quinta-feira, 7 de março de 2013
A crise das elites em tempos de
mudança
Coluna
Econômica do Luis Nassif -
www.luisnassif.com.br - 05/03
Há um
fenômeno curioso ocorrendo com o país nesses tempos de Internet e de inclusão
geral: o envelhecimento generalizado das figuras referenciais, em todos os
níveis de Poder.
De um
lado, nunca se discutiu tanto o país, nas redes sociais, nos fóruns de
Internet, em sites especializados. De outro, poucas vezes se viu um período com
tal falta de referencias e com tal dificuldade para o novo assumir seu papel.
***
Comecemos
pelo Sistema de Justiça. Há muito a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) deixou
de ser referência de qualquer coisa, com exceção dos interesses de classe.
Na
Magistratura, igualmente, inexistem Estadistas.
As
últimas manifestações do STF (Supremo Tribunal Federal) demonstram uma pobreza
intelectual acachapante, em qualquer outro campo fora do campo do direito.
Diriam: a função do Juiz é conhecer as leis. Na cúpula, tem que ser muito mais.
Tem que ter visão refinada de um cientista social, formação humanística ampla
para interpretar adequadamente as leis à luz das mudanças ocorridas na
sociedade.
No meio
jurídico há uma brilhante geração de jovens juristas, professores capacitados,
juízes e procuradores com nível intelectual diferenciado. Mas esses ventos
novos ainda não encontraram o campo adequado para conquistar visibilidade e ser
fator de mudanças.
***
No
Congresso, nem se diga. Quando os Ministros do Supremo se envolveram em
arroubos irresponsáveis contra a instituição, a única voz que se levantou foi
do então presidente da Câmara Marcos Maia, corajoso, sim, mas sem a dimensão
que se exige dos Estadistas.
***
Salta-se
dali para os partidos políticos.
Hoje em
dia, o PT é um partido pobre em quadros. Alguns anos atrás podia exibir
intelectuais de peso, juristas de nomeada, pensadores criativos. Hoje em dia,
quem pensa o PT? Os dez anos de conquista do poder poderiam ter ensejado uma
profícua discussão sobre os rumos do partido para os próximos dez anos. Nada
aconteceu.
As
mudanças do PT ocorrem exclusivamente por conta da influência e da visão
política de Lula.
***
Sem
contar com alguém como Lula, o PSDB murcha a cada dia. A única atividade de seu
guru, Fernando Henrique Cardoso, consiste em, a cada três meses, relançar a
candidatura de Aécio Neves à presidência. O carro não pega. Três meses depois,
FHC relança Aécio. E vai para casa descansar, que ninguém é de ferro.
***
No campo
da mídia ocorre fenômeno semelhante. Até algumas décadas atrás, chefes de
redação de grandes jornais, mesmo diretores de sucursais, eram personagens
intrínsecos da estrutura de poder do país. Hoje em dia, a militância partidária
limita-se a uma campanha recorrente contra tudo o que Lula pode simbolizar, sem
um pingo de sofisticação estratégica.
***
Na
economia real, há tempos não surgem novas lideranças empresariais, nem as centrais
sindicais conseguem desenvolver um discurso novo, à altura dos desafios
contemporâneos do país.
***
São
tempos de mudança. E há uma enorme vitalidade represada, um conhecimento
acumulado que não consegue espaço nos três canais de expressão tradicionais:
partidos políticos, Universidade e mídia.
O novo já
nasceu, mas ainda não foi apresentado à Nação.
>>>>
-
Em favor
do capitalismo, um outro capitalismo
· -
Mulgan:
não se trata de socialismo, mas de um capitalismo em que o poder do mercado é
submetido a fins sociais. Valor Econômico 05.03
.
Em termos
políticos, os anos transcorridos desde a crise financeira pertenceram à
centro-direita. Mesmo a rara vitória socialista na França foi logo seguida por
uma moderação da retórica eleitoral. Grandes pontos de vista sobre algum modelo
alternativo não encontraram eco, mas é possível ver uma multiplicação de ideias
úteis sobre reformas. Na raiz dessas propostas está a admissão de que a
"mão invisível" de Adam Smith é capaz de colocar muito no bolso dos
acionistas e, em especial, dos altos executivos, mas bem pouco no dos
trabalhadores, do público e do governo; e que a ambição louvada por Smith como
motor de impulso aos valores sociais é, muitas vezes, apenas o que parece ser.
"The
Locust and the Bee", de Geoff Mulgan, traz importante contribuição para a
discussão do assunto. Mesmo quando era diretor de políticas de Tony Blair,
Mulgan ponderava que não havia motivos para o capitalismo ser visto como o fim
da história econômica. Agora, liberado há alguns anos das inibições do governo
e atualmente diretor da fundação britânica National Endowment for Science,
Technology and the Arts (Nesta), conseguiu traçar um esboço de possibilidades,
nas palavras de Marx, para "relações de produção novas e mais elevadas".
O objetivo não é o socialismo; Mulgan, marxista na juventude, já trocou de
pele. Seu novo livro argumenta a favor de um capitalismo em que o poder do
mercado é submetido a fins sociais.
As
mudanças seriam radicais, ainda mais porque o capitalismo - "um vasto
sistema de extração e pressão, de coisas em perpétuo movimento" - está
tanto fora como dentro de nós, o que dá à sua forma atual uma aura de
inevitabilidade. Ainda assim, na cúpula das corporações financeiras, o
capitalismo está cada vez mais divorciado da economia real. Deixado sozinho,
acredita Mulgan, teria sido destruído há muito tempo. O fato de isso não ter
acontecido é explicado pelas intervenções que se seguiram às quebras e
depressões dos anos 20 e 30, que criaram Estados de bem-estar social e vários ajustes
entre capital, trabalho e governo.
Para
Mulgan, o capitalismo precisa, e pode, ser algo civilizado. Primeiro, é preciso
aceitar que o valor monetário não é um fim por si só, mas um meio para uma vida
de cooperação, felicidade, amizade e amor. Ele acredita que "estamos
testemunhando a emergência de uma economia assentada mais em relacionamentos do
que em commodities; em fazer do que em ter; em preservar do que em
produzir". Em um longo capítulo, ele estabelece como podemos
"recompensar essas partes do capitalismo que recompensam a
sociabilidade", assegurando, por meio da intervenção do Estado e da
sociedade civil, um equilíbrio que o sistema não pode atingir por conta
própria.
Mulgan se
deixa levar por exageros em alguns momentos. Há ecos no livro da distinção
feita pelo líder do Partido Trabalhista britânico, Ed Miliband, entre
capitalismo "predatório" e capitalismo "produtivo", em
discurso de 2011 - diferenciação que, na prática, é difícil de fazer. Ele
escreve que "não há razão objetiva" para uma casa em Nova York valer
US$ 10 milhões, algo que só se imagina verdadeiro porque "outros estão
dispostos a acreditar". Esse valor, no entanto, é baseado no desejo
generalizado de possuir essa casa; se o valor não fosse determinado pelo
dinheiro, teria de ser por algum decreto autoritário ou pelo uso de força
privada baseada na ameaça de violência.
Alguns
poucos excessos não enfraquecem este livro generoso. Enquanto a
social-democracia está às voltas com o declínio de suas bases - um Estado
social bem financiado e poderoso, com sindicatos moderados e políticas
econômicas keynesianas previsíveis -, aqui há sinalizações de como se poderia
progredir.
O foco de
Colin Mayer em "Firm Commitment" é mais centralizado - na corporação
empresarial, que ele vê como uma criação notável, mas que deixou de ser um
"servidor" para se transformar (com a influência dos governos) em um
monstro. "Não é exagero dizer", escreve, "que, por sua
negligência, incompetência, ambição ou fraude, as corporações são uma ameaça a
nosso meio de vida e ao mundo em que vivemos". E isso vem de um fundador,
ex-reitor e hoje professor de estudos de administração da Saïd Business School,
de Oxford.
O
principal alvo da lúcida análise de Mayer é o curto-prazismo que se acoplou -
especialmente - ao comportamento empresarial britânico, graças a regras que dão
aos acionistas, sejam os de longo prazo ou os que ficam com os papéis por
apenas três dias, os mesmos direitos. Isso, para Mayer é como "se
estivéssemos conferindo direito de voto a membros da população que pretendessem
renunciar a sua cidadania amanhã". É também um sistema em que aquisições
hostis podem facilmente destruir postos de trabalho, mercados e a ética em
companhias há muito tempo estabelecidas - como ele descreve no caso da Cadbury,
uma empresa fundada por protestantes quakers, comprada pelo conglomerado
americano Kraft. Os atuais esforços para corrigir isso não funcionam: as regras
existem para serem dribladas, enquanto a responsabilidade s ocial das empresas
são um curativo numa ferida gangrenada.
Seu
principal antídoto é a "firma confiável", que opera de acordo com
três princípios. Primeiro, precisa tornar públicos seus valores e que estes
sejam compartilhados por funcionários, clientes e acionistas. Segundo, esses
valores são confiados a um conselho ("trustees") que não administra a
empresa, mas age em nome dos acionistas. Terceiro, os acionistas de longo prazo
devem estar no controle e ter privilégios, por meio da alocação de ações com
direito a voto, que seriam negadas aos investidores de curto prazo interessados
apenas em lucros rápidos.
Mayer
também, por vezes, pode mostrar-se um pouco sonhador: na Alemanha
longo-prazista, a Krupp fez várias ofertas hostis, entre as quais uma
bem-sucedida pela Hoesch, em 1991, e outra que não foi adiante pela Thyssen, em
1997, embora posteriormente tenha sido alcançado um acordo de fusão. Ele
menciona isso; mais recentemente, porém, a ThyssenKrupp, em parte controlada
por uma fundação com poder para vetar as decisões da diretoria, foi multada em
€ 103 milhões por uma autoridade antitruste da Alemanha, por fazer parte de um
cartel que buscava manter elevados os preços de trilhos ferroviários. Os
horizontes de longo prazo nem sempre estão livres de nuvens e trovoadas.
Mayer, no
entanto, não vê apenas uma forma de organizar a economia. Parte de sua
explicação para o maior dinamismo dos Estados Unidos é a combinação de modelos.
Até sua variante de composição acionária diversificada às vezes é vista como
funcionando bem. Mas na prática, e como princípio de aplicação universal,
argumenta Mayer, isso está destruindo nossa economia e nossa moralidade
empresarial. Apenas com a redescoberta de valores vitorianos de parcimônia e
comprometimento é que a instituição central do capitalismo - a corporação -
poderá ser salva.
"The
Locust and the Bee - Predators and Creators in Capitalism's Future"
Geoff
Mulgan. Editora: Princeton Univ. Press. 344 págs., US$ 29,95
"Firm
Commitment - Why the Corporation is Failing Us and How to Restore Trust in
It"
Colin
Mayer. Editora: Oxford Univ. Press. 320 págs., US$ 29,99
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O racismo não está nos olhos de
quem vê
Blogueiro
negro defende cotas raciais nas universidades até que todos deixem de tratar
pretos como representantes de minoria
-
Com a
decisão da legalidade, pelo STF, das cotas raciais , as primeiras inscrições de
alunos pela lei de cotas nas universidades públicas federais e a possibilidade
real de cotas nas universidades públicas de São Paulo amplia-se o debate sobre
questões de políticas afirmativas em relação à população afrodescendente. Boa
parte deste debate tem sido feito de forma rasa e com boa dose de preconceito
e/ou constrangimento em reconhecer as cotas como um direito que trata desiguais
de forma desigual.
Leia
também: critério de raça tem discrepância maior nas notas de corte de cotistas
Convidei
para participar dessa coluna através do texto abaixo, e assim colaborar no
debate, o estudante André Rossi Pola Barbosa. André, blogueiro, é negro, filho
de mãe solteira, militante do movimento negro e do movimento feminista. Já
cursou farmácia em uma universidade particular e depois engenharia mecânica
naval na Fundação Universidade do Rio Grande (FURG). Não era o caminho que
queria, e hoje se dedica a estudar para conquistar uma vaga em medicina em uma
universidade pública, se possível com a nota do Enem. André, por ter estudado o
ensino médio em escola particular, não tem direito a concorrer pelas cotas da
lei nacional.
Sobre
igualdade, racismo e ações afirmativas - pois o racismo não está nos olhos de
quem vê
Vivemos
na era do politicamente correto. Isso é uma coisa boa, pois desse modo muitas
pessoas percebem o quanto as expressões do dia-a-dia estão carregadas de
preconceitos e menosprezo com as minorias. Assim, muitos indivíduos que se achavam
deslocados do mundo repararam que não estão sozinhos e, disso, inúmeros
movimentos se organizaram melhor (ou ganharam mais força) como o das
feministas, o dos negros e o dos gays. A fim de melhorar e reivindicar certos
direitos que, para eles, não eram garantidos ou não eram respeitados, esses
grupos se organizaram e suas reivindicações encontraram grande resistência por
parte de reacionários (pessoas que não aceitam mudanças na sociedade e preferem
a ordem atual).
Uma
dessas reivindicações foi a política de ações afirmativas, para que haja uma
maior participação do negro na sociedade. Para isso, recentemente, o governo de
São Paulo propôs às universidades estaduais que reservassem 50% das vagas para
pretos (nomenclatura oficial para negros e pardos do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística, IBGE) e alunos de escola pública. Por isso, a classe
média hoje vocifera palavras de igualdade, dizendo que as cotas vão apenas
fomentar o racismo (que ela pensa não existir mais). No entanto, isso é uma falácia
e tais ações se fazem necessárias para que justamente se diminua o racismo no
Brasil.
A maioria
das pessoas contrárias às cotas se indigna por elas tirarem a igualdade entre
os cidadãos, porque todos são "iguais perante a lei". Todavia, não
sabem da existência de dois tipos de igualdade: a formal e a material. O
primeiro tipo de igualdade é a defendida pelos reacionários, de que todos são
iguais, mas por meio desse tipo de igualdade os juristas verificaram que as
diferenças sociais não deixavam de existir. Por causa disso, foi definida então
a segunda igualdade, a material. Nesta, para tornar a sociedade mais
igualitária, os mais desiguais serão tratados desigualmente ao pé de suas
desigualdades - para que estes possam se tornar mais iguais ante os demais. Por
isso foi importante a criminalização da homofobia, foi importante a instituição
da lei "Maria da Penha" para combater a violência doméstica e assim
também são importantes as cotas raciais e sociais nas universidades públicas.
A
sociedade brasileira é a segunda maior sociedade de pretos do mundo, perdendo
apenas para a Nigéria. Mas onde eles estão? Pois não constituem a maioria dos
engenheiros, dos padres, dos médicos, dos professores, dos fisioterapeutas ou
dos advogados. Porém, constituem a maioria em empregos como: auxiliares de
obras, garçons, garis, carteiros, jardineiros, etc. Essas profissões não perdem
a sua importância para a sociedade como aquelas outras, mas, não obstante, a
possibilidade de ascensão social a partir delas é quase nula. O que explica o
porquê de negros e pardos ficarem com essas profissões é a nossa história.
Quando se
trata de escravidão, no imaginário das pessoas vem à tona a fazenda modelo de
José de Alencar. Aquela fazenda cujo retrato ocorre nas novelas de época da Globo,
onde o negro fica trabalhando normalmente sem reclamar e o branco vive o papel
do protagonista. Contudo, a vida real dessas pessoas não foi assim. Além do
trabalho árduo, o negro não passava de um objeto, não era considerado gente,
nem portador de alma segundo a igreja na época. Sofria os mais variados tipos
de castigos e de insultos, era considerado desleixado e vagabundo. Seu trabalho
não era considerado de qualidade, daí vieram expressões como "serviço de
preto" e "pretisse". Em 1888, em 13 de Maio, foi assinada a
"Lei Áurea", que colocaria um fim à escravidão, com o crescimento da
indústria no sudeste e o aparecimento do trabalho assalariado. A partir desses
eventos, o negro passaria a ter um modo de vida, então, digno.
No
entanto, isso não ocorreu. Por quê? Na época, havia inúmeras teorias racistas e
a principal e mais arraigada na mentalidade da população era: negro é um
estágio anterior dos brancos, tanto que havia "pesquisadores"
empenhados em provar que o negro era menos evoluído. Ninguém conseguiu provar
ou demonstrar tais teorias, porém elas contribuíram para o preconceito já
existente. Em suma: negro não era gente. Além disso, a "Lei Áurea"
apenas retirou o negro da condição de "objeto" e o pôs na sociedade
totalmente "cru", sem estudo e nem preparo, portanto não havia
condições de eles competirem com os imigrantes europeus e depois japoneses que
desembarcavam aos milhares nos portos brasileiros. Os novos imigrantes eram
atraídos pela possibilidade de emprego e de enriquecimento. Já para o governo
da época, essa foi uma tentativa de "embranquecer" a população, pois
uma das teorias então existentes era de que a miscigenação de "raças"
(hoje temos clareza que não há outra raça além da humana) era prejudicial para
um país e para os seres humanos. Assim o negro foi liberto, mas não garantiram
meios para que ele pudesse sobreviver, e tudo isso ocorreu por causa da
mentalidade até então existente.
O
principal ainda era a ideia de que "preto é vagabundo", "preto
não trabalha direito", "preto que não caga na entrada caga na
saída" e outras inúmeras expressões e piadas que refletiam a mentalidade
desse momento em que o negro entrava na sociedade. Por causa desse pensamento,
sempre sobraram aos negros os piores serviços, pois o empregador não queria correr
o risco de ter um funcionário "preguiçoso". Já o branco era muito
mais trabalhador, tanto que, segundo o professor da Unesp, Dagoberto José
Fonseca, surgiu a expressão "amanhã é dia de branco".
Largado
às margens da sociedade, o ex-escravo e agora favelado fica a esmo nas grandes
cidades, com dificuldade de encontrar emprego por não ter capacidade de
competir com os imigrantes. Por estar desempregado e sempre criando o samba,
dando risada, seu quadro foi agravado. Foram ratificados os estigmas de "vagabundo",
"preguiçoso", "vadio" e, para piorar, eram alvos de piadas
que mostravam a superioridade do branco, como: "Como preto sobe na vida?
Quando explode o barraco" ou "Por que preto americano é melhor?
Porque está nos Estados Unidos". Essas piadas foram transferidas
atualmente para o pobre, para o gay. Por isso, atualmente, o politicamente
correto se faz necessário para demonstrar que expressões tidas como
"inofensivas" são racistas e pregam o preconceito devido a uma carga
histórica já existente nelas. Portanto o preconceito, embora disfarçado, ainda
persiste na sociedade brasileira por meio de ditados populares e não como dizem
que ele está "nos olhos de quem vê", pois em cada expressão há uma
origem de extrema discriminação. Atualmente isso ainda é propagado por meio de
piadas, em especial.
O riso é,
de certo modo, acusador das diferenças sociais. Há pessoas que dão risada das
piadas anteriormente citadas, esse riso é o de quem concorda que essa é a atual
situação do negro. O efeito humorístico nesse caso é criado pela hipérbole da
situação deles nas cidades e, se essa situação não for mais evidente, não
haverá mais o riso. Quando não houver mais humor, é porque a mensagem passada é
um absurdo para a maioria da população e, então agora, o preto faz parte da
maioria da sociedade. Isso evidencia como as cotas raciais são necessárias.
Mas e os
brancos pobres? Embora a desigualdade social seja grande no País, o branco
pobre tem maior facilidade em arrumar um emprego do que o preto pobre, por
causa dos pensamentos anteriormente citados que dominam o subconsciente de
pessoas ainda racistas. Tanto que, no início da década de 1990, era comum nos
anúncios de emprego a exigência de "boa aparência". Por meio de uma
investigação policial, verificou-se que a "boa aparência" era ser
branco. Isso evidencia como o racismo ainda existe fortemente no Brasil. Quando
houver mais negros e pardos ocupando cargos importantes, a ideia de que ele é
"vagabundo", "preguiçoso" e "folgado" deixará de
existir.
As cotas
não constituem uma forma para acabar com a suposta "igualdade"
existente, elas criarão possibilidades para que, no futuro, a sociedade seja
mais igualitária. Ela o será quando o negro for colocado em maior evidência,
quando for retirado dos empregos considerados menos importantes, quando for
afastado dele o estigma de bandido e favelado, quando todos deixarem de rir de
piadas racistas e outras insinuações que denigrem a sua imagem. Mas tudo isso
leva tempo. Quanto tempo? O tempo até que todos deixarem de falar deles como minorias
e passarmos a nos preocupar com a situação do ser humano e não mais da situação
do negro.
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segunda-feira, 4 de março de 2013
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CULTURA POPULAR: Do Cordão
Para A Literatura de Cordel.
Barbantes
esticados e livretes pendurados dão origem à uma literatura do Nordeste rica em
rimas e versos é o cordel, que ganhou este nome, pois, em Portugal, eram
expostos ao povo amarrados em cordões,
estendidos
em pequenas lojas de mercados populares ou até mesmo nas ruas.
http://www.blogpajeudagente.com
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A chegada do cordel no Brasil
ocorreu no início da colonização, através dos portugueses. Na segunda
metade do século XIX começaram as
impressões de folhetos brasileiros, com características próprias do país.
Os temas incluem desde fatos do
cotidiano, episódios históricos, lendas, temas religiosos, entre outros. As
façanhas do cangaceiro Lampião (Virgulino Ferreira da Silva, 1900-1938) e o
suicídio do presidente Getúlio Vargas (1883-1954) são alguns dos assuntos de
cordéis que tiveram maior tiragem no passado. Não há limite para a criação de
temas dos folhetos. Praticamente todo e qualquer assunto pode virar cordel nas
mãos de um poeta competente.
O estudante de História da
Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Cid Carlos, é um dos admiradores da
literatura. Para ele, os cordéis multiplicam as histórias tanto na ficção
quanto na realidade.
“Existe alguns historiadores que
explicam o cordel a partir de um cenário brasileiro, como a guerra de Canudos
que propiciou a história sobre Antônio Conselheiro que dá um tom heroico para a
cultura nordestina de forma rimada e em versos nos cordéis”, afirmou Cid.
No Nordeste, a literatura de
cordel é uma produção típica, sobretudo nos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio
Grande do Norte e Ceará. Hoje também se faz presente em outros estados, como
Minas Gerais, de Janeiro e São Paulo.
A Feira da Gente, realizada todo
domingo na praça Sérgio Pacheco em Uberlândia, é um dos locais na cidade em que
encontra-se cordéis para comprar. Cid Carlos é um dos vendedores e afirma que
muitas pessoas tem curiosidade em conhecer a obra literária.
“Públicos acadêmicos conhecem
mais os cordéis do que as outras pessoas, porém muitas pessoas se surpreendem
com a literatura rimada que pode ser encontrada na feira, na revistaria do
aeroporto de Uberlândia e na internet, sendo uma oportunidade do pessoal
conhecer um pouco da cultura nordestina através dos cordéis”, concluiu..
Um grande exemplo de cordelista é
Seu Lunga, um personagem tão folclórico que ninguém acredita sua existência
real. Mas, ele existe. Natural de Juazeiro do Norte (CE), local aonde reside
até hoje, é muito conhecido pela sua "delicadeza", dizem que ele é um
sério candidato a Homem Mais Ignorante do Mundo pelo Guiness Book. Algumas
histórias são verídicas, e outras são apenas piadas que fazem alusão a sua
ignorância. Confira abaixo, um dos cordéis produzido por ele.
As proezas de Seu Lunga
Seu Lunga é cabra de bem
Porém é muito nervoso
Em perguntas idiotas
O homem perde o gozo
Das faculdades mentais
Vira o próprio satanás
Solta um palavrão trevoso.
Um belo carro de luxo
A famosa limosine
Chegou à concessionária
Tava exposta na vitrine
Lunga disse: --eu quero aquela
Dou até minha costela
Por aquela lamborguine.
O vendedor, à socapa,
Riu do momento bizarro
--Meu senhor, está enganado
Trocou o nome do carro
Lunga, bufando de raiva
Encorporou o Saraiva
Não adimitiu o sarro.
--Olhe aqui fi da broboinca
O automóvel é meu
Vou pagar com minha verba
Se entupa, seu fariseu
Dou o nome que eu quero
Joaquim, Chico ou Homero
Também ponho o de Romeu.
Uma semana depois
Lunga, no estacionamento
Foi saindo com o carro
Até passar por tormento
O alarme disparou
A polícia o abordou
Não teve nem argumento.
Era um carro igual ao dele
Não mudava nem a cor
O modelo, a capota
Pneu e radiador
Calota, marcha e breque
Iguais ao seu calhanbeque
Principalmente o motor.
Lunga tomou providência
Ali, no calor da hora
Pra não mais se confundir
Tirou da bota a espora
Riscou toda a pintura
Disse: --olhe que belezura
Quero ver trocar agora.
Ver Vídeo:
Os Poemas do Seu Lunga
Fonte: Cantigas e Cantos
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-
O risco das usinas sem
reservatórios
O Seminário Brasilianas “Energias
Alternativas” trouxe duas visões sobre o setor elétrico.
www.luisnassif.com.br 27.02
A visão atual foi o sucesso dos
leilões de energia e dos programas de energia alternativa. Ao longo dos últimos
anos, além do etanol sucessivos programas e os leilões viabilizaram a energia
eólica, deram o tiro de partida para a fotovoltaica.
Mas problemas ambientais
provocaram uma mudança perigosa na matriz energética, com a perda gradativa da
importância relativa da
hidroeletricidade e, mais que isso, dos reservatórios das usinas, trazendo um
aumento de risco complicado.
***
Esse alerta foi feito por Hermes
Chipp, presidente do Operador Nacional do Sistema Elétrico e pelo professor
Nivalde de Castro, do Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do
Rio de Janeiro).
O reservatório é como um
armazenador de energia. No período chuvoso, parte da água é armazenada e serve
para gerar eletricidade no período de seca.
Com essa segurança, a energia
alternativa era utilizada em curtos períodos, quando o nível dos reservatórios
baixava além de determinado limite.
Alguns anos atrás, o nível dos
reservatórios garantia até dois anos de seca. Foi caindo. Com as novas
hidrelétricas sendo construídas todas a fio d’água (sem reservatório), em 2013
os reservatórios garantirão 5,4 meses; em 2017, 4,3; em 2020, 3,5 meses.
***
Essa involução cria fatores
complicados de segurança. Há que se proceder a mudanças substanciais no modelo
elétrico e na compra de energia.
O primeiro fator relevante é a
questão da segurança energética – ou seja, garantir que não faltará energia.
Por exemplo, hoje em dia em nome da sustentabilidade, montou-se um modelo que
impede a formação de reservatórios. Como lembra Chipp, o modelo peca pela base.
Sem os reservatórios, quando falta energia são despachadas as térmicas, movidas
a óleo ou carvão.
***
A existência de reservatórios é
fundamental inclusive para viabilizar a alternativa. Por exemplo, prevê-se uma expansão substantiva da energia
eólica – energia limpa, sustentável. Só que a energia eólica não é perene. Há
períodos de pouco vento. Portanto, quanto maior a produção de eólica, maior a
necessidade da energia de reserva. Sem essa reserva, se terá que recorrer a
energias garantidas. E aí se cai nas termoelétricas a carvão e diesel.
***
Outro ponto relevante é mudar o
critério de análise de preço. Hoje em dia, os leilões de energia levam em conta
apenas o custo da geração – leva quem apresentar o preço mais baixo.
Ora, o custo final de uma
determinada energia é a soma do custo de geração, mais o de transmissão e o de
distribuição. Se uma usina é levantada em local distante, o custo de
transmissão acaba fazendo com que chegue mais cara no consumidor final do que o
de outra usina levantada em local mais próximo. Ou então ocorre de usinas
construídas e desligadas do sistema por problemas de transmissão – que
enfrentam problemas com diversas instâncias ambientais, com Ministério Público
etc.
***
Diz Chipp que os leilões precisam
definir previamente a quantidade de cada tipo de energia que se pretende, a região
a ser implantada, o custo final para o consumidor.
Mais que isso: é necessário
rediscutir a questão dos reservatórios.
>>>>
Os
caminhos da economia em 2013
Para entender os desafios atuais
da economia. Coluna Econômica - www.luisnassif.com.br 28.02
O ciclo do desenvolvimento
consiste nas seguintes etapas:
Formação da demanda, através do
fortalecimento do mercado interno e das exportações.
Fortalecimento da produção
interna, para atender à demanda.
O aumento da produção interna
gera mais investimentos, que geram mais empregos, que fortalecem mais o mercado
interno, completando-se o círculo virtuoso.
***
Por enquanto há dificuldades em
completar o segundo ciclo, apesar dos avanços da redução dos juros e melhoria
do câmbio.
O fato do fator 2 não ter se
completado faz com que todo aumento de demanda de produtos comercializáveis
(aqueles negociados no mercado internacional) seja atendido pelas importações,
gerando uma pressão nas contas correntes brasileiras.
No ano passado, o consumo de
industrializados cresceu mais de 8%; a produção caiu 2,8%. No setor químico, o
consumo aparente tem crescido 7,1% ao ano desde 2007. E a produção continua no
mesmo patamar. Em cinco anos, houve estagnação interna, enquanto o aumento de
consumo foi totalmente absorvido pelas importações.
A indústria química fechou 2012
com um déficit de US$ 28,1 bilhões. Em 2013, o buraco será maior. Apenas em
janeiro o déficit em conta corrente foi de US$ 11 bilhões.
***
As reservas internacionais
permitem empurrar algum tempo com a barriga. Mas esse desequilíbrio terá que
ser desmontado em algum momento, sob pena de uma crise futura nas contas
externas.
***
Trata-se de uma equação complexa.
Os salários melhoraram, o emprego melhorou e existe mais crédito disponível
para consumo. Como a produção interna não atende a essa demanda, há um aumento
dos preços de serviço e de moradia e uma pressão nas contas externas.
Este é nó central. Para ser
desarmado, exigiria um reajuste muito mais acentuado do câmbio. Mas aí se
esbarra na outra perna da equação: os efeitos sobre a inflação e sobre a renda.
***
No ano passado, procedeu-se a uma
corajosa desvalorização cambial de cerca de 30%. Mas não se resolveu o problema
da competitividade interna.
Além disso, o discurso desconexo
do Ministro da Fazenda Guido Mantega lançou uma nuvem de imprevisibilidade
sobre os agentes econômicos. Somado ao aumento dos preços de alimentos,
provocou essa alta da inflação no final do ano passado e início deste ano.
Grandes fabricantes – como
Nestlé, Gessy Lever, Procter & Gamble, conseguiram emplacar reajustes
médios de 10% nos atacadistas. Esses reajustes concentraram-se no setor
alimentício.
Pode-se tratar o problema com
antibiótico ou antigripal. O antibiótico seriam medidas duras na área de
crédito, com impacto sobre o consumo – e sobre o PIB. Não é o caso ainda.
***
Tem-se um desafio imediato, que
consiste em desarmar as expectativas inflacionarias, trabalho que vem sendo
conduzido pelo discurso mais sólido do presidente do Banco Central Alexandre Tombini.
O recuo recente dos preços de alimentos ajudará nessa empreitada.
Para compensar o câmbio
apreciado, o governo vem procedendo a uma série de desonerações tributárias.
Mas ainda se mostram insuficientes.
De qualquer modo, a estratégia
está montada. Os próximos meses indicarão se foi bem sucedida ou exigirá
dosagens maiores.
>>>>
A
política de cotas ganhou mais uma (Elio Gaspari, jornalista)
Na essência da política de cotas
há um aspecto que exaspera seus adversários: um estudante que vai para o vestibular
sem qualquer incentivo de ações afirmativas tira uma nota maior que o cotista e
perde a vaga na universidade pública. Quem combate esse conceito em termos
absolutos é contra a existência das cotas, cuja legalidade foi atestada pela
unanimidade do Supremo Tribunal Federal e aprovada pelo Congresso Nacional (com
um só discurso contra, no Senado). É direito de cada um ficar na sua posição,
minoritária também nas pesquisas de opinião.
FOLHA SP 27.02
-
Uma coisa é defender as cotas
quando a distância é pequena, bem outra seria admitir que um estudante que faz
700 pontos na prova deve perder a vaga para outro que conseguiu apenas 400. O
que é diferença pequena? Sabe-se lá, mas 300 pontos seria um absurdo.
Os adversários das cotas previam
o fim do mundo se elas entrassem em vigor. Os cotistas não acompanhariam os
cursos, degradariam os currículos e fugiriam das universidades. Puro
catastrofismo teórico. Passaram-se dez anos, e Ícaro Luís Vidal, o primeiro
cotista negro da Faculdade de Medicina da Federal da Bahia, formou-se no ano
passado e nada disso aconteceu. Havia ainda também as almas apocalípticas: as
cotas estimulariam o ódio racial. Esse estava só na cabeça de alguns críticos,
herdeiros de um pensamento que, no século 19, temia o caos social como consequência
da Abolição.
Mesmo assim, restava a distância
entre o beneficiado e o barrado. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais divulgou uma pesquisa que foi buscar esses números no banco de
dados do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Neste ano, as cotas beneficiaram
36 mil estudantes. Pode-se estimar que em 95% dos casos a distância entre a
pior nota do cotista admitido e a maior nota do barrado está em torno de 100
pontos. Em 32 cursos de medicina (repetindo, medicina) a distância foi de 25,9
pontos (787,56 contra 761,67 dos cotistas).
O Inep listou as vinte faculdades
onde ocorreram as maiores distancias. Num caso extremo deu-se uma variação de
272 pontos e beneficiou uns poucos cotistas indígenas no curso de história da
Federal do Maranhão. O segundo colocado foi o curso de engenharia elétrica da
Federal do Paraná, com 181 pontos de diferença. A distância diminui, até que,
no 20º caso, do curso de ciências agrícolas de Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia da Federal do Rio Grande do Sul, ela ficou em 128 pontos.
Pesquisas futuras explicarão como
funcionava esse gargalo, pois se a distância girava em torno de 100 pontos, os
candidatos negros e pobres chegavam à pequena área, mas não conseguiam marcar o
gol. É possível que a simples discussão das ações afirmativas tenha elevado a
autoestima de jovens que não entravam no jogo porque achavam que universidade
pública não era coisa para eles. Neste ano, 864.830 candidatos (44,35%)
buscaram o amparo das cotas.
A política de cotas ocupou 12,5%
das vagas. Num chute, pode-se supor que estejam em torno de mil os cotistas que
conseguiram entrar para a universidade com mais de cem pontos abaixo do
barrado, o que vem a ser um resultado surpreendente e razoável. O fim do mundo
era coisa para inglês ver.
????
AFFONSO
ROMANO DE SANT'ANNA »
Cortiço
ontem e hoje
affonsors@uol.com.br
.
Em meio a tantos centenários de
nascimento (Graciliano Ramos, Rubem Braga, Vinicius de Moraes, etc.), é bom
lembrar que, neste ano, é o centenário de morte de Aluísio Azevedo. CORREIO BSB 04.02
>>>
Maranhense, irmão de Arthur
Azevedo, ele morreu em Buenos Aires em 1913.
Ainda hoje qualquer pessoa lê O
cortiço com certa volúpia. Nas escolas, quando o professor pensa num texto
capaz de suscitar interesse dos adolescentes tão ligados em iPods e
computadores, surge logo aquele livro, que já virou filme, novela, teatro,
história em quadrinhos, etc.
Encantado com sua vida e obra,
pensei em fazer a tese de doutoramento sobre ele, antes de decidir pela obra de
Drummond. Li tudo o que podia sobre ele, como aquela boa biografia escrita por
Raimundo de Menezes publicada em 1957, centenário de nascimento de Aluísio. E
fiz posteriormente uma análise de O cortiço, que causou polêmica e foi
reeditada agora em Análise estrutural de romances brasileiros (Ed.Unesp).
As universidades e as academias
deveriam aproveitar a data e reestudar sua obra. Está ali a sociedade
brasileira de ontem e de hoje. Está ali germe do que seriam as “comunidades”
atuais, que passaram ser (no Rio) Unidades de Política Pacificadora. Por que
não fazem seminários comparando os cortiços daquele tempo, as favelas de ontem
e as comunidades de hoje? Chamassem urbanistas, sociólogos, políticos,
escritores, historiadores para rediscutir o Brasil a partir do que Aluísio
espetacularmente flagrou em sua época.
Moro do lado de uma ex-favela
e/ou comunidade no Rio. Quantas vezes, passando ali em frente, me ocorreu estar
lendo/vendo cenas descritas por Aluísio há 150 anos. Agora, as coisas estão
mais calmas. Não tem mais tiroteio. Mas a realidade da periferia das grandes
cidades brasileiras (e latino-americanas) continua inscrita nas observações
daquele romancista. Pensando continentalmente, já que ele morou em La Plata
(Argentina), quem viu o filme argentino Elefante branco teve a sensação de
estar revendo o Brasil de Cidade de Deus ou de Tropa de elite.
Há na vida de Aluísio coisas
intrigantes. Não só o escândalo do romance O mulato. Sabe-se que era
caricaturista, havia estudado artes plásticas e fazia desenho de seus
personagens antes de descrevê-los. Mudou-se para a frente de uma favela para
desenhar realisticamente seus tipos. Mas vivendo de escrever romances durante
16 anos, o que era uma proeza já no século 19 no Brasil, quando conseguiu um
posto diplomático, perdeu em parte a motivação para escrever. Viveu na Espanha,
Inglaterra, Uruguai, Paraguai, Argentina e Japão.
Me lembro de ter examinado na
França, em 1982, uma tese em que havia trechos do livro que escreveu sobre o
Japão e, posteriormente no Rio, de ter visitado, em Botafogo, um de seus
sobrinhos de nome Aluísio que tinha alguns documentos do escritor.
Quando morava no exterior, o
editor Garnier lhe pagou uma bolada por sua obra; pensava receber o dinheiro,
mas seu amigo Graça Aranha, que era seu procurador, comprou um terreno para ele
em Copacabana. Aluísio ficou decepcionado. É uma história meio confusa. Mas
Valentin Magalhães, ressaltando que Aluísio ganhava o pão com literatura,
assinalava ironicamente que “as letras brasileiras ainda não dão para a
manteiga”.
Há exceções, claro.
...>>>>>>
INCENTIVO FISCAL
Lei Rouanet é
ferramenta relevante para cultura
Por Cristiane Olivieri, advogada da
empresa Oliveiri & Signorelli.
Revista Consultor Jurídico 28/02
As notícias, quase sempre bombásticas,
sobre o uso e a ideia de uso indevido dos recursos da Lei Rouanet geram,
normalmente, indignação da sociedade. Revista
Consultor Jurídico, 28/02
.
Notícias como a do blog da cantora
Maria Bethânia vendem a necessidade de mudanças urgentes. Mas, com certeza, não
será com uma decisão imperativa do governo, parcial porque essencialmente
política, que alcançaremos essa melhora. Revista Consultor Jurídico, 28 de
fevereiro de 2013
http://www.conjur.com.br/2013-fev-28/cristiane-olivieri-lei-rouanet-ferramenta-relevante-cultura
-
Hoje, cada projeto é analisado por um
parecerista técnico, e aprovado por um conselho formado por representantes da
sociedade civil e do governo. A análise não é de mérito, mas sobre a adequação
à lei e a viabilidade financeira. Em qualquer processo de seleção é inevitável
que sejam contemplados projetos não unânimes, toscos, ou até mesmo discutíveis.
Mas a excelência, não só da arte, não
se faz com a aplicação de fundos em projetos perfeitos (quem os definiria,
afinal!?). É um investimento de risco. A
cultura é a medida e o espelho de uma sociedade, e se constroi pela
contribuição de todos, da inclusão dos unânimes e dos estranhos, da aceitação
do oposto. Não podemos mediar as escolhas pelo ponto de vista de uma classe, de
um segmento, ou de um governante de plantão.
O governo é feito de pessoas, com visão
de mundo, apoiadores, parceiros e oponentes. É parcial porque tem objetivos
políticos. Não pode ser colocado acima do bem e do mal. Na verdade, a história
mostra que os governantes, geralmente, criam balcões para os amigos do rei. O
processo de seleção existente é muito mais eficiente que decisões
governamentais, com viés político partidário.
A mesma lei que aprovou o blog de Maria
Bethânia aprovou também diversos projetos de formação de artistas, de inclusão
de crianças e jovens pela arte, de institutos e programas culturais gratuitos,
de preservação de patrimônio etc. Cada um de nós terá razões para apoiar ou
contestar essas decisões, mas não cabe ao processo de seleção excluir uma
proposta de vídeos de poesias, disponibilizados online, gratuitamente, apenas
porque envolve profissionais reconhecidos. Seria preconceito. Cabe, sim, uma
análise orçamentária, e a garantia da distribuição democrática de seu
resultado.
É importante também acrescentar que a
discussão sobre projetos beneficiados é praticamente exclusiva da cultura. A
maioria dos benefícios fiscais praticados pelo governo federal sequer tem
processo de análise. São todos concedidos em atacado, como a redução dos
impostos sobre venda de veículos, ou de eletrodomésticos da linha branca. Mas, para esporte e cultura implantou-se a
análise do varejo. E é bom frisar que, em 2009, a renúncia fiscal total para
cultura representou 1,26% de todas as renúncias, enquanto que os setores de
comércio e serviços ficaram com 30,7%, e a indústria, 19,89% (ou seja, 50,68%
do total). E ninguém discute a pertinência ou a aplicação individual desses
recursos pelo governo, os quais são muito mais robustos e suscetíveis a lobby.
A Lei Rouanet é ferramenta relevante
para a produção cultural e para o público, que pode ter acesso às mais diversas
produções, gratuitamente ou com preços populares, conforme as novas regras
implantadas. E tem selecionado projetos relevantes. O governo já fiscaliza o processo
geral. Não haveria nenhum ganho para a sociedade em conferir-lhe também o poder
de escolha.
Cristiane Olivieri advogada da empresa
Oliveiri & Signorelli
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CULTURA POPULAR: Do Cordão
Para A Literatura de Cordel.
Barbantes
esticados e livretes pendurados dão origem à uma literatura do Nordeste rica em
rimas e versos é o cordel, que ganhou este nome, pois, em Portugal, eram
expostos ao povo amarrados em cordões,
estendidos
em pequenas lojas de mercados populares ou até mesmo nas ruas.
http://www.blogpajeudagente.com
-
-
O risco das usinas sem
reservatórios
O Seminário Brasilianas “Energias
Alternativas” trouxe duas visões sobre o setor elétrico.
www.luisnassif.com.br 27.02
A
política de cotas ganhou mais uma (Elio Gaspari, jornalista)
AFFONSO
ROMANO DE SANT'ANNA »
Cortiço
ontem e hoje
affonsors@uol.com.br
.
Em meio a tantos centenários de
nascimento (Graciliano Ramos, Rubem Braga, Vinicius de Moraes, etc.), é bom
lembrar que, neste ano, é o centenário de morte de Aluísio Azevedo. CORREIO BSB 04.02
INCENTIVO FISCAL
Lei Rouanet é
ferramenta relevante para cultura
Por Cristiane Olivieri, advogada da
empresa Oliveiri & Signorelli.
Revista Consultor Jurídico 28/02
>>>>>>
Produção literária
LUIZ AUGUSTO SAMPAIO, da Academia Goiana de Letras
Conheço vários cidadãos que
possuem “veleidades literárias”, mas que, ainda, não resolveram publicar seus
textos. Muitos esperam pela chamada “maturidade intelectual”. DIÁRIO DA MANHÃ
02.03
>
Não se arriscam a debutar no
universo literário. A literatura brasileira, exemplificando, está cheia de
autores precoces e de maduros, que não ficam a esperar o
"enferrujamento" de boas ideias. Tenho dado conselhos a muitos deles
para que publiquem o que se acha armazenado no cérebro. Dou, agora, apenas
exemplos de pessoas que publicaram livros precocemente. Álvares de Azevedo,
poeta romântico, morreu aos 21 anos, vítima de um tumor na região da bacia.
Antes, porém, produziu centenas de páginas de poesias e prosas, que se acham
entre as mais importantes do romantismo brasileiro. Poderia citar muitos outros
autores precoces. Outro, Castro Alves, que encontrou o caminho literário e
faleceu aos 24 anos, e, também, Rachel de Queirós, que escreveu O Quinze, com
19 anos; Clarice Lispector, nos deu Perto do Coração Selvagem, obra de uma
maturidade extraordinária, escrita antes dos 20 anos; Ferreira Gullar, que até
hoje brilha no cenário pátrio, disse certa vez: “se eu tivesse começado mais
tarde, minha poesia seria muito mais pobre”. Há, entretanto, escritores que
escreveram já mais idosos. Um exemplo é Pedro Nava, conceituado médico, que só
começou a publicar para valer depois dos 40. Entre os estrangeiros, posso citar
o português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura em 1998, que teve seu
livro Ensaio sobre a Cegueira adaptado para o cinema e lançado em 2008,
produzido no Japão, Brasil, Uruguai e Canadá. Este é um caso típico, pois
sobredito romance importante saiu quando ele já possuía 54 anos. E você leitor,
o que está esperando? Escreva e procure os meios necessários para dar à luz seu
primeiro livro. Assim, o espero. Navegar é preciso enquanto é tempo.
(Luiz Augusto Sampaio,
da Academia Goiana de Letras
>>>>
CORREIO BSB 28.02
LITERATURA »
Poesias na porteira
O premiado escritor Wilson
Pereira se une ao fotógrafo Antonio Nepomuceno para uma viagem lírica no livro
Reflexos do tempo, que junta imagens e palavras de um tempo de delicadeza
Reflexos do tempo
De Wilson Pereira e Antonio
Nepomuceno. Edição de autor, 84 páginas. R$ 40.
-
A infância está guardada em um
local seguro e confortável na memória do poeta Wilson Pereira. Nesse lugar mora
um menino crescido em fazenda, soltinho e travesso, feliz da vida, um garoto
que o poeta resolveu moldar em forma de versos. Reflexos do tempo, que tem
lançamento marcado para hoje no restaurante Vila Madá (Deck Norte), nasceu de
uma parceria com o fotógrafo Antonio Nepomuceno e propõe uma visita cheia de
ternura a um passado de contornos familiares aos dois autores. Napoleão também
é menino de fazenda, de porteira larga e horizontes a perder de vista. “Escrevo
muito sobre a infância”, avisa Pereira, mineiro de Coromandel ,e autor de uma
vasta bibliografia de literatura infantojuvenil. “Até os 12 anos vivi na
fazenda e esse período ficou muito marcado na lembrança.”
As perdas do pai e de um irmão
ainda em tenra idade fizeram Pereira constatar muito cedo a efemeridade da vida
e a presença incontornável da morte. Mais tarde, o poeta entenderia por que o
francês Paul Valéry insistia na ideia de que a “infância é a pátria da poesia”.
“A infância é uma recorrência entre os poetas e tenho isso muito forte em mim:
um menino que, de certa forma, não cresceu, mas não é um Michael Jackson ou um
Peter Pan. É um menino que sobrevive no homem, um menino que luta contra o
tempo para permanecer na memória do homem.”
Colagens
A edição cuidadosa traz os poemas
impressos em papel-vegetal e as imagens sobre fundo amarelado, uma maneira de
remeter ao tempo passado e ao material desgastado de fotografias antigas. O tom
direto e simples dos versos carrega o leitor para as colagens de Napoleão. Em
Rebrincando, o poeta conta: “Eu brinco hoje/com o menino/que aos poucos/já me
foge./O meu menino/brincava de ser/grande em mim./Hoje eu brinco/de mim
pequeno/comigo,/brinco de ter sido”. Há uma postura melancólica, mas nunca
triste, na maneira como Pereira revisita suas memórias. E, claro, a imagética
da infância aparece em praticamente todos os versos.
Também mineiro, Napoleão começou
a construir as imagens de Reflexos do tempo como um projeto individual durante
oficinas do fotoclube f/508. “Falei para Wilson e ele me sugeriu de fazer as
fotos sobre uns poemas”, conta o fotógrafo. “Peguei principalmente a infância,
o desenvolvimento humano em cima dos poemas, a maturidade. Queria que as fotos
fossem ligadas aos poemas, mas que tivessem vida própria.” Muitos dos versos
falam em espelhos, por isso Nepoleão utilizou reflexos para construir as
fotomontagens. Em algumas imagens, incorporou, inclusive, fotos antigas, de
família, e desenhos infantis feitos pela própria neta. O diálogo entre os
poemas e as imagens ajuda a transportar o leitor para um universo lírico e
lúdico.
Os versos
Além
Por esta terra
não voltas a passar
acabou-se a estrada,
há uma estrela sobre o mar:
nada
ou tens de voar.
Tantos
Eu fui tantos
que a vida esqueceu
muitos de mim
em mins
que ainda sou eu
Pelas ruas do passado
O meu menino
vai-me fugindo
com seu passinho
apressado
pelas ruas antigas
do passado.
Filho da mãe!
Um dia
Eu sempre acordava cedo
para brincar.
Um dia meus brinquedos
se esqueceram
e não foram me acordar.
Levantei um pouco mais tarde
e fui trabalhar.
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