terça-feira, 7 de setembro de 2010

Os marginalizados da filosofia

Opopular.com.br 07/09

Michel Onfray destaca a obra de pensadores do Século das Luzes que ficaram à Margem da historiografia oficial

O leitor brasileiro já pode contar com a tradução do terceiro volume da Contra-história da Filosofia, de Michel Onfray. Para quem já havia lido os anteriores, a sua metodologia não é nova, como já insinua o título, trata-se de um trabalho de resgate daqueles pensadores que ficaram às margens da historiografia oficial. É assim que podemos entender o subtítulo dessa edição: "libertinos barrocos". Logo, nas linhas dessa "nova história", podem ganhar cidadania filósofos exilados e malvistos pela tradição como Charron e sua "volúpia ardente", Le Vayer e o "gozo de si mesmo", Saint-Évremond e o "amor à volúpia", Gassendi e o seu "epicurismo renovado", Cyrano de Bergerac e o seu "viver livremente", assim como Espinosa e sua "beatitude". Com estes personagens, até então encobertos pelas sombras dos cartesianos, a intenção é traçar o que se considera uma "história da genealogia do pensamento crítico do século das Luzes".

Conforme o autor, a imagem que temos desse século e sua grandeza deve-se, em sua gênese, àquilo que nos foi pintado por Voltaire, havendo nisso o ensejo de denunciar a pequenez de Luís XV. A imagem que a história nos legou tem um "culpado", ela se deve a uma "pequena causa pessoal", somando-se ainda a dificuldade que se tem em lidar com os "libertinos" de uma época, expressão que Onfray procura purificar a partir de suas raízes etimológicas.

Diferentemente do que viria a ser considerado após Calvino, "libertinus" indicava, em Roma, alguém "emancipado". Logo, os "libertinos" barrocos seriam aqueles que, dentre outros aspectos, "leem Montaigne", "recorrem a um método cético", "efetuam dissociações de ideias", "reivindicam uma liberdade filosófica total", "criam uma razão moderna", "generalizam o modelo científico", "reativam as sabedorias antigas", "propõem uma sabedoria existencial", "reabilitam a moral imanente epicurista", "buscam seus modelos na Natureza", "tratam o corpo como cúmplice", "desenvolvem uma ética do Bem e do Mal", "cultuam o fideísmo", "criam a laicidade". Em suma, como finaliza o livro, preparam aquilo que, no século 18, seria o "crepúsculo de Deus".

LimboFrente a tal percurso, é clara a contribuição do autor e ensejo de "novidade" em trazer à luz filósofos que, em muitas histórias, costumam habitar o limbo do esquecimento, mesmo que, caso prestemos atenção, encontremos, em diversos momentos do texto, um sotaque que muito nos lembra Deleuze. Isso não lhe tira, certamente, o mérito, afinal, a proposta não é encontrar, na "dobra barroca", o jogo "da luz no escuro"? Todavia, considerando inquestionável a importância de seus "libertinos", cabe-nos uma pergunta bem simples: que tipo de história nos propõe Onfray? O que fundamenta a sua "genealogia" ou, conforme dirá, a sua "história da genealogia"? A negação de Deus e o resgate do epicurismo seriam condições suficientes e necessárias para ser um "pensador emancipado"?

Primeiramente, uma "história da genealogia do pensamento crítico" deveria ser antes uma apresentação dos diversos modos pelos quais o "pensamento crítico" encontra sua gênese em uma determinada época. Caso isso tenha sentido, não é o que encontramos. Não nos foi explicitado algo fundamental: "o que é um pensamento crítico?". A não ser que caiamos nas redes de um pensamento puramente "militante", sabemos que ser crítico vai além da rejeição explícita de um determinado sistema. Onfray se esquece que é possível também ao filósofo "o respeito desrespeitoso", o mesmo que levara Sócrates a colocar seus juízes na condição de réus.

"genealogia" ou, conforme dirá, a sua "história da genealogia"? A negação de Deus e o resgate do epicurismo seriam condições suficientes e necessárias para ser um "pensador emancipado"?

Primeiramente, uma "história da genealogia do pensamento crítico" deveria ser antes uma apresentação dos diversos modos pelos quais o "pensamento crítico" encontra sua gênese em uma determinada época. Caso isso tenha sentido, não é o que encontramos. Não nos foi explicitado algo fundamental: "o que é um pensamento crítico?". A não ser que caiamos nas redes de um pensamento puramente "militante", sabemos que ser crítico vai além da rejeição explícita de um determinado sistema. Onfray se esquece que é possível também ao filósofo "o respeito desrespeitoso", o mesmo que levara Sócrates a colocar seus juízes na condição de réus.

Além disso, desde Hegel e Marx, sabemos que não há história sem dialética, que não há senhor sem escravo, sendo o contrário também verdadeiro. A história não marcha segundo as leis da física newtoniana, presa aos turbilhões da causalidade. Há antes uma ambiguidade que lhe é inerente, e não a disputa maniqueísta entre o bem e o mal.

Acima ou abaixo das rivalidades de Voltaire com Luís XV, encontramos a impossibilidade de uma narrativa universal, aquela que pretensamente poderia ser feita sem escolhas, sem um solo. Nisto talvez haja um mérito em Onfray, a pergunta por que seria o século 18 considerado grande, e por que, em algumas histórias, alguns são esquecidos. Contudo, não será nos esquecendo de que uma época não se resume em um único horizonte, nem muito menos de que não existe a História, mas histórias, que encontraremos a resposta.

À contra-história proposta por Onfray, tenha faltado talvez uma crítica da crítica ou mesmo uma história da história, entendendo por isso mais do que um jogo de palavras. Se o conceito de Deus permanece em Descartes um conceito controverso, provavelmente não será porque o filósofo queira "poupar a religião do seu rei e da sua babá", seja talvez porque, como já nos ensinava Koyré, a noção de Infinito permaneça um conceito fundamental para os modernos, inclusive para os seus "libertinos" e se, no século 18, Deus não exerce mais o papel de personagem central nos cenários da filosofia e das ciências, seja talvez porque, dentre outras motivações, tendo caído tal conceito, as relações com o Ser não sejam mais as mesmas.

Na gênese do século das Luzes, com certeza, encontramos os "libertinos" que Onfray nos apresenta, e aqui está o seu merecimento. Porém, não encontraremos o sentido da herança que lhes devemos deixando de perscrutar o que, nas raias da diferença, confere as fibras de uma época, nem muito menos, embriagados pela fúria contra os ditos vencedores, tentarmos escrever uma história dos vencidos presa a uma cadeia de necessidades como se houvesse, na história, uma espécie de gênio maligno conduzindo suas desventuras. Afinal, como a lógica já nos ensina, no fundo, toda negação da negação não acaba sendo também uma espécie de afirmação?

Título:Contra-história da Filosofia: Libertinos Barrocos, vol. 3Autor:Michel OnfrayEditora:Martins FontesPáginas:312Preço:R$ 56,20

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Entrevista /Paulo César Pereio

Opopular.com.br 07/09

Eterno rebelde

Homenageado recentemente em Goiânia no Festival Perro Loco, o ator Paulo César Pereio comemora 50 anos de cinema. Com meio século de vida artística, o ator gaúcho é uma unanimidade no circuito do teatro, do cinema e da TV. Ninguém pode negar seu talento e menos ainda que ele mesmo parece um personagem, de espírito rebelde, irreverente e "marginal", como o próprio se define. Com mais de 60 filmes no currículo, peças de teatro e inúmeras participações comerciais, Pereio foi homenageado recentemente em festivais bem diferentes, quase opostos, o que só prova o fascínio de sua persona. No começo de agosto, ele subiu ao palco do Festival de Gramado, um dos mais antigos e também mais pomposos do País, para receber o Prêmio Oscarito pelo conjunto da carreira. Poucos dias depois, estava em Goiânia para receber uma homenagem no Perro Loco - Festival de Cinema Universitário Latino-Americano da Universidade Federal de Goiás, um evento promovido por estudantes.

Reconhecido entre os nomes consagrados do cinema nacional e simultaneamente por quem está dando seus primeiros passos no mundo cinematográfico, ele esteve em Goiânia num debate sobre um dos filmes mais emblemáticos de sua filmografia e também do cinema nacional: Iracema, Uma Transa Amazônica. Pouco antes do debate, enquanto fazia um lanche numa das cantinas montadas para o Perro Loco, Pereio falou com o POPULAR sobre o início da carreira, quando era vidrado em seriados exibidos nos cinemas nas matinês, passando por seu envolvimento com o cinema novo e o ciclo do cinema marginal, até chegar à fase de retomada.

Despojado, ele comentou sobre a sua famosa rebeldia e sobre o cinema brasileiro atual, num jogo de palavras entre o chamado ciclo marginal e a marginalidade como comportamento e situação. "O lazer no nosso País foi sequestrado. O cinema brasileiro, com raras exceções, é feito de um modo marginal, com pouco dinheiro e sem muitas chances de distribuição", declarou na entrevista.

O ator de Os Fuzis, Terra em Transe e Toda Nudez Será Castigada comentou ainda sua ligação com o público e os cineastas jovens, seja em longas ou curtas-metragens. Em breve será lançado um documentário sobre ele chamado Pereio, Eu te Odeio, assinado por um de seus maiores fãs, Allan Sieber, quadrinista e cineasta gaúcho.

Você está no cinema brasileiro há décadas, passando por vários ciclos. Como avalia iniciativas como o Perro Loco, voltada para a produção universitária?

Olha, eu comecei cinema assim, como estes estudantes, quando eu era praticamente um menino em Porto Alegre, há cerca de 50 anos. Sempre fui apaixonado por isso desde criança, quando ainda morava no interior. Quando menino em Alegrete eu via aqueles seriado de faroeste e super-homem todos. Na verdade via todo tipo de filme. Aos 16 comecei a fazer teatro e simultaneamente via três sessões de filmes por dia. Sempre me culpavam, dizendo que eu deveria estar fazendo algo mais produtivo. Eu amava tanto aquilo que achava que devia ser pecado... Nem tinha noção de que com isso eu estaria alimentando a minha carreira profissional de um modo muito eficaz. Assistir a filmes é a melhor maneira de sacar o cinema. Naquela época o pessoal do teatro e a imprensa falavam de filmes que eu nunca tinha visto, os chamados clássicos. Daí decidi fundar um clube de cinema, arrumei um projetor com um instituto cultural alemão e fiz um contrato com a Cinemateca Brasileira do Rio de Janeiro. De vez em quando fazíamos uns filmezinhos e até dirigi um filme institucional para a companhia de energia elétrica. Fazia parte de um núcleo de teatro com Paulo José, Ítala Nandi, Flávio Peixoto e nesse teatro funcionava o cineclube. Depois é que fui para São Paulo, onde fui parar no Teatro de Arena. Daí participei de um dos filmes mais importantes da história brasileira, Os Fuzis, que foi lançado em 1961, embora algumas pessoas divulguem a produção como sendo de 1964, deve ser algo cabalístico. Ou seja, já tenho 50 anos de cinema. Hoje a juventude, além do interesse, tem um maior acesso à produção audiovisual, graças à tecnologia digital. O suporte pode ser magnético, ótico... Não importa. Não só foi facilitado o acesso, mas também barateou a produção. Já fiz filmes em que a gente fazia a cena, e alguém tinha de levar o copião de barco, gastando dias no processo, para revelar, voltar e ver se tinha dado certo. Mesmo que se filme atualmente em película, o diretor pode ver o resultado com uma câmera de vídeo acoplada na mesma hora.

Hoje você ainda é um cinéfilo, daquele que vê todo tipo de filmes?

Não, não. Sou bem mais seletivo. Eu me interesso por coisas estranhas, esquisitas. O cinemão americano me dá tédio. Não me interessam mais os filmes que parecem uma aula de como se fazer cinema. Eu quero é o cinema marginal mesmo, como o Jim Jarmusch e de diretores malucos como o John Waters. Agora o cinema brasileiro é todo marginal. O salário de um ator americano dá para bancar alguns anos de produção brasileira, com exceção das produções da Globo, tipo Daniel Filho - pra mim é quase televisão filmada, este tipo de porcaria Como se Eu Fosse Você. Nelson Pereira dos Santos, uma vaca sagrada, o Humberto Mauro, um dinossauro, eram marginais. Aliás o Brasil é à margem.

Ao mesmo tempo em que o seu nome é ligado ao cinema marginal, ao mundo marginal, você é também um mito do cinema brasileiro. Recentemente foi homenageado no Festival de Gramado, um dos mais tradicionais e festivos do País, e poucos dias depois também por um festival de estudantes universitários como o Perro Loco. Como você se avalia neste momento da carreira?

Eu não sou alinhado nem da Globo, embora muita gente pense que sou de lá. O povo se afastou do cinema e o cinema virou coisa de elite - até porque as salas de cinema são nos shoppings. Se o sujeito estiver mal vestido nem entra...O lazer no Brasil foi sequestrado de certa maneira. A distribuição e a exibição sofreram um processo de elitização. Do cinema brasileiro, o que mais comove o povo é o cinema marginal. Na minha carreira não dei muito certo em novelas. Para qualquer papel você precisa decorar um texto e em línguas como o francês e inglês o termo decorar é ligado à paixão. Eu tenho uma capacidade enorme de memorização, mas texto de televisão eu não consigo decorar: é tudo uma porcaria. A gente grava nos cenários praticamente a mesma cena muitas vezes. Não consigo me enquadrar e até gostaria pelo retorno financeiro, uma estabilidade, tipo jogador de futebol sabe? O cara com 19 anos vai para a Europa para garantir a independência financeira no futuro. Como? Se todo mundo na vida fosse pensar assim ninguém teria filhos. Eu tenho quatro filhos com três mães diferentes. Eu sou uma pessoa que a vida se confunde um pouco com essa mitologia do marginal. Em parte isso é uma construção minha e em parte é uma fidelidade a minha natureza. É por isso que eu sou muito identificado com o cinema brasileiro. E o cinema brasileiro é um cinema marginal. Assim que eu sou feliz. Os meus filhos me amam. Dá para ser marginal e ter uma vida digna.

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E a ligação com o Cerrado? Você já morou em Olhos D´Água, e já participou de outros festivais em Goiânia também...

Numa época eu estava exagerando na marginalidade e precisei dar um tempo. Daí fui para a casa de um irmão que mora em Brasília e de lá ia para Olhos D´Água. Então a minha ligação com esta região é tranquila. Mas toda hora eu ia para São Paulo gravar uns comerciais: eu uso minha voz para comer (risos). Na verdade todo mundo tem uma voz boa, só precisa saber falar. Às vezes, o cara gasta meses produzindo um comercial. Eu vou lá, gravo 15 minutos e minha voz vende o produto. Graças a isso eu posso me dar a uma veleidade que é fazer cinema. Uma vez eu fiz um longa-metragem no agreste pernambucano, o Árido Movie, do Lírio Ferreira. Eu filmava um pouco em Arco Verde, que também é um olho dágua e tinha este nome antigamente. Depois ia para São Paulo gravar os comerciais. E voltava para o filme, me encaixando no cronograma. Eu gravei um propaganda rapidinho, cerca de 15 minutos, e ganhei o equivalente a um mês de salário do filme. É o que me dá tanta liberdade, principalmente depois do mecanismo do baixo orçamento, em que o salário do ator é pequeno.

O que tantas homenagens significam para você?

Não sei. Sou um pouco sarcástico. Lembro quando o Frank Sinatra ganhou um segundo Oscar - o primeiro dizem que foi por causa das ligações dele com a Máfia. Quanto ao segundo dizem que ele só foi premiado porque estava velho. Foi assim também com o Laurence Olivier.... Dizem que quando lhe dão prêmios e homenagens assim é porque você está perto de morrer. Mas vocês vão ter de me aguentar por muito tempo.

Você fala em velhice, mas é muito querido pela nova geração também...

Realmente, tenho trabalhado muito com jovens que fazem curtas. E já tenho um programado para rodar, produção com salário e tudo. Teve um ano em que fiz 12 curtas, um em seguida ao outro. Eu me dou melhor com gente nova ou filme de mulher...Com homens mais velhos ou cinemão eu tenho uma certa desobediência. Eu soube por uma moça da equipe do meu programa de TV no Canal Brasil que disseram que, se você quiser problema na filmagem, é só chamar bicho, criança ou Paulo César Pereio.

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Humor político

Opopular.com.br 07/09

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Catherine Deneuve rouba a atenção em Veneza, com comédia que critica situação atual da França

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Por onde ela passa, arrasa. Em Veneza, não foi diferente. Catherine Deneuve, 66 anos, a eterna musa do cinema francês, chamou todas as luzes para si ao apresentar Potiche, o novo filme de François Ozon, no qual é a protagonista. Em suas declarações públicas, ela falou de tudo - do filme, da situação da França, da condenação à morte da iraniana Sakineh. E de Carla Bruni, esposa do presidente Nicolas Sarkozy que, segundo Catherine, teria errado, do ponto de vista estratégico, ao criticar frontalmente o governo de Teerã pela condenação de Sakineh ao apedrejamento: "Às vezes, com esse tipo de atitude, a gente obtém o contrário do que pretende", disse, do alto de uma maturidade de quem trabalhou com contestadores profissionais como Polanski, Marco Ferreri e Buñuel.

Em Potiche, Deneuve é Suzanne, dona de casa superacomodada, casada com o industrial Robert (Fabrice Luchini). Gérard Depardieu, que não veio a Veneza, é Babin, político comunista local. Estamos em Sainte-Gudule, no norte da França, em 1977. Uma súbita doença do marido trará mudanças na vida de Suzanne - e, por extensão, na de todos os outros personagens.

Transformada em presidente de uma fábrica de guarda-chuvas (alusão, talvez, a um dos seus grandes sucessos, Os Guarda-Chuvas do Amor, de Jacques Démy), Suzanne mostrará vocação administrativa inesperada. O filme, baseado numa peça de teatro de Barillet e Grédy, fala da condição feminina. Mas, embora ambientada nos anos 1970, fala também da era Sarkozy, no grau mais baixo de sua popularidade, enfrentando problemas internos pela decisão de expulsar ciganos sem documentos do território francês.

RisoPotiche faz rir mas, à maneira francesa, é inequivocamente político. Talvez por isso tenha ido a Veneza, contra a expectativa do diretor François Ozon: "Nunca se espera que comédias disputem prêmios em festivais, por isso fiquei surpreso com o convite", confessa o cineasta. A própria Deneuve opina sobre o assunto: "Existe um preconceito contra comédias, mas às vezes o riso é uma arma crítica das mais eficazes." Sem dúvida. E ela a usa com muita habilidade. Cria uma Suzanne a princípio boba, interessada apenas em manter a forma física na meia-idade e gerir a bela casa de campo onde mora. É mulher "do lar".

Dona de casa da alta burguesia, ela é um "potiche", um desses bibelôs de prateleira, adorno doméstico, vasinho sem serventia prática. As circunstâncias a colocam em outra via, ao enfrentar tanto o marido conservador quanto o político comunista (Depardieu imita o sotaque do dirigente histórico do PC francês, Georges Marchais), com fraco por mulheres burguesas. A alma do filme é, portanto, socialista. Quando lhe perguntam se o modelo de sua Suzanne seria Ségolène Royal, a candidata socialista derrotada por Sarkozy, Catherine nega: "Me inspiro sobretudo em Elizabeth Guigou, ministra da Justiça no governo de Lionel Jospin." Governo socialista, apenas para constar.

Um show à parte em Potiche é quando Deneuve contracena com Depardieu. Ambos se conhecem bem. Já estiveram juntos em sete filmes. Uma vez Depardieu disse que Catherine Deneuve era o homem que ele gostaria de ser. Em Veneza, Catherine deu o troco e louvou a insuspeitada "alma feminina" do grandalhão. É bastante provável que ambos tenham dito a verdade.

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CRUDÍVOROS!

FSP 07/09

Para lá de vegetarianos, os adeptos da alimentação crua defendem sua dieta exótica com unhas e dentes

Se você tira o arroz, o feijão, o bife e a batata frita do seu cardápio, o que sobra?
Mais de 5.000 espécies de legumes, frutas e sementes, dizem os crudívoros, adeptos de uma dieta que leva apenas alimentos crus.
Superpopular nos EUA, em especial na Califórnia, onde surgiu nos anos 90, o movimento "raw food" cresce, agora, por aqui. Seus seguidores dizem que alimentos crus ou aquecidos abaixo de 46ºC mantêm enzimas e nutrientes essenciais, que se perdem com o cozimento.
Quem segue à risca afirma que a dieta traz benefícios, a começar pela maior facilidade de digestão.
"Gosto do sabor e das texturas, da forma de comer sem sujar coisas e sem gastar energia. Adotei o pacote completo", diz a carioca Inês Braconnot, que há dez anos virou, além de vegetariana, 100% crudívora.
Assim como ela, a maioria dos seguidores não come nada de origem animal. Mas poucos conseguem aposentar o fogão definitivamente. "Prefiro falar em um cardápio com 80% de alimentos crus. Isso é suficiente para melhorar a qualidade de vida. Seguir 100% é muito limitante", diz o gastroenterologista Alberto Gonzalez, autor do livro "Lugar de Médico é na Cozinha" (Alaúde, 300 págs., R$ 49,90).
Inês reconhece que não é nada fácil viver em um mundo cheio de pizzarias e restaurantes por quilo. Em seu blog, "O Diário de uma Krud", ela conta as peripécias que faz para comer fora (quando tem coragem).
Como no dia em que, numa casa de bruschettas, pediu para que substituíssem o pão por fatias de abobrinha. "Toparam, mas falaram para, da próxima vez, eu avisar com antecedência", lembra.
Só nos EUA são mais de 300 restaurantes de comida crua. A estimativa é do chef Matthew Kenney, um dos pioneiros no ramo e autor de quatro livros sobre o assunto.
"A raw food tem mais intensidade e integridade de sabor do que qualquer outra culinária", disse ele à Folha. Kenney acredita de verdade que é possível existir alta gastronomia mesmo nunca conjugando o verbo cozinhar.

FORÇA NA GRANOLA
O hábito de comer comida crua não tem nada de novo: quase toda culinária tem seu momento fresco e rústico, para não falar, obviamente, na cozinha japonesa, ou na peruana -que está na moda no mundo.
A "raw food" está mais popular, segundo a chef Carla Pernambuco. Em seu último livro, "Dez x 10 -100 receitas para comer de joelhos" (Leya Brasil, 246 págs., R$ 74,90), ela dedicou um capítulo só para receitas cruas tradicionais. "Sem cozinhar, o sabor dos ingredientes é aproveitado ao máximo", diz.
Aqui, há poucas pessoas trabalhando com raw food. Uma delas é Tiana Rodrigues, 90% crudívora, chef do restaurante Universo Orgânico. "Nos dias de folga, como arroz integral e tomo uma sopa quente".
Nos outros dias, a chef crudívora almoça no próprio restaurante. No menu, hambúrguer de cogumelo e macarrão cabelo de anjo feito com tiras de abobrinha. Tudo feito a menos de 40ºC.
Engana-se quem pensa que o preparo é mais fácil. A granola crua, por exemplo, demora 48 horas para desidratar. Alguns pães feitos no sol podem ficar prontos só depois de quatro dias.
Para quem segue a chamada alimentação viva, a comida não basta estar crua.
"Todos os pratos precisam ter uma semente em germinação ou um broto", explica Maria Luiza Branco, médica e coordenadora do projeto Terrapia, da Fiocruz.
Criado há 13 anos, o trabalho difunde a prática da alimentação viva em aulas de culinária e oficinas de "contato com a natureza" que incluem aquelas vivências onde você pisa na grama e abraça árvores.
A coordenadora do projeto é adepta da filosofia desde 1996. Tudo o que ela come sempre tem algum broto ou semente germinada. "São alimentos que carregam a energia da vida", justifica.
Nesse tipo de culinária, não há uma preocupação com o valor nutricional dos alimentos. Para Maria Luiza, "a vida alimenta a vida" e isso basta. Vitamina, diz, é coisa de nutricionista.
"Eles acreditam que a natureza é completa e dificilmente vão aceitar tomar algum suplemento", analisa o nutrólogo Eric Slywitch da SVB (Sociedade Vegetariana Brasileira).
De acordo com o médico, manter a dieta crua a longo prazo pode causar deficiência de vitamina B12, presente apenas em proteínas.
Além do mais, não existe nenhuma comprovação de que as enzimas dos alimentos ajudem na digestão. "Também não há uma alteração significativa na quantidade de fibras nem de vitaminas". O cozimento só reduz vitaminas solúveis em água, especialmente a C e a B9.
Apesar de não ter comprovação científica, a dieta crudívora traz benefícios à saúde pelo simples fato de ter muitos vegetais.
Quem comprovou isso é a violinista Ana Paula Machado de Lima, 34, hoje 50% crudívora e com planos de chegar aos 80%.
"Em dois meses, fiquei curada de uma esofagite e emagreci seis quilos". O segredo, acha ela, foi tirar os doces e acrescentar o suco verde feito com frutas, folhas e sementes germinadas. "Chocolate? Nem no xampu, mais."

Inês Braconnot, 58, artista plástica
Desjejum: Água de coco
Café da manhã: 2 bananas, 1 fatia de mamão, passas, nozes e iogurte de leite de coco feito em casa
Almoço: Salada de folhas com maionese de gergelim, abacate e tomate sobre torradas de linhaça, chucrute de repolho roxo com maçãs verdes e ervas
Lanche: Barrinha de cereais feita em casa com banana, castanha-do-pará, maçã desidratada e uva-passa
Jantar: Sopa de cenoura com pão especial (feito no desidratador com trigo germinado) e pasta de amêndoas
Ceia: 1 banana bem madura com água de coco e cardamomo

Ana Paula Machado de Lima, 34, violinista
Café da manhã: 1 ou 2 fatias de pão integral tradicional e meio mamão, ou 2 bananas amassadas
Almoço: Caldeirada de frutos do mato (cenoura, abobrinha, berinjela e abóbora picadas, aquecidas a 40ºC e temperadas com orégano e sal). Uma porção de arroz integral sete grãos cozido ou arroz com feijão comum
Lanche: 1 copo de suco verde de folhas (foto), legumes e sementes germinadas
Jantar: Castanha-do-pará, nozes, uva-passa e manga

Tiana Rodrigues, 48, chef de cozinha
Café da manhã: Suco feito com couve, broto de alfafa, maçã, gengibre e capim-limão
Lanche: Frutas com granola e barras energéticas feitas a 40ºC
Almoço: Salada de tomate, folhas e brotos germinados, legumes feitos no vapor e arroz integral
Lanche: Suco de agrião com manga batido com água de coco
Jantar: Sopa de batata-baroa batida no liquidificador

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