mas o que de fato o fez fundamental foi ter iniciado uma narrativa tão bem articulada a ponto de ser tido como pai da história da arte.

VIDAS DOS ARTISTAS

AUTORA Giorgio Vasari

EDITORA WMF Martins Fontes

TRADUÇÃO Ivone Castilho Bennedetti

QUANTO R$ 125 (856 págs.)

AVALIAÇÃO ótimo

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O sentimento do mundo. Dia D, em homenagem a Carlos Drummond de Andrade, se espalha pelo país. Em Brasília haverá pocket shows e recitais de poesia. CORREIO BSB 31.10

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Há 109 anos, Carlos Drummond de Andrade nascia na pequena Itabira, cidade mineira de noites brancas e ferro nas calçadas, que um dia viraria um doloroso retrato da saudade dependurado em sua parede. A nostalgia do poeta é experimentada pela legião de leitores que até hoje reverenciam sua vasta produção literária, composta de poesia, prosa, crônicas e contos. Homenagens ao poeta ocorrerão em vários pontos do país. Para celebrar o aniversário desse gênio que lutou toda a vida com as palavras, o Sebinho, localizado na CLN 406, decidiu dedicar dois dias (hoje e amanhã) de programação especial a ele. Batizada de Dia D, a celebração contará com pocket shows, recitais de poesia, exibição de filme e até um cardápio recheado de quitutes típicos de seu estado natal.

A programação começa às 18h, com Hugo Lacerda e a pianista Jéssica Macoratti comandando um pocket show que mistura músicas (Eu te amo, de Chico Buarque, e Praias desertas, de Tom Jobim, por exemplo) com poemas como Amar e O amor bate na aorta, de autoria do itabirano. Em seguida, tem início uma roda de conversa sobre a poesia de Drummond, mediada por Luiz Carreira e Alexandre Pilati, ambos do Departamento de Literatura da Universidade de Brasília (UnB).

Pilati lançou o livro Nação Drummondiana, sobre a presença do Brasil na obra do mestre. “Sua grande contribuição é ver o Brasil e escrevê-lo a partir de um prisma fortemente crítico. Não uma crítica fácil, mas algo que envolve as forças vigorosas da dinâmica brasileira, e que parecem não passar. Ele enfrenta essas questões por dentro”, avalia ele. Para encerrar a noite, que ainda terá iguarias como costelinha de porco, tutu de feijão, couve, pães de queijo e café saindo da cozinha a todo momento, o poeta Hézio Teixeira fará a declamação de poemas clássicos, como Confidência do Itabirano e José. Amanhã, o tributo continua, no mesmo horário, com a leitura de poemas e exibição de filme.

Camisetas

A loja estará repleta de murais e livros do poeta. Uma coleção de camisetas, de autoria da artista plástica Michelle Cunha (com uma caricatura de Drummond e trecho do poema Sentimento do mundo), também estará à venda no local. Para completar os mimos, os funcionários da loja desenvolveram uma linha de guardanapos com poemas e desenhos, feitos à mão. “Fizemos o Bloomsday, em homenagem ao James Joyce, e pensamos em fazer o mesmo para celebrar os escritores brasileiros”, destaca a proprietária do Sebinho, Cida Caldas, que pretende incluir a comemoração “drummondiana” no calendário cultural de Brasília.

A cidade não é a única a se curvar diante da saudade do poeta. Até mesmo os representantes máximos da literatura nacional se voltam hoje para o que sua pena produziu. Às 15h30, a Academia Brasileira de Letras (ABL) fará uma sessão especial, com a leitura de poemas, interpretados pelos acadêmicos Ivan Junqueira, Antonio Carlos Secchin e José Murilo de Carvalho. “Ninguém imaginava que aquela poesia poderia ser escrita. Drummond tinha uma capacidade de tornar lírico todo o cotidiano. Ele também mergulhou na vida política, era reflexivo, um grande pensador. Não à toa foi considerado o poeta maior”, destaca o jornalista, poeta e crítico literário Ivan Junqueira, que lerá o poema O caso do vestido durante a sessão na ABL, no Rio de Janeiro.

Tributos em várias cidades

O Rio, cidade que abrigou o poeta por mais de cinco décadas, também preparou suas homenagens. Além da leitura na ABL, o Instituto Moreira Salles, na Gávea, preparou seu Dia D. O projeto tem a curadoria de Eucanaã Ferraz e Flávio Moura, e inclui a participação de diversos famosos e anônimos lendo poesias de Drummond. Na capital fluminense, livrarias, escolas e universidades também prestarão loas à lírica de Drummond. Os tributos se espalham ainda por São Paulo, Belo Horizonte, Itabira (MG)

e Paraty (RJ).

Poemas

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais

de mim.

Memória

Amar o perdido

deixa confundido

este coração.

Nada pode o olvido

contra o sem sentido

apelo do não.

As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis

à palma da mão

Mas as coisas findas

muito mais que lindas,

essas ficarão.

Três perguntas // Armando Freitas Filho

Severino francisco

O carioca Armando Freitas

Filho, considerado um dos maiores poetas brasileiros vivos, começou a ler Carlos Drummond aos 15 anos e nunca mais parou. Ele classifica a poesia de Drummond como a sua segunda pele e fala sobre a perenidade da poesia do vate mineiro.

Podemos falar de Carlos Drummond

à queima-roupa?

É sempre melhor falar dele à queima-roupa. Drummond é a minha segunda pele. Quando eu tinha 15 anos, ganhei um disco do meu pai em que no lado A havia Manuel Bandeira recitando os poemas dele e, no lado B Carlos Drummond. Bandeira era considerado o grande poeta, que de fato era, e Drummond, um poeta encrencado. Acho que a grande façanha intelectual de minha vida foi ter passado do lado A para o lado B. Nunca terminei, ler Drummond é uma tarefa infinita. Agora mesmo, estou escrevendo um texto e preciso consultar Drummond nas minhas estantes caóticas.

O que considera mais espantoso

em Drummond?

O fato de que ele é um poeta multifacetado. O texto que abre o seu primeiro livro chama-se Poema de sete faces. Mas ele foi modesto, pois tem muitas mais faces e interfaces. Há um verso dele que expressa muito bem essa condição: ‘De todos os prismas de uma joia/Quantos há que não presumo?!’ Representa não apenas as multifaces de sua poesia como também de sua personalidade humana, que era interessantíssima. Sou um dos poucos que o conheceram e ainda está vivo.

Como vê o confronto da poesia

dele com o nosso mundo

pós-moderno?

Acho que a poesia dele se sai muito bem no confronto porque foi escrita para sempre. Ilumina o que é mais cotidiano e menos excepcional. Você lê um poema como A bomba e parece que foi escrito hoje.

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DRUMMOND. Debates, filmes e saraus lembram poeta

O Instituto Moreira Sales (IMS) promove hoje, em Rio, SP, BH, Brasília e outros localidades, mesas-redondas, debates, saraus e exibições de filmes em torno de Carlos Drummond de Andrade. A ideia é transformar o 31/10 num Dia D anual de tributo ao poeta. Programação em diadrummond.com.br. FSP 31.10

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LITERATURA. Marcelo Mirisola lança romance hoje

O escritor paulistano Marcelo Mirisola retoma a fusão de ficção e biografia em seu novo livro, o romance "Charque", da editora Barcarolla. O lançamento acontece hoje, a partir das 19h, na Mercearia São Pedro (r. Rodésia, 34, Vila Madalena, São Paulo, tel. 0/xx/11/3815-7200). FSP 31.10

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LUIZ FELIPE PONDÉ. Disneylândia de Jesus. Logo teremos em Jerusalém Judas-Patetas, Tio Pôncio-Patinhas e, para completar, Mickey-Jesus-Mouse FSP 31.10

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O mundo acabou. Não viaje. Assista a filmes em casa ou vá para cidades sem graça do interior. O mundo foi tomado por um tipo de praga que não tem solução: os gafanhotos do sucesso da indústria do turismo.

O horror começa nos aeroportos, que, graças ao terrorismo fundamentalista islâmico, ficaram ainda piores com seus sistemas de segurança infernais. Esse mesmo terrorismo fundamentalista que faz as "cheerleaders" dos movimentos sociais sentirem "frisson" de prazer na espinha.

Uma grande figura do mercado de análise de comportamento me disse recentemente que, em poucos anos, só os pobres (de espírito?) viajarão.

Tenho mais certeza disso do que da aritmética de 2 + 2 = 4. Aeroportos serão o último lugar onde você vai querer ser visto. Gostar de viajar hoje pode ser um forte indício de que você não tem muita imaginação ou opção na vida.

Veja, por exemplo, o que aconteceu com os lugares sagrados de Jerusalém. Aquilo virou uma Disneylândia de Jesus. Imagino que, dentro de alguns anos, teremos atores fracassados do Terceiro Mundo vestidos de Judas-Patetas, Maria-Branca de Neve, Tio Pôncio-Patinhas, Pedro-Duck e, é claro, Mickey-Jesus-Mouse.

Locais religiosos sempre atraíram todo tipo de histeria. A proximidade com ela pode fazer você duvidar da existência de Deus.

Ateus são fichinha em comparação à histeria religiosa como argumento contra a viabilidade de um Deus bom e generoso. Nesse caso, a náusea faz de você um ateu.

Às vezes, tristemente, a diferença entre visitas belas a locais sagrados parece ser apenas o número maior ou menor de nossos semelhantes crentes em Deus.

Ou, dito de outra forma, o inferno é um lugar onde tem muita gente em surto místico.

Jesus deve ter uma paciência de Jó, com seus fiéis cheios de máquinas digitais e filmadoras chinesas querendo devassar a intimidade de sua mãe e de seus discípulos mortos já há tantos séculos.

Aliás, estou seguro de que, em breve, Jesus será "made in China", "at last". Se assim acontecer, terão razão aqueles que afirmavam ter sido ele um Messias "fake"?

Pessoalmente, torço para que Jesus sobreviva a essa "nova paixão", por obra da qual ressuscitar deverá ser algo como um show de efeitos especiais feitos por computação gráfica barata. Os fiéis pós-modernos deram um novo significado à expressão nietzschiana "Deus está morto". Nesse caso, Deus virou batata chips de free shop.

No início dos anos 90, ainda era possível ir à catedral de Córdoba, na Espanha, e experimentar sua beleza moura. Já em meados dos anos 2000, ela era um terreno baldio para as invasões de gafanhotos.

Hoje, estive (escrevo dias antes de você ler esta coluna) na igreja da Agonia, em Jerusalém, conhecida também como igreja de Gethsêmani, local onde Jesus teria suado sangue antes de ser preso. Um belíssimo local.

Em seguida, alguns passos descendo a ladeira do monte das Oliveiras (onde fica Gethsêmani), fui a outro local, maravilhoso, que não vou dizer qual é porque espero que ninguém fique sabendo; assim, quem sabe, esse lugar ainda durará algum tempo antes de virar mais um Hopi Hari de Jesus com seu ruído de famílias de classe média em excursões místicas.

É importante dizer que já fui a esses locais inúmeras vezes e que, portanto, tive o desprazer de ver Jerusalém virar uma cidade devastada pela horda de tarados com máquinas digitais e filmadoras chinesas. Além de suas camisetas com slogans pela paz mundial.

Depois da destruição de Jerusalém pelos romanos por volta do ano 70 d.C., vemos agora a infestação da cidade santa pelos histéricos pentecostais e seus berros em nome do Espírito Santo.

Além, é claro, dos judeus ortodoxos obsessivos mal-educados e dos muçulmanos fanáticos com seu grito bárbaro "Allah Akbar" (Deus é grande). A população secular de Jerusalém é cada vez mais oprimida pelos homens de preto da ortodoxia judaica.

Alguns desses são mesmo contra o Estado de Israel, porque só o Messias pode reconstruir o "verdadeiro Estado judeu". Acho que deveriam ser todos despachados para o Irã. Enfim, um filme de horror estrelado por fanáticos, batatas e patetas.

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