quarta-feira, 21 de abril de 2010

BRASÍLIA 50 ANOS

Um feito goiano

Fonte: opopular.com.br 21/04

Personalidades do Estado tiveram um papel fundamental na transferência da capital da República para o Planalto Central

Há 55 anos, em uma manhã do mês de abril, o então candidato a presidente da República Juscelino Kubitschek desembarcava em Jataí para um comício. Mais ou menos 500 pessoas se espremiam em um galpão de uma oficina para ouvir JK. Entre os presentes, o advogado Antônio Soares Neto, o Toniquinho de Jataí.

A partir desde cenário, o que viria a seguir se tornaria história. Em uma cidade do interior de Goiás, pela primeira vez, o futuro presidente da República revelava a ideia de transferir a capital para o Planalto Central. Tudo motivado por uma pergunta. “O senhor fala muito em cumprir a Constituição, então, caso eleito, pretende mudar a capital do País para Brasília, como está previsto na Constituição?”, perguntou Toniquinho ao presidente. JK respondeu: “Como candidato a presidente, não posso ignorar a sua pergunta porque trata-se, sim, de um dispositivo constitucional e, a partir de agora, faço esse compromisso de, se eleito for, construir a nova capital e mudar a sede do governo.”

Anseio
Além de representar um dos marcos da construção de Brasília, o questionamento feito por Toniquinho expressa bem o anseio que havia em Goiás pela mudança da capital para o Planalto Central. Durante muitos anos, políticos e elite local defendiam a ideia. Nesse período, cada um teve uma parcela de colaboração, como Toniquinho de Jataí.

Para o professor Luiz Sérgio Duarte da Silva, da Universidade Federal de Goiás (UFG), sem o apoio goiano e a insistência de muitos personagens locais, a construção de Brasília seria impossível. Para esses goianos, a mudança não era apenas uma questão de um sonho distante da população local: ela estava baseada na própria Constituição federal.

A mudança para o interior do País foi prevista já na primeira Constituição republicana, em 1891. No ano seguinte, foi iniciada a demarcação no Planalto Central do quadrilátero que seria ocupado pela nova capital. O trabalho foi realizado por uma comissão dirigida por Luís Cruls, diretor do Observatório Astronômico na época.

A mudança da capital federal foi mantida na Constituição de 1934 e ainda foi discutida na Constituinte de 1946 com a apresentação de um projeto de transferência da capital para Minas Gerais, para a região do Triângulo Mineiro. O projeto não foi aprovado. Em 1946 e 1953 novas comissões para a localização da área que abrigaria a nova capital foram nomeadas. A última, no governo Café Filho, contou com a ajuda do arquiteto e urbanista Affonso Eduardo Reidy e foi essa que determinou o local onde deveria ser instalada a cidade.

A ideia de mudar a capital e construir uma nova cidade já fazia parte do “inconsciente coletivo” da população goiana devido não só à construção de Belo Horizonte no fim do século 19, mas também à construção de Goiânia, inaugurada em 1940, com o projeto de Attilio Corrêa Lima. Para o professor Luiz Sérgio, autor do livro A Construção de Brasília: Modernidade e Periferia, a construção de Goiânia e Brasília estão historicamente interligadas de uma maneira forte. Segundo Sérgio, a presença da nova capital goiana serviu como base para a construção de Brasília e também como incentivo. “As duas cidades, na verdade, fazem parte do mesmo plano, de modernizar e desenvolver o interior do País”, diz.

%%%%%%%%%%%%%

Rico cenário humano

Fonte: opopular.com.br 21/04

Rodrigo Alves

Metrópole que comporta quase 3 milhões de habitantes, cuja proposta é abrigar representantes políticos vindos do País inteiro, Brasília talvez só encontre par em São Paulo, centro financeiro do Brasil, falando-se da variedade de tipos humanos. Por entre suas superquadras e prédios baixos, nas via largas e extensas, vivem e circulam diariamente gente de todas as classes sociais, dos mais variados níveis intelectuais, com diferenças abissais de realidades. Tipos que fazem dela uma cidade cosmopolita.

Com o olhar apurado de quem aprendeu a observar nuances humanas, a jornalista Conceição Freitas, titular da coluna Crônica da Cidade, do jornal Correio Braziliense, não mede esforços para documentar diariamente a cidade e esses tipos diversos. Ela mesma é tem o perfil de uma verdadeira candaga, nome popular dado aos pioneiros que acabou tornando-se sinônimo de brasiliense. Após ter nascido em Manaus e vivido em Belém e Goiânia da infância ao início da vida adulta, há 25 anos Conceição acabou “adotada” pela cidade, como gosta de dizer.

Autora do livro Só Em Caso de Amor – 100 Crônicas para Conhecer Brasília (LGE Editora, 2009), recentemente ela também contribuiu para edição comemorativa Brasília aos 50 Anos – Que Cidade é Essa? (Tema Editorial, 2010), organizado pelas jornalistas Beth Cataldo e Graça Ramos. “Tem de tudo um pouco nessa Nova York do Cerrado. O brasiliense pode ser tanto um tipo arrogante ilhado no Plano Piloto, quanto aquele da cidade-satélite, o verdadeiro grande transformador dessa cidade, que particularmente me encanta mais”, opina a jornalista, que recentemente também produziu uma série de reportagens sobre 50 pioneiros anônimos que construíram a cidade.

Para Conceição, brasileiros que não conhecem realmente Brasília e a enxergam como a cidade da corrupção têm uma visão limitada sobre sua verdadeira essência. Apaixonada pela cidade, ela destaca características ímpares que só consegue ver em Brasília. “Me seduz, por exemplo, essa escala que respeita o céu. De qualquer lugar é possível acompanhar o dia e a noite. Sem contar que o tempo permite que a gente veja as quatro estações, todas em um dia só. É incrível como até nisso Brasília consegue ser a síntese do Brasil”, declara.

Caso único
Brasília não é somente o Plano Piloto, a região central da capital, como muitos pensam. Conceitualmente, Brasília é a porção urbana do Distrito Federal, que na prática é quase inteiramente urbanizado. Essa parte urbana também inclui as cidades-satélites, espécies de subdivisões administrativas da capital. Construído de forma célere sob o comando do presidente Juscelino Kubitschek, o Plano Piloto ficou pronto no final da década de 1950 em apenas três anos e dez meses. Ele foi planejado para abrigar a máquina estatal – situada no Eixo Monumental (o corpo do desenho em forma de avião), onde está, por exemplo, a Esplanada dos Ministérios – e os servidores públicos, habitantes iniciais da cidade, instalados no Eixo Rodoviário (as asas). O Plano Piloto, porém, não nasceu sozinho. Paralelamente, em seus arredores, trabalhadores oriundos de várias partes do Brasil estabeleceram-se onde hoje estão a Candagolândia e o Núcleo Bandeirante, algumas das cidades-satélites mais antigas da capital federal.

Nenhum comentário: