quinta-feira, 24 de junho de 2010

Governo libera R$ 500 milhões para a construção de cinemas

Programa quer estimular a abertura de 600 salas no interior

FSP 24/06

Foi o presidente Lula que, durante o lançamento do vale-cultura, há um ano, deu a ordem: o Ministério da Cultura (MinC) tinha de mudar as feições do circuito exibidor e levar salas de cinema para as pequenas cidades e regiões menos favorecidas.
Seguindo a máxima do "manda quem pode, obedece quem tem juízo", MinC e Agência Nacional de Cinema (Ancine) lançaram ontem, em Luziânia (GO), o programa Cinema Perto de Você.
A meta do programa é estimular a construção de 600 salas nos próximos quatro anos. Hoje, cerca de 90% dos municípios brasileiros não possuem cinema.
"O setor se desenvolveu sozinho e tornou-se conservador", diz Manoel Rangel, presidente da Ancine. O conservadorismo espelhou-se num circuito encastelado nas regiões nobres.
A razão para isso é simples. O custo de construção de uma sala no shopping Iguatemi, em São Paulo, ou no interior do Acre é praticamente o mesmo. Mas, obviamente, o público do Iguatemi pode pagar mais não só pelo ingresso como por todas as guloseimas da bomboniere.
É nessa aritmética que o governo interfere. O programa zera IPI e PIS-Cofins na importação de equipamentos e material de construção para as salas nas áreas foco. Os espaços também estarão isentos de PIS-Cofins nos primeiros cinco anos. Criou-se, ainda, uma linha de crédito de R$ 500 milhões.
O grupo prioritário de cidades é aquele dos 89 municípios com mais de 100 mil habitantes sem salas de cinema. O governo também vai privilegiar os empresários que comprarem projetores digitais, adaptáveis ao 3D.
"A classe C é, hoje, o grande mote do varejo. O audiovisual ainda não tinha captado esses novos consumidores", diz Rangel.
Perguntado sobre o viés eleitoreiro do lançamento, o presidente da Ancine disse apenas: "Os programas são lançados quando estão prontos para serem lançados."

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UnB devolve matrícula a aluno perseguido pela ditadura militar

Câmara de Ensino e Graduação da UnB decide por unanimidade reintegrar estudante vetado pelo vice-reitor José Carlos de Almeida Azevedo

Fonte: UnB.br

Depois de 40 anos, Iraê Sassi voltará a ser calouro. A Câmara de Ensino e Graduação da Universidade de Brasília aprovou, por unanimidade, nesta terça (22 de junho), a reintegração dele ao curso de Letras/Tradução. A decisão devolve ao paulistano de 59 anos o direito de estudar na UnB, que havia sido confiscado pela ditadura militar (1964-1985). "Estou muito feliz, luto por isso há anos", desabafou Iraê, ao receber a notícia sobre sua readmissão.

A história acadêmica de Iraê na UnB começa em 1970, quando ele passa no vestibular para estudar Engenharia Mecânica, mas não consegue efetivar sua matrícula. "Fiz movimento secundarista, fiquei com o nome marcado", relata o ex-aluno do Elefante Branco e do CIEM. O rapaz de 19 anos pede que a reitoria reconsidere a decisão, junta atestado de bons antecedentes e garante que se subordinará às normas da universidade. Mas, despacho do vice-reitor José Carlos de Almeida Azevedo, capitão de mar e guerra da Marinha, indefere o pedido. "Ele me considerava uma ameaça à ordem". Iraê, então, parte para a Justiça para tentar valer seu direito de frequentar a UnB.

A batalha judicial entre o aluno perseguido e os advogados da reitoria linha-dura só terminaria no final do ano seguinte no Supremo Tribunal Federal (STF). Em sua argumentação, o reitor da época, Caio Benjamin Dias, diz que a universidade não poderia "acolher em seu seio, numa posição cômoda, porém masoquista (...) estudantes hostis à ordem, à disciplina e à própria comunidade universitária."

Em 25 de novembro de 1971, o ministro do Tribunal Federal de Recursos (TFR), Armando Rollemberg, decide em favor do estudante. Iraê Sassi, finalmente, é registrado com o número de matrícula 70/05695. Ainda assim, não chegaria ao final do curso. "Lembro que cursei as disciplinas de cálculo, mas logo a repressão aumentou e tive que sumir de circulação", conta o ex-militante do Partido Operário Revolucionário Trotskista Pousadista. Iraê não participou da luta armada, mas estava envolvido com atividades políticas de esquerda. Aos 21 anos, muda-se para São Paulo para tocar o jornal Frente Operária e começa a viver na clandestinidade.

DOCUMENTOS - Enquanto Iraê Sassi se escondia do regime – chegou a mudar de casa sem levar nada pelo menos cinco vezes -, burocratas subservientes tratavam de retirá-lo do quadro de estudantes da UnB. Em agosto de 1974, ele foi jubilado por rendimento insuficiente. No histórico escolar que subsidiou o desligamento consta que ele vinha frequentando as aulas desde 1970 e que estava matriculado em apenas uma disciplina: "Ciências Humanas".

"O aluno só conseguiu cursar a UnB em 72, depois da decisão do STF. E, além disso, não há registros de uma disciplina chamada Ciências Humanas", aponta Elaine Maria de Oliveira Alves, professora da Medicina, a quem coube relatar o processo na Câmara de Ensino e Graduação. As duas informações, mais a documentação do processo judicial, serviram como evidência de que a direção da universidade à época queria afastá-lo do campus. A professora Elaine Maria conta que o trabalho da Secretaria de Administração Acadêmica (SAA) foi fundamental para que ela apresentasse parecer favorável a Iraê. "Eles recuperaram documentos que reconstituíram a trajetória de perseguição sofrida pelo aluno".

A reintegração de Iraê Sassi foi aprovada por unanimidade pelos 15 integrantes que estiveram presentes à sessão da Câmara de Ensino e Graduação de ontem. "Fizemos justiça a ele", comemora a relatora Elaine Maria de Oliveira Alves. Em setembro, quando começa o próximo semestre, o calouro de 59 anos, casado, pai de três filhos adolescentes, retomará sua caminhada em busca de um diploma de ensino superior.

DIPLOMA SIMBÓLICO - Em seu retorno à UnB, Iraê cogitou estudar Ciência Política ou Agronomia, mas acabou se decidindo por Letras/Tradução com habilitação em inglês. A escolha foi ditada pelos rumos que a vida dele tomou depois da perseguição política. Sem formação específica e vivendo na clandestinidade, Iraê foi mandado pelo partido para a Europa no início dos anos 80. "Lá comecei a fazer trabalhos como intérprete por uma questão de sobrevivência", conta.

Depois de passar 19 anos fora, retornou à Brasília em 2000 e, aqui, começou a atuar como tradutor de italiano e espanhol. "O curso de tradução em inglês vai completar minha formação". O ex-militante já perdeu bons trabalhos por não ter diploma, mas não se arrepende de ter participado da resistência ao regime militar. Para ele, o significado do canudo será simbólico. "É como se eu estivesse recuperando um pedaço da minha história".

O calouro está ansioso para experimentar a vida social e cultural da UnB. "Quero aproveitar a oportunidade de estar na universidade. A UnB faz parte do meu imaginário desde a adolescência", conta Iraê que é filho de um assessor de Darcy Ribeiro e conheceu o campus ainda em obras. Entre os planos dele está cursar as aulas de dança. Sobre os professores e colegas, diz que terá humildade para aprender com todos. "Posso contar a minha história como testemunho, mas não tenho a pretensão de ensinar nada a ninguém."

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Julgamento moral e cívico

Por Wilmar Marçal

A frieza das letras manifestadas por alguns defensores na instância jurídica, data vênia, muitas vezes frustra a população que aguarda um judiciário firme e comprometido com o bem público. Mas é preciso obedecer e acatar, pois, segundo se sabe, é uma análise realizada com a arte e a ciência da razão e não da emoção. Esse viés argumentativo tem tirado muito ladrão da cadeia, absolvido muitos traficantes e amparado pedófilos que são liberados e continuam machucando crianças e famílias. Essas possibilidades de contar com defensores deve e precisa continuar, pois a todos é permitido a ampla defesa e o contraditório. Lamentavelmente não se pode julgar com a emoção, razão pela qual, talvez, ainda existam muitos problemas sociais no país, pois os atos malditos coadunam com a perpetuação da impunidade. Em outros países, quem comete um erro, morre duas vezes: primeiro de humilhação, depois retirando a própria vida pela falta de dignidade em continuar convivendo com pessoas de bem. Mas no nosso querido Brasil... muitos fazem e acreditam que “não vai dar em nada”. Todavia, como diz a própria Constituição Brasileira, “todo poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido”, está na hora de uma reação popular para o exercício prático do bem: sem armas, sem violência e sem lágrimas. Com a mesma frieza que o judiciário é peculiar em suas análises, a população, bem organizada, tem muito mais poder do que qualquer Juiz, data vênia. Basta querer e se organizar. Sem vaidades, sem trampolins, mas com ordenamento e inteligência. Especificamente sobre os parlamentares “escolhidos” pelo povo, é possível sim avançar e execrar esses bandidos que sempre são reeleitos e se dizem representantes do povo nas respectivas Assembléias. O povo pode legislar com muito mais sapiência, no momento em que mantiver viva a memória de todos, nutrindo a lembrança com a boa informação em jornais e mídia comprometidos, verdadeiramente, com a causa coletiva. Chega dessa conversa fiada de “segredo de justiça” e “blindagem privativa”. Bandido é bandido. É preciso destacar, em grande escala, os nomes daqueles que usurpam o dinheiro público, roubam a esperança de muitos e perpetuam a falsa bondade de atender os munícipes, prometendo mirabolantes projetos e recursos. Quem viaja pelo interior do Paraná pode constatar que as cidades estão empobrecidas, com poucos investimentos em infra-estrutura, muita gente desocupada e doente. Cabe-nos como cidadãos e cidadãs uma reação natural e pacífica. Analise, pense, estude a vida dos candidatos a qualquer cargo público e vote. Vote de acordo com sua inteligência e coerência. Não se pode mais admitir que a população ainda se renda aos hipócritas, mentirosos e mentirosas. Só assim será possível um julgamento moral e cívico que, certamente, não encontrará habeas corpus em qualquer jurisprudência para liberar os pérfidos e os enganadores. Façamos cada um de nós a nossa parte. Vamos ensinar a pescar e parar de assistir algumas pessoas recebendo o peixe de graça.

* Wilmar Marçal é professor universitário e ex-reitor da UEL./Pr.
wilmar_pr2010@hotmail.com

quarta-feira, 23 de junho de 2010

LITERATURA
O Brasil em Frankfurt

Correioweb 23/06

Brasileiros serão destaque na principal feira de livro na Europa. Chance para o mercado editorial do país.

Quando a China participou da Feira de Frankfurt como país convidado, em 2009, editores chineses fecharam negócios avaliados em um total de 10 milhões de euros. A Europa lê muito os escritores chineses, mais do que os brasileiros. No entanto, o diretor da feira, Juergen Boos, aposta na mudança de cenário. Em 2013, o Brasil será o país convidado da maior feira de livros da Europa, uma iniciativa capaz, segundo Boos, de impulsionar o mercado editorial europeu e estimular alemães e outros povos a descobrir a literatura contemporânea tupiniquim.

uando a China participou da Feira de Frankfurt como país convidado, em 2009, editores chineses fecharam negócios avaliados em um total de 10 milhões de euros. A Europa lê muito os escritores chineses, mais do que os brasileiros. No entanto, o diretor da feira, Juergen Boos, aposta na mudança de cenário. Em 2013, o Brasil será o país convidado da maior feira de livros da Europa, uma iniciativa capaz, segundo Boos, de impulsionar o mercado editorial europeu e estimular alemães e outros povos a descobrir a literatura contemporânea tupiniquim.

Boos esteve em Brasília na segunda-feira para assinar o convite oficial feito ao Brasil este ano. A cerimônia reuniu o ministro da Cultura, Juca Ferreira, representantes do mercado editorial brasileiro e entidades como a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e a Academia Brasileira de Letras (ABL). “Intercâmbio é a palavra-chave na Feira de Frankfurt. São dois milhões de interessados pela feira a cada edição e, para nós, o conteúdo está em primeiro plano, não é só uma feira de negócios”, disse Boos. “O interesse (em traduzir livros brasileiros) existe, mas queremos dar o impulso com a feira.”

O Brasil participa como país convidado pela segunda vez na história da feira. Em 1994 foi homenageado, mesmo ano em que a Frankfurt editou, pela primeira vez, um guia eletrônico sobre seus expositores. Agora, a expectativa é que o investimento e o retorno sejam muito maiores. O MinC investe anualmente uma média de R$ 150 mil na feira alemã, mas, para 2013, Juca Ferreira tem a intenção de criar programas especiais de apoio ao mercado. “O MinC pensa em apoiar, por exemplo, as traduções. Estamos tentando criar um fundo para ampliar as políticas ligadas ao livro”, avisa. O ministro também cogitou realizar uma ação especial durante a feira envolvendo os países de língua portuguesa para celebrar a lusofonia, mas Boos acha desproporcional. “A língua envolve identidades nacionais e é difícil juntá-las. Talvez a cultura consiga isso, mas acho bem difícil”, disse.

A mera tradução de textos com antecedência é uma das maiores preocupações do mercado. “Temos que pensar em subvenção do governo para tradução para que os editores alemães se interessem e isso tem que ser feito já, para que em 2013 os títulos estejam publicados”, apontou Sônia Jardim, do grupo Record. Maurício de Sousa participou da reunião e brincou que já está trabalhando para a feira. “O mundo passa por lá para saber o que há de melhor no mercado editorial e nós estaremos lá. Temos que trabalhar para que Frankfurt possa ser a melhor vitrine”, disse o criador da Turma da Mônica.

O número
290 milhões
Número de pessoas visitaram a feira no ano passado

domingo, 20 de junho de 2010

Uma tarde para ser lembrada

Autor foi consagrado doutor honoris causa no auditório Dois Candangos. Proposta do título veio do Departamento de Teoria Literária
UNB 18/06

O homem mais sábio que conheci não sabia ler nem escrever.

José Saramago

O homem que escreveu sobre a cegueira da civilização contemporânea iluminou a Universidade de Brasília na tarde de 17 de novembro de 1997. A cerimônia foi no auditório Dois Candangos e durou cerca de três horas. Na ocasião, Saramago enfatizou o desejo de manter uma relação de franqueza com seus leitores. “Trouxe comigo algum trabalho, alguns livros, idéias, reflexões, o melhor que em uma vida já longa pude ir inventando e fabricando, uma ponte de palavras por onde intento chegar aos meus leitores e onde desejo que os meus leitores me encontrem, com a confiança, deles e minha, de que lá esteja e saiba estar, não apenas o autor, mas a pessoa real, o homem que sou. Não peço mais porque é o máximo que peço”.

As palavras sinceras do autor consagrado emocionaram as duzentas
pessoas presentes. “Foi lindo demais. Quando ele entrou, todos ficamos de pé”, lembra a professora Enilde Faustich, do Departamento de Linguistica, Português e Línguas Clássicas. Saramago ganharia o Nobel de Literatura no ano seguinte, mas já era escritor consagrado. Enilde anotou na agenda daquele ano as impressões que o escritor causou. "Ele foi absolutamente encantador em sua afetuosidade". A professora lembra que o acesso era restrito, com cadeiras numeradas.

Também professora do Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Sylvia Cyntrão recorda que Saramago respondeu às críticas de que era uma pessoa muito fechada. “De maneira muito delicada, ele contestou seus críticos”. Apaixonada pela obra do autor, Sylvia Cyntrão conta que entregou a Saramago trabalhos sobre ele feitos pelos alunos dela. Eram textos sobre o livro Ensaio sobre a Cegueira, que havia sido lançado dois anos antes, em 1995. “Saramago estava ao lado de sua mulher (Pilar del Río), cheio de livros. Entreguei o material nas mãos dela. Ele olhou, folheou algumas páginas e com toda doçura disse que não merecia aquilo”, relembra. “Foi uma acolhida maravilhosa, mas eu já tinha acolhido ele há muito tempo”, completa Sylvia.

O convite para Saramago vir à UnB foi feito pelo então vice-diretor do Instituto de Letras Almir Brunetti, assassinado em 2001, aos 68 anos. A relação de amizade do professor com a mulher de Saramago, Pilar del Rio, tornou possível a vinda do escritor à universidade. “Foi ele quem articulou tudo e o carinho que Pilar tinha por Almir foi essencial para conseguir a presença de Saramago na universidade”, conta a professora Sylvia Cyntrão.

A iniciativa para consagrá-lo doutor honoris causa foi aprovado na
277º reunião do Conselho Universitário (Consuni) em 31 de outubro de 1997. Quatro dias depois, o reitor João Cláudio Todorov teria o prazer de assinar a resolução que incluía Saramago entre os mestres mais destacados da UnB. "É uma honra para mim, uma das boas lembranças que guardo do meu tempo a frente da reitoria", comentou Todorov.

PROFECIA - Quando Saramago veio à UnB, o professor da Biologia Lauro Mohry já havia substituído João Cláudio Todorov. A famosa ironia do escritor português chamou atenção de Mohry: “Ele comentou o quadro político do período com muito sarcasmo”. A franqueza do futuro Nobel de Literatura também foi percebida pelo então reitor. “Ele falava o que pensava de maneira muito articulada. Parecia muito sincero, era uma característica da personalidade dele”.

Na ocasião, Cristovam Buarque, então governador do DF, convidou
Saramago para dar um passeio de helicóptero. Depois de sobrevoarem a periferia da cidade, já chegando ao Plano Piloto, o escritor comentou em tom profético: “O que vocês chamam de novo vai ficar velho. As cidades satélites serão o novo, enquanto o centro permanecerá conservado. A cidade vai se renovar pela periferia”. Nesta sexta-feira, durante palestra na Faculdade de Comunicação, Cristovam lembrou especialmente daquelas palavras: “Ali, Saramago me ensinou a pensar ao contrário”.

sábado, 19 de junho de 2010

Livro recria o início doido de Brasília

FSP 19/06

"Cidade Livre", de João Almino, narra em tom de epopeia construção no ermo goiano

"Cidade Livre" impressiona. O escritor João Almino liberta-se da diplomacia, arregaça as mangas e usa história e imaginação para contar o Brasil real suando, vibrando, sofrendo e sonhando na extenuante e impressionante epopeia de fazer tudo no nada do ermo goiano.
Hoje Núcleo Bandeirante, cidade-satélite de Brasília, a pioneiríssima Cidade Livre foi esteio da construção da capital no governo Juscelino Kubitschek (1956-1961).
Quinto título do autor sobre o universo brasiliense, "Cidade Livre" é bem idealizado e bem escrito. Quase dá para ver o vaivém dos fundadores. Apressados, aproveitadores, idealistas, políticos, barnabés, comerciantes de quase tudo.
Com sorte, descobrir o irrequieto presidente JK e o enérgico engenheiro-chefe Israel Pinheiro, de terno e gravata, surradas xicarazinhas esmaltadas na mão, tomando café de coador de pano com os candangos.

NIEMEYER BEBERICA
E o musculoso gigante carioca Bernardo Sayão, jeitão de menino, pioneiro e herói, ídolo da candangada, inspiração das mulheres dali e de outras lonjuras.
Sempre animadíssimo, camisa e calça largas, pisando forte com suas botas comando nas ruas de terra, de muita poeira vermelha ou barro.
Comandando, motivando, orientando a todos, distribuindo alegria, confiança e esperança.
Ou então, na noite alta, de céu deslumbrante, o jovem arquiteto Oscar Niemeyer à mesa do tosco Olga's Bar, bebericando com amigos, fumando cigarrilhas, olhando a gente humilde com ternura imensa e respeito máximo.
Quem sabe até tocando seu esperto cavaquinho ou cantando com Tom Jobim e Vinicius de Moraes, hóspedes de Juscelino no Catetinho, palácio de tábuas, onde compuseram a bela Sinfonia da Alvorada.
Indispensável e saudoso Olga's Bar, referência do doido princípio naquele cafundó. Bares, pensões, hotéis, cabarés. Todos construídos de madeira, boa parte de propósitos múltiplos.
Aspas para João Almino: "Papai me contou que um dos negócios mais lucrativos da Cidade Livre era o dos bordéis, onde nos fins de semana e nas horas livres os operários gastavam o dinheiro ganho com as excessivas horas de trabalho".

HISTÓRIA VIVA
"Cidade Livre" reafirma João Almino como romancista de Brasília, mas ele é bem mais.
O mestre Moacyr Scliar tem razão: "Entre os melhores autores de nosso país. O Brasil está resumido em suas páginas".
Ficção envolvente sobre história viva.
O leitor, progressivamente seduzido, acaba tragado pela engenhosa armadilha urdida pelo pseudocronista da capital, descobriu a escritora e professora de literatura da USP Walnice Nogueira Galvão. Ela sabe das coisas.

RONALDO COSTA COUTO é escritor e economista, autor de "Brasília Kubitschek de Oliveira" (Record)



CIDADE LIVRE

AUTOR João Almino
EDITORA Record
QUANTO R$ 39,90 (240 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo