quinta-feira, 6 de junho de 2013


Academia Sudoestina de Letras - 1
(Martiniano J. Silva, escritor, advogado, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), da Academia Goiana de Letras e Mineirense de Letras e Artes, IHGGO, UBEGO, mestre em História Social pela UFG, professor universitário; martinianojsilva@yahoo.com.br) DIÁRIO DA MANHà 06.06

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Em dois de maio de 1976, publiquei no jornal O Popular, de Goiânia, em página inteira, um artigo com o título acima epigrafado, que agora, 37 anos depois, ouso republicar, à guisa de verificar se estaria atualizado, mereceria sua permanência.  Quem me dera saber escrever! O certo, contudo, é que, sabendo ou não, ouso prosseguir, inclusive meio desconfiando, querendo rever e avaliar o que escrevi. O texto a seguir teria alcançado os seus objetivos? Mineiros, Jataí, Rio Verde, Santa Helena, Quirinópolis, Caçu, Serranópolis e outras cidades do Sudoeste de Goiás teriam, hoje em dia, alimentando-lhes a alma e o espírito, a instituição descrita e anunciada no texto?  O possível leitor, se o escriba o tiver, dirá,sobretudo se conhecer a região.  Desejo que o meu escrito coincida em gênero e grau com o que escreveu o notável Mario de Andrade (1893-1945), em cartas a Manoel Bandeira (125), assim:

“Se escrevo é primeiro porque amo os homens. Tudo vem disso pra mim. Amo e por isso é que sinto esta vontade de escrever, me importo com os casos dos homens, me importo com os problemas deles e necessidades. Depois escrevo por necessidade pessoal. Tenho vontade de escrever e escrevo (isto é pro caso dos versos.) Mas mesmo isto psicologicamente pode ser reduzido a um fenômeno de amor, porque ninguém escreve para si mesmo a não ser um monstro de orgulho. A gente escreve pra ser amado, pra atrair, encantar etc.”   

O nome é bonitão, poético: ACADEMIA SUDOESTINA DE LETRAS.  Deseja-se criá-la, fundá-la. De outra parte, sabe-se que existem por aí os xenófobos, inveterados, dispostos à crítica, sempre pejorativa e maledicente, à criação e fundação de entidades culturais, particularmente às academias. Chamem-nas de velharias, trastes, ou coisa antiga. Parece que o substantivo não lhes cheira muito bem. Paciência meus caros, pois há também os contrários a essa tese, os que estimam as academias de letras, decerto por verem nelas, até hoje, uma das formas mais evidentes de se cultuar as artes. A esse grupo, chamaria de xenófilo, ou xenófilos, por demonstrarem simpatias a uma tradição no ele tem de válido e bom. E com essa conotação, gostaria de pertencer a esse grupo. Ser xenófilo.

A bem dizer, a fundação de entidades culturais chamadas academias ou não, resta de ser uma questão indispensável e necessária com realce num Estado como o de Goiás onde o fenômeno cultura preciso ser acordado, estimulado, conscientizado. Eis o porquê do autor destas linhas se propor agora em transformar a Academia Mineirense de Letras (agora também de Artes), em “Sudoestina de Letras”. Quer dizer: uma entidade cultural para atender a toda uma região, grandona sim senhores. Explique-se que poderia ser um atrevimento, quase uma petulância, o que talvez não passe de uma ousadia impulsionada pela coragem e o destemor. Trata-se de uma ideia que não poderá servir como salvo-conduto para projeção de alguns. E não é uma ideia nova. Sempre imaginava uma entidade cultural com a participação de todo o Sudoeste de Goiás. Ora, existem muitas co-irmãs por aí, em pleno funcionamento. E quantos valores apareceram! E quanto serviço prestaram! Poderá não ser uma explosão cultural, radical, contrária ao passado como ocorreu com a Semana de Arte Moderna em São Paulo nos idos de 1922. Lá já se tivera um classicismo literário-artístico, um romantismo, um realismo, um parnasianismo, um simbolismo. Lá tivera também um desenvolvimento econômico social-político, com alguns reflexos noutras unidades do país. E aqui, tudo isso tem acontecido, de certa forma, sem, contudo, ter alcançado a maioria do povo para uma consciência grupal sobre a arte.

Significa que as tendências literárias ou estéticas, também chamadas escolas, existiram no tempo e no espaço, mas o Sudoeste, como de resto o Brasil Central – não raro as exceções – não tomou conhecimento. Ou o que se quer dizer , num resumo, é que tivemos mesmo em Goiás uma boa literatura, uma pintura, uma pintura, uma música, uma história etc., mas não se teve nem se tem um movimento crítico consciente sobre tudo isso. A bem dizer, não se conhece nem a obra de Bernardo Élis, que é nome nacional. Por isso, o sudoestino, antes de tudo, precisa conhecer em maior profundidade, nessa nova fase de sua vida, alÉm da história e a arte do seu Estado, também o que seja literatura do país em todas as suas inclinações e pendores. Que passe a estudar nas entrelinhas, através dessa entidade a nascer, que haverá de promover a cultura, os novos ismos literários que andam tão assanhados por aí, a partir do que se convencionou chamar de clássico, o romantismo, o concretismo, um praxismo e os tais estruturalismos, para sugar o melhor de todo esse barulho. Para isso, necessita estar unido. Unido por uma agremiação literária que defenda de toda forma as questões culturais, tendo como ideia central, conhecer tudo, estudar, pesquisar, pois (e não se vai pedir perdão) de quem ainda não teve a sorte de conhecer nem as artes e a história do seu próprio Estado – é de se crer que não poderia organizar uma entidade com aquele específico propósito que fora da Semana de Arte Moderna.

Nada de assaltar os chamados “bastiões do passadismo”. É preciso que se conheça primeiro o que é mais autêntico e original do passado. A maioria de nós sudoestinos carece é de estudar o que foi a Semana de Arte Moderna em 1922. Carece, com certa urgência, de ler os Gilberto Mendonça Teles, os Carmo Bernardes, os Anatole Ramos, os Aidenor Aires, os Brasigois Felício, os Miguel Jorge, os Ely Brasiliense, as Iêda Schmaltz, os Hugo de Carvalho Ramos e mais uma fila de nomes. Note-se que as perspectivas culturais na região só de certo tempo estão surgindo, não obstante o caminho das boiadas já tenha sido descrito por Leo Godoy Otero. Basileu Toledo França já focalizou o instante dos pioneiros. Generalizando o enfoque, a literatura, originário do sertão, no que tem de mais autêntica, telúrica, já foi escrita por Bernardo Élis, Hugo de Carvalho Ramos, Carmo Bernardes, Francisco de Brito, Bariani Ortêncio e alguns poucos, para se lembrar só os nomes do Estado.

É de ser visto também que o bucólico, lentamente, vai desaparecendo. O carro de boi vai se convertendo em lembrança. As rodovias tornaram vizinhos os que viviam longe morando perto. A indústria é principiante. A lavoura se diversifica. De modo que existe um tipo de metamorfose, uma aflição, uma angústia, como prenúncio de mudança, embora o boi ainda continue dominando quase tudo no gosto do povo. Por outro lado, é de ser observado que a arte, literária que seja, só pode realizar-se perante a consolidação de povo como povo. Ele, aqui, por esse ângulo, ainda não conseguiu essa consciência.        

Há quem diga que a arte nasce por imposição da economia. Que a literatura resulta do desenvolvimento econômico-social, frutifica como um capítulo da sociologia e como efeito quase fatal de uma infra-estrutura econômica , surgindo daí a teoria sociológica, muito do gosto dos marxistas e seus parentes. Antes desse entendimento, segundo Delson G. Ferreira, já diziam que a literatura é a “expressão do b em”, daí o porquê da teoria ética, platônica ou jesuítica. Horácio manteve a sua, afirmando que literatura é instrução e deleite que deformou a teoria de Aristóteles. Há outras, como esta de nome biografismo, aquel’outra filológico-gramatical; e por aí afora. Para o nosso caso, importa é estudar a todas, conhecê-las em profundeza, buscando compreender que o artístico é um fenômeno eminentemente humano. E o homem não pode prescindir dele.

(Martiniano J. Silva, escritor, advogado, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), da Academia Goiana de Letras e Mineirense de Letras e Artes, IHGGO, UBEGO, mestre em História Social pela UFG, professor universitário; martinianojsilva@yahoo.com.br)


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DIREITOS AUTORAIS
Ministra da Cultura encontra artistas para ter discussões sobre o Ecad. FOLHA SP 06.06

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A ministra da Cultura, Marta Suplicy, decidiu retirar a proposta de fiscalização do Ecad, entidade que arrecada e distribui direitos autorais relativos a obras sonoras no Brasil, da reforma da Lei de Direitos Autorais elaborada pelo ministério --atualmente, o anteprojeto está em análise em outras pastas do governo.

A Folha apurou que a decisão da ministra visa facilitar a aprovação da fiscalização da entidade a partir de um projeto de lei em tramitação no Senado, já que a votação da reforma inteira da atual Lei de Direitos Autorais tende a ser mais demorada.

A proposta de fiscalização do Ecad conta com o apoio de artistas como Leoni e Caetano Veloso. Na terça-feira (4) à noite, Marta reuniu-se com artistas, produtores culturais e políticos, na casa do senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), em Brasília, para discutir sobre o tema.

Em março passado, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica multou o Ecad (e seis associações que integram a entidade) em R$ 38 milhões por formação de cartel e por impor barreiras à criação de novas associações de defesa dos direitos autorais de músicos. O Ecad já recorreu à acusação.

Desde então, artistas vêm se reunindo para debater a fiscalização da entidade --Marta conseguiu o apoio de cantores como Caetano Veloso e Gilberto Gil, que inicialmente eram reticentes à ideia.

O grupo tem trabalhado na elaboração do substitutivo ao projeto de lei que tramita no Senado, a ser apresentado no final deste mês. A proposta é fruto da CPI do Ecad do ano passado, presidida por Randolfe Rodrigues.

De acordo com esse substitutivo, a fiscalização da entidade poderá ser feita por um conselho com formação eminentemente técnica e participação de artistas, nos moldes do antigo Conselho Nacional de Direito Autoral (CNDA), extinto em 1990. Ainda não se sabe se o conselho será vinculado ao governo federal.

O MinC, por sua vez, criaria um órgão para tratar dos Direitos Autorais no Brasil como um todo, que também poderia vir a fiscalizar o Ecad.

O Ecad diz não temer "qualquer tipo de supervisão, desde que técnica, sem viés politico, dentro dos limites constitucionais, e que preserve o direito do autor de fixar o preço pela utilização de
sua obra".




quarta-feira, 29 de maio de 2013

Justiça pela qualidade na educação.  Autor(es): Priscila Cruz
O Estado de S. Paulo - 29/05/2013

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Em qualquer sociedade do século 21, são inúmeras as demandas sociais, econômicas e culturais. Aqui, no Brasil, não é diferente. Apesar de muitos progressos, ainda temos enormes desafios pela frente.

De fato, é muito difícil falar em prioridade. Entretanto, não há estratégia mais vigorosa e sustentável para melhorar a vida dos brasileiros e elevar o patamar do País em diversas áreas do que garantir o direito da população a uma educação pública de qualidade.

Se existe uma área capaz de ir muito além de seus resultados diretos, essa área é a educação. Seu impacto na saúde, na segurança, no crescimento econômico, na redução da pobreza e das desigualdades e até na felicidade das pessoas está consagrado nas mais recentes e robustas pesquisas nacionais e internacionais.

Esse entendimento, aliás, existe há muito tempo em nosso país. Mais de 80 anos atrás, os chamados "Pioneiros da Educação Nova" assim abriram o seu Manifesto, de 1932: "Na hierarquia dos problemas nacionais, nenhum sobreleva em importância e gravidade ao da educação".

Além de entendermos todos os bons impactos da educação de qualidade na nossa vida, é preciso reconhecer que a educação básica é um direito constitucional - e que, portanto, se devem assumir claramente o dever e a responsabilidade de fazer com que esse direito seja cumprido.

Pois bem, então, de quem é a responsabilidade pela educação no País?

A nossa Constituição federal diz que é um dever do Estado e da família, com a colaboração da sociedade. Ao Estado cabe garantir o direito dos alunos ao acesso, à permanência e à conclusão dos estudos, em sistema público gratuito, com equidade e qualidade.

Os três Poderes fazem parte do Estado. No entanto, o primeiro que vem à mente do cidadão é o Poder Executivo (principalmente o Executivo federal). Depois, o Poder Legislativo e, com sorte, o Poder Judiciário. Porém todos os três Poderes têm o dever constitucional de garantir o direito à educação.

O Sistema de Justiça é espaço essencial para garantirmos condições mais justas de vida e de desenvolvimento dos brasileiros e do Brasil. Seus operadores - juízes, promotores, defensores públicos - são a chave para a garantia do direito à educação de qualidade para todos os brasileiros, tanto por se tratar de um direito humano fundamental quanto por ser essencial ao exercício dos demais direitos.

Ao lado do Executivo e do Legislativo, o Sistema de Justiça tem, portanto, a missão contemporânea de combater o maior erro histórico do nosso país: o descaso para com a educação. Por séculos, milhões de pessoas tiveram sua realização pessoal e sua capacidade de contribuir para uma sociedade melhor sacrificadas.

Em recente lançamento do livro Justiça pela Qualidade na Educação, publicação organizada pelo Movimento Todos Pela Educação e pela Associação Brasileira de Magistrados, Promotores de Justiça e Defensores Públicos da Infância e da Juventude (ABMP), o relator especial da Organização das Nações Unidas para o Direito à Educação, dr. Kishore Singh,  observou, de forma iluminada, que "o direito à educação não é um ideal ou uma aspiração, mas um direito legalmente executável".

O trabalho da Justiça, portanto, deve ser o de garantir que o direito à educação seja efetivado em suas diversas dimensões, com foco em soluções estruturantes - ainda que os pleitos específicos ou individuais também mereçam atenção. É preciso que o mundo jurídico e o educacional se encontrem e se articulem com o propósito de elevar a qualidade da educação para o aluno, pois ainda é muito comum que o desconhecimento mútuo leve a decisões judiciais que prejudicam a educação e ações educacionais fora dos limites legais.

Em 2001, o Sistema de Justiça mobilizou-se em torno da Justiça pela Educação, um apoio sem o qual o Brasil não teria dado o grande salto rumo à universalização do ensino fundamental, a etapa obrigatória na época. E isso significou um avanço importante: em 2012, chegamos a 98,2% de crianças e jovens de 6 anos a 14 anos na escola.

Não há dúvida, no entanto, de que a mobilização pela qualidade da educação é a maior necessidade contemporânea brasileira, uma vez que, mesmo tendo avançado nesse sentido nos últimos anos, esse avanço ainda é lento.

Portanto, a ideia de aproximar mais as duas áreas - a da educação e a do Direito - para buscar ajudar o Brasil a dar esse imprescindível novo salto educacional não significa a judicialização da educação. Ao contrário, a ideia é fazer com que, juntas, essas áreas possam ajudar-se no entendimento sobre a questão da qualidade da educação, mais especificamente da garantia da aprendizagem dos alunos, e assim fazer com que a área educacional avance de maneira mais acelerada e persistente nos próximos anos.

O Poder Executivo, o Legislativo e o Sistema de Justiça podem, juntos, estabelecer uma estrutura de ações e articulações necessárias para a obtenção de resultados, com responsabilidades bem definidas de cada um dos entes envolvidos, buscando a efetivação do direito à educação de qualidade para todos.

A questão não é simples. Existem muitos consensos na área educacional, mas também muitas divergências. A aprendizagem dos alunos desde os primeiros anos na escola," no entanto, é um consenso e um direito deles, que deve ser assegurado.

Devemos ter em mente que não será qualquer educação que efetivará os direitos das crianças e dos jovens. Nem garantirá a sustentabilidade social e econômica do Brasil./ Diretora executiva do Movimento Todos Pela Educação



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Dicas de português
por Dad Squarisi .  dadsquarisi.df@dabr.com.br.  CORREIO BSB 29.05

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Recado
“Quem cala consente.”
Povo sabido

           

Língua afiada
Nossa Senhora! Apesar da pane no site do MEC, o Enem bateu recorde. Mais de 7 milhões de estudantes se inscreveram no novo jeito de entrar na universidade. Com o sucesso, uma condição se impõe — pronunciar a palavra com respeito aos ouvidos. Recorde joga no time de concorde e acorde. São todas paroxítonas. A sílaba tônica é cor sim, senhores.


Sem limite
A tecnologia avança. Sofisticação e perfeição se dão as mãos e apresentam criações até há pouco inimagináveis. É o caso da tevê. Depois de LCD, LED e 3D, pinta novidade na praça. Trata-se de aparelhos com ultradefinição. A imagem por eles transmitida ultrapassa a perfeição. Ufa! A notícia despertou a curiosidade de gregos e troianos.

Questões pipocaram a torto e a direito. Uma delas: a grafia do mais recente objeto de desejo. Com hífen? Sem hífen? Ulta- obedece à regra que abarca a maior parte dos prefixos. Pede o tracinho quando seguido de h ou de a (letras iguais se rejeitam). No mais, é tudo coladinho como unha e carne: ultra-humano, ultra-avançado, ultradefinição, ultrarregrado, ultrassatisfeito.


Manhas latinas
Guarde isto: o latim dispensa hifens e acentos. Por isso, Corpus Christi se escreve assim — latinamente.


Em tempo
A maior dor de cabeça do governo? É a dor no bolso dos brasileiros. Trata-se da inflação. O preço dos alimentos está pela hora da morte. Com os mesmos reaizinhos, compra-se cada vez menos. Tão grave situação levou muitos a tomar decisão inédita — parcelar o valor registrado pelo caixa do supermercado.

E daí? Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, anunciou medidas. “Vamos agir tempestivamente”, disse diante de câmeras e microfones. Viva! O homem pode estar perdido na busca de saídas para a rebeldia dos preços. Mas sabe o significado de palavras. Tempestivamente pertence à família de tempo. Quer dizer em tempo, dentro do prazo.

Muitos confundem o vocábulo com temperança. Aí, metem os pés pelas mãos. Falam em “pessoa intempestiva” para classificar a criatura de pavio curto. Bobeiam. O adjetivo não tem relação com temperamento. Tem, isto sim, com oportunidade, prazo. Ação intempestiva quer dizer fora do tempo próprio, inoportuna.


Dizem por aí
Dilma chamou a trapalhada com o Bolsa Família de “boato falso”. Ouvintes ficaram intrigados. A questão: boato falso é pleonasmo? Não. Boato, segundo o Aurélio, é “notícia anônima que corre publicamente sem confirmação”. Pode ser falsa ou não.


Que vista!
Os brasilienses dizem que têm o céu mais bonito do mundo. Os nova-iorquinos são mais modestos. Afirmam que, em cinco dias, têm o pôr do sol mais bacana de Europa, França e Bahia. Entre 26 e 30 de maio, bola de fogo se vislumbra entre edifícios e… deslumbra. Ao divulgar o fato, o repórter vacilou na hora do plural. Como é mesmo? É assim: pores do sol.


Por falar nisso…
Pôr do sol ensina ensina duas lições. Ambas remetem à reforma ortográfica:

1. Pôr e pôde (passado do verbo poder) são as únicas palavras que conservam o acento diferencial. As demais ficaram livres e soltas — sem lenço, sem documento, sem agudos e sem circunflexos: Ontem ele não pôde pôr os livros na estante. Hoje pode.

2. Compostos com mais de duas palavras (ligadas por conjunção, preposição, pronome) perderam o hífen: pôr do sol, pé de moleque, tomara que caia, bicho de sete cabeças, maria vai com as outras e por aí vai.

A regra tem duas exceções. Uma: não abrange vocábulos pertencentes aos reinos animal e vegetal (joão-de-barro, cana-de-açúcar, castanha-do-brasil, castanha-do-pará). A outra: manteve o tracinho em pé-de-meia, água-de-colônia, cor-de-rosa.


Leitor pergunta

Quando posso usar o pra?

Anamaria Leopoldo, BH

A preposição pra — assim, sem acento — é forma descontraída de para. Abuse dela em textos informais — os que usam sandálias, camiseta e bermuda. Em textos formais, os que vestem terno e gravata, deixe-a pra lá.

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Por que produtividade baixa?
Diferentes indicadores revelam que o nível e a taxa de crescimento da produtividade brasileira são modestos para padrões internacionais e avançaram pouco nas últimas décadas. Esse padrão está por trás do crescimento médio anual do PIB per capita de 1,2% entre 1980 e 2012. VALOR ECONÔMICO 29.05

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Por que a produtividade é baixa? Ao menos seis explicações complementares nos ajudam a compreender o porquê. A primeira está associada às limitações internas das empresas, ou aos constrangimentos à produtividade relativos ao "chão de fábrica". Trata-se de restrições ao desempenho decorrentes, dentre outras, de gestão deficiente, pequeno engajamento em pesquisa, desenvolvimento e inovação, acanhados investimentos em tecnologias da informação, novas tecnologias e treinamento profissional, e baixa qualificação da força de trabalho - nada menos que 27% da população em idade para trabalhar é analfabeta ou analfabeta funcional.

A segunda explicação está associada aos constrangimentos à produtividade relativos àquilo que fica do lado de fora do "chão de fábrica", ou produtividade sistêmica. Referem-se aos problemas externos às empresas que interferem, direta ou indiretamente, no desempenho individual e coletivo e nos retornos dos investimentos. Incluem-se nessa categoria, os elevados custos e restrições associados aos impostos, burocracia e juros e às deficiências dos serviços públicos e das infraestruturas. Instabilidade macroeconômica, insegurança jurídica, problemas de coordenação entre esferas de governo e internas aos próprios governos, legislações que desestimulam a competição, elevada presença de oligopólios e monopólios em vários setores, cultura que desencoraja a meritocracia e limitada abertura da economia para o resto do mundo também contribuem para constranger a produtividade sistêmica.



A terceira explicação é a contínua transferência de recursos de setores de produtividade mais alta para setores de produtividade mais baixa. Enquanto a participação da indústria no PIB passou de 33,4% para 14,4% entre 1980 e 2011, a participação dos serviços passou de 45,2% para 67,1%. O problema é que a produtividade média na indústria é 36% maior que nos serviços. No comércio, hotéis e restaurantes, o maior segmento do setor de serviços em termos de emprego, o hiato de produtividade em relação à indústria passa de 500%. Muito além da realocação de emprego entre setores, a maioria dos novos empregos gerados na economia está concentrada em setores de baixa produtividade. De fato, no início da década de 2000, o setor de serviços respondia por 26,6% dos novos postos formais de trabalho criados no setor privado. Em 2012, aquela participação já havia passado de 74%.

A quarta explicação é a baixa produtividade média das micro e pequenas empresas. A produtividade dessas empresas é substancialmente menor que a de congêneres do mesmo ramo, mas que operam em escalas produtivas maiores. O problema é que nada menos que 99% do total de empresas formais são micro e pequenas e 76% delas estão no setor de serviços.


A quinta explicação está associada à pobreza e à desigualdade de renda. Evidências empíricas mostram que pobreza e má distribuição de renda explicam baixa produtividade por meio de diversos canais de transmissão, incluindo limitado acesso dos pobres a crédito, tecnologias, mercados, educação de qualidade e qualificação profissional, e limitada ou nenhuma participação das atividades econômicas da população pobre em cadeias produtivas e nas exportações. Evidências empíricas também mostram que a melhoria da distribuição de renda tende a ser acompanhada por mudanças na composição da demanda por consumo e pela maior probabilidade de obtenção de consensos em torno de agendas de políticas públicas mais sustentáveis, que são críticas para o aumento dos investimentos e da produtividade.

Por fim, a sexta explicação está associada às elevadíssimas discrepâncias de produtividade entre as empresas e entre setores de atividade. O problema é que a interdependência entre as empresas só faz crescer através de cadeias de produção, terceirização e aquisição de toda sorte de serviços e infraestruturas, de forma que o desempenho de um fornecedor ou componente de uma determinada cadeia produtiva impacta, direta ou indiretamente, o desempenho dos demais componentes daquela cadeia de produção. Por isso, a elevada discrepância de produtividade individual não é neutra do ponto de vista coletivo. Empresas mais dependentes de cadeias produtivas, como é o caso daquelas da indústria manufatureira em geral, estão mais expostas às produtividades de terceiros que empresas da área de mineração, por exemplo, o que ajuda a explicar as diferenças de remuneração do capital e de competitividade entre os setores.

Como as causas da baixa produtividade do Brasil são variadas e complexas e as soluções requerem a participação de todos, para se avançar será necessária a construção de uma agenda concreta de ações, além de muita coordenação entre os envolvidos para implementá-la com sucesso. Na medida que o avanço da produtividade pode proporcionar enormes benefícios em termos de crescimento econômico sustentado, competitividade internacional e geração de bons empregos e renda, parece-nos razoável sugerir que essa agenda deveria ser elevada à condição de prioridade nacional.

Jorge Arbache é assessor da presidência do BNDES e professor da Universidade de Brasília. Este artigo não representa necessariamente as visões do BNDES e de sua diretoria. jarbache@gmail.com.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Millôr desenhista, por ruy castro
RIO DE JANEIRO - Um dia perguntei a Millôr Fernandes quem viera primeiro, o escritor ou o desenhista, ou qual nele se revelara mais cedo. Ele disse: o desenhista. Fiquei surpreso porque, para mim, se Millôr nascera para escrever, o desenho parecia algo que ele tivera de aprender. Eu ainda não sabia o suficiente de André François, James Thurber e Saul Steinberg para entender que gênios do desenho, como eles, dispensam a linha reta, a limpeza, o retoque.  FOLHA SP 27.05


Millôr me contou que, em sua memória mais remota, nunca se viu sem desenhar, ao passo que se lembrava de quando começara a ler e a escrever. Donde seu instrumento primordial era o lápis, não a caneta. Não será surpresa se o mergulho em seu acervo gráfico, a cargo de Ivan Fernandes, revelar que o artista Millôr foi tão grande ou maior que o escritor.

Seja como for, é esta última faceta que estará no monumento em sua homenagem a se inaugurar hoje no Rio, a um ano de sua morte: um banco de calçada, projetado pelo arquiteto Jaime Lerner, em que a silhueta recortada de Millôr, traçada por Chico Caruso para lembrar "O Pensador" de Rodin, atravessa uma placa de aço e permite ver o mar e o pôr do sol.

O banco fica no recém-batizado largo do Millôr, junto à pedra do Arpoador, um espaço que ele pisou todos os dias, em seus 58 anos de Ipanema, depois de correr ou caminhar em marcha acelerada pela areia dura, como o atleta que também era.


Desenhista, pensador, atleta. Mas só agora percebo que dois presentes com que me honrou tinham a ver com desenho: uma coleção de sua revista "Pif-Paf" (os oito números originais, de 1964, não a edição fac-símile, de 2008) e o guache com que ilustrou um artigo que escreveu em 1999 sobre meu livro "Ela é Carioca - Uma Enciclopédia de Ipanema", no qual seu verbete foi o mais difícil de fazer. Ele não cabia em verbetes.