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O professor de
literatura italiano Nuccio Ordine
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segunda-feira, 7 de março de 2016
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O conhecimento é um valor em si,
defende o italiano Nuccio Ordine
ÚRSULA
PASSOS
FOLHA DE SP 06/03/2016 02h03
RESUMO O professor de literatura italiano Nuccio
Ordine, estudioso de Giordano Bruno, lança no Brasil livro em que defende o
saber como única maneira de desafiar as leis do mercado e o utilitarismo que
dominam a sociedade atual. O intelectual, 58, fala sobre conhecimento,
resistência, estudos clássicos, crise e ensino.
*
Não é útil apenas o que gera lucro ou tem uma
finalidade prática imediata; o que muitos acreditam ser inútil pode ser, na
verdade, indispensável à humanidade. É o que defende Nuccio Ordine em "A
Utilidade do Inútil - Um Manifesto" [trad. Luiz Carlos Bombassaro, Zahar,
224 págs., R$ 39,90], que acaba de sair no Brasil.
Apesar do subtítulo, o livro não é exatamente um
manifesto em sua forma, mas é composto de duas partes em florilégio –antologia
de citações comentadas– e uma, a central, em que Ordine dialoga com textos como
"Sem Fins Lucrativos" (WMF Martins Fontes), da filósofa americana
Martha Nussbaum, sobre a transformação da educação em comércio.
No livro, o italiano, professor de literatura,
especialista na obra de Giordano Bruno (1548-1600), apresenta diversos trechos
de outros autores, de Aristóteles e Ovídio a Foster Wallace e Ionesco, para
mostrar como a filosofia, o teatro, a música e outras faces da cultura são
essenciais à humanidade ainda que vivamos numa sociedade marcada pelo
utilitarismo, na qual os interesses e as trocas são sempre validadas pelo valor
monetário e de uso prático imediato.
Ordine está no Brasil nesta semana para o lançamento
do livro, traduzido em 18 idiomas, e fará conferências em São Paulo, nesta
terça (8), em Caxias do Sul, Porto Alegre e Campinas. Em entrevista por
telefone de sua casa na Itália, ele fala sobre como resistir ao utilitarismo, a
importância do estudo dos clássicos e sobre educação.
*
Folha - Como o conhecimento pode ser uma resistência
ao utilitarismo?
Nuccio Ordine - O conhecimento pode ser uma forma de
resistência por três motivos. O primeiro é: com dinheiro podemos comprar tudo.
Na Itália, com dinheiro compram-se parlamentares, juízes, sucesso na televisão;
a única coisa que não se pode comprar com dinheiro é o saber, porque demanda um
esforço que ninguém pode fazer em nosso lugar. O conhecimento reside exatamente
no esforço que fazemos para aprender, que nos permite ser o que somos.
Wittgenstein dizia que não tinha orgulho das coisas
que aprendeu, mas do esforço que fez para aprender. E era esse esforço o que
dava a ele o direito à fala.
O segundo motivo é a cultura poder colocar em xeque
a regra principal do comércio e do utilitarismo. Em cada ação comercial sempre
há uma perda e um ganho; se eu quero comprar uma garrafa de água, eu perco meu
dinheiro e pego a água, o comerciante perde a água e ganha o dinheiro. Mas,
todos os dias, nas escolas do mundo todo, há um pequeno milagre. Posso ensinar
sem perder o que ensino e, ao mesmo tempo, posso aprender com meus alunos.
O terceiro motivo vem da anedota contada pelo
irlandês George Bernard Shaw (1856-1950). Dois estudantes saem de casa com uma
maçã, se encontram na universidade, trocam as maçãs, e, no fim do dia, voltam
para casa cada um com uma maçã. Mudemos então a perspectiva; imaginemos que
dois estudantes saiam de casa cada um com uma ideia, se encontram na
universidade, trocam as ideias, e eles chegarão em casa cada um com duas
ideias. A cultura pode enriquecer todos os protagonistas.
Meu livro é pessimista porque é sobre a força que o
utilitarismo tem hoje e, por outro lado, é otimista, porque a cultura pode ser
uma forma de resistência a ele.
O sr. diz que o saber tem um preço, ainda que não
monetário. Qual é o preço do conhecimento?
Basta ler uma passagem muito bonita de "O
Banquete", de Platão. Agatão se aproxima de Sócrates e diz que gostaria de
adquirir o seu saber. Sócrates, então, diz a ele que o saber não se transmite
pela aproximação, do que está mais cheio para o mais vazio, mas que o saber
demanda um esforço.
É preciso fazer esse esforço, reservar um tempo,
refletir, se fechar num quarto e ler na solidão e no silêncio; sobretudo, é
preciso respeitar a regra da lentidão, e não a da rapidez. Então esse preço que
é preciso pagar pelo conhecimento, na nossa sociedade, demanda uma visão oposta
à corrente, porque hoje a regra principal é a rapidez. Estamos sempre sendo
atrapalhados pelo barulho do celular, da televisão, dos computadores, os jovens
não conseguem um momento para se recolher, para se concentrar e ler lentamente.
O que escrevi é também uma crítica à pedagogia
moderna, que quer ensinar os jovens pelo jogo, pela superficialidade, sem
demandar esforço. É um erro enorme, o saber não é um dom, é uma conquista
cotidiana que é preciso fazer.
Na sociedade como descrita pelo sr., que visa apenas
ao lucro, que papel têm a desempenhar artistas, humanistas e cientistas?
Uma batalha muito importante. Eu quero dizer aos
homens de ciências, aos colegas, que é preciso lutar no mesmo front. Nos anos
1950 houve uma separação entre as ciências humanas e as ciências da natureza,
entre os humanistas e os cientistas. Hoje a batalha é contra o utilitarismo. No
domínio das ciências, só se dá dinheiro para a pesquisa aplicada, que deve
chegar a um produto que possa ser vendido no mercado.
Os cientistas e homens de ciência devem reivindicar
que precisamos de saberes não imediatamente traduzíveis em lucro. Se não damos
dinheiro para a pesquisa fundamental, teórica, grandes revoluções na história
da humanidade não se darão mais. Quem inventou o rádio? Guglielmo Marconi. Mas
ele não teria inventado nada sem os trabalhos fundamentais de Maxwell e Hertz.
Se alguém tivesse perguntado a eles para que servem as ondas eletromagnéticas
eles teriam respondido: de nada servem, só para conhecer.
O lucro deve ser um meio para mudar a vida dos
trabalhadores, dos donos de empresas, mas também do entorno. Se o capitalismo é
agressivo e quer fazer dinheiro imediatamente, como vimos na Alemanha no caso
Volkswagen, se é ávido, ganancioso, vai levar à morte total do próprio
capitalismo.
Embora o sr. diga no livro que o conhecimento não
tem finalidade, há aqueles usam o conhecimento para subjugar outros. Como
evitar isso?
É preciso ver como nos relacionamos com a cultura,
talvez de uma forma superficial, baseada na aparência –eu posso ir ao teatro, a
um concerto de música clássica porque, em determinados meios, isso me dá
visibilidade, mas não é indo a um concerto que eu posso operar verdadeiramente
uma revolução em mim. O mesmo vale para escola. Eu posso ir à escola, ter
diploma universitário, mas não é ele que me faz cultivado, o que me faz
cultivado é o espírito com o qual eu faço esse percurso.
Eu sempre digo aos meus estudantes: se vocês estudam
o "Dom Quixote" de Cervantes, a "Divina Comédia" de Dante,
Shakespeare, para conseguir uma nota na universidade, isso não serve para nada.
Porque essa leitura visando a uma nota, a um diploma, não opera nenhuma revolução
em seu interior. Ao contrário, se eu me aproximo de um clássico com vontade de
conhecer, com alegria de ler, com a certeza de que um trecho de Shakespeare
pode me ajudar a compreender o mundo no qual eu vivo, então essa leitura
operará uma revolução em meu interior e, depois, me permitirá ser melhor. E,
assim, quando eu for melhor, eu também poderei ganhar uma nota boa, conseguir
um diploma, mas é um efeito, não é o objetivo.
Hoje, infelizmente, as escolas e as universidades
viraram empresas que vendem diplomas, e os alunos, clientes que compram
diplomas; nessa perspectiva, nesse espírito de comércio, as ideias de cultura,
de conhecimento e de educação são destruídas.
Qual o papel do professor no gosto pela leitura e
pelos clássicos?
Há uma estupidez enorme nas reformas que estão sendo
feitas em países da Europa, segundo a ideia de que a escola moderna deve ser
conectada, com internet em todo lugar, e que o estudante tenha um tablet ou um
computador diante de si. Isso é uma estupidez enorme. A escola moderna não é a
conexão, a tecnologização, mas a escola com bons professores, porque eles geram
bons alunos.
Se o professor não ensina com paixão, se não tem a
humildade de preparar a cada dia seu curso, se entra numa classe e fica olhando
o relógio porque deve sair para uma reunião de departamento da faculdade para
tratar de dinheiro, para preencher papéis, isso é um crime. Os estudantes, se
colocados diante de um professor que não ensina com paixão, não terão nenhuma
paixão.
Outro erro é perguntar para alunos de 12, 13 anos
qual profissão querem ter. E baseado na resposta é preciso escolher a escola de
ensino médio, a universidade. Queremos que os alunos se especializem e escolham
um trabalho muito cedo, mas é uma forma de corromper o aluno. Eles deveriam
pensar apenas em absorver o saber, em se tornarem pessoas melhores. A
especialização mata a curiosidade e, assim, matamos toda a possibilidade de
criar um aluno que possa aumentar seu saber.
O sr. fala do ensino do latim e grego. Alguns
países, como a França, estão discutindo a manutenção das línguas clássicas no
currículo. Qual a importância de seu aprendizado?
Estamos assistindo ao desaparecimento programado das
línguas clássicas no ensino. Em países como Itália, França, Alemanha, começamos
a marginalizar o latim e o grego porque precisamos responder: para que serve?
Essa questão é mal colocada porque não podemos colocar na mesma balança o grego
e latim e, do outro lado, por exemplo, o inglês.
Não estudamos latim e grego para falar, mas porque é
uma forma de educação à lógica, ao rigor, uma postura para compreender de onde
vem nosso saber. Praticamente todas as questões que discutimos em filosofia, na
ciência, na vida social, vêm da Grécia.
A Coreia do Sul, por exemplo, entendeu que, sem as
humanidades, não temos a possibilidade de fazer progredir a ciência e a
tecnologia, porque elas necessitam da criatividade, que vem exatamente da
fantasia e da imaginação.
Imaginemos a humanidade daqui a 100, 150 anos,
quando os últimos conhecedores dessas línguas, como também o sânscrito, estiverem
mortos; mais ninguém será capaz de lê-las, de ler uma inscrição numa descoberta
arqueológica, um manuscrito, coisas importantes da história da humanidade.
Sem memória não há conhecimento nem identidade. O
passado é fundamental para compreender o presente e o futuro. Se matamos as
disciplinas humanistas e as línguas clássicas, criamos o deserto do espírito, e
nele podemos ver o egoísmo, a intolerância, as guerras de religião, a violência
e todas as coisas ruins que vimos na história se multiplicarem ainda mais.
Em tempos de crise, quando é preciso fazer uma lista
de prioridades, como assegurar que a cultura não fique de fora dessa lista?
Num momento da história, penso na Itália, que eu
conheço bem, a escola era uma espécie de elevador social. Eu, que vinha de uma
família modesta, ou meus professores, que vinham de famílias modestas, pelo
fato de terem frequentado o ensino médio, a universidade, tiveram a
possibilidade de progredir socialmente, financeiramente, nos degraus, digamos,
do sistema social. Hoje está cada vez mais difícil.
Eu preciso dizer que essa crise não é econômica, é
moral. Imagine o que poderíamos fazer com o dinheiro da corrupção e da evasão
fiscal. Pela saúde, pela educação. É importante que se entenda que investir em
cultura é uma forma de melhorar a humanidade. A corrupção não é combatida
apenas com leis, é preciso formar alunos capazes de resistir à corrupção. Não
podemos aceitar que roubem o dinheiro que poderia ser investido para melhorar a
humanidade.
ÚRSULA PASSOS, 28, é redatora da "Ilustríssima".
.
O tardio perdão aos povos originários pelo papa
Francisco
Papa pediu
perdão pelos séculos de dominação e de de sofrimento
POR LEONARDO
BOFF
1/03/2016 ÀS
21:38 PM
Foi memorável a
data de 15 de fevereiro de 2016, quando o papa Francisco esteve na cidade
colonial San Cristóbal de las Casas,
capital do estado mais pobre do México, Chiapas, lá onde em 1994 irrompeu a
rebelião dos zapatistas que perdurou até 2005. Encontrou-se com os povos
originários, maias, quichés e outros. Diante de cem mil pessoas celebrou missa
utilizando as línguas deles.
Foi uma visita
de dupla reparação. Primeiro aos povos originários, pedindo perdão pelos
séculos de dominação e de de sofrimento: “Muitas vezes, de maneira sistemática
e estrutural, os vossos povos foram alvo de incompreensão e excluídos da
sociedade. Alguns consideraram inferiores seus valores, cultura e tradições,
(…) e isso é muito triste. O que nos faria bem, a todos nós, seria um exame de
consciência e aprender a pedir perdão.”
Ecoam ainda aos
nossos ouvidos as palavras comovedoras do profeta maia Chilam Balam de
Chumayel: “Ai entristeçamo-nos porque chegaram… vieram fazer nossas flores
murchar para que somente a sua flor vivesse; entre nós se introduziu a
tristeza, veio o cristianismo; esse foi o princípio de nossa miséria, o
princípio de nossa escravidão.”
O impacto da
invasão dos espanhóis foi tão violenta que dos 22 milhões de astecas existentes
em 1519 quando Hernán Cortés penetrou no México, só restou em 1600 apenas um
milhão de pessoas. Muitos morreram em guerras e a grande maioria por doenças
dos europeus contra as quais não tinham imunidade. Foi um dos maiores
genocídios da história humana. Os colonizadores sujeitaram os corpos, os
missionários conquistaram as almas. Na linguagem de um indígena do século XVI,
os espanhóis, todos cristãos, “foram o anti-cristo na Terra, o tigre dos povos,
o sugador do índio”.
Agora nos vem
um papa da América Latina que não escamoteia, como sempre se fez pela Igreja
oficial e pela Espanha, esta devastação de inteiras nações. Reconhece os
pecados e abusos e pede perdão.
Fez uma segunda
reparação: o resgate do bispo Dom Samuel Ruiz García, incompreendido pela
hierarquia mexicana, em grande parte conservadora e literalmente perseguido
pelo Vaticano por introduzir diáconos indígenas e por colocar as bases de uma
“igreja indígena” que combinava elementos de Catolicismo e da cultura autóctone
que inclui ramos de pinheiros, ovos e referências a Deus como Pai e como Mãe. O
papa reconheceu as três línguas principais como línguas litúrgicas: chol,
tzotzil e tzeltal. Deteve-se diante do túmulo de Dom Samuel Ruiz e rezou
longamente.
Mais ainda. O
papa reconhece a grande contribuição que podem dar ao mundo pela forma como
tratam a Pacha Mama, com respeito, veneração e harmonia. Retoma o discurso da
encíclica sobre o “Cuidado da Casa Comum” e diz enfaticamente: “Não podemos
permanecer indiferentes perante uma das maiores crises ambientais da história.
Nisto, vós tendes muito a ensinar-nos. Os vossos povos, como reconheceram os
bispos da América Latina, sabem relacionar-se harmoniosamente com a natureza,
que respeitam como fonte de alimento, casa comum e altar do compartilhar
humano.”
Acrescenta
ainda: “Entre os pobres mais abandonados e maltratados está o nosso oprimido e
devastado planeta. Não podemos fazer-nos surdos face a uma das maiores crises
ambientais da história.” E novamente convoca esses povos originários a serem
referência viva de um outro modo de habitar a Casa Comum, de produzir, de
distribuir e de consumir em consonância com os ritmos da natureza e na equidade
na participação dos bens e serviços naturais.
De minhas
andanças pelos vários países latino-americanos constato dois fenômenos
visíveis: o resgate biológico dos povos originários. Eles estão crescendo em
número e refazendo sua população, outrora quase exterminada. E o segundo é a
reconquista de sua cultura com suas religiões com e sua sabedoria ancestral,
transmitida pelas “abuelas e abuelos” (as avós e os avôs), de geração em
geração. É uma experiência inolvidável participar de suas celebrações dirigidas
pelos seus sacerdotes, sacerdotisas e sábios. Aí se sente uma profunda
sacralidade e comunhão com todos os elementos do universo, da natureza e da Mãe
Terra.
Eles não são
filhos da modernidade secularizada. Guardam a sagrada veneração por todas as
coisas. Sentem-se filhos e filhas das estrelas e em profunda comunhão com os
ancestrais. Estes são apenas invisíveis mas estão presentes, acompanhando o
povo com seus conselhos transmitidos pelos anciãos e pelos sábios.
Devemos
revistar estas culturas ancestrais. Nela estão vivos princípios e valores que
nos poderão inspirar formas de superar a nossa crise de civilização e garantir
o nosso futuro.
(Leonardo Boff
é articulista do JB on line e escreveu “América Latina: da conquista à nova
evangelização”, Vozes 1992)
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
.
Para ficar em dia com a leituraSete romances recém-lançados reúnem
o melhor da produção em língua portuguesa
publicada nos últimos meses
FONTE: CORREIO BRAZILIENSE 08.12.15
.
O
segundo semestre de 2015 foi generoso com a literatura em língua brasileira.
Nos últimos dois meses, uma leva de pelo oito novos romances de autores
nacionais e dois de lusófonos (Mia Couto e José Luis Peixoto) chegam às
livrarias e merecem um olhar mais empolgado do leitor. Muitos deles podem
aparecer nas listas de finalistas dos prêmios literários de 2016. Para quem
quiser ficar em dia com a produção nacional e marcar gol na hora de conferir os
premiados, a hora de começar a leitura é agora. O Diversão & Arte fez uma
seleção de títulos que representam o melhor na literatura nacional (e alguns
queridinhos de língua portuguesa) para guiar os aficionados nas leituras de fim
de ano.
Mulheres de cinzas
De Mia Couto. Companhia das Letras, 344 páginas.
R$ 39,90
É na história de um Moçambique colonial que Mia Couto foi buscar o material para este primeiro volume de uma trilogia sobre o último imperador a dominar o Estado de Gaza, então parte da colônia portuguesa. Conhecido como Gungunhane, o personagem histórico travou batalhas com os portugueses para tentar manter o domínio da região. No livro, a trama central é o encontro entre um sargento e uma intérprete de uma tribo rival à de Gungunhane.
Antes que seque
De Marta Barcellos. Record, 192 páginas. R$ 32
Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e estreia na ficção da jornalista Marta Barcellos, Antes que seque fala de mulheres, de seu papel na sociedade, das cobranças comuns, dos anseios diante da maternidade e de outros medos, receios e resignações. Em tom muitas vezes irônico, a autora carioca desfila histórias em tom de crítica diante do que é esperado pela sociedade quando se trata do universo feminino. Uma mãe que queria tanto os bebês, mas não sobrevivia sem babá, outra que não sabe o que fazer diante do ódio da filha, a dificuldade de engravidar e outras situações são as matérias-primas de Marta.
A realidade devia ser proibida
De Maria Clara Drummond.
Companhia das Letras, 106 páginas. R$ 23,90
“Um dia vou escrever um livro sobre essas pessoas”, avisa Eva, logo no início de A realidade devia ser proibida. “Essas pessoas” são exatamente o tema desta pequena narrativa, o segundo romance da carioca Maria Clara Drummond. Eva é uma jovem que cresceu entre a mãe controladora e conservadora e o pai casado com uma milionária. As pessoas sobre a qual a narradora desfia considerações para lá de críticas são jovens que, como ela, vêm de um meio privilegiado e trazem no discurso um certo desprezo por tudo que é estranho a seu mundo. Mas Eva consegue enxergar a superficialidade e a banalidade das situações, o que faz da personagem uma figura interessante e curiosa.
Um mapa todo seu
De Ana Maria Machado. Alfaguara, 224 páginas. R$ 39,90
É no cais, antes de subir no Chimborazo, que Quincas avista Zizinha pela primeira vez. “Esguia, de porte altivo”, a moça chama logo a atenção do rapaz. E começa ali uma história que se tornaria de amor e revelaria uma personagem de personalidade empreendedora e surpreendentemente influente para uma mulher naqueles últimos anos de século 19. Zizinha é, na verdade, Eufrásia Teixeira Leite, neta do barão de Itambé, herdeira milionária e empresária que, graças à fortuna da família, trocou o Brasil por Paris e fez da capital francesa a sede de uma série de negócios bem-sucedidos. Quincas é Joaquim Nabuco, com quem Eufrásia teria tido um relacionamento amoroso por mais de 10 anos. O romance histórico de Ana Maria Machado troca os nomes dos personagens, mas é de Eufrásia e Nabuco que a autora fala. Os dois se conheceram no navio que levou Eufrásia de vez para a Europa. Nabuco era, então, diplomata imerso em carreira política e defensor da abolição da escravatura. Além de ter sido presidente da Academia Brasileira de Letras e ser autora de mais de cem livros, Ana Maria carrega ainda uma lista de premiações, que incluem o Prêmio Machado de Assis (pelo conjunto da obra), o Hans Christian Andersen, o Prêmio Jabuti e o Casa de Las Américas.
Luxúria
De Fernando Bonassi. Record, 368 páginas. R$ 40
Num impulso, um metalúrgico compra uma piscina para ser instalada no quintal de casa em bairro de classe média baixa, o mesmo no qual residências foram incrementadas graças ao crédito fácil e carros foram comprados a prestação. É a prosperidade do consumo, símbolo de uma distribuição de renda que deixou para trás a educação e apostou no poder aquisitivo como caminho de reforma social. Mal sabia o metalúrgico que a crise da água se aproximava e que São Paulo logo se veria confrontada com o drama do racionamento. Fernando Bonassi é implacável. O oitavo romance do escritor paulistano natural da Mooca mergulha na ferida brasileira, assim como a fala do autor. “Esse operário representa quem luta por um prato de comida, e o que de pior nós da esquerda fizemos para o país, ao legar frustração, mais uma vez a pura e simples frustração. Uma geração de cidadãos achou que “chegara lá”, mas onde chegou de fato foi só à porta dos cartórios de protestos. Claro que houve melhora: mas foi cosmética”, lamenta. “De pessoas sem direitos, fomos guindados a condição de cidadãos devedores. E o caldo de cultura disso é a violência. Violência cotidiana, no varejo: uma Faixa de Gaza por semana, em São Paulo.” O primeiro romance de Bonassi, Um céu de estrelas, foi adaptado para o cinema por Jean-Claude Bernadet e muitas de suas peças ganharam o palco em montagens do premiado Teatro da vertigem.
O amor das sombras
De Ronaldo Correia de Brito. Alfaguara, 224 páginas. R$ 44,90
Depois de Galileia, considerado o melhor romance brasileiro de 2008 e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, e Estive lá fora, publicado em 2012, Ronaldo Correia de Brito sentiu desejo de retornar aos contos que povoaram sua estreia literária em 1989. O amor das sombras reúne histórias nas quais a tragédia — iminente ou efetivada — é um fantasma constante. “As narrativas estão impregnadas de memória, esquecimento, solidão, amores frustrados, pensamentos sobre a morte e muitas sensações, sobretudo as do olfato. Um dos meus críticos anotou que a atmosfera única e as histórias dentro de histórias fazem lembrar As mil e uma noites”, avisa Brito, médico nascido há 64 anos em Saboeiro, no sertão cearense de Inhamuns. As mesmas temáticas presentes nos romances reaparecem entrelaçadas nas histórias dos personagens dos 12 contos. É uma contaminação consciente e necessária. “Eu tenho um projeto de escrita, nada do que escrevo é aleatório. Nesse projeto, tento unir os fios narrativos dos romances, contos, novelas e teatro. Até minhas crônicas e ensaios reaparecem dentro dos livros que escrevo”, diz o autor. O mesmo assassinato que pontua as narrativas de Galileia e Estive lá fora reaparece, por exemplo, no último conto de O amor das sombras.
Galveias
De José Luis Peixoto. Companhia das Letras, 272 páginas. R$ 44,90
Uma coisa “sem nome” cai do céu e se estatela em Galveias, um pequeno vilarejo do interior de Portugal cujos habitantes acabam extremamente perturbados pelo acontecido. É em torno desse misterioso fato que os encontros, desencontros e confrontos vão acontecer. Um Portugal rural no qual a tradição se vê ameaçada pela modernidade é uma das preocupações neste romance de José Luis Peixoto, um dos nomes mais importantes da literatura contemporânea portuguesa. “Desde o meu primeiro romance que tenho escrito sobre o Alentejo, assim como sobre a interioridade e a ruralidade portuguesa”, avisa o autor, que já foi finalista de prêmios como o Portugal Telecom e o francês Femina.
Mulheres de cinzas
De Mia Couto. Companhia das Letras, 344 páginas.
R$ 39,90
É na história de um Moçambique colonial que Mia Couto foi buscar o material para este primeiro volume de uma trilogia sobre o último imperador a dominar o Estado de Gaza, então parte da colônia portuguesa. Conhecido como Gungunhane, o personagem histórico travou batalhas com os portugueses para tentar manter o domínio da região. No livro, a trama central é o encontro entre um sargento e uma intérprete de uma tribo rival à de Gungunhane.
Antes que seque
De Marta Barcellos. Record, 192 páginas. R$ 32
Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e estreia na ficção da jornalista Marta Barcellos, Antes que seque fala de mulheres, de seu papel na sociedade, das cobranças comuns, dos anseios diante da maternidade e de outros medos, receios e resignações. Em tom muitas vezes irônico, a autora carioca desfila histórias em tom de crítica diante do que é esperado pela sociedade quando se trata do universo feminino. Uma mãe que queria tanto os bebês, mas não sobrevivia sem babá, outra que não sabe o que fazer diante do ódio da filha, a dificuldade de engravidar e outras situações são as matérias-primas de Marta.
A realidade devia ser proibida
De Maria Clara Drummond.
Companhia das Letras, 106 páginas. R$ 23,90
“Um dia vou escrever um livro sobre essas pessoas”, avisa Eva, logo no início de A realidade devia ser proibida. “Essas pessoas” são exatamente o tema desta pequena narrativa, o segundo romance da carioca Maria Clara Drummond. Eva é uma jovem que cresceu entre a mãe controladora e conservadora e o pai casado com uma milionária. As pessoas sobre a qual a narradora desfia considerações para lá de críticas são jovens que, como ela, vêm de um meio privilegiado e trazem no discurso um certo desprezo por tudo que é estranho a seu mundo. Mas Eva consegue enxergar a superficialidade e a banalidade das situações, o que faz da personagem uma figura interessante e curiosa.
Um mapa todo seu
De Ana Maria Machado. Alfaguara, 224 páginas. R$ 39,90
É no cais, antes de subir no Chimborazo, que Quincas avista Zizinha pela primeira vez. “Esguia, de porte altivo”, a moça chama logo a atenção do rapaz. E começa ali uma história que se tornaria de amor e revelaria uma personagem de personalidade empreendedora e surpreendentemente influente para uma mulher naqueles últimos anos de século 19. Zizinha é, na verdade, Eufrásia Teixeira Leite, neta do barão de Itambé, herdeira milionária e empresária que, graças à fortuna da família, trocou o Brasil por Paris e fez da capital francesa a sede de uma série de negócios bem-sucedidos. Quincas é Joaquim Nabuco, com quem Eufrásia teria tido um relacionamento amoroso por mais de 10 anos. O romance histórico de Ana Maria Machado troca os nomes dos personagens, mas é de Eufrásia e Nabuco que a autora fala. Os dois se conheceram no navio que levou Eufrásia de vez para a Europa. Nabuco era, então, diplomata imerso em carreira política e defensor da abolição da escravatura. Além de ter sido presidente da Academia Brasileira de Letras e ser autora de mais de cem livros, Ana Maria carrega ainda uma lista de premiações, que incluem o Prêmio Machado de Assis (pelo conjunto da obra), o Hans Christian Andersen, o Prêmio Jabuti e o Casa de Las Américas.
Luxúria
De Fernando Bonassi. Record, 368 páginas. R$ 40
Num impulso, um metalúrgico compra uma piscina para ser instalada no quintal de casa em bairro de classe média baixa, o mesmo no qual residências foram incrementadas graças ao crédito fácil e carros foram comprados a prestação. É a prosperidade do consumo, símbolo de uma distribuição de renda que deixou para trás a educação e apostou no poder aquisitivo como caminho de reforma social. Mal sabia o metalúrgico que a crise da água se aproximava e que São Paulo logo se veria confrontada com o drama do racionamento. Fernando Bonassi é implacável. O oitavo romance do escritor paulistano natural da Mooca mergulha na ferida brasileira, assim como a fala do autor. “Esse operário representa quem luta por um prato de comida, e o que de pior nós da esquerda fizemos para o país, ao legar frustração, mais uma vez a pura e simples frustração. Uma geração de cidadãos achou que “chegara lá”, mas onde chegou de fato foi só à porta dos cartórios de protestos. Claro que houve melhora: mas foi cosmética”, lamenta. “De pessoas sem direitos, fomos guindados a condição de cidadãos devedores. E o caldo de cultura disso é a violência. Violência cotidiana, no varejo: uma Faixa de Gaza por semana, em São Paulo.” O primeiro romance de Bonassi, Um céu de estrelas, foi adaptado para o cinema por Jean-Claude Bernadet e muitas de suas peças ganharam o palco em montagens do premiado Teatro da vertigem.
O amor das sombras
De Ronaldo Correia de Brito. Alfaguara, 224 páginas. R$ 44,90
Depois de Galileia, considerado o melhor romance brasileiro de 2008 e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, e Estive lá fora, publicado em 2012, Ronaldo Correia de Brito sentiu desejo de retornar aos contos que povoaram sua estreia literária em 1989. O amor das sombras reúne histórias nas quais a tragédia — iminente ou efetivada — é um fantasma constante. “As narrativas estão impregnadas de memória, esquecimento, solidão, amores frustrados, pensamentos sobre a morte e muitas sensações, sobretudo as do olfato. Um dos meus críticos anotou que a atmosfera única e as histórias dentro de histórias fazem lembrar As mil e uma noites”, avisa Brito, médico nascido há 64 anos em Saboeiro, no sertão cearense de Inhamuns. As mesmas temáticas presentes nos romances reaparecem entrelaçadas nas histórias dos personagens dos 12 contos. É uma contaminação consciente e necessária. “Eu tenho um projeto de escrita, nada do que escrevo é aleatório. Nesse projeto, tento unir os fios narrativos dos romances, contos, novelas e teatro. Até minhas crônicas e ensaios reaparecem dentro dos livros que escrevo”, diz o autor. O mesmo assassinato que pontua as narrativas de Galileia e Estive lá fora reaparece, por exemplo, no último conto de O amor das sombras.
Galveias
De José Luis Peixoto. Companhia das Letras, 272 páginas. R$ 44,90
Uma coisa “sem nome” cai do céu e se estatela em Galveias, um pequeno vilarejo do interior de Portugal cujos habitantes acabam extremamente perturbados pelo acontecido. É em torno desse misterioso fato que os encontros, desencontros e confrontos vão acontecer. Um Portugal rural no qual a tradição se vê ameaçada pela modernidade é uma das preocupações neste romance de José Luis Peixoto, um dos nomes mais importantes da literatura contemporânea portuguesa. “Desde o meu primeiro romance que tenho escrito sobre o Alentejo, assim como sobre a interioridade e a ruralidade portuguesa”, avisa o autor, que já foi finalista de prêmios como o Portugal Telecom e o francês Femina.
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