quarta-feira, 11 de agosto de 2010

"Poesia transforma dor em alegria estética", diz Gullar

FSP 08/08
Se a Flip fosse a Copa e os autores, jogadores, o poeta Ferreira Gullar, 79, teria quem o representasse: Ronaldo Luiz Nazário de Lima.
Ronaldo é o jogador com maior número de gols em Copas. Gullar é o autor com o maior número de participações em Flips.
Há, no entanto, uma diferença crucial entre os dois. Enquanto Ronaldo quer o mundo, Gullar se contenta (e muito) com a companhia de seu gato, o vira-lata Gatinho.
Em sua terceira participação na Flip, o colunista da Folha falou, ontem, de seu gato, seus ossos (sim, os ossos também merecem poemas) e, claro, sua poesia.
Leu trechos de sua obra mais famosa, o "Poema Sujo" (1976), produzido durante a ditadura, além de presentear a plateia com trechos de poemas ainda não publicados. Ao final, foi aplaudido de pé pelo público que lotou a Tenda dos Autores.
Gullar contou histórias da época em que fazia poemas neoconcretos, em que as palavras não seguiam qualquer tipo de regra sintática: "Quis que a escrita nascesse com o poema. Ninguém entendeu, claro, porque a linguagem é algo social".
Sobre a máxima de que "fazer poema é um parto" (também adotada por cineastas, atores, pintores e toda sorte de profissional das humanas), disse: "Vocês estão cansados de ouvir poeta dizendo que escrever é sofrimento. Mentira. É bom. O poema até pode tratar de algo doído, mas ele transforma dor em alegria estética".
Sobre qualquer forma de engajamento literário, ensinou: "Não adianta fazer poesia ruim, engajada, para não mudar nada. Se é para não mudar nada, é preferível fazer boa poesia".
Como exemplo, contou a história de quando foi procurado, na época em que trabalhava no "Jornal do Brasil", para publicar um manifesto sobre a "Poesia de Base".
"Falei que manifesto não publicava, publicava poema. Manifesto é coisa de político. Promete e não faz. Resultado: nunca produziram um único poema de base."

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Livro destaca Espanha, terceiro maior produtor mundial de vinho

FSP 08/08

País é marcado pela diversidade de regiões e estilos da bebida

O décimo volume da Coleção Folha O Mundo do Vinho, nas bancas no próximo domingo (dia 15), enfoca a produção da Espanha.
Reconhecida como o berço da cozinha de vanguarda, o país ibérico também é uma das regiões vitivinícolas mais empolgantes do planeta.
Se desde o século 19 já eram famosos o Jerez, o fortificado de Andaluzia e os tintos da região de Rioja -cujos produtores seguiram de perto o modelo francês para elaborá-los-, outras regiões vêm se destacando.
A Espanha, país de maior extensão de vinhedos plantados do planeta e terceiro maior produtor mundial -entrou na modernidade após o fim da ditadura imposta pelo governo do general Francisco Franco.
A presença de enólogos estrangeiros e os investimentos em tecnologia revitalizaram a indústria do vinho.
A diversidade de regiões vitivinícolas colocam no mercado exemplares dos mais variados estilos. Um dos mais conhecidos é o cava, espumante produzido na Catalunha pelo mesmo método com que se fazem os champanhes.
Assim como na gastronomia, vanguarda é a palavra de ordem de diversos produtores, muitos deles instalados em regiões há pouco desbravadas, como Bierzo, Toro e Cigales, áreas localizadas na região de Castilla y León.
Se há regiões despontando nesse cenário, outras já adquiriram grande prestígio, como Priorato e Ribera del Duero. A primeira aposta na tinta Garnacha (a francesa Grenache) e a segunda produz tintos estruturados, como a Tinta del País ou o Tinto Fino, denominação local da grande casta espanhola, a tempranillo.
O país também produz brancos interessantes, como os feitos das uvas verdejo, além de rosados, que nascem em Navarra.

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Gestor cultural, esse é o cara

Cresce no país a necessidade de profissionalizar funções que possam concretizar projetos na área da cultura

CORREIOWEB.COM.BR 11/08


Leis de incentivo, editais, patrocínios: faz alguns anos que colocar projetos culturais na rua exige conhecimentos muito além do talento artístico. A necessidade empurrou produtores e artistas para a profissionalização num caminho invertido — primeiro, na prática, agora, na teoria. O gestor cultural tornou-se uma figura obrigatória em instituições e eventos públicos e privados, planejando e conceituando projetos. Como consequência, cursos de graduação e pós-graduação em gestão cultural pipocam de norte a sul do Brasil. Um levantamento feito pela Associação Brasileira de Gestão Cultural (ABGC), com sede no Rio de Janeiro, contabiliza 74, em todo o país — todos com menos de 10 anos de existência.

O 75º será o primeiro de Brasília: na próxima quarta-feira, entra em sala a primeira turma da pós-graduação em gestão de espaços e projetos culturais da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Com duração de 410 horas, trará professores que atuam no mercado e dão aulas em todo o Brasil. Mas, afinal, o que faz um gestor cultural? Qual o seu papel na indústria de arte e entretenimento?

Por novo, o papel do gestor ainda esbarra na função do produtor e muitas vezes uma mesma pessoa exerce ambas as funções simultaneamente. Para Kátia de Marco, presidente da ABGC, esse acúmulo é um equívoco. “Pela complexidade da institucionalização da cultura não é possível dar conta das duas atividades ao mesmo tempo. O gestor precisa saber direito, economia, sociologia. Ambas são áreas de conhecimento em que é necessário se aprofundar”, comenta ela, que também é coordenadora acadêmica de cursos de pós-graduação na área cultural da Universidade Cândido Mendes (RJ) — entre eles, o primeiro MBA em gestão cultural do Brasil, em funcionamento desde 2003.

O professor e pesquisador Antônio Albino Rubim, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), vê o gestor cultural como aquele que atende a demanda da gestão de instituições e de programas culturais mais estáveis, de longa duração, enquanto os produtores seriam mais voltados à organização de eventos específicos. “Claro que eles têm competências em comum, mas também possuem atribuições e formações distintas”, afirma ele, que é membro do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da universidade.

Perfil
“Há ainda pouco entendimento do que é papel do gestor e do que é do produtor”, assinala a gestora cultural Maria Helena Cunha, autora de Gestão cultural, profissão em formação, publicado em 2007, um dos livros de referência nos cursos de formação na área. Sócia da Duo Informação e Cultura, em Belo Horizonte, ela comenta que, além da necessidade, muitos produtores se tornaram gestores por uma questão de perfil. E um tem que entender o papel que o outro desempenha, pois são complementares. “O gestor tem uma função mais estratégica, de planejamento. E o produtor é mais executivo, está ali para colocar a mão na massa, estar à frente. Tanto um quanto outro podem ter uma ação pontual numa instituição ou projeto, embora a lógica do gestor seja a de pensar mais a longo prazo. É a forma de atuação que diferencia os dois profissionais”, compara.

Outra distinção se apresenta entre gestores culturais que atuam nas esferas do poder público e da iniciativa privada. “O gestor cultural da área pública deve ser governado pelo interesse público e nunca por interesses particulares, como muitas vezes acontece, infelizmente, na iniciativa privada”, assinala Rubim. Maria Helena observa que a formação de ambos é parecida, mas que a lógica do gestor público é que seu trabalho está focado no cidadão. “Quem atua no setor privado precisa entender o mercado e as diretrizes vindas do poder público, senão fica para trás”, diz.

No peito e na raça

Dois dos principais gestores culturais da capital foram formados na universidade da vida, trabalhando, criando e colocando projetos na rua. Sérgio Bacelar, da Alecrim Produções, é bacharel em direito, enquanto Guilherme Reis, da Cena Produções Culturais, é um ator que migrou para a produção e daí, para a gestão. O primeiro realiza o Festival do Teatro Brasileiro, que leva espetáculos de um estado a outro, promovendo intercâmbio de linguagens e apresentando a produção realizada em regiões diferentes da que sedia o evento. Reis é responsável pelo Cena Contemporânea — Festival Internacional de Teatro, que traz a Brasília espetáculos nacionais e internacionais cuja proposta é associar reflexão e entretenimento.

“Talvez eu tenha me tornado um gestor pela ausência deles. Sempre houve bons produtores no eixo Rio-São Paulo, mas no resto do Brasil era preciso se virar. Desde então me divido. Hoje já há uma segmentação do mercado”, comenta Reis, que começou sua carreira nos anos 1970.

Bacelar, que flertou com a pintura e a escultura, esteve à frente do Caderno 2, bar que promovia eventos de música e teatro no fim dos anos 1980 e início dos 1990. Foi aí que começou a ter contato com produtores e a entender de gestão. Em 1999, começou a se especializar em conceber projetos para concorrerem a patrocínio em editais de órgãos públicos. “Meu perfil é gerir o que idealizo. Fui aprendendo todas as etapas e eu mesmo desenvolvi essa gestão administrativa”, diz.

O aprendizado prático, no entanto, vem perdendo espaço para cursos de formação. A pós-graduação em gestão de espaços e projetos culturais da Dulcina de Moraes é o sinal de que Brasília está na rota da formalização da profissão. Para montar o currículo, a instituição buscou parcerias e professores reconhecidos no mercado, entre eles Ana Carla Fonseca Reis, consultora da ONU, e Rômulo Avellar, consultor de planejamento do grupo Galpão e outros grupos artísticos e entidades culturais. “Planejamento, comunicação, marketing, financeiro, como organizar eventos culturais e estudos de caso serão alguns aspectos abordados no decorrer do curso, que será teórico e prático. Os alunos vão a campo, acompanharão projetos e simularão a venda de produtos culturais”, enumera a diretora da faculdade, Lúcia de Andrade.

Mais que formação, no entanto, os candidatos a gestores culturais precisam educar o olhar, na opinião de Maria Helena Cunha, da Duo Informação e Cultura. “É um profissional que tem que ter capacidade de organizar, objetividade para lidar com ferramentas de gestão e, ao mesmo tempo, entender a lógica da cultura e ter sensibilidade para entender processos criativos”, afirma.

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Escola de Justiça

CÁSSIO SCHUBSKY

A assistência judiciária gratuita é requisito para resguardar a cidadania de amplas parcelas da população e caminho contra a pobreza

FSP 11/08
Tão ou mais grave do que sofrer uma injustiça é não poder recorrer ao Judiciário em busca de reparação. O acesso de todos à Justiça é condição necessária para que o princípio da igualdade jurídica, a isonomia, seja efetivo, como um dos pilares do regime democrático.
Impossível o Estado de Direito sem a tutela jurisdicional dos direitos dos desafortunados, vítimas da cruel economia de mercado, desiguale concentradora de renda.
"Todos são iguais perante a lei", reza o artigo 5º da Constituição Federal. Evidentemente, as pessoas não são idênticas na sua individualidade e pertencem a grupos sociais diversos entre si.
O princípio da isonomia, inscrito na Constituição, refere-se, justamente, à igualdade perante a lei.
Assim, a assistência judiciária gratuita é requisito essencial para resguardar a cidadania de amplas parcelas da população e caminho seguro para a própria erradicação da pobreza.
Os primeiros passos da assistência judiciária gratuita no Brasil foram trilhados ainda no século 19, quando decretos imperiais fixaram condições para isenção de custas em processos nos quais fossem partes pessoas sem recursos para arcar com despesas judiciais.
Casos isolados de advogados dispostos a atender gratuitamente os desafortunados, sem cobrar honorários, espocaram ainda no século 19, de que é exemplo o cada vez mais lembrado Luiz Gama (1830-1882), que defendia escravos em juízo, entre outros clientes desprovidos de bens materiais.
Apenas no início do século passado, a assistência judiciária gratuita passou a figurar entre as preocupações da nossa comunidade jurídica.
Em 9 de setembro de 1919, em sessão solene na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, criava-se, com pioneirismo, a Assistência Judiciária Acadêmica, embrião do Departamento Jurídico XI de Agosto, vigorosa entidade, hoje com 90 anos.
Vale lembrar que somente um ano depois o governo do Estado de São Paulo instituiu um serviço similar, em 1920.
Mais tarde, em 1935, seria criado o Consultório Jurídico do Estado, substituído, em 1947, pela Procuradoria de Assistência Judiciária (PAJ), que sobreviveu 60 anos, congregando denodados advogados públicos. Até que, em 2006, a PAJ foi extinta, com a subsequente instalação da Defensoria Pública do Estado de São Paulo.
Há nove décadas, o Departamento Jurídico XI de Agosto, um dos maiores e mais antigos programas de extensão universitária do país, cumpre a função de iniciar futuros juízes, advogados, defensores públicos, membros do Ministério Público, delegados de polícia e profissionais das mais variadas áreas de atividade humana, todos eles marcados pela prática jurídica como instrumento de acesso universal à Justiça.
Imprescindível hoje é a ampliação da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, que tem quadros funcionais bastante reduzidos.
Ainda assim, a Defensoria Pública conta com centenas de estagiários do nonagenário Departamento Jurídico XI de Agosto na tarefa de construir uma nação mais justa, fraterna, solidária e igualitária.


CÁSSIO SCHUBSKY, 44, editor e historiador, é organizador do livro "Clóvis Beviláqua, um Senhor Brasileiro" (Editora Lettera.doc).

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