terça-feira, 13 de agosto de 2013

Textos do Edu

Literatura:  Nos passos de John
Ponte flutuante nos primórdios de Ceres: autor a atravessou
Nas três vezes em que veio ao Brasil, o escritor John Dos Passos perambulou por quase todas as regiões do País.  O POPULAR GO 13.08
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Ele esteve no Nordeste, visitando Recife, Natal e João Pessoa. Foi às cidades históricas de Minas Gerais, como Ouro Preto e Congonhas do Campo, e, no mesmo Estado, ao Vale do Aço. Conheceu as capitais do Sudeste – Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Vitória – e chegou a ingressar em território nacional, via Peru, pela selva amazônica, passando por comunidades ribeirinhas das margens do Rio Solimões e alcançando Manaus.
Mas se há um lugar em que o escritor mergulhou profundamente no Brasil, esse foi Goiás, incluindo aí a então nascente Brasília. Confira como foram as andanças de um dos principais autores norte-americanos do século 20 pelo Cerrado brasileiro.
GOIÂNIA
Na debutante capital goiana – John Dos Passos chegou aqui em 1948, quando a cidade tinha apenas 15 anos de fundação –, o autor se deparou com imagens pouco aprazíveis. O centro urbano idealizado por Pedro Ludovico carecia de muitos serviços, como asfalto. Isso proporcionava cenas não muito agradáveis aos visitantes, como porcos no meio da rua rolando em poças de lama. Mas Dos Passos – que chegou a ficar preso dentro de um dos banheiros do Grande Hotel, na esquina da Rua 3 com a Av. Araguaia, depois que a maçaneta da porta lhe saiu na mão – não foi tão duro com a nova cidade, levando em conta a pouca idade da capital naquela época. Em 1958, a caminho de uma Brasília ainda em construção, ele voltou a Goiânia, ainda que rapidamente. Sua impressão mudou radicalmente. Já bem melhor estruturada, a cidade ganhou elogios do autor, que chegou a dizer que seu desenvolvimento era um bom presságio para os planos que Juscelino Kubitschek para a nova capital federal que estava sendo plantada no Planalto Central brasileiro.
“Depois de sete horas de voo do Rio, chegamos a Goiânia. Essa nova capital de um novo estado fora fundada havia apenas quinze anos. Consistia de uma avenida com árvores ornamentais até o palácio do governo, alguns prédios públicos, algumas poucas ruas transversais com toscas casas de estuque, um hotel novo já caindo aos pedaços e alguns folhetos bem impressos de planos para o futuro.”
“Embora porcos ainda chafurdassem nas ruas enlameadas, Goiânia já ostentava uma escola de música e uma academia de letras. ”
“Em 1958, Goiânia era uma cidade florescente de 50 ou 60 mil habitantes, com ruas arborizadas e pavimentadas, um aeroporto eficiente e vários hotéis, restaurantes limpos, água corrente quente e fria e um ar de pressa e atividade. Percebia-se isso até mesmo nos varredores de rua. Os subúrbios estavam se desenvolvendo. As pessoas nas lojas pareciam bem alimentadas e bem vestidas. Uma cidade de classe média como algumas pequenas cidades agrícolas do Meio-Oeste dos Estados Unidos. Nenhum sinal de desesperada pobreza rural que ainda víamos nos arredores de Anápolis, embora esse assentamento mais antigo tenha se desenvolvido principalmente como centro industrial e de produção de queijo.”
CERES
A Colônia Agrícola de Goiás fundada nas margens do Rio das Almas por Bernardo Sayão prosperou e hoje a cidade de Ceres é uma referência na região do Vale do São Patrício. Em 1948, quando John Dos Passos chegou à região a bordo de um avião do governo estadual, tudo era bem diferente. O projeto, em seu início, apresentava muitas dificuldades. A conquista do Oeste se fazia no improviso e na raça. O escritor, por exemplo, pôde passar pela famosa Ponte dos Tambores, uma engenhoca flutuante que por muito tempo foi a ligação de Ceres ao restante do Estado. O autor se impressionou com a força e a vitalidade do idealizador do lugar, Bernardo Sayão, e chegou a escrever que “ele tinha mais capacidade de liderança do que qualquer homem que jamais conheci”. Ceres nascia no meio do nada e à custa de muito trabalho desbravador. John Dos Passos registrou esse momento.
“Depois que comemos a habitual refeição de arroz, feijão e carne, perambulamos pela aldeia de Ceres. A estrada passava pelo fundo de um amplo vale desmatado até a metade das encostas. Em todas as direções, em meio aos tocos de árvores, estendiam-se grupos de casas de tijolo inacabadas. Por toda parte havia pedreiros trabalhando, construções subindo. Vislumbrava-se contra o céu as costas nuas de homens mulatos assentando as telhas. Aquela pilha de tijolos ia se tornar um cinema; aquela outra seria um banco. Aqui e ali uma pequena casa de estuque já terminada, caiada e com portas pintadas, se destacava brilhante e nítida. Em todas as colinas ao redor, as grandes e debilitadas árvores da mata destruída se enfileiravam nas margens das clareiras.”
“Começamos a atravessar a ponte flutuante. O sol se pusera atrás das colinas cobertas de matas. No rápido crepúsculo dos trópicos, um ar levemente frio se elevava da ligeira água verde amarronzada.”
BELÉM-BRASÍLIA
John Dos Passos não tinha noção disso, mas ele foi um dos primeiros a transitar pela rodovia Belém–Brasília, isso num tempo em que Brasília nem existia. Em 1948, a bordo de um carro velho e valente, ele, acompanhado de Bernardo Sayão e da filha mais velha do engenheiro, Laís, levantaram poeira no corte que atravessava o Cerrado bravo rumo ao norte. O “fazedor de estradas” que era Sayão queria mostrar ao ilustre visitante seu projeto de ligar o Centro-Oeste ao Norte por meio de uma rodovia com quase 2 mil e 500 quilômetros de extensão. Antes do projeto da nova capital federal, a estrada ligaria Belém a Anápolis, interligando-se à rodovia que levava a Goiânia, Minas Gerais e São Paulo. Eles rodaram muitos quilômetros no chapadão desabitado do Vale do São Patrício e John Dos Passos ouviu uma promessa de Sayão: “vou fazer essa estrada”. O escritor voltou ao Brasil em 1958 e quis se encontrar com Sayão, mas não conseguiu. No ano seguinte, o homem que rasgava o sertão com seus sonhos morreu esmagado por uma árvore na mesma Belém–Brasília que tanto sonhara em ver concretizada.
“Em parte de um barraco adaptado para funcionar como escritório, Sayão caminha até um mapa na parede. Aponta com o indicador para a embocadura do Amazonas. ‘O objetivo é abrir caminho até o Pará; nosso porto ao norte será a cidade de Belém. De São Paulo até Belém temos cerca de 2,4 mil quilômetros. Essas são as estradas de São Paulo até Anápolis. Da nova estrada que sai de Anápolis, já abrimos 340 quilômetros.’”
BRASÍLIA
Um sonho louco. Sim, John Dos Passos não escondia que compartilhava dessa opinião, quase que unânime, quando o presidente Juscelino Kubitschek decidiu transferir a capital federal do Rio de Janeiro para o Planalto Central. Ele veio a Brasília em 1958, no auge da construção da cidade-monumento, e viu os monturos de terra onde seriam erguidas as torres do Congresso Nacional, o grande chapadão onde um dia circulariam os carros pelo Eixo-Monumental, as colunas finas e ousadas que sustentavam o Palácio da Alvorada. Chegou a duvidar que a Catedral Metropolitana, que para ele parecia uma tenda, fosse ficar pronta e temia que o Lago Paranoá se enchesse de lama.
Em 1963, John Dos Passos voltou. JK, que ele entrevistara, não era mais o presidente e Israel Pinheiro, o chefão da Novacap, empresa responsável pela grande obra, estava fora da função. Mas o autor se redimiu de muitas de suas críticas e admitiu que Brasília o surpreendera. A cidade, sim, enfrentava problemas, mas ele já não duvidava que se consolidaria, que não seria uma capital-fantasma. Para essa previsão positiva, o autor se baseava em Goiânia, que ele visitara.
“No ponto em que as fundações da cidade se sobressaem do futuro lago, as amplas janelas do palácio presidencial de Niemeyer brilham no sol da tarde. Eles o chamam de Palácio da Alvorada. Suas estranhas colunas brilham como uma série de pipas brancas dispostas de cabeça para baixo. (...) À esquerda elevam-se as formas tipo caixas dos prédios de apartamento e blocos entrelaçados de pequenas residências de concreto. A pequena construção branca que parece uma tenda é uma igreja.”
“No entanto, mesmo depois de levadas em conta todas as objeções, tem-se de admitir que os projetistas de Brasília criaram uma estrutura magnífica para uma cidade do futuro. As ruas longas e retas, os vastos espaços abertos entre baixos prédios brancos são estimulantes. É uma cidade para a era automotiva, para a época dos jatos e dos helicópteros. Seus vastos espaços combinam com os espinhaços áridos e lisos da paisagem do planalto.”



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Um livro inquietaste:   Autor(es): Octaciano Nogueira. (…) O livro de Carlos Heitor Cony sobre Juscelino alude à Comissão Externa da Câmara criada para esclarecer a morte do ex-presidente, em depoimento perante a qual o governador Miguel Arraes terminou com uma afirmação categórica: “JK foi assassinado”.Correio Braziliense - 13/08/2013




Historiador e cientista político

Publicado pela Editora Objetiva em 2012, o livro de Carlos Heitor Cony JK e a ditadura, dividido em 12 capítulos e 238 páginas, é uma obra desafiadora e inquietante para não ser esquecida pelos que viveram a era JK, e útil para os que não tiveram a oportunidade de desfrutá-la. Trata-se de um período não só correspondente à fundação de Brasília, mas também à Presidência de Juscelino (1956-1961) e os episódios que se seguiram à sua sucessão, até a morte, em 1976.

O livro descreve, com indiscutível equilíbrio, uma longa e angustiante fase da vida política do país, que inclui o advento do regime militar, com a sucessão dos cinco militares que ocuparam o poder — Castelo Branco, Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Baptista de Figueiredo — e dos cinco atos institucionais que enodoaram o próprio sistema jurídico do país. O texto que precede o “Capítulo 1 — O sucessor, sem sucesso”, refere-se a Jânio Quadros, que, eleito pelo voto popular, renunciou ao mandato depois de sete meses de governo, e registra a utilização do recurso ilusório da adoção do parlamentarismo que não vingou, tornando-se um precedente hoje esquecido na conturbada evolução de nosso sistema político.

Dessa fase angustiante, segue-se no capítulo 8 o título “Mil dias de exílio”, em que o autor transcreve o texto em que, indagado por que motivo se ausentara do país, naquela fase aguda de nossa vida política, Juscelino explicou: “Respondo com uma pergunta. Se a minoria política constituída por meus adversários, pressionava o governo, a ponto de compeli-lo a praticar o ato de minha cassação, com que garantias poderia eu contar, depois do esbulho em que nem sequer me foi facultado o direito de defesa? Saí do Brasil como um protesto em face do mundo, e, também, por não encontrar ambiente de segurança que me permitisse defender-me das calúnias e infâmias, distribuídas à larga contra mim”.

Há uma parte do livro em que Carlos Heitor Cony reproduz o que JK escreveu a um amigo, quando se encontrava envolvido no cipoal de Inquéritos Policiais Militares (IPMs) abertos contra ele:

— Eu estava engasgado pelo exílio. Fiz as malas sem esquecer das recomendações dos amigos que me pediam prudência, que ficasse mais uns dias em Paris, esperando o desenrolar dos acontecimentos. Mas eu vivia um drama pessoal. A possibilidade de passar um novo inverno no exílio era apavorante. Eu nunca sentira o terror antes. Em nenhuma situação de minha vida fui assaltado por esse sentimento, que é pior que o medo, mais devastador que o pânico. Era o terror mesmo. A alternativa que tinha, então, era voltar e ficar — e, se ficasse, dificilmente eu dominaria esse terror que se apossara de mim. Sou um homem de fé, católico praticante. Dei provas inúmeras vezes, de coragem pessoal e moral. Mas naquele momento eu não teria forças para vencer o drama que vivia. Era voltar ao Brasil, ou meter uma bala no peito.

A década de 60 do século 20 foi, sem dúvida, um período de inquietações e incertezas. Sucessor de JK, Jânio Quadros, eleito em 1960, tinha como símbolo uma vassoura que, segundo ele, serviria para varrer a corrupção no Brasil. Seu período de governo deveria ter ido de 31 de janeiro de 1961, data da posse, até 31 de janeiro de 1966; o vice-presidente era João Goulart. Como era de se esperar, porém, Jânio renunciou ao fim de sete meses de governo, por meio de mensagem enviada ao Congresso que, por sua redação, mais parecia um dos muitos bilhetinhos com que aterrorizava o próprio ministério: “Nesta data, e por este instrumento, deixando com o ministro da Justiça as razões de meu ato, renuncio ao mandato de presidente da República. Brasília, 25-8-1961”.

Os anos que antecederam e que sucederam ao gesto insólito do único presidente que renunciou ao mandato são, sem dúvida, momentos de inquietação que melhor teria sido esquecer, já que o país viveu o golpe militar de 1964 e o período seguinte, ocupado pelos cinco generais. Gesto mais insólito na política brasileira, só o suicídio de Getúlio Vargas, o brasileiro que durante nada menos de 15 anos dirigiu os destinos do Brasil.

O livro de Carlos Heitor Cony sobre Juscelino alude à Comissão Externa da Câmara criada para esclarecer a morte do ex-presidente, em depoimento perante a qual o governador Miguel Arraes terminou com uma afirmação categórica: “JK foi assassinado”.


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Manchetes do Edu

LITERATURA »
Brasileiros contemporâneos
Autores jovens revelam uma diversidade muito grande de abordagens, do realismo ao surrealismo, do drama ao escracho

CORREIO BSB 08.08


Um Borges que inspira o nazismo, uma eterna fuga metafórica, uma neozelandesa em crise em Sidney e um brasileiro estacionado em Dublin. O conjunto não faz parte de um mesmo romance nem protagoniza a mesma história, mas é reflexo de uma produção diversa na forma e no conteúdo. Os personagens estão nos mais recentes lançamentos de autores brasileiros contemporâneos numa produção que pode ser lida de várias maneiras. Há ficção conspiratória da mais paranoica, delírios ultramar para lá de bizarros e histórias de amor sem muita firula, um cardápio que reflete a produção literária deste início de século 21.

Nas prateleiras desde a semana passada, Ithaca Road, de Paulo Scott, e Digam a Satã que o recado foi entendido, de Daniel Pelizzari, são os dois romances mais recentes da série “Amores Expressos”, que enviou 17 escritores brasileiros contemporâneos a capitais do mundo inteiro com a missão de escrever uma história de amor. Até o mês que vem, a coleção ganha ainda Barreira, de Amilcar Bettega. De decisões de júris de prêmios importantes para a revelação de novos talentos vêm Abilio Godoy, com Plano de fuga, e Marcos Peres, com O evangelho segundo Hitler.

A televisão ajudou a lapidar a escrita de Vincent Villari, contratado como roteirista pela Rede Globo aos 16 anos. Hoje, com 35, depois de participações em roteiros como os das novelas Sangue bom e A favorita, ele lança o primeiro livro de contos, a que ponto chegamos. Em Meu coração de pedra-pomes, de Juliana Frank, a linguagem é escrachada e a personagem, pura traquinagem com sua coleção de macumbas inéditas inventadas para situações específicas. O Diversão&Arte fez uma seleção de lançamentos que merecem leitura e refletem o melhor da produção brasileira.

           

Ithaca Road
De Paulo Scott. Companhia das Letras, 110 páginas. R$ 32
Narelle é neozelandesa, mestiça, filha de maori com inglês, mas está em Sidney para ajudar o irmão a salvar o restaurante do qual é sócio. Trixie é australiana, skatista, recém separada da namorada e com dificuldades de relacionamento. As duas são amigas. Na verdade, melhores amigas. E foram inventadas por um brasileiro. O romance mais curto do gaúcho Paulo Scott é a prova de que a literatura pode ser mesmo universal, independentemente da história contada. Ele foi um dos escritores que o projeto Amores Expressos — idealizado pelo produtor Rodrigo Teixeira e pelo escritor João Paulo Cuenca — mandou para 17 capitais de outros países com a incumbência de escrever sobre o amor. O livro de Scott é delicado e fala do amor de diversas formas, sendo a liberdade um ponto central.

           

Plano de fuga
De Abilio Godoy. Prumo,  120 páginas. R$ 19,90.
O compromisso de Abilio Godoy sempre foi com dois aspectos dos contos de Plano de fuga: primeiro, a linguagem experimental, depois, o tema da fuga. Quando escreveu o primeiro conto, em 2008, Godoy tratou de um rapaz em constante fuga. Cada dia, o personagem acorda em um lugar diferente. O tema continuou perseguindo o autor e apareceu em três outros contos. Godoy concluiu então que tinha uma possível direção e começou a aprofundar a temática da fuga que perpassa os 20 textos do livro, cuja publicação foi possível graças o prêmio de finalização do Programa Petrobras Cultural de 2010. “A ideia por trás do livro tem a ver com questões da psicanálise: você se guia por prazer e dor. E as pessoas sempre querem fugir da dor. Só que, às vezes, é fácil fugir da dor, principalmente quando é externa. Mas e quando é uma dor interna, quando se perde alguém ou se tem um trauma, como fazer?”, se perguntou Godoy. “Fui pensando nesse tema e escrevendo.” A escrita hermética também foi intencional. Nada é servido de bandeja. “Minha proposta é fazer uma literatura que desafie um pouco o leitor. Acredito numa literatura dialética, em que o sentido tem que ser construído com o leitor. Não gosto de dar algo pronto”, a visa.

           

Meu coração de pedra-pomes
De Juliana Frank. Companhia das Letras, 112 páginas. R$ 31.
» Lawanda é uma faxineira desbocada que trabalha em um hospital e gosta de imaginar aquelas sujeirinhas que não limpou como pequeninos fragmentos de liberdade. Lawanda também é cheia de crenças. Acha que pode fazer macumba para convencer o amante a deixar a mulher. Vive inventando fórmulas milagrosas nunca antes experimentadas. Para atrair o amante, basta fazer uma receita de comida batida com um pentelho do dito cujo. A moça acredita ainda que costurar borboletas em suas calcinhas pode ter o mesmo efeito, desde que a linha seja da mesma cor da asa. E o amante pode até mudar de lado no sofá se a moça acertar nas misturas. Enfim, Lawanda é uma personagem bem divertida, a cara de Juliana Frank, também criadora da filosoquenga, a prostituta filósofa de Quenga de plástico.

           

A que ponto chegamos
De Vincent Villari. Prumo272 páginas. R$ 33,90
Os personagens de Villari carregam uma divertida bizarrice. Tem o demente motorista do IML que quer ser chamado de doutor, a ninfomaníaca que teme uma reclamação de paternidade em relação à única filha, a dona que nunca mais dormiu depois de avistar o pênis de um vizinho, e o Torresminho, menino cujo sonho era ter um closet, apesar de morar em um barraco de papelão. A graça está entranhada nos contos de Villari e vai de par com a técnica literária: o autor começa todos os contos da mesma maneira, apresentando um personagem da forma mais pitoresca possível. Villari é uma espécie de garoto-prodígio da Globo. Contratado como roteirista pela emissora aos 16 anos, ele trabalhou em coautoria em novelas e minisséries, muitas delas em parceria com Maria Adelaide Amaral, que assina a orelha do livro e aposta nos contos como possíveis roteiros de cinema ou televisão.

           

O evangelho segundo Hitler
De Marcos Peres. Record, 350 páginas. R$ 34,90.
» A combinação do paranaense Marcos Peres é explosiva: Bíblia, Jorge Luis Borges e nazismo estão entrelaçados em um trama surreal. Fã de Umberto Eco e curioso sobre tudo que diz respeito a ocultismo e magia, o escritor nunca entendeu direito por que as pessoas compram com tanta facilidade as teorias da conspiração mais mirabolantes do planeta. “As pessoas gostam de acreditar”, diz. Vide Dan Brown e seu O código da Vinci. Peres criou então sua própria teoria da conspiração: um Jorge Luis Borges que não é o escritor acaba confundido com o mestre da literatura argentina e precisa assumir o papel ao ser sequestrado por nazistas. Esses últimos se baseiam em um texto do Borges verdadeiro para criar as atrocidades do nazismo. “Queria inventar um homônimo que ficasse à sombra do escritor e o Borges inventado foi um elo entre o Borges famoso e o nazismo”, avisa Peres.  A trama é cheia de mistério e a linguagem, simples e direta, dois detalhes que fisgaram o escritor André SantÁnna, membro do júri que deu a Peres o Prêmio Sesc de Literatura 2012/2013. Desconfiado que uma história tão maluca não atrairia a atenção de escritores sérios, o paranaense enviou o trabalho à comissão do prêmio com um pseudônimo. Tudo neste romance de estreia foi muito bem planejado. “Queria, desde o princípio, fazer com que tivesse esse formato: que fosse chamativo pelo conteúdo e pelo título e que fosse acessível”, conta o autor.

           

Digam a satã que o recado foi entendido
De Daniel Pellizzari. Companhia das Letras, 184 páginas. R$ 26
A trama de Daniel Pellizzari para a série Amores Expressos carrega quase todas as coisas bizarras que formam o gosto do autor: mitologia céltica, pubs sombrios, assombrações, cultos obscuros e traficantes gregos. Seu personagem, Magnus Factor, parece, é brasileiro. Tem 27 anos e desembarcou em Dublin “para passar algumas semanas”. No entanto, um milk-shake de chocolate maltado que se aproxima da perfeição muda tudo. Factor deixa de lado todos os “talvez” que o levaram à Irlanda e decide ficar por lá. Mas não é só Factor quem conduz a narrativa. Pellizzari investiu na polifonia e vários narradores se encarregam da trama. E estar em Berlim fez bastante diferença para construir a ambientação do romance. Autor e narradores se apropriaram da cidade com boa dose de realismo. “Ter estado em Dublin foi crucial para o romance, e ele não poderia ter outro cenário que não a Irlanda”, admite Pellizzari, em entrevfista ao Diversão&Arte. “Enchi dois cadernos de anotações durante o mês que passei em Dublin. Todos os personagens saíram do mesmo lugar de origem da maioria dos personagens de qualquer escritor: da observação cuidadosa e do exercício mental de se colocar na mente de outra pessoa, tudo temperado pelos limites das minhas próprias percepções.”









quarta-feira, 31 de julho de 2013

Manchetes do Edu

ENTREVISTA /ADRIANA CALCANHOTTO »
Para todas as idades
Compositora gaúcha investe na literatura e lança coletânea de poemas dirigidos às crianças, de Gonçalves Dias a Gregório Duvivier.    
Antologia ilustrada da poesia brasileira – Para crianças de qualquer idade 
Vários autores. Organização e ilustrações de Adriana Calcanhotto. Editora Casa da Palavra. Páginas: 136. Preço médio: R$ 48  CORREIO BSB 31.07

      
"Ao longo do processo descobri porque há poucas antologias como estas: a burocracia é tanta para conseguir a cessão dos poemas que é fácil desistir da ideia" Adriana Calcanhotto


Desenho que ilustra o poema As borboletas, de Vinicius de Moraes  


Foi Carlos Drummond de Andrade quem provocou a primeira faísca na mente de Adriana Calcanhotto. Em A educação do ser poético, o escritor mineiro questiona os motivos que levam as crianças a deixar de lado a verve poética ao longo da vida. Adriana não responde. “O importante é a pergunta”, argumenta. A reação à indagação veio em forma de livro. Antologia ilustrada da poesia brasileira, que acaba de chegar às livrarias, reúne textos selecionados e ilustrados pela cantora. Mais um trabalho de uma artista que canta, escreve, desenha e, agora, declama.

Contrariando as antologias tradicionais, Adriana optou pela ordem cronológica. A seleção inicia em 1846, com Canção do exílio, de Gonçalves Dias, e segue até 2008, com a inusitada escolha do humorista Gregório Duvivier, que assina Receita para um dálmata. Entre o ponto de chegada e o de partida, passam Olavo Bilac, Mário de Andrade, Mario Quintana, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, entre outros.

Manuel Bandeira e Cecilia Meirelles ficaram de fora, por imbróglios autorais, mas foram reverenciados com um agradecimento ao fim do livro. O poetinha Vinicius de Moraes ganhou a dedicatória. “Feliz em lançar o livro no ano de seu centenário”, disse.

Além de exaltar o amor pela poesia, a cantora aproveitou a oportunidade para exercer a faceta de ilustradora. Os lúdicos desenhos que acompanham cada um dos poemas facilitam a interação entre as crianças leitoras e os textos. Apesar da atmosfera infantil que circunda a obra, Adriana adverte: “O livro se destina às crianças de todas as idades”. Sem restrições.


Como surge a ideia de coletar e ilustrar poemas?
Na verdade, eu sentia falta desse livro. Uma coletânea de grandes poetas que escreveram para crianças. Não necessariamente escrito para elas, mas de quem possam gostar. Não é uma questão de entender. Procurava por esse livro e não encontrava. Achei algumas antologias que separavam os poemas por assunto. Preferi separar por ordem cronológica, que traz o eco de um poeta em outro, de uma geração na outra. As rupturas, os retornos. No fundo, fiz esse livro porque queria tê-lo para mim (risos). Então, compartilhei.

 Foi a primeira empreitada pelo gênero?
Eu já tinha feito uma coisa parecida, ao ilustrar O poeta aprendiz, um poema de Vinicius (de Moraes) emblemático, que depois virou uma canção. Enquanto canção ganhou ares mais lúdicos, embora Vinicius e Toquinho tenham a gravado em um álbum “adulto”. De qualquer forma, sempre achei que essa música falava com as crianças, falava comigo. Fiz esse trabalho, pois acredito que quanto antes se entra em contato com a poesia, melhor. Quando você, muito novo, decora um poema, aprende, mesmo que ainda não tenha acesso a todas as “camadas”, você passa a carregar aquela voz poética, para sempre.

Qual foi o critério utilizado para selecionar os poemas?
Mais do que simplesmente visualizá-los, precisava vê-los com espontaneidade. Teve um poema do Cassiano Ricardo que escolhi. Acho-o lindo. Mas não consegui desenhá-lo. Tentei de uma forma, de outra, mas não gostava. Acabei trocando de poema. Tive o cuidado para deixar espaço para a imaginação do leitor. São apenas vinhetas. A intenção não é esgotar o assunto, muito menos explicar o poema. De jeito nenhum, poetizar o poema (risos). Minha ideia é abrir portas, não fechá-las.

Como se manteve motivada após a dificuldade com os direitos autorais?
Simplesmente porque não acho que as crianças devam ser prejudicadas por imbróglios adultos.

Você escreve poemas?
Não, faço letras de músicas. Sempre com uma melodia minha ou de um parceiro na cabeça. Posso também musicar o poema de alguém. Mas sentar para escrever poesia? Não. Tenho escrito prosas, crônicas. Poesia eu deixo para os profissionais.

O lançamento está relacionado com o mundo infantil, por que assinar como Calcanhotto e não Partimpim?
É muito difícil essa questão de ter um heterônimo. Às vezes, fico confusa. A Partimpim está voltada para a música. Ela não teria a disciplina para reunir esses textos. Ela não tem bagagem, estofo, para ler toda essa poesia. Além disso, ela não desenha. Ela é música. A leitora de poesia é a Adriana Calcanhotto. A Partimpim só faz bagunça, faz o que quer. Talvez até goste de poesia, mas daí a organizar um livro...

Em algumas ocasiões,você canta canções da Partimpim, mas declama poemas. Como resolve o conflito?
Tem sido experiências interessantes, que nunca tinha feito. Faço voz e violão de canções da Partimpim, mas falo sobre o livro. Não é uma coisa fácil para mim (a cantora faz uma pausa). A única canção que parece transitar entre as duas Adrianas é Fico assim sem você. O resto eu não consigo misturar. Eu sempre espero que as crianças não façam muitas perguntas, pois o que eu mais tenho medo é de pergunta de criança (risos).

Recorda alguma pergunta curiosa?
No show, elas perguntam o porquê de a ordem das canções ser diferente da do disco. Como respondo isso de forma sincera em poucas palavras? (risos). Mas são as melhores perguntas, na maior parte das vezes.


      
Antologia ilustrada da poesia brasileira – Para crianças de qualquer idade 
Vários autores. Organização e ilustrações de Adriana Calcanhotto. Editora Casa da Palavra. Páginas: 136. Preço médio: R$ 48