quinta-feira, 14 de março de 2013




LITERATURA »  Brinde à poesia
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João Carlos Taveira é o homenageado da noite        
Nicolas Behr interpretará os poemas de Taveira      
Anand Rao apresentará os próprios trabalhos.  CORREIO BSB 14.03
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Com o objetivo de integrar a literatura na vida das pessoas e comemorando o Dia Nacional da Poesia, o Sarau do Beijo — Poemação no Beijódromo reunirá poetas da cidade em um evento descontraído. Entre os convidados estão Ruiter Lima, João Carlos Taveira, Anand Rao e Done Pitalurg. O evento será realizado hoje, às 19h, no Memorial Darcy Ribeiro — Beijódromo (Universidade de Brasília, Câmpus Universitário Darcy Ribeiro).

O dia em que se comemora a poesia foi criado em homenagem a Castro Alves, na data de seu nascimento. Entre as obras mais conhecidos estão Navio negreiro e Vozes d’África. Para celebrar a data, a ação cultural terá a parceria com o projeto performático Pipocando Poesia e curadoria do Coletivo Poemação, marcando o início de uma série de saraus no decorrer do ano.

Na primeira edição, o poeta homenageado será João Carlos Taveira, que terá seus poemas interpretados por Nicolas Behr, Anand Rao, Jorge Amâncio, entre outros. Além disso,  eles apresentarão os próprios trabalhos.

Segundo a produtora Manuela Castelo Branco, a ação cultural visa “revelar a cidade pelo ponto de vista dos poetas”. O fato do evento ser realizado no Memorial Darcy Ribeiro também é simbólico, já que a proposta “se identifica muito com o trabalho do Darcy Ribeiro, que tinha uma faceta poética, além do seu trabalho como antropólogo”, ressalta.

A comida fica por conta do grupo performático Pipocando Poesia, que atua na cidade há quatro anos. A trupe vai oferecer os mais variados e inusitados sabores de pipocas. Cada uma leva o nome de um poeta diferente, entre eles estão Castro Alves, de sabor chocolate; Clarice Lispector, que leva curry e pimenta; Manoel de Barros, com um toque de alecrim. Para saborear uma pipoca, um poema declamado é a moeda de troca.O público também terá um espaço garantido para apresentar poemas no sarau, e a trilha sonora da noite vai ficar por conta de Carlos Pial.

A partir de maio, os encontros ocorrerão nas primeiras terças-feiras de cada mês, sendo sempre acompanhados por outras manifestações artísticas, como exposições,  exibição de filmes e poesias. Afinal, “tudo com poesia fica mais gostoso”, afirma Manuela.

Quem não puder comparecer ao primeiro evento, poderá acompanhar todo o sarau ao vivo pelo site www.ustream.tv.
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Pesquisa revela perfil dos escritores e personagens da literatura brasileira contemporânea.  UNIVERSIDADE PALMARES - 01/03/2013
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A pesquisa inova ao dar números para o fenômeno, mostrando a dimensão do abismo que separa a diversidade da sociedade brasileira e sua efetiva presença na literatura. É a confirmação de uma hipótese que já se intuía: o campo literário ainda é um território para poucos.
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Literatura e estatística são campos que raramente se cruzam. Quando o fazem, podem gerar polêmica. É o caso de uma pesquisa coordenada por Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB), que pretende traçar um perfil dos escritores e dos personagens da literatura brasileira contemporânea.

Os primeiros resultados foram divulgados em publicações acadêmicas, em 2005, com repercussão na imprensa. O debate foi renovado com o lançamento, em 2012, do livro Literatura Brasileira Contemporânea — Um Território Contestado (Editora Horizonte/Editora UERJ, 208 páginas, R$ 45), que disponibiliza os números da pesquisa. Foram lidos 258 romances, publicados de 1990 a 2004, pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco. A pesquisa revelou que os autores, na maioria, são brancos (93,9%), homens (72,7%), moram no Rio de Janeiro e em São Paulo (47,3% e 21,2%, respectivamente).

Esse perfil médio do escritor brasileiro não é exatamente uma surpresa. A pesquisa inova ao dar números para o fenômeno, mostrando a dimensão do abismo que separa a diversidade da sociedade brasileira e sua efetiva presença na literatura. É a confirmação de uma hipótese que já se intuía: o campo literário ainda é um território para poucos.

— Achei excessivo o número de autores brancos, comparando com a realidade do país. Claro que sabemos que há uma dificuldade maior para pessoas não brancas participarem de qualquer campo de discurso, mas foi um número que surpreendeu — diz Regina (leia entrevista).

O perfil médio dos escritores se assemelha à representação dos personagens nos romances brasileiros contemporâneos. Eles são, em sua maioria, homens (62,1%) e heterossexuais (81%). As principais ocupações dos personagens masculinos são escritor (8,5%), bandido ou contraventor (7%) e artista (6,3%). As personagens femininas são donas de casa (25,1%), artistas (10,2%) ou não têm ocupação (9,6%). A assimetria prossegue no que diz respeito à cor. Os personagens negros são 7,9% e têm pouca voz: são apenas 5,8% dos protagonistas e 2,7% dos narradores. Os brancos são, em geral, donas de casa (9,8%), artistas (8,5%) ou escritores (6,9%). Os negros são bandidos ou contraventores (20,4%), empregados(as) domésticos(as) (12,2%) ou escravos (9,2%). Enquanto a maioria dos brancos morre, na ficção, por acidente ou doença (60,7%), os negros morrem mais por assassinato (61,1%). A escritora Ana Maria Gonçalves observa:

— Teríamos que confrontar esses números com dados reais para saber o quão próximos ou distantes estão da realidade. Mas também é certo que, por ignorância — e uma de suas muitas consequências é o racismo — e/ou costume, características tidas como negativas são muito mais atribuídas a personagens negros — comportamento copiado da vida real — do que a personagens brancos.

O escritor e crítico Sérgio Rodrigues, do blog Todoprosa, contrapõe:

— O mérito sociológico do levantamento é evidente, mas esse tipo de análise baseada no perfil sociocultural dos autores, típico dos estudos culturais, tem alcance limitado para dar conta do fenômeno literário. A coisa não é tão simples. Guimarães Rosa era branco, urbano e altamente educado, mas ninguém fez uma melhor tradução literária do sertão profundo.

Pesquisa será replicada no RS

Apesar de pouco expressiva em números, a representação das mulheres na literatura indica uma tendência de crescimento: elas estão sendo mais publicadas por grandes editoras do que antes. Depois de estudar os romances publicados entre 1990 e 2004, a equipe de Regina Dalcastagnè fez o mesmo com romances da época da ditadura, de 1965 a 1979. Das décadas de 1960 e 1970 para as décadas de 1990 e 2000, a proporção de autoras cresceu de 17,4% para 27,3%, uma possível conquista do feminismo que floresceu nesse período. Já a presença de personagens femininos decaiu de 40,7% para 37,8%. No que diz respeito à cor, a proporção de autores brancos cresceu de 93% para 93,9%.

A presença de autores nascidos no Rio Grande do Sul passou de 4,7% para 12,7%, possivelmente devido à proliferação de oficinas literárias. Um dos participantes da equipe de Regina, o professor de literatura Ricardo Barberena, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), realizará uma pesquisa semelhante, com foco nos personagens de romances publicados por editoras gaúchas. Os primeiros números devem ser divulgados neste ano.

— Uma de nossas hipóteses é que houve uma mudança para uma prosa mais urbana. A questão espacial será interessante de se pensar — diz Barberena.

Fonte: Fábio Prikladnicki/Combate ao Racismo Ambiental
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O cinema como prazer e comércio
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Para Bernardini, a expressão "filme de arte" não atrai público, já que "muitas vezes chamamos de 'filme de arte' aquele que simplesmente não é americano". Valor Econômico 11.03.13
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Para transformar o dono de brasserie provençal em um dos principais gestores do circuito de cinema de arte do Brasil, foram necessárias uma leve dose de acaso e a profunda convicção de que o trabalho deve ser prazeroso.

Dono do cinema Reserva Cultural, em São Paulo, e da distribuidora Imovision, que foi pioneiro na divulgação do cinema iraniano e do movimento Dogma 95 - o original, dinamarquês, como faz questão de frisar -, o francês Jean Thomas Bernardini tem o comércio no sangue e dispensa ao mercado de filmes artísticos o mesmo olhar profissional que dedica aos fornos da Pain de France, padaria que abastece hotéis, restaurantes e, é claro, cinemas de São Paulo.

Sem a intervenção do acaso, a distribuidora, que hoje possui os direitos de mais de 40 filmes ainda a lançar e tem 20 estreias marcadas para os próximos meses, teria durado menos de um ano. Era 1989, Bernardini vivia no Rio e fabricava peças de roupas em jeans no interior de São Paulo. Um conhecido telefonou da França perguntando se ele poderia ajudar a distribuir um filme recém-lançado. Era "Inverno de 54", com Lambert Wilson e Claudia Cardinale.

Assim nasceu a Imovision, cujo nome abria caminho para que a empresa, depois de espalhar um único filme pelas salas do Brasil, se tornasse uma imobiliária. "Nunca me preocupei muito com o nome da empresa, a ideia era fechá-la depois de distribuir esse filme", diz o dono, que se prepara para celebrar o primeiro quarto de século da companhia.

Acontece que "Inverno de 54" conta a história do abade Pierre, um dos personagens mais queridos pelos franceses por sua luta em defesa dos sem-teto. O abade, morto em 2007, era querido também no Brasil: ao saber do lançamento, Leda Collor, mãe do então presidente eleito Fernando Collor, telefonou para o distribuidor iniciante e ofereceu incentivo para o filme, até então destinado apenas ao limitado circuito de cineclubes.

Com o apoio ilustre, o próprio clérigo francês fez uma visita ao Brasil, o filme teve uma trajetória bem-sucedida e outros produtores europeus vislumbraram um canal para promover seus filmes no distante mercado sul-americano.

"Na França, pensaram que eu era bom de marketing. Começaram a oferecer filmes, mas as salas eram poucas. Ainda por cima, o cinema francês era mal visto - porque, naquela época, estava chato, mesmo. Então comecei a distribuir alguns filmes em cineclubes, quatro ou cinco por ano", relembra. "Naquele tempo, isso era suficiente, porque um filme podia ficar um ano em cartaz, como foi com o 'Mahabharata' [de Peter Brook]. Hoje, isso é impensável."

Paralelamente, o interesse do empresário pelo ramo da moda já era minguante. "As pessoas não tinham profissionalismo. Viajei com um estilista para a Itália e ele me deixou na mão. Foi passear."

Ironicamente, a política econômica do filho de dona Leda ajudou a sufocar o negócio de jeans. Além do sequestro da poupança, o Plano Collor continha um congelamento de preços que foi fatal para o europeu desacostumado com a flexibilidade ética dos brasileiros.

"Eu informei corretamente meus preços; outros não fizeram isso. Mas os fornecedores de tecido aumentavam os preços por baixo do pano. Queriam receber o valor oficial declarado e mais algum dinheiro por fora. Eu não tinha como competir."

O contato com a falta de profissionalismo e a desordem institucional de um Brasil que se redemocratizava poderiam ter desanimado o empresário, cujos avós eram hoteleiros na França e cujo pai foi dono de uma rede de autoescolas. Com seu faro de comerciante, o francês percebeu, atrás dos riscos, uma fonte inesgotável de oportunidades de negócios. "No Brasil, tudo ainda estava por fazer. Bastava ter uma ideia e colocá-la em prática. Se abríamos uma empresa e ela quebrava, abríamos outra. Na Europa, já tiveram todas as ideias."

'Não é porque o filme não arrecada milhões que a pessoa tem de sentar numa poltrona ruim, com a cabeça de alguém bloqueando a vista'

Nos primeiros anos do século XXI, parecia que o circuito de cinema independente estava condenado em São Paulo. Pouco a pouco, desapareciam os cinemas da região da avenida Paulista. Fechou o Top Cine, fecharam os cinemas Gazeta e, mais tarde, seria a vez do Gemini e do Belas Artes. As salas novas eram abertas nos shoppings, "bem perto das praças de alimentação e cheios de blockbusters", lembra Bernardini.

"Começou uma história de que o cinema independente tinha se tornado inviável, mas eu sabia por que parecia assim", diz o empresário. "Não adianta colocar filme de arte em cinema de shopping. Não era o filme que não funcionava, a programação é que estava equivocada."

Era um tempo em que o campo do cinema estava cindido. De um lado, novos complexos com salas confortáveis, som de qualidade e fácil acesso, passando os últimos grandes sucessos de Hollywood. De outro, poucas antigas salas de rua que sobreviviam por um fio, "bastante mal cuidadas", passando ainda alguns filmes independentes. Por fim, as salas especiais, como o Cinesesc, e as primeiras salas patrocinadas.

A cisão estava na origem do problema que o empresário identificou. "O público do cinema de arte tem de se reconhecer e se identificar com o lugar que frequenta. Não é porque o filme não arrecada centenas de milhões de dólares que a pessoa tem de sentar numa poltrona ruim, com a cabeça de alguém bloqueando a vista da tela", argumenta.

Em 2005, como se quisesse demonstrar sua tese, o distribuidor virou exibidor. "Nunca fui a favor de misturar as funções. Para mim, o produtor deve produzir, o distribuidor, distribuir e o exibidor, exibir. Mas estava começando uma mistura de funções e eu também tinha minhas ideias", diz Bernardini. "O importante é ser profissional: se um filme que eu distribuo vai pior que o de outra distribuidora, sai o meu e fica o dela."

"Precisa existir um cinema que se dedique especificamente ao filme de arte, mas que seja bonito, agradável e atraia as pessoas", explica. Aproveitando o espaço dos antigos cinemas Gazeta, na avenida Paulista, Bernardini fundou um complexo de quatro salas, restaurante, livraria, café, um bar (que não deu certo e foi fechado) e, agora, um pequeno entreposto de sua padaria. "Às vezes me refiro ao Reserva Cultural como 'miniplex'. Ele tem a lógica parecida com a dos cinemas de shopping, mas em outra escala e com um público específico", explica o dono.

"Os frequentadores do Reserva Cultural costumam ter bom gosto, mas isso não tem nada a ver com dinheiro; na verdade, o novo-rico não vê cinema de arte de jeito nenhum", diz. "No máximo, vai almoçar no restaurante, porque é uma coisa bem vista, e acaba vendo um filme. Nesses casos, de repente consigo fisgá-lo."

Para Bernardini, a expressão "filme de arte" não ajuda a atrair público, já que "ninguém gosta de filme de arte a priori" e, na realidade, "muitas vezes chamamos de 'filme de arte' aquele que simplesmente não é americano". Como o sistema de Hollywood dominou a produção e a distribuição no mundo, grandes sucessos de bilheteria locais passam a parecer obras alternativas no mercado externo.

"Tenho amigos que começaram a frequentar meu cinema só para me agradar, mas hoje dizem: 'Sabe que não consigo mais ver um filme americano?'" O empresário se delicia com a lembrança. "Gostar de filmes menos comerciais é algo que só acontece naturalmente. Uma pessoa não pode ser forçada, isso não se ensina em cursos. Senão é como na escola, onde uma pessoa que detesta matemática é obrigada a aprender a matéria, mas nem por isso vai começar a gostar."

O projeto do Reserva Cultural - cuja realização arquitetônica, famosa pela ampla janela entre o restaurante e a rua, ficou a cargo de Naassom Ferreira Rosa - era a adaptação de uma ideia antiga, da qual o comerciante demonstra muito orgulho. No começo dos anos 1990, o empresário francês teve a ideia de construir um enorme complexo de cinemas em São Paulo, com 16 salas, algumas enormes, de até 1.400 lugares, para receber grandes sucessos de Hollywood, outras pequenas, para o cinema independente. "Teria sido um dos primeiros multiplex do mundo", afirma o idealizador.


"Vocês Ainda Não Viram Nada", de Alain Resnais, filme francês que estreia no Brasil em 22 de março pela Imovision

"Cheguei a falar com o governo do Estado, que prometeu um terreno na marginal Tietê. Encomendei um estudo de viabilidade à Fundação Getúlio Vargas (FGV), que veio com mais de 400 páginas, e o projeto a Stanislas Fiszer, arquiteto dos Arquivos Nacionais, de Paris", afirma Bernardini, que ainda guarda os documentos como recordação. "Depois o governo me enrolou e não liberou terreno nenhum", diz. Aquilo que teria sido um multiplex acabou se transformando em "miniplex", mas "quem trabalha no Brasil, estrangeiro ou não, tem que ter jogo de cintura", conclui.

O Reserva Cultural, em plena avenida Paulista, poderia servir de exemplo de empreendimento cultural que, sem vender-se à tentação puramente comercial dos blockbusters, sobrevive sem patrocínio de grandes empresas. Mas o proprietário não endossa o uso de seu espaço como exemplo, sobretudo porque a ausência de parceiro não foi uma escolha deliberada.

"Já tive várias conversas com possíveis patrocinadores, que acabaram não indo adiante, por um motivo ou outro." O empresário acrescenta que nem todo patrocinador seria interessante, apesar do aporte financeiro e da possibilidade de cobrar ingressos mais baratos. "Eu adoraria uma empresa que acrescentasse algo ao cinema, e não só colocasse a marca em troca de dinheiro." Um exemplo de parceiro ideal seria uma empresa que atuasse com tecnologia.

Muitos amantes de filmes de arte torcem o nariz com veemência para Hollywood. Os cinéfilos mais radicais talvez não imaginem que a sede da Imovision enfileira nas paredes cartazes de antigos sucessos americanos, com estrelas de outros tempos, como Elizabeth Taylor (1932-2011) e James Dean (1931-1955). O empresário confessa uma certa nostalgia. "O cinema americano mudou muito. Nos anos 50, era interessante, fez parte da nossa formação. Depois, virou puro entretenimento e afastou os cinéfilos. Ficou tudo igual: o sujeito mata sete ou oito e namora a menina mais bonita."

Enumerando na ponta dos dedos as transformações que testemunhou no audiovisual brasileiro, Bernardini se dá conta da variedade de experiências que teve. A Embrafilme foi extinta pouco depois do surgimento da empresa. Depois vieram a Lei Rouanet e a "retomada", e enfim a Lei do Audiovisual. O público aumentou algumas vezes, diminuiu em outras, ainda mais para filmes independentes. Apesar de tudo, Bernardini se diz otimista com o futuro do cinema independente no Brasil. "Trabalho com isto há 25 anos e nunca precisei trabalhar com um filme só porque ele daria dinheiro", diz. "Com todas as oscilações, pude manter a saúde da empresa."

Das três fases da cadeia do audiovisual - produção, distribuição e exibição -, Bernardini julga que a produção, justamente aquela em que ele não atua, está mais avançada. "Existem bons incentivos para produzir cinema no Brasil, mas ainda falta avançar na distribuição e na exibição. Hoje, é muito comum alguém fazer um filme e depois não conseguir mostrar, a não ser em festivais."

Embora reconheça que o mercado de distribuição melhorou de maneira geral, Bernardini considera que quem mais se beneficiou foram os filmes comerciais. Sua sugestão é que se criem mecanismos para facilitar a vida dos produtos mais difíceis. "Um filme tcheco, excelente, distribuído com uma ou duas cópias, poderia ter uma alíquota reduzida, por exemplo. Ele não é viável pagando o mesmo que produtos com muito mais escala, que podem negociar preços com os laboratórios."

O otimismo comanda o empresário a crer que o sistema vai se harmonizar de maneira favorável, e vê um exemplo a seguir em seu país natal. A França, diz Bernardini, pôde equilibrar o mercado audiovisual, com espaço para o cinema comercial e o de arte, graças a anos de debate. "O governo, produtores, distribuidores, exibidores, sentaram-se juntos e chegaram à conclusão óbvia: todos têm de sobreviver e conseguir ganhar alguma coisa", diz.

Um adversário inesperado da expansão dos cinemas de arte no Brasil foi a recente explosão dos valores imobiliários nas maiores cidades. Satisfeito com os bons resultados de seu "miniplex", Bernardini diz que gostaria de abrir mais um, mas recuou diante do preço dos aluguéis.

Em vez disso, o negócio mais recente de Bernardini é um café na Vila Madalena, onde também se vendem os pães produzidos por sua Pain de France. O cinema, porém, também é o horizonte deste empreendimento, embora gastronômico. Semanalmente, filmes distribuídos pela Imovision são exibidos de graça no café, em DVD.

"Minha única frustração com o Reserva Cultural foi ver que as pessoas não ficavam lá, discutindo, depois dos filmes. Era isso que eu queria. Espero que no Café Boulange isso aconteça!"



Glauber revigorado
Às vésperas do aniversário do cineasta, dia 14, e do cinquentenário de Deus e o diabo na terra do sol, o legado do diretor ganha dimensões inéditas. CORREIO BSB 13.02
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Em novembro de 1965, o cineasta Glauber Rocha foi preso. Participava de um protesto contra o regime militar nas imediações do tradicional Hotel Glória, no centro do Rio de Janeiro. Com ele, também foram encarcerados Carlos Heitor Cony e Márcio Moreira Alves. Cony se tornaria imortal pela Academia Brasileira de Letras. O jornalista Moreira Alves entraria para a história ao proferir em setembro de 1968, no Congresso Nacional, o duro discurso motivador do Ato Institucional nº 5, que recrudesceu ainda mais o regime militar. A Glauber Rocha coube ambas as façanhas: a imortalidade e um (longo) capítulo na história.

O legado do cineasta, cuja expressividade ainda repercute no mundo, foi ampliado. A produção intelectual — versões inéditas de roteiros, manuscritos, desenhos — é maior que a imaginada, o Tempo Glauber (principal centro de pesquisa e documentação do artista no Rio de Janeiro, fechado há dois anos) será reaberto, e um filho, fruto de uma das várias relações ocasionais de Glauber, foi descoberto em Brasília. “O mais importante para mim é chamar a atenção para a obra do meu pai”, revelou Henrique Cavalleiro, durante entrevista exclusiva ao Correio.

Foram mais de quatro décadas até a confirmação da notícia e, posteriormente, chancelada por meio de um exame de DNA (realizado em 2011) que envolveu Henrique, a filha legítima do diretor, Paloma Rocha, e a mãe de Glauber, Dona Lúcia. O resultado é incontestável: reside na capital um dos cinco filhos do mais cultuado diretor nacional. Situação reversa àquela vivenciada em 1998, quando se provou que Daniel Rocha — conhecido publicamente como filho de Glauber — era, na verdade, cria do artista gráfico e compositor Rogério Duarte, autor do cartaz do filme Deus e o Diabo na terra do sol, a mais famosa produção de Glauber, de quem era amigo pessoal.

Roteiros

Embora seja mais reconhecido como diretor, Glauber enveredou por distintas vertentes. Os escritos como jornalista são amplamente divulgados e, até hoje, pesquisados e utilizados como referência. Poucos lembram, porém, que enveredou pelo teatro (escreveu a tragédia Jango, em 1965, por exemplo) ou que era um aplicado desenhista — ferramenta para seus roteiros.

Fosse qual fosse o ofício, relacionava-se intimamente com o objeto de estudo. A dinâmica de trabalho impressionava e a persistência resultou em uma herança superior àquela conhecida pelo público em geral: “O processo de criação dele era muito célere. Há projetos de livros, filmes, que ficaram apenas no papel. O potencial dele é inacreditável”, afirma Gabriela de Souza de Queiroz, funcionária do Centro de Documentação e Pesquisa da Cinemateca Brasileira.

Em entrevista à revista francesa Positif, o próprio Glauber revelou projetos que nunca decolaram: “Escrevi diversos roteiros que não foram filmados, nos quais eu tinha dificuldades em criar personagens femininos, que são comigo sempre muito conscientes e têm influência moral ou política”, disse a Michel Ciment, em 1981.

Desde 2010, quando o Ministério da Cultura adquiriu parte do acervo do diretor, a cinemateca (domiciliada em São Paulo) trabalha na digitalização dos documentos e filmes e no consequente acesso pela população. O próprio Glauber, um ano antes da morte (em 1981), teve a iniciativa de procurar a instituição: “Ele fez uma expressiva doação, composta, principalmente, por materiais de imprensa — nacional e estrangeira — que falavam dele”, revelou Gabriela de Souza.

O catálogo com os documentos e manuscritos de Glauber na Cinemateca Brasileira pode ultrapassar 25 mil páginas. “Muita coisa ainda não chegou ao grande público”, comentou. O cabedal, dividido entre a cinemateca e o Tempo Glauber, soma mais de 50 mil itens. Material suficiente para revelar um cineasta que julgávamos, erroneamente, conhecer.

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VALOR ECONÔMICO 07.03 
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Bons líderes públicos fortalecem a AL
O motor do desenvolvimento das sociedades é a força que reside em cada uma das pessoas que as integram - na realidade, em cada uma das pessoas que formamos. VALOR ECONÔMICO 07.03 
Mas a condição necessária para que essa força gere crescimento é o bom e correto desempenho das instituições, sobretudo as públicas. Para que uma sociedade experimente longo período de desenvolvimento sustentável, suas instituições públicas precisam funcionar bem, de maneira adequada ao papel que lhes é correspondente e desempenhando esse papel com transparência e eficiência.

As crises institucionais quase sempre ocupam um lugar de destaque quando estudamos as razões das crises econômicas e sociais. A crise na qual boa parte do mundo está imersa hoje é prova disso. Qual a relação entre a resistência da América Latina à crise financeira e o bom funcionamento de suas instituições bancárias e regulatórias? Que parte da solução dos problemas europeus depende do que acontecerá com as jovens instituições da União Europeia?

O ex-presidente chileno Ricardo Lagos abordou algumas dessas questões na Brown University, durante a inauguração da primeira edição do Programa de Fortalecimento da Gestão Pública na América Latina da Fundação Botín. Para ele, a crise financeira mostrou que a solução está na política. Assim, para onde foi direcionado nosso olhar em busca de soluções? Para as instituições públicas, fundamentalmente.

Para que uma sociedade experimente longo desenvolvimento sustentável, suas instituições públicas precisam funcionar bem, de maneira adequada ao papel que lhes é correspondente e desempenhando esse papel com transparência e eficiência.

Por isso, temos um desafio urgente: conseguir que nossos melhores profissionais se dediquem ao serviço público, comprometidos com o desenvolvimento de suas sociedades para servi-las, precisamente, desde as instituições.

É importante identificar os melhores jovens universitários que têm essa vocação. É fundamental que eles sejam bons, e que estejam entre os melhores. Não apenas por que assim eles terão mais impacto em seus locais de atuação, mas também porque eles poderão contagiar positivamente o ambiente em seu entorno.

A tarefa não é fácil. Pesquisa da Fundação Botín realizada em dezembro de 2012 sobre "O Prestígio da Profissão" apontou que, entre 100 funções, duas das menos valorizadas foram as de deputado ou funcionário público. A amostra de 1 mil entrevistados reflete de modo eloquente que essas duas profissões estavam entre as 15 mais desvalorizadas, muito atrás de médicos, engenheiros, professores, administradores, jornalistas, advogados ou psicólogos.

Mesmo assim, sabemos que há muitos profissionais interessados na área de gestão pública. Seria suficiente então apenas detectar essas vocações e cuidar para que elas sejam concretizadas em compromissos e decisões pessoais? Isso não é o bastante, pois essa não é uma tarefa simples. É preciso dar a esses estudantes as ferramentas para que, no futuro, quando eles se tornarem servidores públicos, imprimam em suas instituições eficácia e transparência. Precisamos ajudar esses profissionais a treinarem os músculos que eles utilizarão no exercício de suas profissões.


Os conhecimentos necessários foram adquiridos por esses jovens em suas universidades. Mas devemos ajudá-los a encontrar bases éticas sólidas, a desenvolver sua inteligência emocional e social, e a trabalhar em rede. A ética, além de sólida, precisa ser prática, útil. É preciso que eles saibam antes quais dilemas vão encontrar, e ter à mão argumentos e motivos para solucioná-los colocando o interesse geral antes do particular quando lhes forem apresentadas ocasiões para fazer o contrário.

As inteligências emocional e social serão necessárias para que esses profissionais possam se conhecer e se gerenciar, para reconhecer e resistir à frustração quando a sofrerem, para detectar a euforia ou o medo quando precisarem usar esses sentimentos em seu favor, para que se atrevam a inovar, colocar-se no lugar do outro e chegar a acordos. Há 20 anos não sabíamos o quão importante era tudo isto, mas hoje sabemos que isso não pode ser deixado de lado em nenhuma profissão, e de nenhum modo no serviço público.

Desde que Manuel Castells escreveu seu famoso livro "A Sociedade em Rede", a realidade seguiu lhe dando razão. Somos redes, e trabalhar em rede - dividindo conhecimentos, oportunidades, problemas e projetos - é multiplicar o fruto dos esforços. Se conseguirmos que alguns destes futuros servidores públicos da América Latina estejam e trabalhem em redes que transcendam seus países, multiplicaremos a eficiência de qualquer estratégia de fortalecimento das instituições.

Detectar aqueles que, entre os melhores estudantes da América Latina, têm vocação para o serviço público, cuidar dessa vocação para que ela seja convertida em compromisso, e ajudar a esses futuros servidores públicos a desenvolver as ferramentas que lhes permitirão ser eficazes e eficientes são os objetivos do Programa de Fortalecimento da Gestão Pública da Fundação Botín.

Iñigo Sáenz de Miera é diretor-geral da Fundação Botín para o fortalecimento da gestão pública na América Latina



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