segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Manchetes do Edu
Chorinho de
menino
Ian Coury, de 11 anos, toca todos os domingos em um café na
Asa Norte. Há quem se espante com a pouca idade, mas todos se rendem ao seu
talento
CORREIO BSB 15.09
Yan Coury se encantou com o bandolim depois de assistir a
um show de Armandinho Macêdo
Admiradores da boa música ficam rendidos com o som extraído
do bandolim por Ian Coury, 11 anos. Os dedos se movem rapidamente no braço do
instrumento colado ao peito de menino. O garoto encanta os frequentadores do
Café do Chef (108 norte) no domingo à tarde. Quando começou ali, há quatro
meses, era acompanhado apenas pelo pai, ao pandeiro, e por um amigo, ao violão.
Hoje, a roda de choro em volta do jovem talento aumentou. Músicos aproveitam a
oportunidade para praticar, trocar experiências e se divertirem. O maestro
dessa brincadeira traz a leveza da infância e convida quem passa a ficar para
ouvir.
“Maravilhoso! Um garoto tão novo tocando daquele jeito é
impressionante”, fala Katherine Limonge, cliente conquistada pela música da
turma. Não foi só o número de músicos que aumentou no últimos meses. A
clientela tem sido atraída pelo bom som. “Todo mundo gosta muito. Estamos até
pensando em fechar mais tarde aos domingos devido aos pedidos”, comenta Nádia
Carvalho, gerente do café.
Tristeza só no nome. O choro ou chorinho é um ritmo que
expressa a alma do brasileiro. É uma música boa, alegre e cheia de sentimento,
segundo Hamilton de Holanda, um dos maiores nomes dessa escola e o grande ídolo
de Ian Coury. Não é o estilo preferido da maioria dos jovens, muito menos das
crianças. Tanto Ian quanto outros talentos da música brasileira seguem os
passos de quem fez e faz história com o choro e preservam a cultura do país.
Quem mostrou o chorinho para Ian foi Carlos, o pai, um dos exemplos que o
menino segue.
Hamilton de Holanda também começou a tocar ainda pequeno.
“Fico feliz de saber que ele vem estudando música, mas sem deixar de brincar
com ela. E tem que ser assim mesmo nessa idade, fazer algo mais lúdico. Pela
musicalidade que ele apresenta, tem futuro. Mas isso depende muito da dedicação
dele”, afirma o músico. Hamilton convidou Ian, no fim do ano passado, para
tocar em um show aqui em Brasília, no evento Bandolim Solidário. “Convidei para
participar do show e ele arrasou, foi super aplaudido”, lembra Hamilton. A
primeira vez que o músico ouviu o garoto foi por meio de um vídeo que um amigo
enviou. “Fiquei impressionado com o jeitão dele para tocar e com a intimidade
que tem com a música”, fala o bandolinista.
Iniciação
Começou a ter aula de cavaquinho aos 7 anos de idade, com
apenas três meses se apresentou pela primeira vez. Continuou os estudos, mas
queria mesmo era tocar guitarra. O pai disse que esperasse mais um pouco que
lhe apresentaria um novo instrumento. Na época, o músico Armandinho Macêdo se
apresentou no Clube do Choro. Ian foi com o pai e se apaixonou pela sonoridade
do bandolim. Ouviu um conselho de um mestre e seguiu. “O Armandinho disse:
larga o cavaquinho, pega o bandolim”, lembra. Esqueceu também da guitarra. Até
tem uma, mas fica esquecida no canto do quarto.
O primeiro bandolim foi de oito cordas. Hoje, toca com um
de 10. A diferença, em termo práticos, é o acréscimo de duas cordas mais
graves. Elas possibilitam novas sonoridades, permitem um som mais completo.
Quem desenvolveu e aprimorou o instrumento foi Hamilton de Holanda. “Pode até
existir um dia alguém que toque como Hamilton, mas não melhor”, fala Ian sobre
o músico que o inspira.
Todas as manhãs são reservadas para as lições. Intercala os
dias com aulas de teoria musical, harmonia, improviso, coral e técnica. À
noite, pratica um pouco antes do cansaço do dia abater. Além das aulas na
escola de música, tem lições particulares com mais três professores. A rotina
tão puxada não é um peso. Ian leva o chorinho com prazer. A grande escola foi
participar da roda de choro Vila Madá, no Deck Shopping (Lago Norte), aos
sábados. Já são dois anos ali aprendendo e brincando. Há muita diferença entre
tocar somente para o professor e acompanhar outros instrumentos. Ali, o menino
aprendeu a tocar em grupo. “Perdi o medo, fiquei mais solto para tocar”, conta.
Enquanto não sai pelo Brasil afora se apresentando, Ian
segue com os estudos. O cuidado agora é com a técnica. Aprimorar cada vez mais
o som. Ian Coury quer entrar na Universidade de Brasília e cursar composição. O
futuro está todo desenhado, ou melhor, musicado pelo menino.
“Convidei o Ian a participar do show e ele arrasou, foi
superaplaudido. Fiquei impressionado com o jeitão dele para tocar e com a
intimidade que ele tem com a música”
Hamilton de Holanda, bandolinista
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A presença de
Glauber
A diretora Paula Gaitán, última mulher do cineasta e
mestre, traz ao Festival de Brasília o longa Exilados do vulcão. CORREIO BSB
16.09
“É sempre um prazer falar dele”, admite, ao telefone, a
multiartista Paula Gaitán. O “ele” em questão — na conjuntura de vida da
cineasta, fotógrafa e poeta — foi seminal: entre 1976 e 1981, Glauber Rocha
viveu ao lado dela como marido e incentivador. A satisfação é completa, nesse
sacudir de memórias que, por sinal, formatam a obra, em cinema, de Paula
Gaitán.
“As pessoas falam do Glauber com muito carinho porque sabem
que o afeto nosso se mantém muito vivo. Pra mim, não tenho resistência de falar
dele, porque sempre foi uma pessoa muito importante na minha vida. Ele
representa um pensamento vivo, rico e luminoso do cinema brasileiro. Glauber só
traz alegria, para quem vê seus filmes ou lê seus livros”, analisa. A cineasta
teve dois filhos com o diretor baiano. Em Diário de Sintra, feito há seis anos
e assinado pela diretora, traz “uma reflexão, em voz alta” da intimidade do
casal.
Diretora de arte de A idade da Terra (1980), fita
glauberiana com tomadas em Brasília (locação em que o cineasta esparramou o
intelecto pelas páginas do Correio Braziliense, onde trabalhou nos anos 1970),
Paula Gaitán voltará à capital que alimentou a paixão por Glauber, na disputa
por prêmios Candango, com a abertura, terça-feira, do 46º Festival de Brasília
do Cinema Brasileiro. “Exilados do vulcão, que será apresentado, é meu quinto
longa. Como dirijo filmes há 25 anos, as pessoas sabem dividir muito bem minha
vida com Glauber: já tenho um espaço próprio.”
Na nova passagem por Brasília, Paula traz na bagagem (e na
equipe, ao lado da filha Maira Senise), “uma herança compartilhada” com
Glauber: os filhos Eryk Rocha (produtor do longa) e Ava Rocha (presente na
trilha e à frente da câmera, como atriz). “Nós somos muito unidos, nos
respeitamos bastante. Tentamos nos encorajar nessa vida tão difícil de
cineasta”, comenta a mãe, aos 59 anos. Brasília traz à lembrança ainda a
exibição do primeiro longa, Uaka (1988), feito no Xingu e vencedor de cinco
prêmios, na extinta mostra de 16mm.
“Tinha uma sequência com índios kamaiurá no Teatro
Nacional. O filme trata do Quarup e é meio um pioneiro dessa série de
documentários comandados por diretores jovens como o Leonardo Sette (As
hipermulheres). Tornou-se uma referência cult, mas nunca foi lançado — pela
fatídica época de Fernando Collor. A situação era bastante dramática”,
relembra. No exterior, Paula, “cem por cento brasileira” (apesar de nascida em
Paris), foi atrás de um segmento de identidade. Na trilha do pai, o escritor
colombiano Jorge Gaitán Durán (criador da emblemática revista cultural Mito),
Paula fez 40 documentários para tevê colombiana entre 1993 e 2000.
Memória pessoal
“Acho que, no Brasil, as pessoas começaram a perceber meu
trabalho, a partir de 2000, com meu regresso. Com a mãe, brasileira, envolvida
em teatro, Paula congrega “as misturas, como todo brasileiro”, diante da
ascendência eslava. As raízes prometem despontar em Exilados do vulcão,
concorrente ao Festival de Brasília centrado no drama de um fotógrafo que vê a
memória esvanecer. “Meus filmes transitam muito pelo campo da memória; são
carregados da minha história pessoal”, demarca.
Ainda que fuja da narrativa mais conservadora em cinema, a
diretora acredita ter cacife para gerar amplo interesse do público. “Meus
filmes deixam a completa abstração, na medida em que venho do documentário.
Mas, ainda que, aparentemente, antagônicas, ficção e realidade são forças que
se complementam: minha proposta acaba impregnada pelo real”, defende. Mais do
que meras biografias, Vida (2008) e Agreste (2013), respectivamente centrados
nas atrizes Maria Gladys e Marcélia Cartaxo, confirmam a tese. “Quando a gente
trabalha com emoções e sinceridade, a energia é passada para o público, que se
vê contagiado”, entrega, em torno de seu cinema.
Numa corrente dinâmica — “a minha idade criativa é jovem;
muitos se aposentam, mas estou em pleno movimento”, garante —, a última
companheira de Glauber Rocha deixa entrever a origem de Exilados do vulcão,
movido “à força entranhada em nós e que balança nossa aparente placidez”. Desde
já, o que agita a diretora é o encontro com o público da cidade e com
“responsável e séria, crítica; sempre muito boa”. Em tempo de reconhecimento
(“sem vaidades”), a moeda de retribuição é favorável. “Evito ficar ilhada no
meu ego: como professora de workshops, percebo lidar com uma energia muito
recompensadora”. Seguramente, um estímulo glauberiano. “Tenho pelo Glauber uma
enorme gratidão. Ele era tão, tão generoso, que tivemos uma bênção: ele abria
espaço e se dava. Quem esteve perto dele só tem gratidão”, conclui.
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Sinopse
Exilados do vulcão conta a história de uma mulher que
perdeu o homem amado. Um incêndio em sua casa destrói diversos objetos, mas
fotos e um diário escrito por ele são resgatados. É a partir desses pequenos
objetos que ela tenta recuperar a lembrança do companheiro ao percorrer o
caminho feito por ele, conhecendo as mesmas pessoas e vivendo as experiências
indicadas nas fotos e nas frases do diário.
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Unha encravada
- FOLHA SP 15.09 ( Sobre a burocracia no Brasil - Muito bom)
Finda, em 1945, a Segunda Guerra Mundial, o mundo passou a
viver sob a ameaça de guerra nuclear. Foram anos terríveis, que levaram muita
gente ao pânico, a ponto de construir abrigos antiatômicos, providos de
alimentos para tentar sobreviver a uma possível hecatombe atômica. Ferreira Gullar é cronista, crítico de arte e
poeta. Escreve aos domingos na versão impressa de "Ilustrada".
Felizmente, a guerra nuclear não houve. De fato,
dificilmente haveria, uma vez que os dois lados em conflito possuíam bombas e
foguetes suficientes para se liquidarem mutuamente. Terminaram por instalar, em
Washington e Moscou, telefones que lhes permitiriam evitar o desastre.
O fim do sistema comunista pôs termo à histeria nuclear. Só
quem viveu aqueles anos pode avaliar o quanto é bom livrar-se de semelhante
pesadelo. E pode dizer a quem não o viveu: você é feliz, cara, e não sabe!
É verdade. Sucede que o homem é um bicho especial,
particularmente porque o que lhe interessa é ser feliz agora. Se a vida poderia
ser pior --como naqueles anos-- pouco importa. Importam mesmo as aporrinhações
de agora. A ameaça nuclear se foi, mas ficaram outros problemas, menos
assustadores, mas, ainda assim, chatos para cacete.
Um deles é a burocracia. E você dirá: não dá para comparar
uma coisa com a outra. Tem razão, mas que a unha encravada dói, dói. Claro, é
melhor ter unha encravada do que câncer no estômago, mas bom mesmo é não ter
nem uma coisa nem outra. Noutras palavras: a ameaça nuclear era terrível, mas
passou, e a burocracia, não; pelo contrário, nos aporrinha cada dia mais.
Não estou querendo dar uma de terrorista, mas às vezes me
pergunto aonde vai chegar a burocracia que silenciosamente continua se
infiltrando e tomando conta de todos os setores de nossa vida.
Você vai achar que eu exagero, mas a gente só se dá conta
do problema quando se vê anulado por ele.
Um pequeno exemplo foi o que ocorreu comigo no banco onde
recebia minha aposentadoria. Ia lá todo mês, apresentava meu cartão de
aposentado, a carteira de identidade e recebia o dinheiro.
A senhora que me atendia já sorria para mim quando eu
chegava ao guichê, reconhecendo-me. Mas eis que um dia esqueci a carteira de
identidade e essa mesma funcionária não me pagou a aposentadoria.
Argumentei: mas a senhora me conhece, recebo esse pagamento
de suas mãos todos os meses. E ela: "Sim, claro, mas mediante a
apresentação de sua carteira de identidade; sem ela, de acordo com as normas do
banco, não posso pagar". E não pagou.
O problema são as normas, seja do banco, seja do INSS, seja
do Ministério da Fazenda, seja do inferno. Quando me chega uma carta de
qualquer dessas entidades, entro em pânico: é aporrinhação na certa.
A burocracia emperra nossa vida e a própria vida do país.
Outro dia, vi na televisão uma reportagem que mostrava toda uma rede de
turbinas tipo cata-ventos instaladas no Nordeste para a geração de energia
eólica. Dezenas de turbinas espalhadas por milhares de quilômetros, que
custaram uma fortuna e não produzem energia nenhuma. Sabem por quê? As linhas
de transmissão não foram construídas porque o processo burocrático, que
autorizaria sua instalação, nunca chega ao fim.
Enquanto isso, grande parte da energia que consumimos está
sendo produzida por geradores movidos por óleo e carvão, que são caros e
altamente poluidores. A produção de energia limpa, essa a burocracia
inviabiliza.
Não sei se você se lembra do ministro Hélio Beltrão, que
foi nomeado com o objetivo de desburocratizar o Brasil. Criou-se o Ministério
da Desburocratização, faz mais de 30 anos. Eu, como sempre, otimista que sou,
vibrei. Pois bem, esse ministério não existe mais e, em vez da
desburocratização do Estado brasileiro, o que aconteceu foi exatamente o
contrário: nada mais burocrático no Brasil do que o nosso serviço público.
Outro dia soube de mais uma: um pequeno produtor de cinema
conseguiu aprovar pela Lei Rouanet o projeto para um filme, mas antes de
terminá-lo, achou que era melhor mudar-lhe o nome.
Quem disse que pôde? A resposta dos burocratas foi a
seguinte: se trocar o nome do filme, perde o financiamento, vai ter que entrar
com outro pedido que será aprovado ou não. Como tinha levado quase um ano para
conseguir a aprovação do tal projeto, desistiu de mudar o nome do filme.
Ferreira Gullar
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Manchetes do Edu
O futuro e a
população, por Washington Novaes é jornalista - O POPULAR GO 12.09
A notícia de que a população brasileira em dezembro do ano
passado superou 200 milhões de pessoas, segundo o IBGE (O Estado de S. Paulo,
30/8,) e chegou a 201,3 milhões em julho último, sugere que precisaremos estar
atentos a algumas realidades problemáticas nas próximas décadas.
Primeiro,
porque a população continuará a crescer (228,35 milhões) até 2042 – o que
significa necessidade de mais postos de trabalho e geração de renda. Embora a
taxa de fecundidade, de 1,87 filho por mulher em idade fértil, continue no ano
que vem abaixo da taxa de reposição (dois filhos por mulher nessa idade) e
chegue a 1,5 filho por mulher em 2034, chegaremos a 2060 com duas crianças e/ou
aposentados para três trabalhadores entre 15 e 64 anos, numa população que terá
baixado para 218,17 milhões. Goiás, dizem essas estatísticas, vai ver sua
população acrescida em 20% até 2030, com 7,71 milhões, embora já haja até
municípios com população decrescente. Hoje, o Estado tem 6,43 milhões de
pessoas. Todo esse quadro advirá no País em meio a taxas de mortalidade
infantil decrescentes, até 7,12 por mil nascidos vivos (hoje, 15), expectativas
de vida crescentes, que em 2060 chegarão a 81,2 anos por pessoa, em média, com
5 milhões acima de 90 anos.
Apesar
de todos os avanços, o Brasil está em 91º lugar no ranking do Índice de
Desenvolvimento Humano, da ONU, que mede também o crescimento da economia,
expectativa de vida, saneamento, educação – estamos no mesmo nível da Bulgária.
E o envelhecimento médio da população, embora desejável, significará também
maior déficit na Previdência Social, que em 2012 já chegou a R$ 42,3 bilhões –
ainda que os aposentados pelo INSS paguem altos preços: os aumentos de sua
aposentadoria são sempre calculados em porcentagem inferior à do salário
mínimo; por esse caminhos, recebem um número cada vez menor de salários mínimos
(só servidores públicos recebem aposentadoria equivalente à dos salários que
teriam na ativa).
Num
caso que o autor destas linhas conhece de perto, o contribuinte pagou para o
INSS, durante mais de 20 anos na ativa, uma porcentagem sobre 20 salários
mínimos – o limite da aposentadoria na época. Quando este, por um passe de
mágica, baixou para 10 salários mínimos (que passou a ser o limite da
aposentadoria), ninguém devolveu os pagamentos a mais; e como a aposentadoria,
na concessão, é calculada sobre a média dos últimos 36 salários, em tempos de
inflação de até 80% ao mês a aposentadoria inicial foi estipulada em seis
salários mínimos e meio; com a correção inferior à do salário mínimo, essa
aposentadoria está hoje em três salários mínimos e vai continuar caindo.
No
cenário geral também não faltam preocupações. Segundo a ONU, a população global
até 2050 passará dos 7,2 bilhões atuais para 9,6 bilhões – onde buscar água,
alimentos, recursos materiais (o consumo atual já está em 7 toneladas anuais
por habitante)? Os países considerados “desenvolvidos” chegarão a 1,3 bilhão de
pessoas, pouco mais de 20%n do total. Hoje, com menos de 20%, consomem quase
80% dos recursos planetários e têm a mesma proporção na renda. A Europa
diminuirá sua população em 14%. Já em 2028 a Índia deverá superar a população
da China e atingir 1,45 bilhão de pessoas – e ambas terão 400 milhões de idosos
cada. A Nigéria terá mais habitantes que os Estados Unidos. A expectativa média
de vida na Europa chegará a 89 anos.
Que
farão os países hoje ditos “em desenvolvimento” ou então os “subdesenvolvidos”?
Os 49 países menos desenvolvidos devem dobrar para 1,8 bilhão em 2050 sua
população de 900 milhões (Rádio ONU, 4/6). Como alimentá-las e prover tudo de
que precisam, se a distribuição da renda e da produção no mundo não se alterar
até lá? O analista internacional Vitor Gomes Pinto escreveu neste jornal há
poucas semanas (27/7) que a China, que até puniu pessoas que tiveram mais de um
filho, agora pode inverter sua política, pois seu crescimento econômico já está
ameaçado pelo “declínio acelerado na oferta de mão de obra”. Em 2015 já
permitiria dois filhos por casal.
Tudo
conflui sempre para uma mesma equação: haverá solução para os macroproblemas
globais sem mudanças profundas no quadro de produção e da renda no planeta?
Como levar a lógica da sobrevivência a sobrepor-se à lógica financeira –
qualquer que seja a ideologia ou visão de mundo que se tenha? Vai-se continuar
com 257 pessoas – que têm mais de US$ 1 bilhão cada – tendo ativos superiores
aos de mais de 40 países mais pobres, onde vivem 600 milhões de pessoas,
segundo o Pnud/ONU?
Goste-se
ou não, queira-se ou não, é essa a equação que está diante de todos nós,
viventes. Diante do que se fizer, poder-se-á ter mais paz ou mais conflitos.
PS –
Na última hora antes da reunião da última quinta-feira do Conselho Nacional do
Meio Ambiente, este órgão e o Ministério do Meio Ambiente decidiram adiar uma
resolução – que vinham apoiando, como comentado aqui na semana passada – que
permitiria “o uso, em fertilizantes, de poluentes industriais como metais
pesados e outros metais contaminantes ou micronutrientes que podem prejudicar o
solo, assim como consumidores de alimentos ali gerados”. Ainda bem.
>>>
A força dos negros no
empreendedorismo, por LUIZ BARRETTO, Presidente do Sebrae Nacional - CORREIO
BSB 12.09
O Brasil registra, na última década, a evolução de
indicadores socioeconômicos que embasa a construção de uma sociedade mais
desenvolvida e mais justa. Nesse processo, o empreendedorismo tem sido
protagonista.
Mais do que uma oportunidade de evoluir na
vida, como ocorre em tantas economias mais desenvolvidas, aqui no país ele
também é um fenômeno de inclusão social. Agora temos mais elementos para
apostar no potencial de transformação do empreendedorismo. Os negros, grupo
historicamente discriminado, aumentaram a participação em atividades
empreendedoras e comandam quase a metade do total de empresas no Brasil.
A
informação é de um estudo inédito do Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e
Pequena Empresa (Sebrae), que buscou detectar as principais características dos
donos de negócio no Brasil, de acordo com a raça declarada por eles mesmos à
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE. O trabalho revelou
que, entre 2001 e 2011, o número de empreendedores negros passou de 43% para
49%. A participação relativa dos brancos caiu de 56% para 50%. A categoria
“Outros”, que inclui aqueles que se autodenominam amarelos ou indígenas, por
exemplo, permaneceu na faixa de 1%.
A
participação crescente dos negros no empreendedorismo acompanha a evolução
desse grupo na população brasileira e é apoiada pelo crescimento geral da
renda. No contexto do crescimento da classe média, que viabilizou a ascensão
social de mais de 40 milhões de pessoas na última década, grupos historicamente
mais pobres são destaque. Oitenta por cento dos novos membros da classe média
são negros. A renda desse grupo, bem como a dos nordestinos, cresceu o dobro da
média da classe C nos últimos 10 anos, segundo o instituto Data Popular. Esses
dados mostram que a classe média cresce com redução da desigualdade.
É
possível verificar um círculo virtuoso: o processo de inclusão social fortalece
o empreendedorismo, que, por sua vez, viabiliza maior inclusão social. Exemplo
disso é a relação entre microempreendedores individuais — categoria que tem
faturamento bruto anual de até R$ 60 mil, ou R$ 5 mil por mês — e beneficiários
do Bolsa Família, programa voltado para famílias em situação de pobreza e de
extrema pobreza. Atualmente, cerca de 10% de microempreendedores individuais
são beneficiários desse programa. Esse percentual tem evoluído gradativamente,
demonstrando que esse grupo busca meios para gerar renda e não depender,
exclusiva e indefinidamente, do governo.
Por
reconhecer o potencial empreendedor dos beneficiários do Bolsa Família, o
Sebrae tem atuado intensamente para capacitar microempreendedores individuais
em todo o país. É de importância estratégica qualificar esse público, o que
repercute positivamente não apenas nas famílias dessas pessoas, mas também nas
economias local e nacional.
Os
avanços merecem ser celebrados, mas há muitas estatísticas que precisam ser
modificadas. Em geral, os negros ingressam mais cedo no mercado de trabalho e
entre eles há uma proporção elevada de indivíduos que atuam em atividades mais
simples, de menor valor agregado ou maior precariedade. No grupo dos brancos,
verifica-se maior proporção de empreendedores que atuam em atividades mais
especializadas e de maior valor agregado. Que fatores impactam decisivamente
nessa diferenciação? O grau de escolaridade e a capacitação empreendedora estão
entre os principais.
Não é
possível dissociar o êxito no empreendedorismo do nível de capacitação do
empresário. A atividade empreendedora deixou de ser um caminho emergencial para
quem não tinha alternativa de renda e cada vez mais é buscada devido à
identificação de uma oportunidade no mercado. Abrir uma empresa, porém, é
apenas o primeiro passo. Para que o negócio tenha chances de consolidação e de
longevidade, o empreendedor precisa ter iniciativa de se capacitar de forma
contínua. Caso contrário, sua empresa não terá condições de enfrentar a
concorrência, numerosa e bem preparada.
No
Sebrae, buscamos oferecer cursos variados, com linguagem e didática segmentados
para cada tipo de empreendimento: microempreendedores individuais,
microempresas e pequenas empresas. Temos a convicção de que a melhoria da
gestão proporciona uma série de impactos positivos. A empresa ganha mais
competitividade e amplia o potencial de faturamento e os empresários passam a
ter mais qualidade de vida. A elevação no patamar de renda de um grupo aumenta
a capacidade de consumo, movimenta a economia local e beneficia o contexto
socioeconômico nacional.
A
redução das disparidades sociais no país está relacionada a avanços na
educação, o que inclui valorização da capacitação empreendedora. A diminuição
da desigualdade racial entre os donos de negócio no Brasil é uma evolução
bem-vinda, mas todos sabemos que ainda há muito a ser feito para tornar nossa
sociedade mais justa. Essa construção deve incluir o fortalecimento do
empreendedorismo no país, alternativa de acesso cada vez mais democrático e
atraente para todos os brasileiros.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Manchetes do Edu
ruy castro
Ruy Castro, escritor e jornalista FOLHA SP 07.09. Texto bacana
Bola entre as pernas
RIO DE JANEIRO - De certa maneira, a culpa é do
querido d. Pedro 2º. Em 1876, de chapéu de palha e guarda-chuva, ele circulava
com os jurados pela Exposição do Centenário dos EUA, em Filadélfia, quando
passou pelo estande de um jovem magro e humilde que conhecera semanas antes, em
Boston. O rapaz tinha um aparelho para mostrar, mas ninguém se dignava a
examinar sua criação. Por insistência de d. Pedro, os jurados aceitaram
submeter-se a uma demonstração. O jovem se chamava Alexander Graham Bell. Seu
invento era o telefone.
Outro dia, num episódio do seriado americano
"Peter Gunn", de 1958, a que eu assistia em DVD, o herói está na rua
e precisa falar com alguém na França. Liga para a telefonista, dá-lhe o número
a chamar em Paris e o número de seu cartão de crédito. Dez minutos depois, a
ligação é completada e ele se admira com as comunicações modernas. Ao ver isso
hoje, em 2013, eu também me admiro --com que então, em 1958, os americanos já
pagavam uma ligação internacional com cartão de crédito! Naquele tempo, nós,
aqui, ainda nos comunicávamos por tambores.
E o que mais me impressionou na chegada do homem à
Lua, em 1969, não foi a chegada em si, mas ver o presidente Nixon, da Sala
Oval, ligar --direto-- para o Mar da Tranquilidade e mandar chamar os astronautas
Neil Armstrong e Buzz Aldrin. Quanto a nós, aqui, ainda nos arriscávamos a
morrer de velhice antes de completar uma ligação Rio-São Paulo.
Mais recentemente, os americanos levaram isso às
últimas consequências, com seus aparelhos que escutam, leem, gravam e
classificam tudo o que se fala em toda parte, sem que as pessoas percebam que
estão sendo xeretadas.
E, quando percebem, reagem indignadas --pelo fato
de, tão triunfalistas, autossuficientes e espertas, estarem há anos tomando
bola entre as pernas.
>>>
Literatura
Moleskine, fragmentos e fotos reinventam
diários. Heloisa Prieto: novo livro em
formato moleskine. Folhapress 08.09
.
Heloisa Prieto é nome conhecido na literatura
brasileira, em particular na infantojuvenil. Tem 52 livros publicados, além de
diversos trabalhos de organização de séries e coleções. Mas nada disso se
parece com seu novo livro. Na verdade, Escrita Secreta não se parece com nada
que está nas livrarias. Tem formato de moleskine, fotos em quase todas as
páginas, diagramação ousada, citações e textos fragmentados.
Numa difícil tentativa de classificá-lo, talvez a
melhor seja “diário contemporâneo”, para usar expressão pinçada da conversa com
a autora. “Gosto muito de diários”, diz Prieto. “Mas a ideia desde o início era
criar algo inclassificável. Já sentia isso quando propus o desafio às meninas.”
As “meninas”, na faixa de 22 e 23 anos, são Priscila Nemeth e Anne Checoli,
fotógrafas, e Eugênia Hanitzsch, designer. São praticamente coautoras do livro,
criando o suporte visual para os textos.
O projeto veio de Jokerman, conto que aparece no
livro como seu trecho mais “convencional”, pelo menos na forma. Na temática,
tem algo de gótico a história de Sara, mulher angustiada que visita um
acampamento cigano. A autora escreveu o conto “há muito tempo” e, em 2009,
assinou contrato de publicação a partir de uma versão reduzida, para talvez
transformá-lo em romance.
Ao mesmo tempo, Prieto revirava sua “caixa de
ideias”, como diz, e eram tantos textos inacabados que ela decidiu não apenas
juntar tudo aquilo, mas escrever outros. Na abertura de Escrita Secreta, quis
apresentar a obra. Em um jorro poético de exemplificações, como “cartas
rasgadas”, “mensagens apagadas” ou “fiapos de personagens”, fez um texto tão
fragmentado como os seguintes.
A primeira a entrar para o projeto já estava perto.
Priscila é filha da autora e faz trabalhos de foto com a amiga Anne. Outra
amiga, Eugênia, veio para “dar corpo ao livro”. O medo é tema forte nos textos.
O que encerra o livro, o mais recente do material, trata de uma caminhada
apavorada da narradora nas ruas da cracolândia paulistana.
Escrita Secreta não é infantojuvenil. “Não acredito
em faixa etária para classificar livros, é uma limitação. Acredito, sim, na
divisão por gêneros, e é por aí que enxergo a maior ruptura em relação aos
outros que escrevi.” Para Prieto, sua narrativa sempre carrega algo da
estrutura do folhetim, encerrando um episódio na vida dos personagens. Desta
vez, a fragmentação deixa tudo solto. “Não sabia como reagiriam. E o retorno é
ótimo. Uma amiga disse que vai comprar 15, para dar de presente!”
Livro: Escrita Secreta
Autora: Heloisa Prieto
Editora: Escrita Fina
Páginas: 72
Quanto: R$ 25
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