quinta-feira, 4 de abril de 2013






LITERATURA »
Fluxos poéticos
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Músico e poeta Newton Lima lança livro com roda de choro, enquanto Ana Maria Lopes prepara nova criação
CORREIO BSB 04.04

Cavar três décadas de poesia para preencher um livro requer um apurado filtro. Foi esse o desafio de Newton Lima, que lança hoje, às 18h30, Terceira visão, na Livraria do Chico (UnB). A organização dos poemas (escritos a partir da década de 1980) promove um passeio pelo cotidiano brasiliense, sempre acompanhado de um viés conceitual, contando com o tempo e o lugar como os personagens mais recorrentes.

Apesar da delonga na estreia impressa, Lima manteve-se ocupado. Além das aventuras literárias (que renderam algumas menções honrosas no Prêmio Criatividade, promovido pelo GDF), ele compõe e canta. Em 2009, por exemplo, lançou o álbum autoral Linha da fronteira, com 12 canções de samba e choro. Desde lá, ocupou vários espaços da cidade com sua música.

Já com o novo livro nas prateleiras, Ana Maria Lopes atesta que “a poesia é o que nutre”. A frase transparece prioridade. Depois de dedicar a vida profissional ao jornalismo, ela elevou o status do ofício artístico: “Sempre militei como mulher — trabalho, sou mãe, avó, dona de casa. Hoje, dou-me o direito de fazer da poesia minha atividade principal”. Assim, nasceu Risco, segundo trabalho poético. O primeiro (Conversa com verso) veio sete anos antes. “Em 2014, lanço o próximo. Não esperarei mais tanto tempo”, garantiu.

O hiato entre as obras não reflete falta de inspiração ou interesse da autora. Pelo contrário. Deve-se ao teor do texto. “Minha poesia é confessional. Desnudo-me um pouco. Tive certo medo. Não mais”. Risco traz os emotivos retratos de uma carioca (radicada em Brasília) que não se cansa de observar.

Olhar romântico
A junção de experiências vividas por meio do contato íntimo com o que cerca Salomão Sousa tornou possível a produção e o lançamento do livro Vagem de vidro. Poeta remanescente entre os que surgiram na década de 1970, Salomão é, por opção, pedestre em Brasília. Por escolha, mantém-se atento aos detalhes que surgem por onde anda. O novo livro de poesias chega às livrarias após um período de cinco anos sem lançamentos, embora o autor nunca tenha parado de produzir.

Goiano, natural de Silvânia, Salomão mora na capital federal desde 6 de janeiro de 1971, de onde acompanhou o período que, para ele, foi de grande dificuldade para a poesia, nos anos 1980 e 1990, em que novas fases e estilos surgiram. “Em Brasília, passei por diversas fases. Passei pela poesia marginal e pela poesia um pouco mais engajada, em que os poetas faziam leituras nas ruas. Hoje, a poesia está se reencontrando e reorganizando as correntes de vanguarda.”

Nesse momento atual de transição da poesia, Salomão ressalta a importância da reflexão crítica da literatura, uma vez que a tecnologia virtual pode interferir diretamente na construção de novos leitores. “As redes sociais, blogs e sites são ótimos para realizar divulgação, mas muitos leitores têm caído em uma armadilha. Enquanto a literatura se importa com a formação de interpretação, as redes sociais, por exemplo, preocupam-se com a formação de imagem, o que pode atrapalhar a leitura e o contato íntimo com detalhes.”



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A economia e o renascimento da história


Coluna Econômica  de Luis Nassif - 03/04/2013 - Blog: www.luisnassif.com.br


Alguns anos atrás cunhei a expressão “cabeças de planilha” para criticar um tipo de economista incapaz de uma visão sistêmica da economia.

Sempre me impressionou o modo de pensar dos físicos. Se uma ação específica for aplicada em determinado corpo, pode alterar completamente sua natureza. Os resultados das políticas sociais brasileiras, nos últimos anos, são  significativos.

Ao sair da miséria absoluta e descobrir o consumo, houve uma mudança radical na vida dos beneficiários. Deixam de ser párias e se convertem em cidadãos consumidores .

A curto prazo, a inclusão fortalece o mercado interno. A médio prazo, tem consequências políticas extraordinárias, criando uma nova geração de cidadãos que será cada vez mais exigente em relação aos serviços públicos, ao ambiente econômico etc.

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Quando teve início o processo de privatização – ainda no governo Collor – junto com um grupo de pessoas defendíamos a privatização com fundos sociais, um modelo que permitiria ao trabalhador se beneficiar dos ganhos da privatização. Haveria a legitimação da privatização; criação de um mercado de capitais popular; criação de freios ao poder dos novos grupos que se formavam.

Prevaleceram os interesses imediatos dos grupos e dos privatizadores.

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No mês passado, um trabalho dos economistas Daron Acemoglu-James Robinson ("Economics versus Politics: Pitfalls of Policy Advice", Fev., 2013) – recomendado ontem por Delfim Netto – trouxe  luzes de forma brilhante ao que eles denominam de “dois tempos da economia”.

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Eles supõem uma política econômica em dois períodos.

No primeiro período, imaginam uma política econômica totalmente virtuosa, sem a promiscuidade de interesses escusos ou cálculos políticos.

Acontece que, qualquer que seja a decisão, ela influenciará o tempo político do segundo período.

As medidas poderão, por exemplo, fortalecer os grupos dominantes e enfraquecer os grupos que atuam como contrapeso.

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Tome-se o caso do enfraquecimentos dos sindicatos nos Estados Unidos. Sem o contrapeso, houve um aumento extraordinário do poder dos executivos, em vários escândalos corporativos e, mais que isso, em uma ampliação tal da desregulação financeira que levou à grande crise de 2008.

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Analisa também a privatização da Rússia, importante para desmontar a burocracia anterior, mas feita de tal maneira que gerou uma classe de oligarcas extremamente corrupta.

Ou os casos da mineração na Austrália, no século 19, e em Serra Leoa, no século 20

Na Austrália, liberou-se para garimpeiros. Produziu-se, inicialmente, uma mineração menos eficiente. Nos anos seguintes, os garimpeiros se organizaram, criaram seus sindicatos e uma força pró-democratização de grande porte que ajudou a civilizar o país.

Serra Leoa optou por uma mineração racional, conduzida por grandes grupos, com 100% de aproveitamento, pagamento de impostos ao poder público etc. Em 1935 o governo colonial concedeu os direitos à Serra Leoa Seleção Trust (SLST).

A empresa tornou-se um poder dentro do Estado, controlando inclusive milícias para garantir o monopólio contra a mineração clandestina. Nos anos 50, já existiam 75 mil garimpeiros ilegais. Jamais saiu do atraso.

Os sindicatos – 1

O trabalho traz uma análise rica sobre o papel dos sindicatos. “Na maioria das situações, os sindicatos claramente criam distorções econômicas, empurrando os salários dos seus associados até em relação aos não-sindicalizados empregados”. Podem também desencorajar a adoção de tecnologias que melhorem a eficiência da empresa. Por outro, ajudam a contrabalançar o poder das empresas, especialmente dos grandes grupos.

Os sindicatos – 2

O trabalho descreve a importância dos sindicatos para oapoio às instituições democráticas em todo o mundo.  Os exemplos são variados. Participaram da democratização europeia antes da Primeira Guerra. O trabalho enaltece três exemplos recentes: a Solidariedade, contra o regime comunista da Polônia; a luta contra o apartheid na África do Sul; e a formação do Partidos dos Trabalhadores, no Brasil.
Os sindicatos – 3

Por outro lado – continua o trabalho – o poder dos sindicatos pode ser um tiro pela culatra se significar aumentos reais de salario maiores do que a economia ou as empresas podem suportar. O pico da influência sindical nos EUA foi no início dos anos 50. Depois, foram perdendo relevância. a partir  na década de 1970,com as políticas que incentivaram o livre comércio, aumentando a concorrência com a produção interna.

Os sindicatos – 4

A postura anti-sindical do governo Reagan trouxe consequências maiores para a economia norte-americana, tendo papel relevante no aumento das desigualdades de renda, além da esbórnia dos altos executivos e da desregulação financeira. Por outro lado, o aumento dos custos trabalhistas acabou implicando na transferência de parte relevante da produção industrial para outros países.

Desenvolvimento e democracia – 1

O trabalho divide o desenvolvimento econômico em dois campos: o de “acesso aberto”, caracterizado pelo desenvolvimento com democracia, sociedade civil rica e vibrante, com várias organizações e relações sociais, incluindo o Estado de direito e os direitos de p[ropriedade. E o de “acesso limitado”, no qual há crescimento econômico fraco, pequeno números de organizações sociais, muitos privilégios e aplicação desigual das leis e dos direitos.

Desenvolvimento e democracia – 2

Há uma curiosa crítica à democracia nos países pobres . Segundo o trabalho, a violência é prejudicial aos interesses da elite. Por isso, desenvolve-se um sistema político que manipula o sistema econômica, para preservar privilégios, e o sistema jurídico, para garantir a ordem política. Esse mundo das ordens naturais, dizem os autores, não ajuda a construir nações nem a modernizar países.

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OPINIÃO   ( Washington Novaes é jornalista )  O POPULAR GO 04/04/2013
Mauro, Jânio, Jango, Lula etc.
O rosto sereno do governador Mauro Borges em seu velório no Palácio das Esmeraldas reavivou muitas memórias.

Dois dias antes, o autor destas linhas lera em jornal (O Estado de S. Paulo, 27/3) a notícia em que o ex-presidente Lula se declarava contra financiamentos privados, de empresas, a candidatos em campanhas eleitorais; estas só deveriam ter financiamentos públicos, para “moralizar a política”; financiamentos privados deveriam ser considerados, segundo ele, “crimes inafiançáveis”. Mais surpreendentes ainda pareceram as declarações por saber-se que dias antes os jornais haviam publicado (21/3) a notícia de que o ex-presidente, contratado por três das maiores empreiteiras do País (Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e Odebrecht), havia regressado da África, onde proferira conferências em vários países, pagas por essas empresas, a R$200 mil cada. E que na campanha de 2006 a Andrade Gutierrez doara à candidatura presidencial de Lula R$ 2 milhões, enquanto a Odebrecht doara R$ 200 mil. Em 2010, na campanha presidencial do PT, a Queiroz Galvão doara R$ 9,38 milhões, a Andrade Gutierrez R$ 15 milhões e a Odebrecht R$ 2,4 milhões.

Todas essas empresas, assim como algumas poucas outras, são as maiores contratantes de projetos federais, estaduais e municipais, que vão das grandes hidrelétricas na Amazônia à coleta de lixo no País todo, passando por ferrovias, portos, rodovias etc. Que teria levado o ex-presidente, beneficiário direto de doações dessas grandes empreiteiras em campanhas e viagens, a mudar de ideia?

Tudo isso estava ainda quente na memória quando a face tranquila do governador Mauro Borges levou de volta ao passado, principalmente a uma narrativa feita por ele mesmo ao autor destas linhas, há cerca de uma década (e que está em suas memórias). Contou ele que, com sua formação de estrategista na Escola de Comando e Estado Maior do Exército, ao assumir o governo e tentar implementar um plano de desenvolvimento para o Estado (O POPULAR, 30/3), esbarrara, na área dos recursos minerais, com uma concessão federal já vencida mas que impedia a exploração de jazidas de níquel no Nordeste goiano. Por isso, pediu uma audiência ao presidente também recém-eleito Jânio Quadros.

Jânio recebeu-o amavelmente. Mas quando Mauro mencionou que a concessão das jazidas pertencia ao então senador José Ermírio de Moraes – e pedia sua revogação, por estar vencida havia algum tempo e sem uso –, Jânio abriu um sorriso irônico e disparou direto: “Mas governador, o senhor vem me pedir para tomar essa providência contra o maior financiador da minha campanha eleitoral?” Mauro Borges insistiu, argumentou que era muito importante para o Estado. Jânio retrucou: “Mas nada impede que, se a concessão já estiver fora do prazo, se tome providência.” Foi ao telefone, chamou o então ministro de Minas, João Agripino, narrou-lhe o pedido e determinou que verificasse – e tomasse providências, se fosse o caso.

Prossegue a narrativa de Mauro Borges. Alguns meses depois, Jânio Quadros renunciou e o vice-presidente João Goulart acabou assumindo a Presidência da República. Um dia, pediu a presença em Brasília do governador de Goiás. Agradeceu-lhe por haver sido o único chefe de governo estadual, junto com Leonel Brizola, a assumir posição pela posse dele, vice-presidente, contrariando os chefes militares. E explicou que havia um segundo motivo para a convocação – apontou para um processo que tinha em mãos. Nele, o Ministério de Minas propunha a cassação da concessão das jazidas de níquel ao senador José Ermírio de Moraes, por estar vencida e sem exploração, como demonstrara o governo de Goiás. Jango pediu que Mauro desistisse do pedido.

O governador explicou que não poderia desistir, era parte importante do projeto estratégico para o Estado, principalmente tratando-se do Nordeste, a região menos desenvolvida de Goiás. Embaraçado, Jango informou ao governador que seria uma atitude muito difícil para ele, pois o senador José Ermírio de Moraes fora “o maior financiador” de sua campanha eleitoral. Mauro insistiu, terminou a audiência. Jango ainda ficou mais de dois anos no poder e não assinou a proposta do Ministério de Minas, cassando a concessão ao senador

Termina aí a narrativa feita pelo governador Mauro Borges a este escriba. Mas a história segue. Quando se abriu o processo que levaria à cassação do mandato do presidente Collor, alguns anos depois, PC Faria, que era o gestor da “caixinha” de contribuições para campanha e outras finalidades, declarou que a maior “doação” a Collor fora do empresário José Ermírio de Moraes Filho.

Agora, o ex-presidente Lula pede o fim do financiamento privado, principalmente de empresas, para campanhas políticas, e sua qualificação legal como “crime inafiançável”. Que terá acontecido? A proposta prosperará?

O tempo, as histórias de Mauro Borges, mostram o quanto esse caminho está arraigado na nossa política. Não há indícios de que o Congresso venha a tomar iniciativa nessa direção. Que faremos nós, os cidadãos?



Washington Novaes é jornalista


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O fracasso dos que propuseram o fim da história

Coluna Econômica do Luis Nassif  - 04/04.  Blog: www.luisnassif.com.br



Volto ao trabalho dos economistas Daron Acemoglu-James Robinson ("Economics versus Politics: Pitfalls of Policy Advice", Fev., 2013) comentado na coluna de ontem.

O foco do trabalho é propor a análise das decisões de política econômica em dois períodos: o primeiro, aquele em que as medidas são tomadas; depois, analisando os efeitos políticos das medidas sobre o segundo período.

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Nos anos 90, apogeu do chamado neoliberalismo, decretou-se o "fim da história". Significava que nada da experiência histórica poderia ser aproveitado, pois o mundo entrava em uma nova etapa, sem nenhuma relação com o passado.

Esse estratagema possibilitou as maiores imprudências da política econômica de muitos países, incluindo o Brasil. Nenhum alerta era aceito porque baseava-se na experiência histórica; e o novo mundo nada tinha a ver com o anterior.

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Quando os formuladores do Plano Real apreciaram o câmbio, em julho de 1994, houve alertas de que em breve lançariam o país em uma crise das contas externas.

A resposta de Gustavo Franco foi de que os tempos eram outros, que o mercado financeiro internacional tinha adquirido tal dimensão que proveria para sempre qualquer necessidade de dólares dos países. Três meses depois o Brasil quebrou. Mas o discurso permaneceu.

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O mais impressionante foi a maneira como essa visão do momento único influenciou toda a imprensa financeira ocidental.

Em fins de 2002 participei de um Seminário na Espanha, com editores de finanças de vários jornais, incluindo o prestigiado El País.

Lula havia ganhado as eleições e o dólar disparara.

O representante do jornal criticou acerbamente as multinacionais espanholas que tinham vindo para a América Latina. Dizia o colega espanhol que as multinacionais tinham se apossado da poupança das velhinhas e Madri para aplicar em "republiquetas corruptas" da América Latina

Os jornalistas brasileiros presentes ao encontro reagimos imediatamente. Foi lembrado a ele que, se não tivesse adquirido a Telesp, provavelmente a Telefonica da Espanha teria sido absorvida por congêneres mais fortes, como a Deustche Telecom ou a British Telecom.

Rebati a acusação dizendo a ele que o Brasil tinha empresas mais bem organizadas que as espanholas, uma agricultura infinitamente superior, um potencial imensamente maior do que a economia espanhola. A única vantagem da Espanha se devia ao fato de suas empresas terem ido antes ao mercado internacional antes das brasileiras e adquirido as nossas.

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Era evidente para qualquer analista minimamente informado que a saída para a América Latina se constituiria na salvação das empresas espanholas, em um momento de profunda concentração de capital na Europa. Mas a visão vigente era do momento imediato, do valor da empresa naquele instante.

Qualquer tentativa de visão prospectiva era entendida como obstáculo à eficiência dos mercados, já que - segundo esta visão - era a preocupação imediata com cada dia que construiria o caminho da prosperidade futura.

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São águas passadas. O importante é que a definição das próximas etapas do desenvolvimento brasileiro levem em conta os exercícios sobre o segundo período.

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Harvard e MIT criam universidade gratuita da madrugada


O título dessa coluna, caro ouvinte, não tem um pingo de exagero.

Uma experiência que será apresentada hoje durante seminário de educação no Brasil mostra como Harvard e MIT estão revolucionando a educação no mundo. E já envolve 800 mil estudantes pelo planeta, muitos deles fazendo cursos de madrugada --isso mesmo, de madrugada. FOLHA SP 04.04


A revolução está na experimentação de ensino a distância, na qual se reinventa o jeito como se ensina e como se aprende. Na visão dos responsáveis por essa plataforma (edX), num futuro breve, não haverá mais salas de aulas como as conhecemos.

Os alunos vão trabalhar em pequenos grupos e os professores, em vez de despejar conteúdos, serão tutores.

Pode-se aprender em qualquer hora e lugar. Isso mexe no sistema de diplomas, no tempo em que o estudante fica na universidade, nas notas, na forma de aferir conhecimento, na entrada no mercado de trabalho.

O responsável por esse projeto, o professor Anant Agarwal, me informa que boa parte dos 800 mil alunos fazem o curso de madrugada. Isso porque já têm mais de 25 anos e trabalham.

Os computadores ajudaram a medir com precisam o que o aluno aprendeu ou deixou de aprender. Os alunos, em fóruns, se ajudam mutuamente.


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“É possível educar todas as crianças de escola pública em alto nível”
Diretora de rede nos EUA participa de encontro sobre boas experiências no ensino público em São Paulo e diz: a tecnologia livra os professores de tarefas para dar atenção ao aluno.  (…)  Nós começamos criando um plano de estudo personalizado para cada estudante, de modo que ele define logo que chega à escola um objetivo para sua carreira, que universidade quer fazer, que vida quer ter.
. ÚLTIMO SEGUNDO 04.04


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Uma escola com salas sem paredes como as de empresas de tecnologia e em que os professores não dão aulas consegue preparar todos os seus alunos para entrar e ficar quatro anos na faculdade. Ou melhor, um grupo de quatro escolas chamadas de Summit, na California, Estados Unidos, que cumpre a sua missão a risca: desde 2003, quando a primeira unidade foi criada, 96% de todos os seus estudantes foram selecionados para cursar pelo menos uma graduação.

Na Indonésia: Conheça a magia da escola verde

A diretora executiva da rede de instituições e cofundadodora da primeira Summit, em Redwood, está em São Paulo para participar nesta quinta-feira do Transformar 2013 , um encontro sobre experiências concretas de transformação e sucesso em escolas públicas pelo mundo. Ontem, Tavenner conversou com o iG no hotel Maksud Plaza, onde o evento será realizado das 8h30 às 18h30, e explicou como consegue atingir esse objetivo. Entre as receitas, está o desenvolvimento de um plano de aprendizado personalizado para cada estudante, que é acompanhado diariamente por um tutor em todo o período do ensino médio, e um currículo totalmente conectado com a realidade.


Divulgação
Dianne Tavenner, diretora executiva e cofundadodora das escolas Summit, nos EUA
A melhor notícia é que o modelo é mais fácil de replicar em grande escala do que o tradicional, segundo a educadora. Com a ajuda da tecnologia, os professores são liberados de várias tarefas e podem se dedicar mais aos alunos. Na Califórnia, ela já está fazendo isso na rede de escolas charter (que funcionam com verba do governo e de doações) Summit. Este ano, duas novas unidades serão abertas, e o plano é fazer o mesmo nos próximos 10 anos, até que todos os alunos do Vale do Silício recebam educação de alto nível. Atualmente, 47% terminam o ensino médio sem a base necessária para o ensino superior.

Leia abaixo a entrevista de Diane Tavenner ao iG:

iG: O que faz uma escola Summit ser especial?
Dianne Tavenner: O mais importante é que nós preparamos todos os nossos alunos para a faculdade e carreira. Isso não é algo que todas as escolas fazem nos Estados Unidos e, possivelmente, aqui também não. Nós acreditamos nisso e levamos a sério esse objetivo. Para isso acontecer, desenvolvemos uma série de ações, mas essa é a nossa missão. E nós já provamos que é é possível educar todas as crianças de escola pública em alto nível. Isso é importante, porque muitas pessoas antes pensavam que fosse impossível. E nós, junto com outros educadores nos Estados Unidos, provamos o contrário.

iG: E como vocês fazem isso?
Tavenner: Nós começamos criando um plano de estudo personalizado para cada estudante, de modo que ele define logo que chega à escola um objetivo para sua carreira, que universidade quer fazer, que vida quer ter. A partir disso, nós desenvolvemos um plano personalizado para que ele alcance o objetivo. Depois trabalhamos para que a escola forneça todo o suporte necessário para manter o estudante nesse caminho. Esse é o ponto de partida. O segundo ponto é que todos os estudantes têm um mentor, que permanece o mesmo durante todo o período escolar. Esse mentor ajuda a pensar nos objetivos e reavaliá-los quando for preciso, observa todos os dias se o plano está sendo cumprido e de que forma, conversa com a família, discute dúvidas e ajuda em crises. Em terceiro, vem o jeito que ensinamos, o nosso currículo é muito autêntico e realista. Nós trazemos tecnologia para a escola, as crianças trabalham colaborativamente em projetos nos quais têm que resolver problemas reais, não é nada chato. Dessa forma, as crianças ficam motivadas porque se dão conta de que estão aprendendo coisas que vão ser úteis para ela. Por último, durante dois meses do ano letivo, em janeiro e junho, os estudantes ficam fora da escola e trabalham na comunidade, fazem estágios, têm experiências relacionadas a seus interesses ou paixões, que podem ser fotografia ou jornalismo, por exemplo. Como avaliação desse período, eles têm que desenvolver algo que possam compartilhar ou apresentar. Então, se é algo relacionado à fotografia, fazem uma exposição. Se é teatro, apresentam uma peça. Se fazem um estágio, devem fazer uma apresentação sobre o trabalho realizado. Tudo sempre conectado com a realidade.

Tecnologia: Smartphones aumentam nota de alunos de baixa renda nos Estados Unidos

iG: Que práticas inovadoras são aplicadas nas escolas Summit?
Tavenner: Nós usamos muita tecnologia. Por exemplo, a tecnologia serve para saber exatamente o que cada aluno sabe e não sabe em todos os momentos. Cada estudante tem o seu mapa pessoal de conhecimento e objetivos. Em vez de promover aulas em que não importa quem sabe, mas que todos ouvem a mesma coisa e tem que participar das mesmas atividades, cada aluno vai aprender o que precisa aprender. Fazemos isso com uma ferramenta que chamamos de playlist – como a dos tocadores de música digital. Nessa lista está tudo o que o aluno precisa aprender e ele vai escolhendo como gostaria de fazer. Quando ele sente que já está pronto para seguir em frente, faz uma avaliação. Se ele realmente já aprendeu, ótimo, vai adiante.

“É um erro fazer com que os estudantes deixem a tecnologia do lado de fora da escola. Isso não vai prepará-lo para o mundo.
iG: Eles podem escolher o jeito, mas não o que precisam aprender, certo?
Tavenner: Eles podem realizar algumas escolhas quando desenvolvem o plano de aprendizado inicial, mas tem coisas que todos precisam saber para chegar a uma universidade. Para chegar a esses conhecimentos, eles escolhem como querem aprender e não precisam passar pelo que já sabem.

iG: A senhora acredita que tecnologia é essencial nas escolas?
Tavenner: A tecnologia proporciona que se desenvolva uma educação melhor, se for usada do jeito certo. Mas mais importante que isso é que faz parte do mundo e da vida. É um erro fazer com que os estudantes deixem a tecnologia do lado de fora da escola. Isso não vai prepará-lo para o mundo.

iG: Esse modelo de escola pode ser replicado para grandes redes de ensino, como a do ensino médio brasileiro?
Tavenner: Esse modelo é mais fácil de replicar em grande escala que o tradicional. Tenho convicção sobre isso. No modelo antigo, cada professor tem que fazer o seu próprio planejamento anual, preparar cada aula, corrigir todas as provas. Nesse modelo, construímos uma plataforma que tem tudo isso pronto, que é acessada pelos estudantes diretamente. Agora, os professores apenas ajudam e dão suporte aos alunos. Eles não precisam ter todo o trabalho de preparação, ficam mais focados no que fazem de fato.

iG: Ainda existem aulas, como as que eu tive na escola?
Tavenner: Quase nunca. As aulas são em espaços grandes e abertos, em que os alunos se dividem em grupos para desenvolver projetos. Mas não tem mais uma grade de horário que começa com matemática, passa para ciência e depois história. Não é mais assim.

iG: E como eles aprendem matemática, por exemplo?
Tavenner: De duas maneiras. Uma é online. Eles aprendem muito online, com suporte de um tutor. A outra forma é fazendo projetos, nos quais aplicam a matemática que estão aprendendo naquele momento. Por exemplo, um projeto poderia ser descobrir como se projeta um prédio em um espaço determinado, usando os conhecimentos de matemática. Claro que o professor participa desse processo, mas ele não vai ficar na frente de uma turma falando e explicando, enquanto os alunos tomam notas.

Contraponto: Pais que trabalham com tecnologia adotam escola à moda antiga nos EUA

iG: São necessários mais professores para esse modelo funcionar do que em escolas tradicionais?
Tavenner: Provavelmente o mesmo número.

iG: Como são escolhidos e treinados os professores?

Tavenner: Nós selecionamos professores que são apaixonados pelo que fazemos e que acreditam na nossa missão. Mas também investimos muito para desenvolvê-los depois. Eles recebem 40 dias de formação todos os anos. Quando os estudantes estão fora da escola, nos projetos na comunidade, os professores ficam aprendendo e crescendo. É bom para todos.

iG: Vocês têm dificuldades para encontrar bons professores, preparados para aplicar um modelo inovador de educação?
Tavenner: Temos vários candidatos sempre. Eu não acredito em escassez de bons professores. Algumas pessoas nos EUA acreditam nisso, mas eu não concordo. Todo o professor que eu conheço quer fazer o bem para seus alunos. Mas quando o professor entra em uma escola ou sistema de ensino que não funciona e que faz com não seja bem sucedido, mesmo trabalhando muito, começa a ficar desmotivado. Se ele tiver a oportunidade de trabalhar em uma escola que o valorize como profissional e na qual consiga fazer um bom trabalho, sempre gosta.

“A maioria dos que defendem que curso superior não é necessário são pessoas que foram para a universidade e tiveram sucesso.
iG: Os salários das escolas Summit são mais altos que a média?
Tavenner: São salários competitivos.

iG: E que equipamentos os alunos têm disponíveis?
Tavenner: Nós damos um laptop para cada estudante e conexão de internet. Naturalmente, todos eles levam seus celulares para a escola. E os professores também têm laptop.

Videoaulas: Criador da Khan Academy vê Brasil como parceiro na revolução da educação

iG: E as salas de aula, como são?
Tavenner: Grandes, com poucas paredes, têm apenas algumas divisórias. Se parecem com as salas de trabalho de empresas de tecnologia.

iG: O custo de uma escola Summit é superior ao de uma escola pública tradicional americana?
Tavenner: É o mesmo. Às vezes é um pouco menos. As escolas charter (geridas pelo setor público e privado, como as Summit ) recebem um pouco menos de dinheiro do governo que as regulares. Ou seja, a manutenção não é mais cara que a das tradicionais. Usamos o dinheiro de forma diferente, mas não é mais.

iG: Por que as doações são necessárias?
Tavenner: Nós precisamos das doações para começar. Não temos dinheiro para construir o prédio, instalar a tecnologia. Não temos nada. As escolas charter só começam a receber dinheiro do governo quando os alunos começam a aprender. Precisamos do capital inicial.

iG: A missão das escolas Summit é preparar os alunos para a universidade. Existem movimentos nos EUA que defendem que fazer um curso superior não é o único jeito de obter sucesso . O que você pensa sobre esse posicionamento?
Tavenner: Existe, mesmo, um pequeno debate sobre essa questão. Mas a maioria das pessoas que defendem isso são pessoas que foram para a universidade e tiveram sucesso. Você não ouve pessoas pobres dizendo isso, você não ouve mães de jovens que querem ir para a universidade dizendo isso. Então eu não acho que essa seja uma boa discussão. De qualquer forma, nenhum estudante vai ser prejudicado por ser preparado para a universidade. Se depois ele escolher não ir, já terá aprendido muitos valores e conhecimentos que o preparam para uma carreira. Eu acho que o nosso trabalho no sistema público de ensino deve ser o de preparar o aluno para a universidade para que ele tenha condição de escolher. Se ele preferir não ir para a faculdade, tudo bem.

O evento Transformar 2013, promovido pelo Instituto Inspirare/Porvir e a Fundação Lemann, será transmitido ao vivo pela internet . Veja a programação aqui .


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A baixa atratividade da carreira do magistério

» MOZART NEVES RAMOS
Professor da UFPE, membro do Conselho Nacional de Educação e do Conselho de Governança do Todos Pela Educação.
. CORREIO BSB 04.04 

           

Um dos fatores que mais contribuem para o baixo desempenho escolar e a estagnação observados no ensino médio é a escassez de professores, particularmente nas disciplinas de química, física, biologia e matemática. Com o crescimento das matrículas na educação profissional, problema similar começa a se desenhar com a mesma intensidade nessa modalidade de ensino. Ambas as modalidades são estratégicas para o Brasil e têm tudo a ver com a nossa juventude.

Nos últimos cinco anos, a expansão da educação profissional saltou de 928 mil matrículas para 1,36 milhão em 2012. O investimento também apresentou aumento importante nesse mesmo período, saindo de R$ 2 bilhões para R$ 7,6 bilhões. De acordo com dados levantados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Brasil demandará, até 2015, cerca de 7 milhões de técnicos. Mas, para que esse esforço nacional seja bem-sucedido, além de dinheiro, será preciso que haja mais gente qualificada para ensinar, para formar técnicos.

Recente auditoria feita pelo Tribunal de Contas da União (TCU) revelou um deficit de 8 mil professores em institutos federais de educação técnica, o que equivale a 20% dos profissionais necessários. Esse deficit atinge toda a rede de 442 câmpus em funcionamento no país. As consequências desse déficit docente são a evasão, os baixos índices de conclusão e o elevado índice de insatisfação por parte dos concluintes, algo em torno de 60%, segundo o TCU.

No ensino médio, o deficit de professores é muito maior, algo em torno de 250 mil professores; nas disciplinas acima mencionadas, esse deficit é de 150 mil. A pergunta central que todos fazem é: como reverter esse quadro? Como tornar atrativa a carreira docente? Enquanto o desafio da atratividade não for resolvido, será difícil sair da estagnação do ensino médio e avançar com qualidade para o ensino técnico, apesar dos crescentes investimentos do governo no setor.

A saída passa, a meu ver, por um pacto nacional para melhorar a atratividade da carreira — que envolve, na essência, quem emprega e quem forma —, intermediado pelo Ministério da Educação (MEC). Ou seja, é preciso envolver os governos e as universidades. Eventualmente, as empresas, no caso da educação profissional.

Iniciativa que o MEC vem gestando nessa direção é o programa Quero Ser Professor, com foco no ensino médio, que envolve um conjunto de projetos interligados que traduzem esforço conjunto em prol da atratividade da carreira do magistério. Na essência, o programa engloba três pilares: certificação pós-graduanda para os professores da rede de ensino e impacto no plano de carreira, clusters para o desenvolvimento do ensino integrando professores e alunos das universidades e das redes de ensino, e o projeto Nenhum Aluno para Trás, destinado aos alunos das licenciaturas. Outra boa iniciativa do MEC foi a implantação do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), para alunos dos cursos de licenciatura. Hoje já são quase 50 mil bolsas implantadas.

No campo da educação profissional, iniciativas importantes de ampliar a escolaridade e a qualificação do trabalhador começam a surgir no país. Nessa direção destacam-se o movimento A Indústria pela Educação, encabeçado pela Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), e o movimento A Educação para o Mundo do Trabalho, iniciado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), ainda em fase de incubação. Acredito que ambos devam incorporar o desafio da atratividade da carreira do magistério à agenda, para que as demandas atuais e futuras sejam atendidas com qualidade.

Os recursos existem e devem ir além da infraestrutura predial. Devem ser empregados para atrair jovens para o magistério, de forma que a carreira se torne objeto de desejo, como ocorre nos países que estão no topo da educação mundial. É o caso de Coreia do Sul, Finlândia, Canadá e Cingapura.

O Brasil começa a se destacar no cenário mundial, com muitos atrativos e oportunidades de negócios. É o país do 7º PIB mundial e precisa, mais do que nunca, para acelerar o crescimento, de bons professores, em quantidade suficiente para atender as demandas de formação, tanto do mundo do trabalho quanto do ensino superior. O que está em jogo, portanto, é o futuro da nossa juventude, que precisa ser preparada para os desafios globais — e isso exige uma boa educação.

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Brasil, mostra tua cara!

» ELA WIECKO V. DE CASTILHO
Doutora em direito pela UFSC, é subprocuradora-geral da República e ouvidora-geral do Ministério Público Federal
CORREIO BSB 04.04


» ROBERTO LIVIANU
Doutor em direito pela USP, é promotor de justiça em São Paulo, vice-presidente do Movimento do Ministério Público Democrático e coordenador da campanha nacional Não Aceito Corrupção
Publicação: 04/04/2013 04:00
O Brasil vive momento singular, ocupando cada vez mais lugar de destaque na cena internacional. Prepara-se para sediar nos próximos três anos os dois mais importantes espetáculos esportivos planetários — a Copa do Mundo de Futebol e as Olimpíadas.

Nossa opinião é cada vez mais ouvida e considerada, crescendo a cada dia o grau de respeito internacional pelo país, apesar dos graves nós sociais ainda por desatar. Entre eles, educação, saúde, controle da corrupção e violência.

Ao lado disso, nossa Constituição em breve completará um quarto de século de vida e sua essência garantidora da cidadania civil, social e política sobressaiu como principal virtude, que a fez ser chamada de Constituição Cidadã. Para tornar concreta nossa cidadania, a Carta Magna incumbiu o Ministério Público, que se faz presente no Brasil há mais de 400 anos, atuando inicialmente perante o Tribunal da Relação da Bahia colonial.

A Carta constitucionalizou os papéis de promoção da ação penal pública e da defesa da ordem jurídica e regime democrático, protegendo interesses difusos, coletivos e individuais indisponíveis. Assim, foi natural a adesão do país, 11 anos depois, ao Estatuto de Roma (que criou o Tribunal Penal Internacional) em 7/2/2000, sendo a regra depois incorporada à nossa Constituição. Hoje são 121 os países signatários.

O Tribunal Penal Internacional foi criado para processar e julgar crimes contra a humanidade, especialmente porque muitos países não tinham e não têm instituições sólidas o suficiente e aptas para essa complexa prestação de serviços. Uma das mais importantes conquistas para a humanidade no Estatuto de Roma foi dotar ali o Ministério Público dos poderes necessários para fazer valer o sentido do estatuto, especialmente o poder de investigação criminal, previsto expressamente no artigo 15.

Bem por isso que expertos internacionais, da Europa e América Latina, reunidos em Brasília nos dias 11 e 12 de março no seminário internacional sobre o papel do MP na investigação criminal, externaram a perplexidade em relação à Proposta de Emenda Constitucional 37, que pretende impedir o Ministério Público de investigar criminalmente. Junta-se o Brasil, assim, a Uganda, Quênia e Indonésia. Ex-mandatários dos dois primeiros países são réus no referido tribunal.

A perplexidade é mais que justificada porque essa PEC fere frontalmente a própria Constituição brasileira, à qual foi incorporado o Estatuto de Roma. E porque é impossível entender como o Brasil assume uma posição mundial de atribuir poder de investigação ao MP e dentro do país pensa em retirar este poder.

Além disso, desprezar o estabelecido num tratado internacional significaria o Brasil se fechar numa concha, implodindo as relações com o mundo e destruindo o trabalho consolidado de cooperação com os demais Estados, que garante, por exemplo, repatriação de dinheiro desviado e remetido para outros países, produto de corrupção.

O MP tem responsabilidade social e examina provas com ética e lisura, não tendo compromisso com número de condenações, mas com a proteção da sociedade e o respeito ao devido processo legal. Por isso, não há por que impedir o MP de investigar, o que o dicionário Houaiss define objetivamente como procurar metódica e conscientemente descobrir algo, através de exame e observação minuciosos.

Tudo indica que a PEC se origina do fato de que muitas iniciativas do Ministério Público incomodam os detentores do poder e, muitas vezes, eles são os próprios réus que temos o dever de responsabilizar por atos desrespeitosos à sociedade. Não somos os donos da verdade. Existe o direito à ampla defesa e cabe sempre ao Poder Judiciário o julgamento final.

Não é natural, nem compreensível, nem aceitável que representantes do Poder Legislativo, na contramão da marcha histórica da civilização rumo à dispersão do poder preconizada por John Locke já no século 17, queiram amputar os promotores de justiça e procuradores. Esvaziando o papel do MP, monopoliza-se nas mãos da polícia a investigação criminal.

Cabe ao Legislativo, desde Montesquieu, elaborar leis que regulam a vida em sociedade, cuja razão de ser seja o interesse de todos, não a impunidade decorrente do monopólio do poder. Num mundo globalizado, em que as decisões políticas nos planos jurídico, monetário, econômico e fiscal afetam as relações com as demais nações do mundo, o parlamento deve estar atento para não ceder a interesses menores e inconfessáveis — e não nos colocar na contramão da história.




quarta-feira, 3 de abril de 2013



Entrevista Ruben George Oliven
“Ninguém nasce globalizado”  O POPULAR/GO 03.04.13-

“A nação é algo muito grande e as peculiaridades de nossa região são algo muito mais palpável e é nela que a gente cria a identidade de primeira ordem. Por isso digo que o nacional em um país do tamanho do Brasil passa primeiro pelo regional.” A afirmação é do professor Ruben George Oliven, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), que ministra amanhã, às 9 horas, no Auditório Lauro Vasconcelos, da Faculdade de História da UFG, no Câmpus 2, a palestra Identidade e Região. O evento é uma promoção conjunta do POPULAR e da Faculdade de História da UFG como parte das comemorações dos 75 anos do jornal, a serem completados amanhã, e abertura do ano letivo.Ao final da conferência, a editora-chefe do POPULAR, Cileide Alves, vai mostrar a pesquisa qualitativa Por Que a Gente é Assim, que será publicada em caderno especial também nesta quarta-feira. O levantamento, feito pelo Observatório Pesquisa de Comportamento, teve como objetivo investigar como o goiano se percebe. Professor titular de Antropologia da UFRS, Ruben George Oliven é doutor pela Universidade de Londres e lecionou em várias universidades estrangeiras, entre elas a própria Universidade de Londres, além das universidades de Paris, de Leiden (Holanda) e da Califórnia. Ex-presidente da Associação Brasileira de Antropologia e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, Oliven também foi membro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e atualmente é membro titular da Academia Brasileira de Ciências.Com a propriedade de quem estuda identidades regionais há décadas, em conversa por telefone com a reportagem do POPULAR, de Porto Alegre, o professor antecipou alguns dos temas que deve abordar amanhã em sua conferência. Ele traçou um panorama do desenvolvimento e da solidificação do conceito de nação no Brasil e de como as identidades regionais foram – e continuam sendo – fundamentais nesse processo. Além disso, como observador externo, o professor ainda deu suas impressões sobre a identidade goiana. A seguir, os principais trechos da conversa.
Rodrigo Alves
02 de abril de 2013 (terça-feira)
Divulgação

“A identidade tem basicamente a ver com o que nos torna singulares, diferentes de outros grupos. Pode ser desde um pequeno grupo de amigos, uma cidade, uma região, um país. O que temos de especial que nos torna diferentes?”
Sua conferência precede a revelação de dados da pesquisa encomendada pelo POPULAR, Por Que a Gente é Assim, que visa apontar aspectos da identidade goiana. Como se desenvolve a autoimagem de uma comunidade?
Identidade é um termo que a rigor não surge inicialmente nas ciências sociais, mas na psicologia, como algo individual. Como é que eu, indivíduo, me vejo e sou visto e como que isso evolui ao longo do tempo? Mais adiante, isso foi adotado também pelas ciências sociais e hoje é questão central para a antropologia, a sociologia, entre outras ciências. A identidade tem basicamente a ver com o que nos torna singulares, diferentes de outros grupos. Pode ser desde um pequeno grupo de amigos, uma cidade, uma região, um país. O que temos de especial que nos torna diferentes?

A maneira como nos “enxergamos” como comunidade, regional ou nacional, vem mais de uma visão interna ou externa do grupo?
Funciona nos dois sentidos: um em como meu grupo se vê e outro em como outros grupos veem o meu. É um processo de se ver e de ser visto. Ele funciona basicamente baseado em diferenças, contrastes e oposições, algo que torna meu grupo único e diferente. Isso não significa que meu grupo não possa compartilhar coisas de outros. Não é que os goianos não se considerem brasileiros, por exemplo, como nos demais Estados. É que se consideram brasileiros sui generis, isto é, brasileiros goianos. Isso os torna diferentes dos brasileiros gaúchos, que por sua vez se consideram brasileiros diferentes dos acreanos. Uma das maneiras que os grupos têm de se organizar é se classificar. Há limites sobre a forma de comportamentos e espera-se que eu me comporte de determinada maneira e mantenha certa lealdade. Os outros também acabam nos diferenciando pelas maneiras distintas de comportamento. Isso pode ser tanto negativo, como “eles comem nocivamente carne de porco e nós não”, como positivamente, com admiração. O Brasil, por exemplo, por muito tempo admirava a França porque ela seria mais civilizada. Há uma comparação de diferenças, que tanto podem ser reais como construídas. Aliás, é preciso ser cauteloso ao falar de realidade, porque todas as diferenças na verdade são construídas socialmente.

O senhor defende que, mesmo em um momento de integração política, econômica e cultural no País, como hoje, por conta de nossas diferenças regionais, o nacional passa primeiro pelo regional. Por quê?
Você pode pertencer a um grupo no qual é possível identificar integralmente todos os membros. Um grupo da sua rua, por exemplo, que tem dez membros. A gente sabe quem é o João, o José, o Paulo, o Miguel, etc. Se eu for pensar no meu bairro, dependendo do tamanho, posso conhecer a maioria pelo nome. Na cidade, também posso conhecer muita gente. Mas, quando estou pensando em um país, uma nação, nunca vou conseguir enxergar todos os componentes. É impossível conhecer os 200 milhões de brasileiros. Então essa, no meu âmbito individual, é uma comunidade de segunda ordem. As comunidades de primeira ordem são as de pessoas conhecidas. A nação é o que o autor Benedict Anderson chama de comunidade imaginada: pertenço ao Brasil, mas tenho de imaginar essa comunidade. Posso nunca ter pisado no Acre, mas é importante que eu saiba que faz parte do Brasil, mesmo tendo sido no passado da Bolívia.

Esse é um processo natural, como na nossa comunidade de primeira ordem?
Não. Vamos dar um exemplo: a Itália foi unificada em 1870 - um dos últimos países da Europa a passar pelo processo. Não havia Itália, havia diferentes comunidades espacialmente distribuídas, do norte à Sicília. Em um determinado momento, por questões políticas, essas regiões foram unificadas e as pessoas passaram a ter o dever de aprender, inclusive na escola, a serem italianos. E isso não era tão fácil assim. Há uma frase muito emblemática que se disse no processo italiano: “Acabamos de criar a Itália, agora temos de criar os italianos.” A maioria dos países passou por esse processo.

Quais foram, então, os momentos históricos emblemáticos em relação à formação da identidade nacional no Brasil?
Durante o Império, todo o Brasil era muito pouco integrado ao Rio de Janeiro, onde estava a corte. Não havia transporte eficiente, como o trem, não havia nem o telégrafo para a comunicação. Então, tudo que acontecia no Rio demorava muito para se alastrar para o resto do território. As pessoas não se comunicavam, as províncias, que ainda não eram Estados, pouco sabiam o que se passava no resto do País. Sabiam somente que deviam obediência à corte pelo pagamento de impostos. Houve várias tentativas regionais separatistas, como foi o caso da Revolução Farroupilha (1835-1845). No início da República (transição entre os séculos 19 e 20), essa integração física melhorou, mas mesmo assim ainda era muito incipiente. Muitos partidos políticos tinham uma clara atuação regional. Aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, existia o Partido Republicano Rio-Grandense. A partir da Revolução de 1930, há um processo de intensificação do sentimento nacionalista. Quando Getúlio (Vargas) chegou ao poder, ele se deu conta que tinha de fazer várias coisas para manter a coesão do País, entre elas criar o sentimento de nacionalidade brasileira. Havia um medo de que o Brasil se desfacelasse como outros países latino-americanos. Getúlio toma atitudes como proibir hinos e bandeiras estaduais, torna obrigatório ensinar e falar português nas escolas e em atividades comunitárias e religiosas. Foi nesta ocasião, por exemplo, que muitas das colônias de estrangeiros que vieram ao Brasil, como alemães, italianos, foram obrigadas também a usar o português em suas cerimônias comunitárias. Esse foi o primeiro momento.

O senhor defende que isto está ocorrendo de novo agora, não?
Sim. Isso está voltando a acontecer com o novo contexto econômico do País. Mas é muito dinâmico. Nos Estados Unidos, por exemplo, os estrangeiros que chegavam eram levados a adotar práticas americanas, como comer peru no Dia de Ação de Graças. Hoje já há mais uma valorização no sentido de dizer “sou americano, mas faço questão de manter minhas características regionais: sou ítalo-americano, sou hispano-americano”. A nação é algo muito grande e as peculiaridades da nossa região são algo muito mais palpável e é nela que a gente cria a identidade de primeira ordem. Por isso que digo que o nacional em um país do tamanho do Brasil passa primeiro pelo regional.

Em um de seus estudos, o senhor aponta que as elites no Brasil, em vários momentos, desvalorizam nossa cultura em detrimento de uma cultura externa dominante. Em outros, passamos, como no movimento da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, a valorizar mais nossos símbolos nacionais. Em que pé estamos neste momento?
O Brasil sempre teve uma oscilação em relação a isso. Em muitos momentos, houve a ideia de que aqui era um horror, um buraco nos trópicos, longe de Portugal, e que bom mesmo era a Europa. Quando muito, valeria por algumas das expressões culturais da elite. Dentro dessa visão, as coisas do povo não valeriam nada. Outra leitura, depois, veio para dizer o contrário: elite é um grupo só e ela está sempre pensando fora do País. Autores românticos, por exemplo, queriam escrever somente como os similares europeus escreviam. Por essa nova leitura, o que valeria mesmo era a cultura popular. Antes de 1930, pensadores como Nina Rodrigues e Euclides da Cunha achavam que seria muito difícil haver uma civilização no Brasil, porque a gente era muito “misturado racialmente”. De acordo com o pensamento da época, existiriam “raças superiores e inferiores” e a mistura de raças era inútil. A única solução vista era embranquecer o Brasil, trazendo mais europeus, de preferência da Europa do Norte.
Como isso muda depois de 1930?
Surge a ideia de que, quando se constrói uma nação, é preciso firmar um novo povo. Povo, neste conceito, é formado sempre por pessoas mais simples e composto de tradições. Gilberto Freyre, quando discute a questão de raça, diz basicamente que tudo que estava sendo dito estava errado, porque não haveria problema na mistura racial, que até seria ótima para a criação de um tipo brasileiro. Esse tipo estaria criando uma cultura nova, criativa e adaptada aos trópicos. Freyre tem um texto muito interessante sobre região que faz apologia do folclore, das coisas simples e que defende que o que vale mesmo é a cultura popular, algo que o Brasil teria de mais adiantado. Essa oscilação (de valorização da cultura brasileira) existe o tempo inteiro também no meio acadêmico e ainda em termos de senso comum. Atualmente o Brasil está vivendo uma fase de certa euforia, com a estabilidade do Real e certa distribuição de renda. Não passamos pela mesma crise econômica pela qual a Europa e os Estados Unidos passaram, vamos hospedar Copa e Jogos Olímpicos. Subitamente as pessoas começam a ficar mais confiantes no Brasil e mais orgulhosos. À medida que o Brasil está se transformando em uma potência local, a visão positiva passa a ser mais forte.

Quer dizer: o desempenho econômico trabalha para quebrar ideias como a brincadeira de Nelson Rodrigues sobre nosso “complexo de vira-lata” no século passado.
Muito bem lembrado. Nelson Rodrigues, quando criou essa expressão genial, estava falando de um Brasil da década de 1950. Tínhamos acabado de perder a Copa do Mundo (1950, no Brasil) e não tínhamos mais nada. O Brasil era somente um país exportador de café. Se a gente tivesse ganhado a Copa, pelo menos provaríamos que éramos bom em algo. Isso mudou porque o Brasil é a sexta economia mundial, o que não é pouca coisa, e está se transformando em um ator internacional. Pode, por exemplo, ainda não ter conseguido entrar no Conselho de Segurança (da ONU), mas atuou no Haiti (após o terremoto que devastou o país) e em outros lugares. Para pegar a metáfora do Nelson Rodrigues, ele ainda não é um poodle de raça, mas não é mais um cachorrinho que vira latas na rua. Isso ajuda muito a melhorar a autoimagem.

terça-feira, 2 de abril de 2013


Marco Feliciano – o PSC sob a ótica de Nietzsche
WALDEMAR REGO
Nietzsche em seu discurso filosófico disse que há uma desgraça mil vezes pior do que o cristianismo, o judaísmo. Por que disse isso o pensador alemão? Porque o veneno judaico estendido até cristianismo mata o homem através da transmutação dos valores naturais da humanidade, para uma moral divina, uma possibilidade irracional. O POPULAR/GO 01/04

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 O judeu, assim como o cristão, dá a Deus, a razão de tudo, abdicando de seu ser natural. Daí surge a execrável figura do sacerdote. Dono das consciências, ele se apropria da “vontade de Deus” e dita o que é bom e o que é certo para o homem, criando então uma sociedade dentro da sociedade, o chamado “povo eleito”. Assim como o judeu antigo, o cristão moderno se arrosta “o povo eleito, o povo sagrado”. Essa á a desgraça humana imortalizada segundo Nietzsche.

 - Que significa “ordem moral universal”?  Que existe, sem qualquer dúvida, uma vontade de Deus, que decide tudo o que o homem deve ou não fazer; que o valor de um povo ou de um indivíduo se gradua segundo a sua maior ou menor obediência à vontade de Deus; que nos destinos de um povo ou de um indivíduo mostra-se dominante a vontade divina que castiga ou recompensa segundo o grau de obediência. (O anticristo. Cap XXVI)

Ainda que o estado seja laico, no esterco da lei medra um partido que, por excelência ideológica, é inconstitucional. A legenda de Marco Feliciano é apenas mais uma idiossincrasia na política brasileira. Se não posso misturar religião com Estado, o que explica a égide chamada Partido Social Cristão - PSC? 

Esse partido, ou corrente de pensamento, na verdade não passa de uma metáfora talibã civilizada, onde a consciência de todos, é determinada por valores individuais de um “Maomé ocidental” - um Cristo palatável para uma cultura mais amena, mais pura, mais civilizada. É a mistura da religião com a política por um grupo que tem por núcleo, qualquer seita espiritualizada – a bancada evangélica. O que deveria ser espiritual tomou o viés oportunista. Eles dividem o mundo em certo e errado, bem e mal, Cristo e o diabo. Nas suas madrastas ideológicas, esses sacerdotes políticos, criam, assim como no Afeganistão, a patrulha do direito espiritual como se a sociedade fosse pautada pela coerção ideológica e não pelo senso comum de seus integrantes.

O racismo, a eugenia natural gerada pelo instinto da escolha presente em toda a alimária da natureza - inclusive no homem, entra em choque com essa ideia de civilização humana. Não admitimos nossa parcela animal, escondemos que somos movidos pelo instinto em nossas escolhas mais ínfimas; negamos nossa porção animal escudada na moral das aparências, na religião; temos vergonha de dizer que o pensamento desgraçadamente é uma ferramenta do instinto. 

Ora, a Sociologia nos diz que a sociedade exerce uma coerção de valores sobre o indivíduo, desde seu nascimento até sua morte. Esse é o princípio da organização humana enquanto sociedade. O que não pode é essa sociedade tolher o indivíduo em sua individualidade. Aí entra o direito subjetivo de cada um em ser o que é.
O discurso homofóbico, a intolerância, o racismo, a ideia de pertencimento a uma casta social de eleitos pela fé; o melhor que eu; a supressão ao direito de ser, baseada na teologia comportamental do melhor contra o pior; a negação do ser social numa tentativa de transmutá-la para o mundo ilusório, cuja moral absoluta seja impossível porque o homem é refém de seus instintos, é a causa da desgraça humana.

O valor dessa moeda política brasileira que traz em seu verso, a estampa de um mesmo canalha, nos mostra que o ópio, o pão, o circo são os alimentos que nutrem a sociedade pela ignorância de sua própria escolha.

O apelo convulsivo dessa questão reside num fato estamental da sociedade brasileira – a Comissão de Direitos Humanos foi ocupada pelo resumo teológico de uma casta de perfeitos e intolerantes. 

(Waldemar Rego, escritor e artista plástico em Ap. de Goiânia. waldemarregojr@gmail.com)




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Justiça ao alcance de todos
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Justiça ao alcance de todos é uma das prioridades do Poder Judiciário. De outro lado, o Judiciário precisa democratizar-se urgentemente em suas práticas internas, além de procurar maior legitimidade na alma do povo brasileiro. É preciso perceber que o contato do juiz com o jurisdicionado e a própria sociedade não enfraquece o Poder Judiciário. Ao contrário, tende a enobrecê-lo, conferindo a este maior grau de legitimidade. Essa postura deve ser assumida pelo juiz contemporâneo. CORREIO BSB 02/04
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Cabe ao juiz exercer a atividade recriadora do direito através do processo hermenêutico, bem como a de adaptador das regras jurídicas às novas e constantes condições da realidade social e, com responsabilidade, deve buscar as soluções justas aos conflitos, visando à paz social. Dessa forma, com esse compromisso, o Judiciário estará sempre próximo do cidadão e a serviço da cidadania. Esse é o papel que foi historicamente reservado ao Poder Judiciário.

Com efeito, o acesso e a conscientização da população de seus direitos e obrigações será um fator crucial para o maior desenvolvimento e aperfeiçoamento da sociedade brasileira e do Poder Judiciário. Educação e cidadania são instrumentos fundamentais de transformações sociais positivas. As universidades brasileiras em sua maioria preparam os estudantes de direito para ser advogados combativos. Isso não é errado, mas é preciso, também, prepará-los para uma cultura de Direitos Humanos volvida para a verdadeira pacificação social, mediante instrumentos alternativos de resolução de conflitos — como a conciliação, a mediação, a arbitragem e, ainda, as práticas restaurativas.

O Poder Judiciário brasileiro depara-se, nos últimos tempos, com o desafio da concretização dos direitos de cidadania. É importante não esmorecer ante a adversidade do volume de serviço crescente, mas se recusar a entregar uma jurisdição de papel, alienada, sem a necessária e profunda reflexão sobre os valores em litígio. É preciso que os juízes tenham o propósito de realizar uma jurisdição que proporcione pacificação social. Portanto, mutirões, digitalização de processos, formas alternativas de resolução de conflitos, parcerias comunitárias, práticas restaurativas, etc, são instrumentos muito bem-vindos.

O Poder Judiciário vem procurando oferecer à comunidade uma Justiça não só com vistas à resolução eficaz das questões jurídicas, mas, também, à prestação jurisdicional que ofereça solução para a problemática global do jurisdicionado. A atuação criativa dos juízes pode ser constatada mediante a efetiva prestação jurisdicional nos Juizados Especiais, ao darem solução adequada a cada caso, muitas vezes pela via multidisciplinar, revelando compromisso inequívoco com o direito e a justiça.

São desafios da ordem do dia do Poder Judiciário a necessidade de aumento de recursos humanos, quanto à premência de maior número de juízes, servidores, estagiários, conciliadores e materiais relacionados a espaço físico, meios de autuação informatizada, etc. Nesse contexto, foi fator importante a criação de ouvidorias nos tribunais como um canal de diálogo para que o cidadão possa dar sua sugestão e aprimorar essa instituição. Outro aspecto relevante foi o Poder Judiciário passar na última década a se preocupar, sensivelmente, em todas as instâncias, em promover uma gestão administrativa democrática, com maior efetividade nas ações, projetos e realizações, sob um planejamento e controle de metas que são aferidos pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

De outra face, inúmeras críticas têm sido feitas recentemente à atuação do Poder Judiciário no Brasil. Contudo, carece esse Poder de melhores instrumentos de trabalho. A legislação nacional, além da técnica deficiente, é hoje de produção igualmente caótica, bem como deficientes são os instrumentos disponíveis ao Judiciário, porque já não se aceita a verdadeira liturgia do processo, o amor desmedido pelos ritos, que quase passaram a ter fim em si mesmos, numa inversão de valores.

O Judiciário, nos tempos atuais não pode se propor a exercer função apenas jurídica, técnica, secundária, mas deve exercer papel ativo, inovador da ordem jurídica e social, visto que é chamado a contribuir para a efetivação dos direitos sociais, procurando dar-lhes sua real densidade e concretude. Estes são os maiores desafios do Poder Judiciário Contemporâneo.
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Oriana Piske
Juíza de Direito do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, mestre em direito pela Universidade Federal de Pernambuco, pós-graduada em Teria da Constituição, Direito do Trabalho e Direito Civis (Cesap-UniCEUB), douturanda em Ciência Jurídicas e Sociais pela Universidad Del M useo Social Argentino

Cláudio Faria
Diretor da Secretaria do 1º Juizado Especial Civil e Criminal de Brasília (Guará %u2014 DF)
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Alfabetização de adultos: Mulher coragem
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Para quem quer alcançar os sonhos não existem limites, nem mesmo o tempo. Com 78 anos de idade, viúva há 26 anos, e sete filhos criados, Orozina Marques é testemunha disso. Ela é a mais velha da turma na escola pública do Núcleo Rural Boa Esperança, área incluída nos limites do Parque Nacional de Brasília, que abriga alunos de todas as idades e diferentes histórias de vida, para serem alfabetizados. JORNAL DE BRASÍLIA 29.03


 Orozina sempre mostrou interesse em aprender, mas com as dificuldades da vida na fazenda, só pode abraçar a oportunidade de estar em sala de aula na terceira idade. “Quero ser uma pessoa bem informada e nunca é tarde”, confessa a senhora de baixo porte, mas com esperança e coragem de sobra. “As pessoas têm que ter coragem para aprender a qualquer hora, e aprender cada vez mais”, disse.

Obstáculos que apareceram desde cedo não impediram a sertaneja de realizar o sonho de ser alguém. Moradora em uma fazenda distante quando menina, Ozorina fez o que pode para receber os estudos tão desejados, mas não conseguiu concluí-los. “Quando novinha, eu andava mais de seis quilômetros para chegar ao colégio. Quando eu tinha 11 anos, meu pai faleceu e tive que parar os estudos. Depois de tanto suplicar para a minha mãe, ela deixou eu ir aprender com a minha madrinha. Tinha que ir a cavalo até a casa dela. Mas isso durou só uns seis meses”, recordou.

Histórias do fusca branco
Sem a alfabetização completa, Orozina trabalhou 30 anos vendendo produtos de produção própria em feiras na Região Metropolitana do DF. As verduras e as frutas viajavam ao lado dela no mesmo fusca branco que ela usa até hoje. “Na verdade, eu troquei quatro vezes por versões mais novas, mas sempre usei o fusca branco. Sou conhecida até hoje pelo carro. Venho todos os dias à aula dirigindo o meu carro, e ainda dou carona a alguns colegas da turma”, contou.

Casada com Idelson José de Alcântara, também trabalhador do campo, Orozina virou dona de casa e incentivava os sete filhos a estudar, apesar da falta de estímulo do companheiro. “Meu marido não fazia questão, achava que se a gente não estudou filho nosso não precisava. Mas coloquei filhos meus até em internato de freira e seminário para estudarem”, recordou.

Falar com o filho pela WEB
Os sete filhos, 14 netos e dois bisnetos são para Orozina prova de que a terceira idade é a melhor, pois agora ela está colhendo os frutos de toda sua luta. “Eu acordava quatro horas da manhã para fazer café para a criançada, e levá-los ao ponto de ônibus para que fossem ao colégio, que ficava a uma hora distância. Tudo isso para que eles ficassem encaminhados como estão hoje, graças a Deus”, agradece Orozina, que abre um sorriso ao dizer com orgulho que têm filhos professores, na área de saúde e advogado.

Ao lembrar do filho mais velho, o único que não mora no DF, Orozina confessa o motivo para mudar de vida: “Tenho dificuldade para escrever, ainda mais na minha idade. Eu tremo muito. Mas no computador, não vou ter esse problema, vou poder falar de graça com o meu filho que mora em Rondônia”.

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A escola tem que educar a todos'

Coordenadora do Fórum Nacional de Educação Inclusiva diz que pais devem denunciar exclusão. O GLOBO 01/04

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Pais de autistas relatam dificuldade para garantir a matrícula na escola regular. E citam casos em que o aluno é aceito, mas a inclusão não ocorre de fato.

Isso é verdade. E é muito importante que a sociedade atente para isso, pois ninguém tem o direito de negar matrícula para quem quer que seja, tanto na escola privada quanto na pública. Há casos, inclusive, em que a diretora olha para a mãe e já diz que a criança não vai aprender. Isso é algo completamente discriminatório. E causa um sofrimento imenso. É preciso dizer aos gestores escolares que é crime negar matrícula. O aluno autista estar na sala de aula não é concessão, é direito.

O que os pais devem fazer diante disso?

Temos uma Constituição que zela pela igualdade de direitos. Há um zelo pela escolarização de todas as crianças no ensino comum e na oferta do atendimento educacional especializado suplementar, que foi regulamentado, mas não substitui a escola regular. É preciso que os pais conheçam esses direitos e cobrem. Temos instrumentos poderosos, como a Lei Berenice Piana, a 12.764, que ratifica todos os termos da Convenção sobre os Direitos da Pessoas com Deficiência, aprovada pela ONU, em 2006. A criança não pode deixar de ser autista para ser incluída na escola. É a escola que tem que se transformar para educar a todos, pois essa criança faz parte da diversidade humana.

Pela lei, a escola é obrigada a oferecer recursos humanos capacitados. Quem deve pagar pelo profissional de apoio?

A escola é obrigada a oferecer toda a infraestrutura necessária para promover a inclusão do aluno, recursos humanos, inclusive. E quem deve pagar por isso é a escola. As escolas precisam ter professores auxiliares.

E quando a escola diz que não está preparada?

A lei não pode ficar no papel. Quando ela diz isso, pode ser o começo da negativa de matrícula. Sem educação, não se tem acesso aos direitos sociais. Então, o que cabe à família, ao Estado e à sociedade é fazer valer esse direito. Os pais devem exigir a ação dos ministérios públicos, dos advogados. Eu recomendo a todos que, antes do caminho jurídico, tentem uma negociação, esgotem todas as possibilidades de diálogo. E deixem claro que conhecem o direito de seus filho. Eles não devem abrir mão desse direito.

Há avanços na educação inclusiva no Brasil?

Não é ainda o que nós queremos e nem o que manda o direito à educação. Mas houve avanços. Há escolas no Brasil que fazem a inclusão, de fato.