segunda-feira, 8 de abril de 2013
TEXTO
Chico Alencar: Congresso de excessos. CHICO ALENCAR, 63, é
deputado federal (PSOL-RJ). OLHA SP 08.04
.
O Estado de exceção acabou no Brasil há quase 25
anos, com a promulgação da Constituição cidadã de 1988. Mas os excessos do
poder público continuam, herança maldita de nossa formação patrimonialista.
Esses abusos, generalizados, são mais visíveis no
Parlamento nacional. Não apenas agora, mas nos seus 190 anos de existência, em
função do status "nobiliárquico" de que os eleitos se acham
investidos.
Aliás, desde a colônia as câmaras municipais,
pioneiras "casas de leis", eram exclusivas para os chamados "homens
bons", brancos e ricos. Pobres, escravos e mulheres não entravam.
Há os repetidos desvios políticos, que, no momento,
levam ao absurdo de se ter, em presidências de comissões e lideranças
partidárias, parlamentares investigados por desvio de conduta ou processados
por variados crimes, do racismo à fraude e ao peculato. Naturalizam-se as
incoerências. O simples correr do tempo limpa reputações.
A população, por consequência, despreza ainda mais
a "política" e sua expressão maior de representação, o Congresso
Nacional. Desvaloriza também o seu próprio voto, sem observação da proposta
política, dos financiadores de campanha e da história de vida do candidato.
O clientelismo e o fisiologismo crescem, o voto
consciente diminui. No lugar dos partidos, com seus propósitos --tantas vezes
enganosos--, temos as bancadas das empreiteiras, dos bancos, de religiosos
sectários, do agronegócio, da bola, da bala... Democracia das corporações.
Na gestão interna dos recursos públicos, a
matemática é a da soma e multiplicação, não a da divisão ou diminuição. Os
princípios constitucionais da moralidade e da impessoalidade pouco valem.
A recente criação de novos cargos e encargos na
Câmara dos Deputados vai na contramão da promessa de austeridade, reduzindo em
cinco vezes a "economia" anunciada antes. O número de deputados não
aumentou, mas o surgimento de novos partidos cria e diminui bancadas.
Respeito ao erário seria redistribuir as funções
gratificadas já existentes. Não são poucas: há nada menos que 10.636 secretários
parlamentares nos gabinetes e 1.433 cargos de natureza especial (CNE). A
estrutura da Mesa Diretora é contemplada com 288 deles. Até os suplentes são
agraciados com 11 CNE's cada! Tal fartura explica a disputa encarniçada por
essas posições...
Também as lideranças partidárias têm aparato
exagerado e desequilibrado, indo de dois a oito servidores, para os menores dos
23 partidos hoje representados na Câmara Federal, até os 80 a 124 dos médios e
grandes. É prudente medida de segurança que nem todos compareçam aos gabinetes
ao mesmo tempo...
"Essa é uma Casa política", ouve-se
quando se quer aprovar algum "trem da alegria" ou projeto que oculte
interesses menores. "Não vamos politizar a questão", diz-se,
paradoxalmente, quando há questionamentos sobre acordos de bastidores ou
acertos prévios garantidores de demasias. Em geral, quem já conquistou
determinadas benesses não as perderá, tendo alguma força política.
O vício da fartura, oposto à austeridade imposta
aos trabalhadores comuns, vai muito além da necessária estrutura para se
exercer bem a função pública.
"Criar cargos não é roubar!", exclamou um
parlamentar. Sim, distribuí-los por conveniências políticas difere de repartir
o resultado de uma pilhagem. Mas esse "toma lá, dá cá" da política
dominante, inclusive nas relações com o Executivo, implica em afronta aos reais
interesses da população, carente de tantos direitos básicos.
CHICO ALENCAR, 63, é deputado federal (PSOL-RJ)
>>>>
EDUCAÇÃO » Em
prol das cotas sociais. CORREIO BSB
08.04
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Para garantir o preenchimento das vagas reservadas aos
estudantes de escolas públicas, Universidade de Brasília decide abrandar as
regras das questões discursivas. No 2º vestibular de 2013, elas deixarão de ser
eliminatórias
Notícia Gráfico
Alunos do Setor Leste, Aline, Vinícius e Vanessa
acreditam que, sem a a obrigatoriedade de acertar pelo menos 20% dos itens tipo
D, terão mais chances
Depois dos primeiros resultados das provas de
ingresso na Universidade de Brasília (UnB) com a vigência da Lei das Cotas
Sociais (veja O que diz a lei), a instituição decidiu retomar regras mais
brandas em relação às questões tipo D. No 2° vestibular de 2013, essa
modalidade deixa de ser eliminatória e volta a contar apenas para a
classificação do candidato. Na última edição do certame, das 305 vagas
destinadas aos estudantes de escolas públicas, apenas 209 foram preenchidas. No
Programa de Avaliação Seriada (PAS), só 100 foram ocupadas. Em análise feita
pela reitoria, os itens tipo D foram os vilões de muitos candidatos.
O modelo vigorou em três vestibulares da
universidade. As questões tipo D se tornaram eliminatórias no 1° semestre de
2012. Naquela edição e nas duas seguintes, os candidatos deveriam acertar pelo
menos 20% dos itens discursivos para terem as provas corrigidas. No mesmo
período, essas questões passaram de duas para quatro em cada dia de prova. A
decisão foi tomada para evitar que os estudantes pulassem esse tipo de
avaliação tanto no vestibular quanto no PAS. No entanto, nos primeiros testes
com 12,5% das vagas reservadas para os estudantes de escolas públicas, a
instituição teve alto índice de oportunidades não preenchidas.
A administração central entendeu, então, que a
política pública não seria efetivada caso nenhuma medida fosse tomada para
reverter esse quadro. “As mudanças ocasionaram o não preenchimento das vagas em
diversos cursos da universidade. Antes, sobravam apenas 2%. A UnB não estava
cumprindo a política”, afirma o decano de Ensino de Graduação, Mauro Luiz
Rabelo. A reserva de oportunidades aos estudantes de escolas públicas vai
crescer para 50%. Para o decano, sem a alteração, mesmo com mais espaço, esse
público não aumentaria dentro dos câmpus.
“Fizemos análise estatística dos resultados do PAS
e do vestibular e constatamos que o causador do problema foi principalmente a
barreira estabelecida nos itens tipo D”, detalhou Rabelo. O Conselho de Ensino,
Pesquisa e Extensão (Cepe) votou para o retorno ao modelo anterior. “Isso não
interfere nos cursos de alta demanda, mas é vital nos outros. Se fizermos
análise curso a curso, vários, como licenciatura em matemática, preencheram
apenas uma vaga no PAS. Praticamente duplicamos o número de vagas, incluímos
uma barreira, e o universo de candidatos é o mesmo”, explica.
Elaboração igual
Quem aspira a uma vaga na UnB não precisa mudar os
métodos de estudo. De acordo com o diretor-geral do Centro de Seleção e de
Promoção de Eventos (Cespe), Paulo Henrique Portela, a forma de elaboração das
perguntas será a mesma. “Os aspectos da construção do instrumento de avaliação
não mudam. As questões ainda são contextualizadas, interdisciplinares e têm o
mesmo peso”, explica o chefe do órgão que elabora os cadernos de prova. “Os
tipos D são contabilizadas no escore bruto e este tem que ser sempre positivo”,
alerta.
Estudante do Centro de Ensino Médio Setor Leste,
Vinícius Mendes, 15 anos, temia não entrar na universidade por conta das
questões discursivas. “Tenho chances de passar para administração, mas já fiz a
questão em simulados e ela poderia me atrapalhar”, avalia. Aline Vera, 16, quer
cursar relações internacionais. “É difícil chegar nos 20%. Não é sempre que a
gente consegue responder a essas perguntas”, diz. Para ela, não existe o risco
de que a mudança nivele os estudantes por baixo, como sugeriram alguns
diretores de escolas e cursinhos ouvidos pelo Correio. “De todo jeito, só vai
entrar quem se empenhou”, afirma. Amiga dela, Vanessa Moura, 16, concorda. “Quem
conseguiria passar quando era tipo D, vai entrar agora. Para nós, além das
cotas, teremos essa facilidade”, argumenta. Vanessa deseja se graduar em
psicologia.
"As mudanças ocasionaram o não preenchimento
das vagas em diversos cursos da universidade. Antes, sobravam apenas 2%. A UnB
não estava cumprindo a política"
Mauro Luiz Rabelo,
decano de Ensino de Graduação
O que diz a lei
A lei nº 12711/2012, em vigor desde agosto do ano
passado, estabelece que 12,5% das vagas existentes nas instituições federais de
ensino ficam reservadas para alunos que estudaram em escolas públicas,
pertençam a famílias com renda familiar per capita de até 1,5 salário mínimo ou
se autodeclaram negros, pardos ou de origem indígena. No ano que vem, esse
percentual vai dobrar, até atingir 50% em um prazo de quatro anos. Para se
beneficiado pela legislação, os candidatos devem ter cursado o ensino médio
integralmente em instituições públicas. No caso da Universidade de Brasília, em
especial, a instituição decidiu ainda manter os 20% p]ara os afrodescendentes.
Porém, em 2014, esta política será revista pelo Conselho Universitário
(Consuni) e pode ter o percentual reduzido ou ser extinta. De acordo com o
governo federal, em 10 anos, será implementado um programa de acompanhamento para
avaliar a necessidade de continuação da iniciativa.
>>>>
O financiamento da cultura. ROMÁRIO SCHETTINO. Jornalista, vice-presidente do Conselho de
Cultura do DF. CORREIO BSB 08.04
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Historicamente, como acontece com todos os setores
produtivos da sociedade, grande parte dos incentivos à produção cultural é
originada nos orçamentos estatais. O culto à livre iniciativa privada não
existiria se não houvesse a mão protetora e reguladora do Estado. É assim que
ocorre nos regimes socialistas, capitalistas, mistos e em todas as suas
variações.
Portanto, falar em produção independente na área
cultural não significa estar isento de influências das forças políticas e
econômicas que compõem a sociedade e, por extensão, o Estado. A sociologia
política já comprovou que não existe Estado sem sociedade.
Como a democracia é um regime em construção, tanto
na sua forma exclusivamente representativa, quanto na tão sonhada versão
participativa, sempre cabe uma discussão sobre o papel do Estado na
distribuição de recursos. Tudo é possível, quando a transparência e os
mecanismos utilizados são de amplo conhecimento e as oportunidades
igualitariamente garantidas.
Uma das fontes de financiamento da cultura no
Distrito Federal é o Fundo de Apoio à Cultura (FAC), e a forma como ele está
sendo gerido é exemplar para Brasília e para o Brasil. O FAC é um dos maiores
fundos de apoio à cultura no país. E isso não caiu do céu, foi uma conquista. A
luta dos artistas, produtores e agitadores culturais para a aprovação da lei
que instituiu 0,3% da receita líquida do GDF como fonte principal de
sustentação do FAC é digna de registro e tem servido de modelo para outros
estados.
A quantidade de recursos disponíveis — este ano são
cerca de R$ 60 milhões — exige uma gestão tão responsável quanto eficiente. E é
isso o que a Secretaria de Cultura do DF está fazendo. Mas não é fácil. O
diálogo com o movimento cultural é penoso e, às vezes, incompreendido por ambas
as partes. É preciso levar em conta, por exemplo, que a falta de pessoal é um
fator que contribui para essas incompreensões: faltam funcionários qualificados
para a constante atualização do Cadastro de Entes e Agentes Culturais (Ceac) —
condição para que o proponente concorra aos recursos do FAC —, e para o
acompanhamento de execução dos projetos aprovados, com avaliação cuidadosa e
ágil.
O volume de projetos inscritos no FAC aumenta na
medida do crescimento das verbas. É necessária e urgente a realização de
concurso público para recompor os quadros da Secretaria de Cultura, que vem
perdendo servidores há várias décadas. Com a entrada em vigor da nova Lei de
Incentivos Fiscais, haverá necessidade de mais servidores no sistema cultural
do DF.
Voltemos ao debate essencial. Como distribuir esses
recursos de maneira justa e sem desperdício? O conceito embutido nos editais da
secretaria para democratizar o acesso e descentralizar a distribuição deve
buscar também a qualificação da produção cultural, incentivar os artistas e
estimular o cidadão a participar da vida cultural de sua cidade. Mais do que
isso, deve ter como meta projetar o DF no cenário nacional e internacional com
criatividade e espírito crítico.
Escolher quem vai receber os recursos tem sido
tarefa das três câmaras do Conselho de Cultura do DF, que é composto de 12
conselheiros — seis representantes do governo e seis do movimento cultural.
Muitos resultados podem ser questionados, ninguém é perfeito. Os insatisfeitos
têm o direito de recorrer ao pleno do conselho, mas uma coisa é certa: se há 10
projetos para cinco vagas, cinco serão eliminados, não necessariamente porque a
proposta não tenha mérito cultural. Nenhum proponente deve se sentir apenas
desqualificado e, sim, apto a preparar novo projeto para o próximo edital.
No entanto, o financiamento da cultura não se
resume a essas duas leis em vigor, é fundamental que o orçamento da Secretaria
de Cultura atinja novos patamares, o suficiente para recuperar e construir
espaços culturais. É preciso ter políticas compatíveis com as necessidades do
Museu da República, da Biblioteca Nacional, do Museu de Arte de Brasília (MAB),
do Teatro Nacional Cláudio Santoro, do Cine Brasília (em reforma), do Espaço
Cultural Renato Russo, da Casa do Cantador, do Centro Cultural da Ceilândia, do
Espaço Cultural Itapoã, do Espaço Cultural de Samambaia e de muitos outros.
Os deputados distritais, especialmente os da Frente
Parlamentar da Cultura, têm a obrigação de pensar sobre todas essas questões e,
ao destinar suas emendas ao Orçamento, que o façam com a consciência de que
dinheiro público não pode ser jogado apenas em eventos, é preciso investir em
espaços e projetos permanentes. Bem diz o poeta TT Catalão: “Quem semeia
eventos, colhe tempestades”.
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PATRIMÔNIO CULTURAL » Palco em construção
A partir de junho, Secretaria de Cultura do DF vai
administrar a maior reforma do Teatro Nacional. Orçada em R$ 96 milhões, obra
vai durar 10 meses. CORREIO BSB 08.04
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.Na proposta de reforma, está a revisão do projeto
da Sala Villa-Lobos para dar mais conforto e acessibilidade à plateia
Os concertos da Orquestra Sinfônica serão relocados
para outro local
Às vésperas de completar 32 anos ( foi inaugurada
em 21 de abril de 1981), a Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional Claudio Santoro,
finalmente, receberá a atenção que merece. Segundo a Secretaria de Cultura do
DF, a tão esperada e divulgada obra, que até hoje não saiu do papel, tem data
marcada: de 29 de julho até o final de maio de 2014, ao longo de 10 meses, o
espaço passará pelo maior restauro de sua história. O orçamento previsto é de R$
96 milhões, mas essa quantia ainda pode mudar, na etapa de elaboração dos
projetos. A estimativa foi feita tomando como base os 43 mil metros quadrados
de área total do teatro. “O teatro é o segundo palco da Copa”, destaca o
subsecretário de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da Secretaria de
Cultura, José Delvinei Santos, garantindo que a reabertura do local, novinho em
folha, será antes do mundial de futebol.
A última sessão de reparos foi em 1998. De lá para
cá, os funcionários nunca encontraram um plano de manutenção. “O desgaste
chegou a tal ponto que, para recuperar, será preciso fechar”, lamenta Delvinei.
As negociações com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(Iphan) começaram no início do ano passado e, em janeiro último, uma comissão
de especialistas em patrimônio foi criada para diagnosticar os principais
problemas a serem resolvidos. Esse estudo preliminar será entregue à empresa
responsável pela licitação, que deverá ser divulgada até 15 de abril e elegerá
uma empresa para prestar o serviço.
Em caixa, o Executivo local tem R$ 4,2 milhões
disponíveis para a elaboração do projeto e, neste valor, está embutida uma
consultoria com o escritório do arquiteto Oscar Niemeyer, criador do monumento.
O Iphan ajudará nas negociações entre as partes. “Não queremos entrar em
celeuma. Não há clareza em relação a como o escritório se comportará no que se
refere às obras, mas eles compreendem que é preciso se adaptar a novas regras,
como a lei de acessibilidade, por exemplo. A ideia não é desconfigurar”, afirma
Delvinei.
Hoje, há escadas em frente às saídas de emergência
e uma das medidas da obra será substituí-las por rampas. Além da questão de
segurança, a palavra de ordem é resolver, de uma vez por todas, a precariedade
acústica das salas. A começar pelos carpetes, que forram o piso e as paredes
das salas de espetáculos: além de absorver o som, o tecido, altamente
inflamável, pode ocasionar acidentes. “A acústica e o acabamento não foram
pensados à época”, afirma o subsecretário, destacando que o formato da sala, a
laje e o revestimento de espuma são outros fatores que atrapalham a propagação
do som.
As mazelas do teatro são velhas conhecidas dos
frequentadores, artistas e funcionários da casa. O maior desafio, segundo
Delvinei, é atualizar a iluminação: será preciso trocar todos os refletores,
mesas de operação, racks, fiação e alimentação do sistema elétrico. Os
geradores e aparelhos de ar-condicionados são a diesel. As mesas de som
analógicas, de operação totalmente manual, serão substituídas por modelos
digitais. Quem abre as torneiras dos camarins precisa deixar um pouco de água
correr, para evitar a ferrugem acumulada na tubulação, em vias de ser
completamente substituída. “Traremos o teatro para o século 21”, garante o
subsecretário. O plano inclui reabrir antigos espaços gourmet. Entre eles, o
restaurante que ocupava o Espaço Dercy Gonçalves, no topo da pirâmide, com
vista panorâmica para o centro da cidade. Atualmente, só é possível chegar até
lá depois de galgar 83 degraus.
Dinheiro em caixa
A pergunta crucial é: diante de um orçamento enxuto
destinado à área cultural, de onde sairá tanto dinheiro para viabilizar as
obras? Segundo o subsecretário, no fim do ano passado, a pasta aprovou uma
rubrica dentro dos Projetos Estruturantes do Distrito Federal, uma espécie de
PAC local, com sete áreas prioritárias de atuação. Dentro da carteira que trata
da conservação urbana e do patrimônio histórico e cultural conquistou recursos
da ordem de R$ 36 milhões (oito milhões para a elaboração dos projetos de
melhoria de 18 equipamentos culturais, 12 milhões para a execução dessas obras
e os 16 milhões restantes para dar o pontapé inicial no restauro do teatro). A
junta orçamentária responsável pela administração do dinheiro ainda garantiu
que, assim que o momento de execução chegar, o valor poderá ser complementado.
“Quando se faz um convênio com o governo federal, o
Executivo local precisa entrar com uma contrapartida, e este valor, geralmente,
fica em torno de 20% do total investido”, explica Delvinei. Os R$ 16 milhões,
portanto, estão nos cofres como investimento do GDF na concretização da
parceria com a instância federal . A expectativa é que os R$ 80 milhões
restantes venham do Fundo Nacional de Cultura (do Ministério da Cultura) ou via
PAC das cidades históricas. Outra alternativa financeira é o financiamento da
iniciativa privada, pela lei Rouanet: a empresa que investir no restauro será
beneficiada pela renúncia fiscal.
Conforto
Neste levantamento prévio, uma alteração
arquitetônica fundamental já surgiu: para aumentar o conforto e o espaço entre
os espectadores, será preciso retirar três fileiras de poltronas da Sala
Villa-Lobos, cuja capacidade é de 1.307 espectadores, contando as cadeiras
fixas. Para não reduzir a capacidade da sala, outras soluções de disposição
serão estudadas.
Trê perguntas //
José Delvinei Santos
A Sala Villa-Lobos é a única que comporta um
determinado porte de espetáculos. Como ficará a rotina da cidade durante os 10
meses de restauro do teatro?
Estamos muito preocupados com isso, não queremos
privar a população das produções culturais. A Orquestra Sinfônica do Teatro
Nacional Claudio Santoro, por exemplo, estamos tentando encaminhar ao Teatro
Pedro Calmon, no Quartel-general do Exército, no Setor Militar Urbano (SMU).
Estamos conduzindo os pedidos de pauta para lá, para o Centro de Convenções
Ulysses Guimarães, na Universidade Paulista (Unip). Para os eventos menores,
sugerimos o Centro Cultural Brasília (CCB). Outra alternativa seria construir
um espaço alternativo: uma grande tenda climatizada. Já nos apresentaram um
projeto, mas seria um investimento caro e não sabemos se as produções se
adaptariam. O Estádio Nacional de Brasília será usado para shows, porque os
espaços são modulares, se adequam, e não necessariamente precisam ser voltados
para públicos grandiosos. Estamos mais preocupados com os espetáculos de teatro
e dança.
Se o governo não conseguir fechar os acordos que
espera com o governo e com a iniciativa privada, a obra será feita mesmo assim?
O Governo do Distrito Federal vai cumprir o
compromisso de restauro. Temos um diálogo bom com o Governo Federal e será uma
parceria significativa. Por um caminho ou por outro, as mudanças serão feitas.
Já virou uma questão de saúde pública.
E a questão do alvará, como fica?
Precisamos sair da clandestinidade, não podemos
ficar com a casa aberta sem estar adequada à lei. Estamos funcionando de
maneira provisória porque temos o projeto de restauro. O teatro não é inseguro,
apenas não tem habite-se e não está adaptado aos rigores da lei, que é de 2004,
posterior à construção. Temos reuniões com o Corpo de Bombeiros e precisamos
resolver isso com a ajuda deles, da Agefis, do Iphan, da Administração de
Brasília. Precisamos criar uma instrução normativa que permita o diálogo entre
a lei de acessibilidade e a lei de tombamento. Esse problema não é
exclusividade do Teatro Nacional, se estende a toda Brasília.
>>>
Questões legais levaram a ausências notáveis em
antologia de poesia brasileira. FOLHA SP
06.04
.
Quando o Ministério da Cultura desistiu de apoiar o
projeto "Poesia.Br", no início do ano passado, o poeta Sergio Cohn já
tinha começado a contatar autores e herdeiros para garantir os direitos
autorais dos poemas que pretendia incluir na antologia.
Nova antologia revisa marco histórico da poesia
brasileira e chega até o século 21
O projeto do governo incluía, além do site, uma
edição em livro a preço popular, e foi com essa ideia em vista que Cohn
negociou valores.
"A meta era vender cada livro a R$ 8,90, com a
caixa a R$ 89. Muitos dos autores tinham topado entrar justamente pela ideia de
integrar uma edição popular. Acho que o fato de esse volume estar vivo
comercialmente mostra que dá para baixar o preço do livro no Brasil", diz.
.
O poeta e editor Sergio Cohn, organizador da
antologia
Conseguir a autorização de autores vivos foi mais
fácil que fazê-lo via editora e herdeiros, diz Cohn. Com isso, a seleção sofre
ausências notáveis, em especial nos livros "Modernismo" e
"1940-1950".
Faltam, por exemplo, Oswald de Andrade, Manuel
Bandeira e Cecília Meireles, por falta de consenso com os detentores dos
direitos.
A editora LeYa não autorizou a publicação de poemas
de Manoel de Barros. A Companhia das Letras limitou a dois os poemas de José
Paulo Paes e Mauro Faustino --como tinha um padrão de mais poemas por poetas,
Cohn preferiu deixá-los de fora.
"A ausência de grandes nomes enfraquece o
conjunto. Os herdeiros deveriam ter vergonha na cara e participar da vida
cultural do país e não apenas pensar no próprio bolso", diz Heitor Ferraz,
um dos 16 poetas do volume "1990", junto a nomes como Josely Vianna
Baptista, Augusto Massi e Antonio Cicero.
APRESENTAÇÕES
Entre os vivos, o único a se recusar a participar
foi Carlito Azevedo. "Na época eu estava em crise com a ideia de poesia.
Hoje não teria problema algum em aceitar participar", disse ele à Folha.
Para compensar as ausências, Cohn buscou mencionar
os poetas cujos direitos não conseguiu e publicar trechos de poemas nas
apresentações de cada edição.
Sergio Cohn e Carlito Azevedo têm em comum a
atuação em duas das mais importantes revistas dedicadas à poesia nos anos 90, a
"Azougue" (que virou editora em 2000) e a "Inimigo Rumor",
respectivamente.
Para o crítico literário Ítalo Moriconi, destacado
entre os 16 poetas do volume "1980", como Glauco Mattoso, Alice Ruiz
e Arnaldo Antunes, Cohn seguiu, na seleção para a antologia, o modelo que
privilegiava na revista dos anos 90 e na editora que comanda atualmente.
"São escolhas coerentes com o tipo de
perspectiva assumido pela Azougue desde sempre, de questionar as opções
canônicas da crítica literária dominante, particularmente a universitária, por
um viés eclético, que chamei de 'vanguarda retroflexa'", diz.
A vanguarda, ele diz, aparece tanto na inclusão dos
cantos ameríndios como nos poetas de influência beatnik, como Roberto Piva e
Claudio Willer, resgatados por Cohn nos anos 1990 e agora presentes no volume
"1960".
ALTOS E BAIXOS
O ponto alto da antologia, para todos os
especialistas ouvidos pela Folha, é justamente a inclusão dos cantos
ameríndios, traduzidos por nomes como Pedro Cesarino, Daniel Bueno e Antonio
Risério.
"Outro ponto relevante foi acompanhar década a
década a produção do século 20, que é quando a poesia brasileira se tornou mais
densa", afirma o crítico literário e colunista da Folha Manuel da Costa
Pinto.
Para Heitor Ferraz, essa divisão, "misturando
datas e movimentos literários", é questionável. "Criou ruídos
interessantes, mas discutíveis no conjunto do livro", ele diz, não sem
destacar
"a seriedade do trabalho" do organizador.
Embora avalie positivamente a antologia como um
todo, Costa Pinto vê como ponto fraco o volume referente ao período colonial.
"Há uma concentração excessiva num volume só,
de barroco, arcadismo. São momentos independentes, e não há uma discussão de
fundo sobre se existiu ou não um barroco no Brasil."
Mas, embora note ausências, como Nelson Ascher e
Affonso Ávila, contemporiza. "Falar em ausências em antologias é uma
crueldade. Identificar lacunas é um dever de quem lê criticamente, mas não
desmerece o trabalho de quem fez", diz.
POESIA.BR
ORGANIZADOR Sergio Cohn
EDITORA Azougue
QUANTO R$ 89 (10 volumes)
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Nova antologia revisa marco histórico da poesia
brasileira e chega até o século 21. FOLHA
SP 06.04
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Duas antologias nunca serão iguais, mas num ponto
aquelas publicadas em território nacional vinham concordando: a história da
poesia brasileira começa no período colonial, com José de Anchieta (1534-1597).
Questões legais levaram a ausências notáveis em
antologia de poesia brasileira
Esse é um marco que "Poesia.Br", nova
antologia organizada por Sergio Cohn, 38, desafia. O primeiro dos dez volumes
que o poeta e editor da Azougue acaba de lançar em uma caixa, totalizando 1.432
páginas, aborda os cantos ameríndios.
Os estudos dessa vertente vêm de décadas passadas,
mas seus resultados permaneciam fora das antologias de poesia publicadas no
Brasil --uma exceção, curiosamente, é uma edição bilíngue lançada em 2003 na
Itália, "Scrittori Brasiliani", organizada por Giovanni Ricciardi.
Com isso, "Poesia.Br" se firma como a
seleção de maior abrangência histórica da poesia produzida no país, já que
trata também, no último volume, de poetas dos anos 2000, como Angélica Freitas,
Fabiano Calixto e o colunista da Folha Fabrício Corsaletti.
Os volumes intermediários abrangem o período
colonial, o romantismo e o pós-romantismo, o modernismo, a poesia dos anos 1940
e 1950 e, em volumes isolados, aquela produzida, década a década, a partir dos
anos 1960.
Divisão similar --sem os cantos ameríndios-- teve a
coleção "Roteiro da Poesia Brasileira", lançada em 15 volumes de 2006
a 2011 pela Global, sob direção de Edla van Steen e com cada volume a cargo de
um especialista.
O projeto de Sergio Cohn se destaca pela ambição: o
poeta e editor dedicou seus últimos dois anos, sozinho, ao que chama de
"uma cartografia da poesia brasileira".
SITE
"Poesia.Br" surgiu em 2010 de um projeto
elaborado pelo Ministério da Cultura, orçado em R$ 1,5 milhão, que incluiria um
portal sobre poesia e eventos. Com a troca de comando no ministério, o projeto
foi cancelado, no início de 2012, sem nenhum valor desembolsado.
Cohn resolveu continuar sozinho. A ideia do site
foi abortada, e, com isso, a possibilidade de ser um trabalho colaborativo. Mas
o poeta diz que, justamente por ter começado a fazer o recorte com um olhar
"oficial", evitou personalizar demais as escolhas.
Cada volume traz entre 15 e 30 poetas, o que
obrigou Cohn, como todo antologista, a fazer escolhas difíceis. Até poetas
presentes na seleção, como Ademir Assunção (anos 1990), Claudio Willer (anos
1960) e Augusto de Campos (anos 1940-1950) preferem não comentar a obra.
*
CARTOGRAFIA POÉTICA
Os nomes de cada volume da antologia
"Poesia.Br"
Cantos ameríndios
Araweté (trad. Antonio Risério)
Bororo (trad. Sergio Medeiros)
Kashinawá (trad. Daniel Bueno)
Marubo (trad. Pedro Cesarino)
Mbya Guarani (trad. Josely Vianna Baptista, Douglas
Diegues e Guillermo Sequera)
Maxakali (trad. Rosângela de Tugny)
Colonial
José de Anchieta
Bernardo Vieira Ravasco
Gregório de Matos
Manuel Botelho de Oliveira
Manuel de Santa Maria Itaparica
Frei José de Santa Rita Durão
José Basílio da Gama
Claudio Manuel da Costa
Inácio José de Alvarenga Peixoto
Tomás Antônio Gonzaga
Manoel Inácio da Silva Alvarenga
Domingos Caldas Barbosa
Romantismo e pós-romantismo
Gonçalves Dias
Bernardo Guimarães
Álvares de Azevedo
Junqueira Freire
Casimiro de Abreu
Fagundes Varela
Sousândrade
Castro Alves
Machado de Assis
Olavo Bilac
Cruz e Souza
Alphonsus de Guimaraens
Pedro Kilkerry
Augusto dos Anjos
Raul de Leoni
Gilka Machado
Modernismo
Mário de Andrade
Ronald de Carvalho
Menotti del Picchia
Guilherme de Almeida
Ascenso Ferreira
Carlos Drummond de Andrade
Vinicius de Moraes
Mário Quintana
Solano Trindade
Gerardo Mello Mourão
João Cabral de Melo Neto
1940/50
Lêdo Ivo
Fernando Ferreira de Loanda
Alphonsus de Guimaraens Filho
Paulo Bomfim
Geir Campos
Carlos Pena Filho
Gilberto Mendonça Teles
Walmir Ayala
Haroldo de Campos
Augusto de Campos
Décio Pignatari
Ferreira Gullar
Reynaldo Jardim
Mário Chamie
Wlademir Dias-Pino
Max Martins
Paulo Mendes Campos
Thiago de Mello
Moacyr Félix
Lara de Lemos
1960
Celso Luiz Paulini
Rubens Rodrigues Torres Filho
Roberto Piva
Claudio Willer
Eduardo Alves da Costa
Lindolf Bell
Orlando Parolini
José Carlos Capinam
Torquato Neto
Armando Freitas Filho
Leonardo Fróes
Sebastião Uchoa Leite
Hilda Hilst
Dora Ferreira da Silva
Orides Fontela
Adélia Prado
1970
Chacal
Charles
Cacaso
Francisco Alvim
Bernardo Vilhena
Eudoro Augusto
Afonso Henriques Neto
Ana Cristina Cesar
Waly Salomão
Rogério Duarte
Duda Machado
Paulo Leminski
Régis Bonvicino
Antonio Risério
Nicolas Behr
Xico Chaves
1980
Glauco Mattoso
Braulio Tavares
Maria Rita Kehl
Italo Moriconi
Claufe Rodrigues
Alice Ruiz
Arnaldo Antunes
André Vallias
Frederico Barbosa
Paulo Henriques Britto
Fernando Paixão
Alexei Bueno
Iacyr Anderson Freitas
Marco Lucchesi
Age de Carvalho
Floriano Martins
1990
Claudia Roquette-Pinto
Josely Vianna Baptista
Augusto Massi
Heitor Ferraz
Fabio Weintraub
Antonio Cicero
Eucanaã Ferraz
Rodrigo Garcia Lopes
Ademir Assunção
Guilherme Zarvos
Alberto Pucheu
Caio Meira
Renato Rezende
Claudio Daniel
Ricardo Aleixo
Tarso De Melo
2000
Ana Martins Marques
André Dick
Angélica Freitas
Bruna Beber
Camila do Valle
Danilo Monteiro
Douglas Diegues
Eduardo Sterzi
Ericson Pires
Fabiano Calixto
Fabrício Corsaletti
Leonardo Gandolfi
Luis Maffei
Marcelo Montenegro
Micheliny Verunschk
Rodrigo Petronio
sexta-feira, 5 de abril de 2013
HISTóRIA »
Animadores da memória
Instituições criadas na Estrutural e em Ceilândia zelam
pela cultura e promovem uma série de atividades no sentido de estimular o
fortalecimento dos laços de identidade dos jovens com as suas comunidades CORREIO BSB 05.04
Cuidar da memória e preservá-la são uns dos principais
motivos que fazem com que o Museu Casa da Memória Viva e o Ponto de Memória da
Estrutural continuem com as portas abertas à comunidade. Didáticos, os espaços
culturais contam as histórias da população com muita dedicação e mostram que os
museus podem, sim, fugir do estigma de serem instituições elitistas.
Jevan resolveu criar o Museu Casa Memória Viva com a ajuda
dos seus alunos
Museu Casa da Memória Viva
A casa da memória surgiu em 1993, quando Manoel Jevan,
professor de história da rede pública de ensino, encontrou-se em um impasse,
pois ao ensinar as histórias das regiões
administrativas, deparou-se com livros que tratavam os locais de maneira
preconceituosa. “Eram livros de pessoas de fora que falavam sobre a Ceilândia.
Não tinha nenhum de moradores daqui”.
Para suprir a carência de materiais produzidos pelos
próprios ceilandenses, Jevan criou a Sociedade dos pesquisadores e pioneiros da
Ceilândia (SPPCei).
Com a iniciativa, seus alunos trouxeram diversas histórias
de pioneiros. “Em 1997, eu já tinha juntado tanto material que distribui tudo
em painéis. Comecei com cinco, um era em homenagem ao Vladimir de Carvalho, que
é um padrinho para este projeto”, conta.
O material conquistado fica exposto, por um determinado
tempo, na garagem da casa de Jevan. Além dos painéis, a Casa da Memória Viva
também abriga diversos livros de escritores da Ceilândia e a Cordelteca
candanga, que, segundo o criador do espaço, é a maior coleção de livros de
cordel sobre Lampião de Brasília.
Todas as exposições que já passaram pelo museu tiveram como
objetivo mostrar a Ceilândia histórica, a terra dos “candangos excluídos
incansáveis”, como o próprio Jevan denomina. “Apresentar uma memória que não
pertence a mim, não pertence aos estudantes que trazem esses pioneiros, que
pertence a própria história da cidade”, explica.
"Não tinha nenhum livro sobre a Ceilândia escrito por
moradores daqui”
Manoel Jevan, coordenador do Museu Casa da Memória Viva
Literatura
Pioneiros da Academia Ceilandense de Letras & Artes
Populares — ACLAP, promoveram um encontro no dia 27 de março, para saudar novos
membros e lançar o livro Coletânia Candanga. Dona Percilia, presidenta de
honra, e o escritor mais antigo da Ceilândia, Joaquim Bezerra da Nóbrega,
estiveram presentes no evento e prestigiaram os postulantes às cadeiras na
"academia mais eclética do Brasil". O encontro também marcou a
reabertura da Casa da Memória Viva, agora em novo endereço, na "casa com
portão do Ipê amarelo" (QNN 40, Cj. J, Cs. 03; 3048-2630). O livro
Coletânia Candanga está disponível para download gratuito no site
www.oclubedosom.com.br/memoriaviva.htm.
Maria Abadia em frente a uma exposição sobre as mulheres da
Estrutural
Ponto de Memória da Estrutural
Com o intuito de mostrar a história local e tendo a
comunidade como peça fundamental, o Ponto de Memória da Estrutural (Q. 3, Cj.
14, Lt. 4, Setor Leste) tem chamado a atenção. Administrado por moradores da
cidade-satélite, desenvolve diversas oficinas e reflete sobre a identidade
local, cultura e movimentos sociais.
O projeto começou a ser desenvolvido em 2009 e foi
inaugurado em seu atual endereço em 2011, por meio do Programa Pontos de
Memória, feito em parceria com o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), o
Governo do DF e a população.
Maria Abadia Teixeira de Jesus, uma das coordenadoras,
conta que a proposta de ter um local voltado para a comunidade e que promove a
cultura e a interação é nova na Estrutural, e tem rendido bons frutos. “A
aproximação com a história tira os jovens da violência e faz com que tenham
orgulho do lugar onde moram.”
O Ponto de memória representa uma vitória para os moradores
da cidade, que encontram no próprio território programas culturais, e a
intenção é que, cada vez mais, a comunidade tome posse do local.
O espaço já promoveu duas exposições. A primeira,
Movimentos da Estrutural — Luta, resistência e conquista, apresentou com
diversas fotos históricas e objetos, incluindo pneus, que simbolizaram
manifestações. O trabalho também foi exposto na Universidade de Brasília.
A segunda, denominada A mulher e a cidade retrata o
universo feminino. A mostra expõe uma parede coberta por fotos de donas de
casa, costureiras, chefs de família, professoras. Todas têm em comum a Estrutural,
cidade onde vivem.
A exposição recebe muitos moradores, e os rostos das
mulheres chamam a atenção de quem passa. Prova do retorno são as duas catadoras
de lixo que visitaram o espaço. Segundo Maria Abadia, elas estavam passando
pela rua, ficaram curiosas, entraram e se encantaram.
"A aproximação com a história tira os jovens da
violência e faz com que tenham orgulho do lugar onde moram”
Maria Abadia
Teixeira, uma das coordenadoras do Ponto de Memória da Estrutural
Visita ilustre
Em novembro de 2012, o Ponto de Memória recebeu uma visita
de peso em suas instalações: o renomado museólogo e professor Hugues de
Varine-Bohan. De passagem por Brasília, ele fez questão de conhecer o Ponto de
Memória, e, segundo Maria Abadia, o especialista em ações comunitárias e
regeneração urbana ficou encantado com o projeto.
>>>>>>>
"Puniu o clube a
jogar..."
Sempre que se referia ao português de figuras públicas,
jornalistas, etc., o saudoso Millôr Fernandes citava as regências estranhas,
forçadas. Tinha plena razão o grande Millôr.
Pasquale Cipro Neto é professor de português FOLHA SP 05.04
.
Antes de ilustrar o que dizia o escritor, convém lembrar
que a regência diz respeito à relação que se estabelece entre as palavras ou
orações. Em "Ele gosta de futebol", por exemplo, o verbo
"gostar" rege a preposição "de". A regência não se limita à
relação entre os verbos e os seus complementos. Em "olhos verdes",
por exemplo, o substantivo "olhos" é o regente, por isso o adjetivo
("verdes") se ajusta à flexão de número (plural) imposta pelo
substantivo.
Voltando ao que dizia Millôr, há, sim, um festival de
regências bizarras nos meios de comunicação. Salvo engano, o prato preferido
desses inventores é a preposição "a". Em diversos casos em que
naturalmente se usaria "para", surge, misteriosamente, o empafioso
"a". Há algum tempo, um jornal publicou o seguinte título, a respeito
de um teste comparativo entre dois automóveis: "Carro X não é páreo a
carro Y". Páreo "a"? Alguém, em sã consciência, diria que o time
X não é páreo "ao" Barcelona, por exemplo? Duvideodó!
"Carro X não é páreo a carro Y" tem fortíssimo
cheiro de invencionice, mandracaria, falsa erudição. Alguém dirá que o
"a" entrou no lugar do "para" por uma questão de espaço.
Não era isso. Havia espaço mais do que suficiente para que o título fosse o
óbvio ("Carro X não é páreo para carro Y").
Outro exemplo (este muito mais frequente do que o anterior)
se vê com o verbo "socorrer". Jornalistas de rádio ou TV adoram dizer
que "Fulano foi socorrido ao hospital X". Esse caso, que é um pouco
diferente do anterior, tem características que merecem atenção. Temos aí um
cruzamento. Explico: Fulano foi levado "ao" (ou "para o")
hospital X e socorrido "no" hospital X. O que se faz? Uma
saladinha... Embute-se o sentido do verbo "levar" no de
"socorrer" e mantém-se a preposição que se usa com
"levar"... Elaiá!
A construção corrente no padrão culto da língua não é essa;
é esta, mais do que óbvia: "Fulano foi levado ao (ou 'para o') hospital X,
onde foi socorrido". Para os que preferem algo mais sintético, pode-se
usar a também óbvia construção "Fulano foi socorrido no hospital X"
(elimina-se a óbvia informação de que Fulano foi levado para lá, já que, se o
indivíduo foi socorrido no hospital X, é mais do que evidente que ele foi
conduzido para lá).
Por fim, uma grande maravilha, que ouvi dia desses num
programa esportivo: "A Conmebol puniu o clube a jogar com portões
fechados...". Puniu o clube "a" jogar? Isso é que é inclusão
verbal! O que talvez fosse algo como "Puniu o clube, o que o obriga a
jogar..." ou "Puniu clube, que será obrigado a jogar..." acaba
virando uma mixórdia que lembra de longe o português que eu, tu e o Chico
Barrigudo usamos...
É óbvio que essas coisas fazem escola e se propagam
rapidamente. Está aí o horroroso uso do verbo "ter", que não me deixa
mentir. Parece que a imprensa não abre mão disso, nem a pau. É um tal de
"O motorista teve a perna quebrada" ou bobagens afins que não há
ouvido são que aguente...
Não posso encerrar a coluna sem deixar de citar o texto que
vi na madrugada de ontem no blog do grande Juca Kfouri ("Ascendeu a chama
verde"). Foi grande o número de pessoas que "corrigiram" Juca
e/ou o site pelo "erro" (esse pessoal queria "acendeu" no
lugar de "ascendeu")... E olhe que não faltou didatismo no texto do
grande Juca ("O Palmeiras subia, ASCENDIA, e chegava..." -assim
mesmo, com a palavra "ascendia" toda em maiúsculas). É dura a vida,
meu caro Juca. Mas a gente aguenta! É isso.
>>>>>
Ricardo Reis? Quem?
Hoje, ninguém ignora o que são "heterônimos",
marca registrada de Fernando Pessoa (1888-1935): diferentes poetas, cada qual
com personalidade e estilo próprios, todos criados pelo mesmo autor. VALOR ECONÔMICO
05.04
As diferenças são
tantas que quase todo leitor tem o seu favorito. Para uns, é Álvaro de Campos,
engenheiro naval, irrequieto, sintonizado com a agitação da grande cidade; sua
meta na vida é "sentir tudo de todas as maneiras". .Para outros, é Alberto Caeiro, camponês
tranquilo, que quer apenas sentir a natureza e não pensar; ele acha que
"há metafísica bastante em não pensar em nada". Para outros mais, é o
próprio Pessoa, o dos poemas patrióticos, que trazem reflexões como esta:
"Tudo vale a pena, se a alma não é pequena".
Nosso poeta passou a vida concebendo heterônimos, várias
dezenas, mas completos são só três - quatro, se considerarmos o próprio como um
deles. Logo, na lista acima um ficou de fora: Ricardo Reis, médico que nunca
exerceu a profissão, autor de umas odes inspiradas em Horácio (século I a.C.).
Ficou de fora porque até hoje não conheci ninguém que dissesse: Ricardo Reis?
Ah, é o meu favorito. Não é uma boa razão para conhecê-lo de perto?
"O dr. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma",
diz o seu criador, "no dia 29 de janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite.
Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos,
especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu processo de sentir
as cousas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reação
momentânea." Assim, Reis vai ganhando vida e, através dele, Pessoa
desenvolve uma teoria neoclássica (ele esclarece) "segundo princípios que
não adoto nem aceito".
Então o que temos é uma "reação" contra a arte
moderna, cujos "excessos" o poeta repudia. E arte
"moderna", no caso, é a vanguarda do início do século passado,
irreverente, rebelde a todas as regras. Em represália, Reis escreve uma poesia
marcada por rigorosa disciplina: formas fixas, ritmo bem medido, vocabulário
erudito, ordem invertida e muita mitologia: "As rosas amo dos jardins de
Adônis,/ Essas volucres amo, Lídia, rosas".
Quer dizer: "Amo as rosas dos jardins de Adônis,/ Amo,
Lídia, essas rosas volucres". Adônis é um belo jovem, por quem Vênus, a deusa
do amor, se apaixonara, e ele morre numa caçada; do seu sangue, espalhado na
terra, brotam as primeiras flores da primavera. "Volucre" (latim)
quer dizer volátil, fugaz.
Mas, já em 1914, quem estaria disposto a interromper a
leitura, desmontar e remontar as frases e fazer pesquisas? Hoje, então, quase
um século depois... E Pessoa tinha consciência disso. O que ele pretende é nos
oferecer o desafio, e a oportunidade, de aperfeiçoar as qualidades das quais
somos cada vez mais carentes: capacidade de concentração, atenção ao detalhe,
disciplina interior, paciência de ir chegando aos poucos ao verdadeiro sentido
das coisas. Autodomínio, enfim, em vez da submissão aos desejos que se
multiplicam sem cessar, e são logo descartados.
Epicuro (341-270 a.C.) pregava que o homem deve buscar, na
vida, o máximo de prazer. Para nós, modernos, isso quer dizer quantidade,
fartura, abundância, ausência de limites. Mas não assim para Pessoa-Reis.
"Quem não se contenta com pouco não se contenta com nada" (Epicuro).
Querer todos os prazeres só resulta em dor e sofrimento: o homem é um ser
insaciável. Logo, buscar o prazer quer dizer evitar a dor. Como?
Satisfazendo-se com pouco. Nós, modernos, nos recusamos a chamar isso de
"prazer".
A mesma Lídia, a das "rosas volucres", é várias
vezes interpelada pelo poeta, que lhe dá conselhos e, em dado momento, convida:
"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do regato". E acrescenta:
"Enlacemos as mãos". Não é um claro preâmbulo aos prazeres do amor?
Mas em seguida ele reconsidera: "Desenlacemos as mãos". Se isso o
surpreende, leitor, imagine a surpresa da pobre Lídia... Mas no fim ele
explica: se eu morrer antes, ele diz, "lembrar-te-ás de mim depois/ Sem
que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,/ Porque nunca enlaçamos as
mãos, nem nos beijamos". Se ela morrer antes, o resultado será o mesmo:
nenhum deles sofrerá.
Para a sensibilidade moderna, um absurdo; para Ricardo
Reis, a satisfação possível: o controle das paixões e dos instintos.
"Abdica e sê rei de ti próprio", afirma. Para ele, os
"excessos" da arte moderna são apenas um indício da decadência geral
da sociedade. E isso não é fenômeno recente, ele adverte, começou com o advento
do... cristianismo, "mera heresia pagã, produto de uma degenerescência nas
ideias e nos sentimentos de onde deriva o estado perpetuamente mórbido da nossa
civilização". O cristianismo, diz Reis, é "um sistema religioso em
que tomam relevo os sentimentos íntimos de cada indivíduo, em que o interesse
do espírito se concentra em seus próprios movimentos".
Para ele, todos os males do mundo resultam do subjetivismo
ao qual fomos condenados pela religião cristã, tornada hegemônica: cada cristão
é obrigado a viver dentro de si o seu deus, sem jamais saber se é o mesmo deus
do vizinho ao lado, tão cristão quanto ele. Daí a desagregação e a dispersão,
não só na esfera religiosa, mas em tudo o mais. Cada homem é um ser à parte,
incapaz de comungar com os outros homens ou com a natureza. Neste nosso mundo,
solidariedade virou uma questão de "sentimento", quando deveria ser,
como foi antes de Cristo, uma questão de razão e consciência.
A solução, segundo Reis, é a volta ao paganismo, único
momento da história em que o homem se sentiu plenamente integrado na realidade
de todas as coisas. Mas como não seria possível simplesmente apagar 20 séculos
de cristianismo, ele propõe que Cristo seja aceito como um deus a mais, vindo
somar-se aos outros deuses do Olimpo.
Um dos seus poemas mais controvertidos diz: "Não a ti,
Cristo, odeio ou te não quero./ Em ti como nos outros creio deuses mais
velhos./ Só te tenho por não mais nem menos/ Do que eles". E, umas
estrofes adiante: "Cura tu, idólatra exclusivo de Cristo, que a vida/ É
múltipla e todos os dias são diferentes dos outros,/ E só sendo múltiplos como
eles/ Estaremos com a verdade". Mas sua conclusão é pessimista: "O
paganismo morreu. O cristianismo, que por decadência e degeneração descende
dele, substituiu-o definitivamente. Está envenenada para sempre a alma
humana".
Conclusão: Reis não representa uma volta ao passado, mas
sim um fundo mergulho neste nosso tempo, que, com sua avidez e seu sonho de
liberdade ilimitada, nos condena à eterna insatisfação. É uma crítica
implacável à nossa leviandade, ao nosso egoísmo, ao nosso fanatismo. Se não for
por isso que todos fogem dele, é uma boa razão, quem sabe, para que até hoje
ninguém dissesse: Ricardo Reis? Ah, é o meu favorito.
Carlos Felipe Moisés é poeta ("Noite Nula", 2008)
e crítico literário ("Tradição & Ruptura", 2012). Foi o curador
da exposição "Fernando Pessoa: Plural como o Universo", no Museu da
Língua Portuguesa, em São Paulo, em 2010-2011
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