quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013


Quando um negócio malsucedido é credencial para um novo projeto
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Brunno Galvão, do site Remarcados, seu quarto negócio: importância de detectar problemas e alterar rota
Procura-se uma pessoa jovem, com ideias inovadoras, capacidade administrativa, fácil de se relacionar e... que já tenha "quebrado" uma empresa. Pode causar surpresa, mas muitos fundos de participações, especialmente aqueles voltados a negócios de tecnologia e internet, passaram a investir em empreendedores que estão em seu segundo ou terceiro negócio, depois de terem criado empresas que, por alguma razão, acabaram malsucedidas. VALOR ECONÔMICO 20.02

É uma mudança radical de visão. "Antes, pensava-se que o fato de [um empresário] ter dado errado uma vez significava que ia dar errado de novo, mas isso começa a mudar", afirma Marcelo Amorim, sócio da Jacard Investimentos, de Florianópolis. Para os administradores do fundo, ter fechado uma empresa não é, necessariamente, motivo para não receber novos aportes. A Jacard tem um caso desse tipo em seu portfólio - a Zuggi, um site de busca para crianças.

Essa mudança ganha força à medida que se dissemina uma percepção muito comum em centros de inovação globais, como o Vale do Silício, na Califórnia, e Israel. A ideia é que pessoas que não se deixam abater por um revés em seus primeiros projetos, a ponto de começar tudo de novo, têm a propensão de criar negócios em série - um ponto importante para quem quer patrocinar companhias nascentes.

Muitos fundos internacionais passaram a fazer aportes no Brasil recentemente, o que explica essa mudança de humor no mercado, segundo gestores de fundos e candidatos a investimentos. A tendência é que o número de casos de "empreendedores reincidentes" aumente no país, por uma razão simples: com recursos financeiros disponíveis, mais gente vai partir para a criação de seu próprio negócio. Muitos podem errar, mas um número maior deles seguirá tentando.

Natalia Monteiro é um exemplo dessa tendência. O primeiro negócio da administradora, criado em 2009, foi um site de comércio eletrônico de produtos infantis, que começou vendendo aparelhos de inalação. Na época, Natalia achava que o plano tinha tudo para dar certo. Hoje, porém, ela reconhece que esqueceu de um aspecto importante. "Deixei de ouvir o consumidor e pesquisar sobre o real apelo de venda daquele tipo de produto pela internet", diz.

Ter superestimado o potencial de vendas mostrou-se um erro fatal, mas o aprendizado contou pontos a favor de Natalia em 2010, quando ela decidiu criar o Zuggi. Desde então, o site de busca infantil já recebeu duas rodadas de aportes da Jacard e de outros dois investidores. Os valores não são revelados.

Um estudo divulgado pela Harvard Business School, em 2008, mostra que empreendedores que já falharam têm 20% de chance de conseguir um investimento para um novo negócio. Já os que estão no primeiro projeto têm 18% de chance, de acordo com o levantamento, feito nos Estados Unidos.

Na Redpoint e.Ventures, um fundo que dispõe de US$ 130 milhões para investir em companhias novatas de tecnologia no Brasil, existem três cenários possíveis em relação à experiência do candidato. "O melhor deles é um empreendedor que já teve um caso de sucesso. O segundo melhor é o da pessoa que teve uma experiência malsucedida, mas com a qual teve um aprendizado", diz Anderson Thees, sócio da Redpoint. O novato completo - sem experiência de qualquer tipo - aparece apenas no terceiro lugar de preferência.

Trajetórias como a de Brunno Galvão não chegam a ser novidade nos Estados Unidos, mas constituem uma raridade no Brasil. Atualmente, o publicitário comanda o Remarcados, um catálogo on-line de produtos em liquidação. Antes disso, porém, ele teve outros três negócios digitais, que não deram o resultado esperado. O primeiro deles, criado em 2010, foi um site de serviços de orientação profissional via web. Depois, Galvão investiu na criação de um aplicativo para buscar emprego via dispositivos móveis. O último negócio antes do Remarcados foi um site de leilão reverso, no qual os fornecedores oferecem preços cada vez menores para conquistar um cliente.

Uma das principais lições aprendidas com as experiências anteriores, diz Galvão, foi não demorar para admitir as dificuldades e buscar alternativas para salvar o negócio. O Remarcados é resultado dessa mentalidade. O site de leilão reverso que o antecedeu já havia recebido R$ 1 milhão da Gávea Angels, um associação privada de investidores-anjos, quando Galvão percebeu que o negócio não deslanchava. Em vez de insistir no modelo, a decisão adaptar o site e transformá-lo em um catálogo de liquidação. "Foi uma atitude que eu só consegui tomar porque já tinha visto isso em projetos anteriores", diz Galvão.

Nem todo tipo de experiência malsucedida, porém, é vista de maneira positiva pelo mercado. É importante definir com clareza as causas do erro e convencer os potenciais investidores de que o fracasso não foi consequência de desinteresse ou negligência. Algumas empresas, por exemplo, são muito sensíveis a questões macroeconômicas, sobre as quais não têm domínio, como é caso do câmbio para lojas virtuais de produtos importados.

Na Redpoint e.Ventures, muitas companhias são analisadas constantemente, diz Thees. A maioria das que chegam às fases finais de avaliação é de pessoas que já tiveram uma experiência malsucedida, embora nem todas tenham uma segunda chance.

Gustavo Guida já protagonizou tanto um caso de sucesso quanto uma decepção nos negócios. Em 1999, ele fundou o Bondfaro, site de comparação de preços que resistiu ao estouro da bolha de internet no início dos anos 2000, e se uniu ao Buscapé em 2006. Guida passou nove meses trabalhando no Buscapé, mas três anos depois voltou ao mercado com dois novos projetos: o Tuite Fone e o HelpSaúde.

O Tuite Fone não prosperou. O principal produto da empresa era uma ferramenta que transformava ligações telefônicas em um arquivo de áudio, que podia ser postado no Twitter. O projeto mostrou-se inviável, diz Guida, devido ao modelo do Twitter de oferecer diretamente os serviços disponíveis no microblog. O empresário tentou vender o Tuite Fone a terceiros, mas as negociações não foram adiante.

A história foi diferente com o HelpSaúde, um site de agendamento de consultas médicas pela internet. A companhia recebeu um aporte da gestora de fundos Astella Investimentos em 2011. No ano passado, outra gestora, a Kaszek Ventures, anunciou um aporte na empresa. Os valores não são divulgados. "Acho que aprendemos muito mais com o fracasso. O sucesso legitima tudo e costuma levar o empreendedor a não analisar possíveis erros de estratégia", diz Guida.



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013



A abertura dos Jogos Olímpicos do Rio

Coluna Econômica do Luis Nassif - 15/02/2013 -  www.luisnassif.com.br
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No carnaval da Bahia, o cineasta norte-americano Spike Lee perguntou à Marta Suplicy, Ministra da Cultura, como estava sendo planejada a abertura dos Jogos Olímpicos Brasileiros.
Lembrou, em 2008, a abertura dos Jogos Olímpicos da China foi entregue ao diretor de cinema Zhang Yimou (“Lanternas Vermelhas”, “Nenhum a Menos”, “Herói” e “O Clã das Adagas Voadoras”). Investiram-se US$ 100 milhões em um espetáculo marcante, que lançou a imagem da nova China para o mundo. Foram convocados especialistas em danças, fogos de artifícios e mostrou-se, em um espetáculo inesquecível, os muitos séculos de civilização chinesa. O espetáculo foi assistido por 4 bilhões de pessoas.
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Depois, em 2012, a abertura dos Jogos Olímpicos de Londres ficou sob responsabilidade de Danny Boyle, premiado diretor de filmes como "Quem Quer Ser um Milionário?", "Trainspotting - Sem Limites", "127 Horas", "Extermínio", entre outros.
Iniciou-se com um filme de dois minutos com imagens do rio Tâmisa, cenas da vida contemporânea britânica, música de conjuntos de rock. Depois, uma exposição do desenvolvimento econômico e social da Inglaterra até os anos 1960.
De acordo com uma descrição da época, “inicialmente o estádio foi transformado numa imensa área rural com uma representação do famoso monte Glastonbury Tor. Aos poucos, a área verde deu lugar às enormes chaminés de fábricas representando as modificações causadas no país pela Revolução Industrial. Os hinos informais dos quatro países do Reino Unido foram cantados: "Jerusalém" (cantada por um coro ao vivo no estádio), complementada por performances filmadas de "Danny Boy" (na Calçada dos Gigantes, Irlanda do Norte), "Flor da Escócia" (no Castelo de Edimburgo, Escócia) e "Pão do Céu" (na Praia de Rhossili, País de Gales)”.
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Algo surpreso, Lee ouviu de Marta que até agora nada tinha sido pensado em relação aos Jogos Olímpicos do Rio. Pois está na hora de se começar a pensar na cara do Brasil.
Em Salvador, Spike Lee foi conferir os meninos do Olodum, que participaram do celebérrimo vídeo de Michael Jackson. Hoje, adultos musculosos, luzidios e cada vez mais musicais. Na abertura, ele colocaria o Olodum. Mas não poderia deixar de fora os maracatus pernambucanos, o forró nordestino, a chula gaúcha, menos ainda as Escolas de Samba do Rio, os batuques mineiros, a São Paulo cosmopolita.
O personagem central teria que ser o povo com suas cores regionais, celebrando a inclusão de um país que se redescobriu. Por certo haverá espaço para a tecnologia, para os setores modernos, para a eterna sofisticação da bossa nova, para Villa e Jobim.
Mas, de alguma forma, terá que ser mostrado ao mundo a cara do Brasil, nosso modo de ser afetivo, descolado, colocando para desfilar, de braços dados, descendentes de árabes e judeus, de chineses e japoneses, de russos e americanos.


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Visão do alto
O projeto AfroReggae completa 20 anos de ações para afastar a favela da criminalidade e do tráfico
Bloco AfroReggae durante o aniversário dos 100 anos do Bondinho do Pão de Açucar, em outubro de 2012. CORREIO BSB 18.02
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Ele sabia que não seria mais um. “Eu não conseguia ser. Não conseguia me adaptar ao mundo. Sempre tive medo de botar a camisa por dentro das calças, ser obrigado a usar cinto e ter uma vida normal”, é o que diz José Júnior, um dos fundadores e coordenador geral do AfroReggae, ONG modelo no Brasil e no exterior, que há 20 anos se dedica a afastar jovens e adultos da criminalidade e do tráfico, por meio da arte, cidadania e educação.

Caminhar pelas favelas lhe deu uma visão do alto. Hoje — de bermudas e camiseta —, José Júnior transita com autoridade de herói social, ao lado de fãs e parceiros ilustres do AfroReggae: Madonna, Rolling Stones (com quem tocaram na praia de Copacabana), David Byrne e Spike Lee são apenas alguns. Também Caetano Veloso e Regina Casé, apresentados pelo poeta, mestre e guru Waly Salomão, quando tudo ainda era começo. “E um cara que mudou a nossa vida e a gente a dele, que é o Luciano Huck. Fazemos 10 anos de parceria. Nossa relação é rara, a gente se vê três ou quatro vezes por semana”, detalha o coordenador.

Maestro do time que decidiu entrar em Vigário Geral, uma das favelas mais perigosas do Rio, José Júnior chegou decidido a transformar a imagem e a realidade da chacina que matou 21 moradores inocentes, após ação de 30 policiais. No dia 1° de junho de 1994, a favela seria tratada de outra forma. Em lugar do medo, instalaram-se as primeiras oficinas da ONG: percussão, dança afro e reciclagem de lixo, dando vida ao primeiro Núcleo de Cultura do AfroReggae.

No dia a dia, 350 profissionais trabalham dentro do complexo social e integram a corrente que, até ano passado, acumulou 75 projetos calcados em arte, educação e cidadania, a exemplo dos grupos artísticos AR21, Afro Circo, Afro Reggae, Afro Samba, Párvati, Trupe de Teatro, Orquestra AfroReggae e Bloco AfroReggae, que puxou mais de 800 mil foliões pelas avenidas mais disputadas do carnaval carioca. Atualmente condensado em 30 projetos, com orçamento anual de R$ 20 milhões e marca associada a duas empresas e uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), o AfroReggae profissionaliza e reinsere jovens e adultos no mercado de trabalho, além da agir intensivamente na mediação de conflitos por meio de projetos de arte e cultura.

Histórico de sucesso

De barraco a Centro Cultural AfroReggae Vigário Legal — inaugurado em 1997 com Tony Garrido, Falcão (O Rappa) e Cidade Negra —, a ONG acumula vitórias: criou o primeiro espetáculo e CD, o Nova cara; entrou em turnê europeia visitando mais de 20 cidades; criou o Conexões, circuito de shows gratuitos em favelas, com a mesma estrutura e artistas da zona sul (Marisa Monte, Gilberto Gil, Titãs e dezenas de outros).

“A gente sempre quis trabalhar com jovens em situação de crime, ligados ao tráfico. Fugimos do grande frisson da época, que era lidar com meninos de rua e era onde existia financiamento”, lembra José Júnior, que sob sua batuta articulada e sua intuição, impulsionou a construção da primeira sede em 1996, após encontrar Luis Inácio Lula da Silva e entender que precisava de um lugar para chamar de nosso.

No calendário de ações e lançamentos, o AfroReggae comemora a inauguração do escritório de representação da ONG em São Paulo, primeiro fora do Rio, além da parceria com o clube paulista de futebol Corinthians, para criar uma academia de MMA no Complexo do Alemão. Na segunda quinzena de março, estreiam no GNT a série Mulher de bandido, com histórias reais de ex-primeiras damas do tráfico e, finalmente, encontram espaço para celebrar 20 anos de história com final feliz: milhares de jovens longe do crime e mais perto de uma vida melhor.

A gente sempre quis trabalhar com jovens em situação de crime, ligados ao tráfico. Fugimos do grande frisson da época, que era lidar com meninos de rua e era onde existia financiamento
José Júnior, coordenador do AfroReggae
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Literatura
Peripécias de sírio que filmou Lampião são tema de ‘Benjamin Abrahão’
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Livro: Benjamin Abrahão – Entre Anjos e Cangaceiros
Autor: Frederico Pernambucano de Mello
Editora: Escrituras
Páginas: 320
Quanto: R$ 45
FOLHA SP 17.02
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O livro Benjamin Abrahão – Entre Anjos e Cangaceiros é resultado de uma longa obsessão do historiador recifense Frederico Pernambucano de Mello, 65. Desde os anos 1970 ele investiga sistematicamente a vida do aventureiro árabe Benjamin Abrahão (1901-1938). “É uma espécie de cachaça de pesquisador”, brinca.
Não é difícil entender o vício, ainda hoje sem sinais de ressaca. Embora não seja dos personagens mais conhecidos, Abrahão teve ligação direta com dois dos maiores mitos nordestinos do século 20: padre Cícero e Lampião. Repleta de momentos audaciosos e de verdadeiras tragédias, a vida dele daria água na boca de qualquer biógrafo.
Ele desembarcou no Recife em 1915, ainda garoto, fugindo do alistamento militar obrigatório e da crise econômica em seu país, a Síria. Tinha em Pernambuco uns parentes, dedicados ao comércio. Dois anos depois, impressionou o padre Cícero, ao mentir que nascera em “Belém, na terra de Jesus”, e foi seu secretário em Juazeiro do Norte (CE). Após a morte do mítico sacerdote em 1934, dedicou-se então ao mais ambicioso de seus planos: filmar e fotografar Lampião e seu bando. A vida de Abrahão teve um fim abrupto em 1938, aos 37, quando foi assassinado com 42 facadas no sertão de Pernambuco. O crime nunca foi totalmente esclarecido.
A relação entre o sírio e o rei do cangaço foi tema do filme Baile Perfumado (1997), de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, do qual Mello foi consultor. “Abrahão foi um aventureiro. Era um homem repleto de falhas, de poucos escrúpulos. Se fosse um herói não despertaria o meu interesse”, conta.
Um dos lendários golpes de Abrahão ocorreu em 1929. Para reforçar o faturamento de seu armazém, espalhou aos quatro cantos que o padre Cícero daria sua última bênção aos romeiros. A cidade foi invadida por fiéis, recepcionados pelo fiel secretário do padre e seu estoque de santinhos, escapulários e terços.
Isso, porém, era quase nada perto do que ele esperava faturar com Lampião, celebridade internacional nos anos 1930. Abrahão acompanhou o bando em meados de 1936, quando registrou, em fotos e filmes, a mais completa iconografia da história do cangaço. “Os filmes têm uma riqueza extraordinária. A sorte dele foi que Lampião era muito vaidoso, gostava de ser exibir”, conta o historiador.
Mas pouco depois um revés afastou a chance de fortuna. O governo Getúlio Vargas apreendeu o material em 1937, por “atentar contra os créditos da nacionalidade”. O filme só voltou a circular em 1954, após a morte de Getúlio. O material está hoje na Cinemateca Brasileira.
Durante suas pesquisas, Mello adquiriu o equipamento de filmagem e uma caderneta, escrita em árabe, em que Abrahão detalhava o convívio com os cangaceiros. Um dado em especial aplacou outra obsessão de Mello e de tantos outros historiadores --descobrir a real altura de Lampião. O rei do cangaço podia ser o gigante do sertão, mas, segundo o cinegrafista, não media mais do que 1,74 m.





sábado, 16 de fevereiro de 2013



Remédio para a ansiedade afeta peixesDroga que chega aos rios e mares pelo sistema de esgoto torna os animais vorazes e antissociais, afirmam cientistas suecos. Segundo estudo, a eliminação de medicamentos traz riscos à natureza e à saúde humana       
Percas expostas ao moderador de ansiedade: os peixes passaram a caçar sozinhos e a comer mais rapidamente. CORREIO BSB 15.02.13
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O medicamento é ingerido, exerce sua função no organismo do doente e é excretado pelo corpo. A partir daí, essas drogas passam pelas estações de tratamento de esgoto e são descarregadas em cursos d’água. O processo se repete em todos os cantos do mundo, diluindo uma enorme quantidade de substâncias sintéticas em rios e lagos e, possivelmente, chegando de volta às residências. As consequências desse ciclo sobre a saúde humana e o meio ambiente ainda são desconhecidas, mas pesquisadores da Universidade de Umea, na Suécia, conseguiram mostrar que o processo certamente causa impacto na natureza. Os especialistas investigaram as reações de peixes expostos a um moderador de ansiedade bastante consumido naquele país e se surpreenderam com a alteração no comportamento dos animais, o que os levou a concluir que a eliminação de remédios na água pode levar a impactos ecológicos inesperados.

O trabalho foi apresentado ontem durante o encontro anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), maior sociedade científica do mundo e editora da revista Science, que também traz um artigo sobre o trabalho na edição de hoje. Tomas Brodin e sua equipe expuseram um grupo de peixes percas a doses de oxazepam correspondentes às encontradas em águas de áreas densamente povoadas na Suécia. Os animais foram comparados a cobaias que não entraram em contato com a droga. De acordo com o estudo, mesmo pequenas quantidades da substância diluída fizeram com que os bichos passassem a comer mais rapidamente e a correr riscos desnecessários.

As percas normalmente vivem e caçam em grupo, uma estratégia desenvolvida pela espécie para garantir a sobrevivência. No entanto, os peixes que tiveram contato com a droga se mostraram destemidos e menos sociais, deixando seus grupos para procurar alimento por conta própria — um comportamento que os torna mais vulneráveis a predadores. E as esquisitices observadas pelos cientistas não pararam por aí. Ao encontrar alimento, as percas intoxicadas comeram muito mais rapidamente que seus pares. “Mudanças no comportamento alimentar podem perturbar seriamente o equilíbrio ecológico. Vamos analisar quais as consequências que isso pode trazer. Nas águas onde os peixes começam a comer de forma mais eficiente, a composição de espécies pode ser afetada e levar a efeitos inesperados, como o aumento do risco de floração de algas”, conta Brodin.

             
A equipe da Universidade de Umea: resultados surpreendentes




Preocupação
A oxazepam é uma droga usada no tratamento psiquiátrico da ansiedade em seres humanos. Ela não é modificada ao deixar o organismo, e resíduos de seu consumo muitas vezes acabam em ecossistemas aquáticos próximos a usinas de tratamento de esgoto. As substâncias sintéticas que repetem esse processo são chamadas de poluentes de preocupação emergente e também abrigam produtos de beleza, drogas ilícitas, hormônios, pesticidas e aditivos industriais. “São produtos processados que surgiram com a modernidade e representam uma grande preocupação, tanto isoladamente quanto em interação”, descreve Cristina Brandão, coordenadora do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade de Brasília (UnB), que não participou do estudo.

Segundo ela, a utilização de organismos aquáticos no estudo se justifica principalmente pela dificuldade de avaliar esse impacto na saúde humana. Isso porque o ser humano recebe esse tipo de substância por diferentes vias, como ingestão e respiração, tornando difícil isolar somente os efeitos da água. “A preocupação existe exatamente por se observar efeitos em animais, inclusive em mamíferos. Embora não tenhamos evidências ou dados para afirmar os efeitos sobre a saúde humana, esses indicadores em animais são um alerta para começarmos a estudar. Não temos informações para dizer sim ou não.”

Brandão considera que é necessário um investimento grande em estudos que possam identificar quais são os limites dessas substâncias para os ambientes naturais, já que, em sua opinião, a proteção das espécies aquáticas pode prot eger também o ser humano. Ela também ressalta que, mesmo fora das práticas rotineiras de tratamento da água, existem tecnologias avançadas para a remoção desses compostos nas rotas mais importantes de chegada, os esgotos. “Não são as que estão sendo comumente utilizadas, nem no Brasil nem no mundo, mas elas existem e são capazes de remover esses compostos”, afirma.





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CONGRESSO »Rato na web, demissão no SenadoDuas estagiárias são demitidas após publicarem foto de roedor morto na gráfica da Casa e fazerem comentário sobre Renan Calheiros


Fachada da gráfica do Senado: estagiárias fotografaram o animal nas dependências do edifício. CORREIO BSB 15.02.13




O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), assumiu o cargo há duas semanas e, desde então, é um dos alvos preferidos dos internautas brasileiros. Nas redes sociais, os insatisfeitos com a eleição do cacique do PMDB divulgam uma petição contra o senador, que, na manhã de ontem, já somava 1,5 milhão de assinaturas. Apesar de não comentar a mobilização popular, a direção do Senado está incomodada com a avalanche de críticas a Calheiros. Tanto que duas estagiárias da Casa foram demitidas, na semana passada, depois de postarem mensagens com comentários sobre o senador alagoano. As jovens estudantes, uma delas sobrinha do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF ), Joaquim Barbosa, receberam a punição depois de publicarem nas redes sociais que Renan Calheiros seria um “problema” para o Senado. A demissão das estagiárias repercutiu entre funcionários da Casa: servidores que haviam compartilhado críticas, abaixo-assinados ou qualquer outro comentário sobre a eleição do presidente do Senado se apressaram em apagar qualquer vestígio das publicações.


O episódio que levou à demissão das duas jovens aconteceu no último dia 6. As estudantes estagiavam no Serviço de Administração da Secretaria de Recursos Humanos do Senado durante o período matutino. Na manhã daquela quarta-feira pré-carnaval, as estagiárias e os colegas foram surpreendidos com a presença de um rato no meio do setor, que fica no prédio da Gráfica do Senado. Em meio à correria causada pelo roedor, uma copeira matou o animal com a ajuda de um calendário de papelão. O cadáver do bicho ficou por alguns minutos no chão, e as duas jovens decidiram fotografá-lo. Uma delas postou a imagem no Facebook com uma legenda que dizia: “E a gente que achou que o � �nico problema aqui fosse o Renan Calheiros”. A colega, que é filha da irmã de Joaquim Barbosa, publicou a foto com comentário semelhante.


As duas estudantes demitidas estão assustadas com a polêmica e com receio de aparecer. A sobrinha de Barbosa, que estuda direito e era estagiária do Senado havia quase dois anos, não quis comentar a decisão. Ela deletou sua conta no Facebook logo depois de ser demitida. Mas a colega decidiu contar ao Correio os detalhes do episódio, com a condição de ficar no anonimato. Depois de deixar o Senado naquela manhã, Karen (nome fictício) recebeu um telefonema do chefe, que pedia explicações sobre a foto publicada na rede social. O responsável pelo Serviço de Administração de RH marcou então uma reunião com as duas estagiárias para a manhã seguinte. “Quando a gente chego u, o chefe colocou a foto que havíamos postado na internet sobre a mesa e, em cima, pôs a carta de demissão para assinarmos. Levei um susto, não imaginei que fossem tomar uma medida tão radical. Não fizemos nenhuma associação do senador Renan Calheiros ao rato. Acho que foi um mal-entendido”, comenta Karen. “Vários servidores do Senado compartilharam o abaixo-assinado contra o Renan nas redes sociais, eu mesma havia feito isso semanas antes”, acrescenta a estudante de administração.


Segundo Karen, ela também teve reuniões na Diretoria de Recursos Humanos. “Eles explicaram que a nossa demissão era uma determinação da Diretoria-Geral. Alguém imprimiu a foto que postamos na internet e saiu mandando para a chefia. Disseram que o Renan era quem pagava nosso salário e que a gente não podia falar mal dele. Mas eu respondi que quem pagava nosso salário era o povo, e não o senador”, lembra a estagiária demitida. Elas recebiam R$ 820 mensais, além de R$ 130 de ajuda para transporte. Cerca de 2 mil estudantes trabalham como estagiários do Senado Federal. As duas jovens faziam despachos de pedidos de aposentadoria e de solicitações de adicionais de especial ização. Karen entrou no Senado em setembro do ano passado. Já a estudante de direito, sobrinha de Joaquim Barbosa, foi contratada em maio de 2011. Antes de chegar ao setor de Recursos Humanos, ela havia realizado estágio no Arquivo do Senado.

“Indisciplina”

A Secretaria de Comunicação Social do Senado divulgou nota em que classificou a atitude das estagiárias como um “ato de indisciplina”. “Nesse contexto, a administração tem o dever de agir de acordo com o termo de compromisso assinado pelas estagiárias. Nos termos da lei, o estágio não cria vínculo empregatício e o desligamento não se condiciona à abertura de processo disciplinar”, explicou o Senado. “Além do conteúdo ofensivo da matéria, vale registrar que as estudantes postaram-na durante o horário de expediente, utilizando ferramentas de trabalho”, diz outro trecho da nota oficial.
A assessoria de imprensa do presidente do Senado, Renan Calheiros, informou que ele não tinha conhecimento das demissões e que o caso só poderia ser tratado na Diretoria-Geral. A assessoria do presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, informou que ele não comentaria o episódio, mas confirmou o parentesco com a estagiária demitida. Nos próximos meses, o Supremo deve analisar a denúncia apresentada pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, contra Renan Calheiros. O senador é acusado dos crimes de peculato, falsidade ideológica e uso de documentos falsos. Segundo o MPF, Calheiros apresentou ao Senado notas frias para explicar a origem de recursos usados para custear despesas pessoais.