terça-feira, 24 de agosto de 2010

"Contradição corrói as bienais de arte"

Fsp 24/08

Para Waltercio Caldas, megaexposições não conseguem dar conta da globalização das ideias no mundo atual

Carioca diz que novas gerações não deveriam ignorar a história da arte e elogia americano Matthew Barney


Admirador confesso de Auguste Rodin (1840-1917), Constantin Brancusi (1876-1957) e Pablo Picasso (1881-1973), Waltercio Caldas lamenta que as novas gerações de artistas brasileiros ignorem a história da disciplina -"perde-se muito com isso". O artista plástico também afirma que não consegue imaginar um mundo sem livros, mesmo vivendo na era digital. (MARCOS FLAMÍNIO PERES)

Folha - Às vésperas de mais uma Bienal de Arte de São Paulo, como vê o conceito de grandes exposições?
Waltercio Caldas
- São anacrônicas, porque, embora pretendam absorver o que está acontecendo no mundo, ele está muito mais complexo do que elas são capazes de suportar.
Por não conseguirem dar conta da globalização das ideias e da vertiginosidade do tempo, tornam-se específicas. Embora o discurso seja totalizador, acabam defendendo um ponto de vista muito particular. E essa contradição corrói esse tipo de evento.

Como vê a apropriação de seu trabalho pelos artistas contemporâneos?
Hoje em dia, alguns artistas consideram que se pode fazer arte sem ter noção da história da arte, sem ter noção de todas as conquistas anteriores. E tenho a impressão de perdemos muito com essa deliberada ignorância.

Livros e palimpsestos sempre foram recorrentes em sua obra. Como vê o futuro da palavra impressa com o advento das novas tecnologias?
Não consigo imaginar o futuro da humanidade sem palavra impressa e sem papel. Os livros têm características tão especiais que nunca serão substituídas. A mídia eletrônica oferece ao espectador uma participação na velocidade do mundo, em sua vertiginosidade, enquanto o livro atende mais à ideia de contemplação.

Usa Facebook ou Twitter?
Procuro evitar... Tenho uma relação muita íntima com o tempo. Acho extremamente desagradável me relacionar com uma imagem que é filtrada por uma luz artificial que nos chega por meio de um sinal eletrônico.

Como avalia os museus brasileiros e sua formação de acervo?
É um problema que temos por puro descaso nosso. São poucos os museus que têm política de aquisição, e, quando as têm, são muitas vezes esporádicas e temporárias. Isso faz com que as instituições às vezes não tenham um acervo que possam representar sua própria história.

E como mudar isso?
Bem, para usar os perfumes como metáfora, acho que o Brasil, em arte, está começando a produzir fragrâncias muito boas, mas conhece muito pouco do processo fixador. E, no entanto, ele é fundamental.

A falta de apelo exótico de sua obra foi um problema para sua aceitação no exterior?
Não, pois acho que o mundo é suficientemente complexo para incorporar trabalhos de toda natureza.

Não acha que existe hoje uma culturalização da arte, entendida a partir de conceitos como cor, etnia etc.?
Acho, e isso de certo modo substitui os "ismos" [as vanguardas]. Por terem se tornado densos demais, cederam lugar a ordens sociológicas, psicológicas, etnológicas... Sob esse ponto de vista, meu trabalho tem um viés bastante crítico. Uma obra é exatamente aquilo que ela é, ele não quer ser a representação de nenhuma outra coisa.

Qual o artista que mais chama sua atenção na cena atual?
Gosto muito do [americano] Matthew Barney. Acho que ele tem uma pegada na questão dos materiais que é bastante inovadora.

Um crítico já definiu seu humor como machadiano. Você se reconhece nele?
Isso me lisonjeia, porque o humor de Machado -quase uma ironia- é uma necessidade para o Brasil.

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Museu da Língua inaugura mostra interativa sobre Fernando Pessoa

FSP 24/08

Exposição parte de viés didático-sensorial para explorar obra do poeta e de seus heterônimos

Além do uso de recursos digitais, "Plural como o Universo" tem seção com livros, revistas e documentos raros



Acompanhado de seus heterônimos, o poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) é o próximo autor a desembarcar em uma exposição temporária do Museu da Língua Portuguesa.
"Fernando Pessoa, Plural como o Universo" abre hoje para o público e permanece em cartaz até janeiro do ano que vem.
O uso da palavra "plural" no título é justificado assim que o visitante chega à exposição. Na primeira sala, os heterônimos criados por Pessoa, entre eles Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Bernardo Soares, ganham vida em cabines, em que o visitante entra para uma espécie de imersão privada.
No escurinho, trechos de poemas são projetados sempre um a um. Para passar de um texto para outro, o visitante só precisa levantar a mão até um sensor.
Com curadoria de Carlos Felipe Moisés, poeta formado pela USP, e Richard Zenith, escritor e ensaísta americano radicado em Lisboa desde 1987, a exposição é rica de interações digitais do gênero.
"A opção de mostrar apenas trechos foi feita porque as poesias de Fernando Pessoa, em geral, eram muito extensas; "Ode Marítima", de Álvaro de Campos, por exemplo, tem cerca de 900 versos", explica Zenith.
Por esse viés didático-sensorial, é possível perceber também que o poeta português não criou desdobramentos de personalidade somente para diversificar a linguagem. Seus heterônimos também possuem biografias particulares.
Ricardo Reis, por exemplo, é um médico da cidade do Porto que estudou em colégio de jesuítas. Pessoa não atribui a ele data de morte -apenas de nascimento.

PARTE DOCUMENTAL
Um labirinto com poemas em relevo nas paredes leva o visitante para um segundo salão. Ali, a cenografia de Helio Eichbauer coloca em evidência a parte documental da mostra.
E monta uma mesa de leituras, onde ficam espalhadas edições traduzidas para várias línguas (inglês, grego, russo, entre outras).
Entre os documentos, há revistas publicadas nas décadas de 10, 20 e 30 do século passado, como a "Portugal Futurista", marco do movimento modernista português. As peças foram emprestadas por um colecionador de Pernambuco, José Paulo Cavalcanti Filho.
Sobre a mesa, há ainda a projeção de um manuscrito do livro "Mensagem". Suas páginas podem ser viradas também por meio de um sensor. O original está na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa.

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