terça-feira, 16 de julho de 2013
Manchetes do Edu
A crise da administração pública
JOSÉ MATIAS-PEREIRA, Professor e pesquisador do
programa de pós-graduação em contabilidade da UnB, doutor em ciência política
pela Universidade. Complutense, de
Madri, e pós-doutor em administração pela Universidade de São Paulo, é
economista e advogado. CORREIO BSB 16.07
.
Os dados sobre a economia e a política no Brasil
não são nada animadores. Os indicadores divulgados pelo Banco Central e IBGE
revelam que o país vem apresentando sinais de desaceleração no processo de
crescimento, persistência da inflação e perspectivas de elevação do nível de
desemprego. O baixo nível de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deverá
ficar próximo de 2% em 2013. Diante desses dados, torna-se possível indagar: o
modelo de gestão pública brasileiro contribui para agravar esse cenário?
Observa-se que a gestão pública vem se deteriorando
de forma gradativa nas últimas décadas. Assim, a situação em que o Brasil se
encontra, tanto em termos da baixa qualidade na oferta de serviços públicos,
baixo nível de transparência e corrupção na administração pública não é fato
novo. A variável nova nesse cenário é a determinação da população de exigir
mudanças drásticas na governança pública. A intensificação das vozes das
multidões nas ruas veio acompanhada por uma acentuada queda na aprovação dos
governantes pela população.
Nesse contexto, é bastante sintomática a agenda da
reunião ministerial realizada pela presidente Dilma Rousseff em 1º de julho, na
Granja do Torto. Nela se pediu empenho da equipe para melhorar a produtividade
e a qualidade dos serviços prestados à população. Tratou-se de desdobramento do
encontro que teve com governadores, prefeitos de capitais e políticos, no qual
ela propôs os cinco pactos nacionais: por responsabilidade fiscal, reforma
política, saúde, transporte e educação.
Essa era uma crise anunciada, conforme evidenciado
em diversos estudos acadêmicos apontando para o esgotamento do modelo de
administração pública no país. Constata-se que, apesar dos esforços para
superar o modelo burocrático e implementar o gerencial no país desde meados da
década de 1990, o formato patrimonialista de gestão vem sendo intensamente
retroalimentado na última década, com o crescente aumento da máquina
governamental nos três níveis de governo. Pior: sem critérios técnicos,
agravado pelo descaso com os recursos públicos (criação de ministérios,
secretarias, empresas estatais, aumentos salariais etc.), a negociação de apoio
político e a entrega de ministérios e órgãos estratégicos para partidos, com
distribuição de cargos de elevado nível hierárquico para afiliados, sem levar
em consideração a competência. Esse processo de retroalimentação do
patrimonialismo, além de afetar o desempenho da administração pública, na
medida em que facilita desvios e a corrupção, se apresenta uma ameaça real à
governança e à democracia no país.
Diante dessa, realidade faz-se necessário alertar
que não é possível mudar a situação de deterioração do funcionamento da
administração pública no Brasil nos níveis federal, estaduais e municipais de
forma rápida e com consistência. A solução desse complexo e amplo problema
somente vai ocorrer a longo prazo. Não é possível mudar a qualidade da educação
no país, sem ter professores preparados, bem remunerados e motivados para
ensinar. Isso exige tempo e meios adequados para a efetivação. Os mesmos
critérios valem para áreas como saúde e segurança pública.
A alteração para melhor dessa realidade exigirá
determinação política e muita ação dos atores envolvidos. O sucesso dependerá
do perfil dos futuros governantes e políticos eleitos em 2014. É importante que
os eleitores estejam conscientes de que a mudança para modernizar a gestão
pública no Brasil terá que ser feita por meio de profunda reforma da
administração pública. Para isso, terá que contar, além de um excelente suporte
em termos de infraestrutura e tecnologia, com gestores e servidores preparados e
estimulados, conduzidos por governantes e políticos competentes e éticos, e,
acima de tudo, comprometidos com as mudanças que a sociedade brasileira exige e
merece.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
NOTÍCIAS DO EDU
Estrangeiros da Flip participam da Flupp, festival das UPPs, no RJ.
"Fiquei fascinado quando me convidaram para
vir à Festa Literária das Unidades de Polícia Pacificadora. É o melhor nome que
já vi para um festival." "É maravilhoso vir a uma área pobre e levar
algo para quem quer que se interesse, gratuitamente", disse Davis. FOLHA SP 10.07
Ainda que com certa ironia, a frase do escritor
irlandês John Banville tinha também um claro tom de contentamento por sua
participação na referida Flupp, no Rio.
Banville, que falou anteontem para um público de
cerca de 500 pessoas -a maior parte estudantes da rede municipal-, foi um dos
sete convidados internacionais da Flip que participaram da festa literária das
UPPs.
O encontro aconteceu na Penha, zona norte do Rio, e
trouxe, entre outros, a franco-iraniana Lila Azam Zanganeh, que, assim como na
Flip, conversou em português com a plateia, e a americana Lydia Davis. Ambas
falaram sobre como se tornar escritor.
"É maravilhoso vir a uma área pobre e levar
algo para quem quer que se interesse, gratuitamente", disse Davis.
Ciente da diferença entre o público da Flip e o da
Flupp, Banville disse que as dificuldades dos jovens mais pobres para obter
livros não pode servir de desculpa para não cultivar o hábito da leitura.
"Eu cresci numa cidade pequena, que não era
exatamente incentivadora da leitura. Na minha casa não havia muitos livros,
tive de descobrir o mundo da literatura por conta própria. Não é impossível,
requer entusiasmo e um pouco de trabalho. E que mal há nisso?"
A Flupp é um evento de longa duração, com três
etapas; a mais curta delas é a que aconteceu no início desta semana,
aproveitando a presença dos estrangeiros.
Entre maio e novembro acontece a Flupp Pensa, série
de oficinas literárias em 20 comunidades do Rio. Nelas são selecionados 41
autores iniciantes que terão seus textos publicados. Os escolhidos serão
anunciados no evento de encerramento, em novembro, na favela de Vigário Geral,
com a presença de autores consagrados.
>
"Caubóis digitais" e inovação tiram o sono dos presidentes
Em curso de liderança, eles discutem o futuro
incerto da economia e o desafio de lidar com jovens. (…) André Odebrecht, vice-presidente da
Cassava, diz que hoje empresas precisam se reinventar constantemente. VALOR ECONÔMICO 10.07
.
André
Odebrecht, vice-presidente da Cassava, diz que hoje empresas precisam se
reinventar constantemente
Em um domingo à noite, em pleno verão europeu, 456
executivos do alto escalão se apertam em um auditório para ouvir lições sobre
competitividade internacional. No meio de gráficos e slides sobre dívidas
públicas e crise econômica, uma frase do físico Albert Einstein chama a atenção
da plateia. "Não se pode resolver os problemas com o mesmo tipo de
pensamento usado quando os criamos". Os participantes aplaudem.
A citação de Einstein poderia ser considerada lugar
comum se essa não fosse hoje a principal preocupação dos líderes de mais de 50
países reunidos para o primeiro dia do curso Orchestrating Winning Performance
(OWP), realizado anualmente pela escola de negócios suíça IMD. Liderar para um
futuro incerto, reconhecer que as soluções antigas já não funcionam para os
novos problemas e se adaptar a um mundo onde inovar é questão de sobrevivência
estão entre as prioridades de presidentes e diretores de todo o mundo.
Para o professor Stephane Garelli, diretor do
Centro de Competitividade Mundial e professor do IMD, uma das fronteiras mais
críticas que estamos cruzando agora, além da macroeconômica, é a da nova
mentalidade nos negócios. "Como escola de educação executiva, estávamos
acostumados com todos os 'players' desse mercado. De repente, tudo mudou.
Vieram novos nomes e novas atitudes. Ainda estamos nos acostumando", diz.
Garelli ressalta que "o trabalhador de ontem
tinha um martelo nas mãos, enquanto o de hoje tem um tablet". O resultado
desse processo, segundo ele, não traz somente mais automação nas fábricas, mas
uma mudança nas habilidades, no pensamento e na educação das pessoas.
O grau de preocupação em se adaptar a esse novo
cenário é tão grande que aulas com temas como "Liderança para o
futuro", "Reinventando a cultura corporativa" e o curioso
"A queda do empregador e a ascensão do poder do empregado" têm
lotação completa. Os participantes são executivos como o nigeriano Nnamdi Nwankwo,
diretor do banco africano Access Bank.
Ele acredita que desenvolvimento de pessoas é
tarefa para todos os líderes na organização. "O RH tem a função de definir
ferramentas e diretrizes, mas dentro de uma visão de negócios que é
compartilhada pelo CEO e por toda a companhia", diz. O banco comercial,
com sede em Lagos, tem aproximadamente três mil funcionários e atua em nove
países africanos e no Reino Unido. "Somos uma instituição jovem e muitos
de nossos colaboradores são recém-saídos das universidades. Um de nossos
maiores desafios hoje é engajar e mostrar para essa geração inquieta que eles
têm futuro dentro da nossa empresa", afirma.
O desafio de lidar com membros da geração Y, que já
ocupam posições de gestão nas companhias, é tema constante de debate entre os
executivos. É o caso não só de Nwankwo, mas também da CFO Ong Soo, que atua na
filial malasiana de uma multinacional de bens de consumo. "Muitos jovens
na nossa região já começam suas carreiras pensando em trabalhar em outros
mercados. Temos muitos profissionais qualificados, mas retê-los é o maior
problema", diz.
Diretora do MBA do IMD e autora de um estudo sobre
os líderes da nova geração, que chama de "caubóis digitais", a
professora Martha Maznevski diz que existe uma conexão entre as demandas que o
mundo dos negócios impõe aos executivos hoje e o perfil dos jovens
profissionais. "O panorama atual é muito mais complexo, ambíguo e veloz
que no passado. Não é mais possível traçar planos seguindo expectativas
definidas. Quem fizer isso estará perdendo oportunidades". Ela acredita
que esse pensamento já está incorporado no perfil das novas gerações.
"Enquanto os executivos seniores ainda acreditam que podem estabilizar
esse novo ambiente de negócios, para os jovens o normal é justamente a
imprevisibilidade."
Os "caubóis digitais" são uma
subcategoria dentro da chamada geração Y (nascidos a partir de 1980) que têm
grande potencial de liderança. Esses jovens acreditam em limites fluidos, além
de não verem privacidade e hierarquia da mesma forma que seus antecessores. "Ao
mesmo tempo, ao contrário do que se propaga sobre essa geração, os caubóis
digitais aceitam autoridade, desde que enxerguem nesse superior uma liderança
legítima. É preciso que ele veja sentido em obedecer", afirma.
Aos 34 anos de idade e há dois ocupando o cargo de
CEO da Vodafone Faroe Islands, do setor de telecomunicações, a executiva Gudny
Langgaard conta que tem aprendido na prática essa nova maneira de liderar.
"A relação com nossos antigos chefes era mais baseada em autoridade. Isso
não era questionado, e tornava a vida do CEO muito mais fácil."
Sua experiência como presidente, porém, exigiu que
ela desenvolvesse habilidades como a comunicação e a capacidade de inspirar
pessoas. "Aprendi isso da forma mais difícil, no momento em que subestimei
os sentimentos e as reações das pessoas às mudanças que ocorreram na empresa.
Hoje considero a capacidade de se comunicar e a sensibilidade como as
características mais valiosas de um CEO", diz.
Outro atributo fundamental nesse novo modelo de
liderança é a humildade. Gudny lembra que teve chefes que jamais admitiam seus
erros, pois achavam que isso os rebaixaria e eles perderiam autoridade perante
os funcionários. "Sinto exatamente o oposto. O gestor precisa reconhecer
seus erros. Essa é a única forma de realmente ganhar o respeito de seus
subordinados."
"Conquistar" os colaboradores e
engajá-los na cultura corporativa são desafios que estiveram no centro das
discussões do OWP. O professor de liderança e estratégia Steward Black, que
ministrou a palestra "A queda do empregador e a ascensão do poder do empregado",
explica que fatores como a mudança na oferta e demanda de talentos e no que
chama de "simetria de informações" transferiram mais poder para os
trabalhadores.
"Hoje é fácil para um profissional encontrar
informações sobre a empresa ou o mercado em que quer trabalhar. Porém, uma
companhia que quiser traçar um mapa sobre o mercado de trabalho em seu setor ou
sobre um grupo específico de talentos ainda gasta milhares de dólares com
consultorias e empresas de recrutamento", diz.
Segundo Black, um dos novos desafios para o gestor
atual é entender o propósito de seus funcionários e buscar uma conexão mais
próxima com eles, independentemente de barreiras físicas ou linguísticas.
"Uma consequência dessa transferência de poder é o fato de que o executivo
sênior passou também a desejar esse tipo de contato", diz.
O brasileiro André Odebrecht, vice-presidente da
Cassava, indústria agrocomercial com 400 funcionários e sede em Santa Catarina,
explica que a capacidade de inspirar é o que diferencia um líder de um
administrador da empresa. "O que mais valorizamos dentro da companhia é o
talento com perfil de liderança, que saiba agregar e inspirar pessoas,
independentemente de seu cargo".
O executivo, que há 24 anos comanda duas empresas
familiares, explica que precisou reinventar constantemente a companhia para se
adaptar às novas necessidades do negócio. "Há duas décadas, o resultado
financeiro guiava o desempenho da empresa. Hoje ele ainda é importante, mas
existe uma preocupação muito maior com outros stakeholders, e os funcionários
estão no centro da estratégia", diz.
Uma das consequências desse novo cenário, segundo
ele, foi a mudança de cultura organizacional. "A forma dos líderes agirem
era muito impositiva. Os funcionários não aceitam mais esse tipo de liderança.
Eles querem participar e saber o propósito do que estão fazendo, sua função
dentro dos projetos, como a empresa vai evoluir e de que maneira podem
participar disso", afirma.
Essa transformação da cultura corporativa, segundo
John Weeks, professor de liderança e comportamento organizacional, tem sido uma
preocupação constante dos altos executivos. "As empresas querem mudar
porque precisam ganhar competitividade e atratividade para um número maior de
talentos, especialmente em indústrias que não são exatamente sedutoras para as
novas gerações", diz.
Enquanto as meninas dos olhos das empresas são os
profissionais com espírito empreendedor, de liderança e que tragam ideias
inovadoras, os modelos antigos de recompensa como bons salários e estabilidade
não funcionam mais para esse tipo de perfil. "É preciso traçar uma
estratégia para a mudança, e isso não funciona sem o apoio de uma cultura
organizacional clara. Nesse ponto, o RH não pode fazer nada a não ser dar
suporte. O começo de tudo é o CEO", diz.
Essa consciência de que o CEO também precisa mudar,
porém, ainda não parece ter convencido todos os executivos. No primeiro dia do
curso "Liderando para o Futuro", o professor Preston Bottger
perguntou aos participantes quem estava ali para desenvolver mais líderes em
suas companhias. Dezenas de mãos se levantam. Já na segunda pergunta,
"quem está aqui para desenvolver a própria liderança?", poucos
voluntários levantaram a mão.
terça-feira, 9 de julho de 2013
Notícias do Edu
A revolta que saiu das entrelinhas
.
Na Tenda dos Autores, William Waack foi o mediador
de debate entre o economista André Lara Resende e o filósofo Marcos Nobre sobre
a recente onda de manifestações. VALOR ECONˆMICO 08.07
.
A parafernália já estava montada quando uma senhora
de cabelos brancos subiu ao palco para saldar a plateia que se aglomerava dentro
e, principalmente, fora da tenda onde aconteceriam os shows da noite. Num
português claudicante, a inglesa Liz Calder, mentora da Flip, disse que
acompanhava de perto as revoltas. "É um grito contra a desigualdade e a
corrupção, mas devemos reconhecer que o país tem uma presidente que sabe
ouvir." A plateia demorou uns dez segundos para reagir. E metade desse
tempo a aplaudir.
Quando Gilberto Gil subiu ao palco, metade das
pistas, onde muitos entram com ingresso de cortesia, ainda estava desocupada.
Atrás do gradil a plateia era pelo menos três vezes maior. Uma moça que estava
do lado de fora interpelou um rapaz da organização. Estava possessa com a
qualidade do som, o preço e a limitação dos ingressos.
Mas as revoltas de Paraty só estavam no começo. Gil
cantou duas músicas antes da primeira das muitas pausas que faria ao longo do
show. Mal começou a falar e foi interrompido por gritos e assobios. Propôs uma
assembleia ali, no meio do show, para entender a razão dos protestos. Sua
audiência continuava a gritar, mas não se fazia entender. "É difícil saber
do que reclamam. É tão difuso quanto as manifestações." Mais uma vez, as
palmas foram breves.
Voltou a cantar com um som um pouco melhor e
inventou um gancho para retomar seu showmício. Achou que os 11 anos que se
completavam desde a primeira edição da festa e o mesmo número de jogadores dos
times de futebol lhe dariam salvo-conduto. Tinha oito anos de idade quando o
Brasil, na narração de Ary Barroso, perdeu a final de 1950 no Maracanã.
Quer a Copa e, do palco, distribuiu tarefas à
audiência. Que se organizassem em uma ONG para comprar ingressos e revendê-los
aos mais pobres. Ao fim do show, a plateia só pediu bis para suas músicas.
Plateia da mesa Narrar a rua, com Pablo Capilé,
Juan Arias, Marcus Faustini e Fabiano Calixto
As revoltas de junho invadiram o mais tradicional
evento literário do país. Das mesas de debate ao cais do Porto, não havia como
fugir dos arroubos nelas inspirados. À saída do show de Gil, já na madrugada,
um rap de jovens atravessou o caminho: "Se meus versos de amor não saem de
mim é porque estou preso na M'Boi Mirim". Nem por mar parecia haver saída.
Um barco oferecia passeio com recital de poesia e ainda cobrava R$ 30.
O curador da Flip, Miguel Conde, bem que tentou
formatar a invasão. Disse que literatura de elite só servia para reafirmar uma
estratificação social cujas desigualdades estavam agora sendo reclamadas nas
ruas. E que Graciliano Ramos, a quem foi dedicada a festa encerrada ontem,
veria com desconfiança um evento de iniciados.
Quem encarnou mais radicalmente a desconfiança do
escritor alagoano foi Pablo Capilé, um produtor cultural de 33 anos que, a
partir de Cuiabá, montou uma rede de produção e divulgação para músicos que não
tinham espaço no circuito das gravadoras e hoje exibe um portfólio de 40 mil
artistas e 300 festivais. Convidado de uma das mesas extras que a Flip montou
para debater as revoltas, Capilé esparramou-se na cadeira. Estendeu as pernas
para frente deixando a barra desfiada da calça jeans bem adiante da linha em
que se perfilavam seus companheiros de debate.
Dali explicou como tinha ido parar no jornalismo.
Viu que não bastava sangrar o circuito tradicional da música. Para "romper
a crise civilizatória de um sistema baseado na exploração" era preciso
mais. O Brasil quer mais.
A mediadora, entusiasmada, explicava à plateia que,
enquanto jornalistas famosos são expulsos das manifestações e as TVs são
obrigadas a cobri-las de helicóptero, o Ninja (Narrativas Independentes,
Jornalismo e Ação) tem reinado nas transmissões ao vivo a partir de celulares.
Capilé começou atirando: "Não existem mais os
de fora, só os de dentro". E abriu para a metralhadora de seu companheiro
de debate, o cineasta Marcus Faustini. O alvo foi o terceiro participante da
mesa, Juan Árias, correspondente do "El País" que se dizia orgulhoso
do Brasil adormecido que se levantara. "Não tinha essa de gigante
adormecido, tava todo mundo atuando nos seus coletivos", contestou
Faustini.
O Gil que resistira à pauta das manifestações foi
evocado como aliado. Capilé aludiu o estopim das ruas a retrocessos na política
cultural desde a saída do ex-ministro da Cultura. Via abertura da gestão Gil à
difusão cultural pela internet abrigada pela licença Creative Commons, sufocada
pelo projeto que acabou de ser aprovado no Congresso sobre direitos autorais.
O auditório estava mais vazio do que o das outras
mesas sobre as revoltas que aconteceriam dois dias depois, mas o debate foi um
dos mais aplaudidos do evento. A dupla Capilé e Faustini estava ali para
causar. O Ninja disse que estava tudo errado, a começar dos jornalistas
convidados a fazer a mediação dos debates da Flip. A provocação, como se
provaria dois dias depois, era premonitória.
Mas jornalistas e políticos não eram o alvo
primeiro dos ativistas. Faustini preferia mirar nos interesses por eles
mediados. Ao seu lado, Capilé falava sem alterar a pose de estudado desleixo:
"Caiu um monte de ficha ao mesmo tempo e tá todo mundo catando". Nada
do que ouve entre os analistas de plantão o sensibiliza. Espera que primeira
geração de intelectuais do Prouni o faça.
A dupla está fora do raio de alcance de Eduardo
Coutinho, autor de "Cabra Marcado para Morrer". O documentarista não
sabe ligar computador. Em uma entrevista, diz que a rebeldia ainda é movida
pela classe média, mas saúda a impertinência juvenil "Eles estão na idade
de ter certezas." A moçada ainda está para descobrir que não existe
paraíso e inferno, preto e branco: "A palavra mais importante da língua
portuguesa é a conjunção adversativa 'e'".
Apresentação do documentarista Eduardo Coutinho
Mas certezas precoces não são uma doença infantil.
Em uma mesa naquela noite sobre MPB, o cantor Lobão disse que vibrou com a explosão
do passe livre, mas, para fazer jus à rapidez com que costuma mudar de lugar,
acha que o movimento virou coisa de revista "Capricho": "Faça um
penteado para descolar seu manifestante gatinho". Três pessoas num
auditório com capacidade de cem pessoas lotado aplaudiram quando Lobão, depois
de historiar sua aproximação com o PT, acusou o partido de querer
"institucionalizar o socialismo bolivariano no país".
Entre as certezas juvenis de Capilé e o mau-humor
de Eduardo Coutinho, cabe a galáxia, mas, para consumo da Flip, confrontaram-se
ali o jornalismo engajado e a lente naturalista de "Cabra Marcado para
Morrer". Num trecho exibido durante a mesa com o documentarista, Coutinho
é mostrado no Engenho Galileia, em Pernambuco, entrevistando Mariano, o camponês
que participara das filmagens em 1964. Dezessete anos depois, conta que saiu do
movimento porque tinha virado crente e não queria que a igreja o associasse
"à revolução".
Ali estava mais do que um camponês explorado pela
monocultura da cana e dominado pela religião. Coutinho não exibia um camponês
desprovido de razão. Se fosse associado à revolução ele acreditava que não
entraria no céu. E isso bastava para que a câmera o deixasse em paz.
Na condução de Eduardo Escorel, os papeis de pai e
filho pareciam trocados. Aos 80 anos, Eduardo Coutinho parecia um rebelde
mimado que podia levantar daquela mesa a qualquer hora, incomodado que se dizia
em estar do outro lado da câmera.
Escorel o conduziu até o momento mais feliz da mesa
quando, revendo uma passagem de "Peões", Coutinho define sua lente.
Um metalúrgico de São Bernardo conta a aspereza da vida de soldador, que, por
estar com mais de 40 anos, já não conseguia emprego fixo. Ele se define como
peão, aquele que usa uniforme e trabalha no chão da fábrica com cartão de
ponto. Não queria legar a profissão ao filho. Silencia, mareja os olhos e
pergunta para seu entrevistador" Você já foi peão?". Com a negativa
de Coutinho, o metalúrgico mostrava que sua condição não apenas não podia ser
transmitida como não dependia de uma lente redentora.
Àquela altura, Coutinho, que iniciara a conversa
falando para dentro e emburrado, já tinha a plateia na mão. Contou da busca de
personagens em seus documentários. "Geralmente quem sabe contar uma
história não tem caráter. Quem tem é chato." Guardou um lugar no céu para
si na exceção. Relembrou a coluna de horóscopo que escreveu sob pseudônimo para
a "Piauí" ("leia Foucault pulando as páginas pares"),
justificou o cigarro que continua a acender mesmo depois de efisema
("fumar é uma atitude budista, de aceitação da vida") e alinhavou sua
proposta de reforma política "pra quando for eleito ditador".
Naquela sexta, a Flip parecia ter chegado ao pico
de lotação. Comerciantes reclamaram, mas a organização garantiu que o público
girava em torno dos 20 mil de todos os anos. No dia seguinte, a festa seria
invadida pelos paratienses que resolveram aproveitar a presença de jornalistas
para chamar a atenção ao lado B da cidade.
Manifestação de barqueiros que pediam mais
fiscalização no cais
A passagem de ônibus custa R$ 3,70, mais cara do
que na maior parte das capitais. O charme da cidade que o arquiteto português
Eduardo Souto de Moura disse ser mais portuguesa do que a maioria das cidades
do seu país, inflaciona o metro quadrado. Uma gari paga R$ 450 de aluguel por
um quarto com banheiro e cozinha. Vende latinhas e compra a atadura que falta
no hospital para a eripsela da sogra. Queixa-se da prefeitura, comandada pelo
PT, mas não da Flip. "Os do festival da cachaça fazem mais bagunça. Esses
aí até que são limpinhos."
Um barqueiro, que diz ter sido garçom de João de
Orleans de Bragança, o príncipe da cidade, reclama da falta de regulamentação
da atividade. As grandes escunas, que têm restaurante, levam turistas até de
graça, desde que façam refeição a bordo, e acabam com o movimento dos barcos
pequenos. A disputa bordeja os limites da guerra de facções das favelas locais,
dominadas pelo Comando Vermelho e Terceiro Comando.
Ouviam-se ruídos da manifestação na noite de sábado
quando o jornalista William Waack, apresentador do "Jornal da Globo",
entrou no palco da Tenda dos Autores para mediar o debate entre o economista
André Lara Resende, ex-presidente do BNDES e um dos formuladores do Plano Real,
e o filósofo da Unicamp Marcos Nobre, autor do e-book sobre as revoltas de
junho, "Choque de Democracia - As razões da Revolta".
O mediador pediu iluminação sobre a plateia para
que pudesse ver seu público, experiência revigorante e distinta daquela que
costuma ter na televisão. Ao final daquele debate, seria a vez de a audiência
iluminá-lo.
Waack anunciou que estava ali para falar pouco.
Esperava ter a oportunidade de mostrar como seriam mais produtivos os debates
eleitorais na televisão sem as odiosas regras de equidade de espaço impostas
pela legislação eleitoral.
Lara Resende expôs suas teses sobre as revoltas, a
maior parte das quais contidas em artigo publicado no Valor de sexta-feira, que
as relaciona a um Estado que arrecada mais de um terço da renda nacional e
investe apenas 3% dela. Em um argumento picotado pelas intervenções do
mediador, explicou as manifestações pelos limites de um modelo de
desenvolvimento que combina expansão da proteção social e industrialização
forçada.
O argumento chegou ao final com a tese de que, mais
do que consumo, as pessoas buscavam qualidade de vida bloqueada por um Estado
ineficiente.
Àquela altura, a plateia, acostumada ao padrão Flip
de mediação, que não faz interrupções sistemáticas ao entrevistado, já havia se
manifestado várias vezes por argumentos com começo, meio e fim.
Também foi neste atribulado percurso que Marcos
Nobre chegou lá. Sua tese é que as revoltas de junho expuseram a recusa dos
brasileiros à acomodação do sistema político a supermaiorias impermeáveis a
demandas populares.
Foi sob essa acomodação, que Nobre chama de
pemedebismo, que a geração dos manifestantes debutou na política. O que vê
agora é um choque de democracia a reivindicar legitimidade para canais de
expressão política que extrapolam as instituições.
Divergiram quando o debate margeou o confronto
entre as políticas dos governos tucano e petista, mas o principal embate não se
deu no palco. Quando a mesa se aproximava do fim, um rapaz entrou gritando na
tenda. Protestava contra a condução do debate. Foi contido pelos seguranças do
evento, que, sob a inspiração dos PMs paulistas, o tiraram de lá com uma chave
de braço.
Diante de ruído crescente numa plateia grisalha e
pagante de ingressos de R$ 46, o mediador, em tom de advertência, disse que
manifestações difusas não levam a mudança. O ruído só aumentou.
Nobre concluiu que vira na plateia o que estava nas
ruas. Lara Resende concordou integralmente. E o debate acabou. Capilé tinha
avisado que podia dar encrenca.
Assinar:
Postagens (Atom)