quinta-feira, 7 de março de 2013



A crise das elites em tempos de mudança
Coluna Econômica do Luis Nassif  - www.luisnassif.com.br -  05/03
Há um fenômeno curioso ocorrendo com o país nesses tempos de Internet e de inclusão geral: o envelhecimento generalizado das figuras referenciais, em todos os níveis de Poder.
De um lado, nunca se discutiu tanto o país, nas redes sociais, nos fóruns de Internet, em sites especializados. De outro, poucas vezes se viu um período com tal falta de referencias e com tal dificuldade para o novo assumir seu papel.
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Comecemos pelo Sistema de Justiça. Há muito a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) deixou de ser referência de qualquer coisa, com exceção dos interesses de classe.
Na Magistratura, igualmente, inexistem Estadistas.
As últimas manifestações do STF (Supremo Tribunal Federal) demonstram uma pobreza intelectual acachapante, em qualquer outro campo fora do campo do direito. Diriam: a função do Juiz é conhecer as leis. Na cúpula, tem que ser muito mais. Tem que ter visão refinada de um cientista social, formação humanística ampla para interpretar adequadamente as leis à luz das mudanças ocorridas na sociedade.
No meio jurídico há uma brilhante geração de jovens juristas, professores capacitados, juízes e procuradores com nível intelectual diferenciado. Mas esses ventos novos ainda não encontraram o campo adequado para conquistar visibilidade e ser fator de mudanças.
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No Congresso, nem se diga. Quando os Ministros do Supremo se envolveram em arroubos irresponsáveis contra a instituição, a única voz que se levantou foi do então presidente da Câmara Marcos Maia, corajoso, sim, mas sem a dimensão que se exige dos Estadistas.
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Salta-se dali para os partidos políticos.
Hoje em dia, o PT é um partido pobre em quadros. Alguns anos atrás podia exibir intelectuais de peso, juristas de nomeada, pensadores criativos. Hoje em dia, quem pensa o PT? Os dez anos de conquista do poder poderiam ter ensejado uma profícua discussão sobre os rumos do partido para os próximos dez anos. Nada aconteceu.
As mudanças do PT ocorrem exclusivamente por conta da influência e da visão política de Lula.
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Sem contar com alguém como Lula, o PSDB murcha a cada dia. A única atividade de seu guru, Fernando Henrique Cardoso, consiste em, a cada três meses, relançar a candidatura de Aécio Neves à presidência. O carro não pega. Três meses depois, FHC relança Aécio. E vai para casa descansar, que ninguém é de ferro.
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No campo da mídia ocorre fenômeno semelhante. Até algumas décadas atrás, chefes de redação de grandes jornais, mesmo diretores de sucursais, eram personagens intrínsecos da estrutura de poder do país. Hoje em dia, a militância partidária limita-se a uma campanha recorrente contra tudo o que Lula pode simbolizar, sem um pingo de sofisticação estratégica.
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Na economia real, há tempos não surgem novas lideranças empresariais, nem as centrais sindicais conseguem desenvolver um discurso novo, à altura dos desafios contemporâneos do país.
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São tempos de mudança. E há uma enorme vitalidade represada, um conhecimento acumulado que não consegue espaço nos três canais de expressão tradicionais: partidos políticos, Universidade e mídia.
O novo já nasceu, mas ainda não foi apresentado à Nação.

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Em favor do capitalismo, um outro capitalismo
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Mulgan: não se trata de socialismo, mas de um capitalismo em que o poder do mercado é submetido a fins sociais. Valor Econômico 05.03
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Em termos políticos, os anos transcorridos desde a crise financeira pertenceram à centro-direita. Mesmo a rara vitória socialista na França foi logo seguida por uma moderação da retórica eleitoral. Grandes pontos de vista sobre algum modelo alternativo não encontraram eco, mas é possível ver uma multiplicação de ideias úteis sobre reformas. Na raiz dessas propostas está a admissão de que a "mão invisível" de Adam Smith é capaz de colocar muito no bolso dos acionistas e, em especial, dos altos executivos, mas bem pouco no dos trabalhadores, do público e do governo; e que a ambição louvada por Smith como motor de impulso aos valores sociais é, muitas vezes, apenas o que parece ser.

"The Locust and the Bee", de Geoff Mulgan, traz importante contribuição para a discussão do assunto. Mesmo quando era diretor de políticas de Tony Blair, Mulgan ponderava que não havia motivos para o capitalismo ser visto como o fim da história econômica. Agora, liberado há alguns anos das inibições do governo e atualmente diretor da fundação britânica National Endowment for Science, Technology and the Arts (Nesta), conseguiu traçar um esboço de possibilidades, nas palavras de Marx, para "relações de produção novas e mais elevadas". O objetivo não é o socialismo; Mulgan, marxista na juventude, já trocou de pele. Seu novo livro argumenta a favor de um capitalismo em que o poder do mercado é submetido a fins sociais.

As mudanças seriam radicais, ainda mais porque o capitalismo - "um vasto sistema de extração e pressão, de coisas em perpétuo movimento" - está tanto fora como dentro de nós, o que dá à sua forma atual uma aura de inevitabilidade. Ainda assim, na cúpula das corporações financeiras, o capitalismo está cada vez mais divorciado da economia real. Deixado sozinho, acredita Mulgan, teria sido destruído há muito tempo. O fato de isso não ter acontecido é explicado pelas intervenções que se seguiram às quebras e depressões dos anos 20 e 30, que criaram Estados de bem-estar social e vários ajustes entre capital, trabalho e governo.

Para Mulgan, o capitalismo precisa, e pode, ser algo civilizado. Primeiro, é preciso aceitar que o valor monetário não é um fim por si só, mas um meio para uma vida de cooperação, felicidade, amizade e amor. Ele acredita que "estamos testemunhando a emergência de uma economia assentada mais em relacionamentos do que em commodities; em fazer do que em ter; em preservar do que em produzir". Em um longo capítulo, ele estabelece como podemos "recompensar essas partes do capitalismo que recompensam a sociabilidade", assegurando, por meio da intervenção do Estado e da sociedade civil, um equilíbrio que o sistema não pode atingir por conta própria.

Mulgan se deixa levar por exageros em alguns momentos. Há ecos no livro da distinção feita pelo líder do Partido Trabalhista britânico, Ed Miliband, entre capitalismo "predatório" e capitalismo "produtivo", em discurso de 2011 - diferenciação que, na prática, é difícil de fazer. Ele escreve que "não há razão objetiva" para uma casa em Nova York valer US$ 10 milhões, algo que só se imagina verdadeiro porque "outros estão dispostos a acreditar". Esse valor, no entanto, é baseado no desejo generalizado de possuir essa casa; se o valor não fosse determinado pelo dinheiro, teria de ser por algum decreto autoritário ou pelo uso de força privada baseada na ameaça de violência.

Alguns poucos excessos não enfraquecem este livro generoso. Enquanto a social-democracia está às voltas com o declínio de suas bases - um Estado social bem financiado e poderoso, com sindicatos moderados e políticas econômicas keynesianas previsíveis -, aqui há sinalizações de como se poderia progredir.

O foco de Colin Mayer em "Firm Commitment" é mais centralizado - na corporação empresarial, que ele vê como uma criação notável, mas que deixou de ser um "servidor" para se transformar (com a influência dos governos) em um monstro. "Não é exagero dizer", escreve, "que, por sua negligência, incompetência, ambição ou fraude, as corporações são uma ameaça a nosso meio de vida e ao mundo em que vivemos". E isso vem de um fundador, ex-reitor e hoje professor de estudos de administração da Saïd Business School, de Oxford.

O principal alvo da lúcida análise de Mayer é o curto-prazismo que se acoplou - especialmente - ao comportamento empresarial britânico, graças a regras que dão aos acionistas, sejam os de longo prazo ou os que ficam com os papéis por apenas três dias, os mesmos direitos. Isso, para Mayer é como "se estivéssemos conferindo direito de voto a membros da população que pretendessem renunciar a sua cidadania amanhã". É também um sistema em que aquisições hostis podem facilmente destruir postos de trabalho, mercados e a ética em companhias há muito tempo estabelecidas - como ele descreve no caso da Cadbury, uma empresa fundada por protestantes quakers, comprada pelo conglomerado americano Kraft. Os atuais esforços para corrigir isso não funcionam: as regras existem para serem dribladas, enquanto a responsabilidade s ocial das empresas são um curativo numa ferida gangrenada.

Seu principal antídoto é a "firma confiável", que opera de acordo com três princípios. Primeiro, precisa tornar públicos seus valores e que estes sejam compartilhados por funcionários, clientes e acionistas. Segundo, esses valores são confiados a um conselho ("trustees") que não administra a empresa, mas age em nome dos acionistas. Terceiro, os acionistas de longo prazo devem estar no controle e ter privilégios, por meio da alocação de ações com direito a voto, que seriam negadas aos investidores de curto prazo interessados apenas em lucros rápidos.

Mayer também, por vezes, pode mostrar-se um pouco sonhador: na Alemanha longo-prazista, a Krupp fez várias ofertas hostis, entre as quais uma bem-sucedida pela Hoesch, em 1991, e outra que não foi adiante pela Thyssen, em 1997, embora posteriormente tenha sido alcançado um acordo de fusão. Ele menciona isso; mais recentemente, porém, a ThyssenKrupp, em parte controlada por uma fundação com poder para vetar as decisões da diretoria, foi multada em € 103 milhões por uma autoridade antitruste da Alemanha, por fazer parte de um cartel que buscava manter elevados os preços de trilhos ferroviários. Os horizontes de longo prazo nem sempre estão livres de nuvens e trovoadas.

Mayer, no entanto, não vê apenas uma forma de organizar a economia. Parte de sua explicação para o maior dinamismo dos Estados Unidos é a combinação de modelos. Até sua variante de composição acionária diversificada às vezes é vista como funcionando bem. Mas na prática, e como princípio de aplicação universal, argumenta Mayer, isso está destruindo nossa economia e nossa moralidade empresarial. Apenas com a redescoberta de valores vitorianos de parcimônia e comprometimento é que a instituição central do capitalismo - a corporação - poderá ser salva.

"The Locust and the Bee - Predators and Creators in Capitalism's Future"
Geoff Mulgan. Editora: Princeton Univ. Press. 344 págs., US$ 29,95

"Firm Commitment - Why the Corporation is Failing Us and How to Restore Trust in It"
Colin Mayer. Editora: Oxford Univ. Press. 320 págs., US$ 29,99

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O racismo não está nos olhos de quem vê
Blogueiro negro defende cotas raciais nas universidades até que todos deixem de tratar pretos como representantes de minoria
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Mateus Prado | 01/03/2013 17:22:10  http://ultimosegundo.ig.com.br/




Com a decisão da legalidade, pelo STF, das cotas raciais , as primeiras inscrições de alunos pela lei de cotas nas universidades públicas federais e a possibilidade real de cotas nas universidades públicas de São Paulo amplia-se o debate sobre questões de políticas afirmativas em relação à população afrodescendente. Boa parte deste debate tem sido feito de forma rasa e com boa dose de preconceito e/ou constrangimento em reconhecer as cotas como um direito que trata desiguais de forma desigual.

Leia também: critério de raça tem discrepância maior nas notas de corte de cotistas

Convidei para participar dessa coluna através do texto abaixo, e assim colaborar no debate, o estudante André Rossi Pola Barbosa. André, blogueiro, é negro, filho de mãe solteira, militante do movimento negro e do movimento feminista. Já cursou farmácia em uma universidade particular e depois engenharia mecânica naval na Fundação Universidade do Rio Grande (FURG). Não era o caminho que queria, e hoje se dedica a estudar para conquistar uma vaga em medicina em uma universidade pública, se possível com a nota do Enem. André, por ter estudado o ensino médio em escola particular, não tem direito a concorrer pelas cotas da lei nacional.

Sobre igualdade, racismo e ações afirmativas - pois o racismo não está nos olhos de quem vê

Vivemos na era do politicamente correto. Isso é uma coisa boa, pois desse modo muitas pessoas percebem o quanto as expressões do dia-a-dia estão carregadas de preconceitos e menosprezo com as minorias. Assim, muitos indivíduos que se achavam deslocados do mundo repararam que não estão sozinhos e, disso, inúmeros movimentos se organizaram melhor (ou ganharam mais força) como o das feministas, o dos negros e o dos gays. A fim de melhorar e reivindicar certos direitos que, para eles, não eram garantidos ou não eram respeitados, esses grupos se organizaram e suas reivindicações encontraram grande resistência por parte de reacionários (pessoas que não aceitam mudanças na sociedade e preferem a ordem atual).

Uma dessas reivindicações foi a política de ações afirmativas, para que haja uma maior participação do negro na sociedade. Para isso, recentemente, o governo de São Paulo propôs às universidades estaduais que reservassem 50% das vagas para pretos (nomenclatura oficial para negros e pardos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE) e alunos de escola pública. Por isso, a classe média hoje vocifera palavras de igualdade, dizendo que as cotas vão apenas fomentar o racismo (que ela pensa não existir mais). No entanto, isso é uma falácia e tais ações se fazem necessárias para que justamente se diminua o racismo no Brasil.

A maioria das pessoas contrárias às cotas se indigna por elas tirarem a igualdade entre os cidadãos, porque todos são "iguais perante a lei". Todavia, não sabem da existência de dois tipos de igualdade: a formal e a material. O primeiro tipo de igualdade é a defendida pelos reacionários, de que todos são iguais, mas por meio desse tipo de igualdade os juristas verificaram que as diferenças sociais não deixavam de existir. Por causa disso, foi definida então a segunda igualdade, a material. Nesta, para tornar a sociedade mais igualitária, os mais desiguais serão tratados desigualmente ao pé de suas desigualdades - para que estes possam se tornar mais iguais ante os demais. Por isso foi importante a criminalização da homofobia, foi importante a instituição da lei "Maria da Penha" para combater a violência doméstica e assim também são importantes as cotas raciais e sociais nas universidades públicas.

A sociedade brasileira é a segunda maior sociedade de pretos do mundo, perdendo apenas para a Nigéria. Mas onde eles estão? Pois não constituem a maioria dos engenheiros, dos padres, dos médicos, dos professores, dos fisioterapeutas ou dos advogados. Porém, constituem a maioria em empregos como: auxiliares de obras, garçons, garis, carteiros, jardineiros, etc. Essas profissões não perdem a sua importância para a sociedade como aquelas outras, mas, não obstante, a possibilidade de ascensão social a partir delas é quase nula. O que explica o porquê de negros e pardos ficarem com essas profissões é a nossa história.

Quando se trata de escravidão, no imaginário das pessoas vem à tona a fazenda modelo de José de Alencar. Aquela fazenda cujo retrato ocorre nas novelas de época da Globo, onde o negro fica trabalhando normalmente sem reclamar e o branco vive o papel do protagonista. Contudo, a vida real dessas pessoas não foi assim. Além do trabalho árduo, o negro não passava de um objeto, não era considerado gente, nem portador de alma segundo a igreja na época. Sofria os mais variados tipos de castigos e de insultos, era considerado desleixado e vagabundo. Seu trabalho não era considerado de qualidade, daí vieram expressões como "serviço de preto" e "pretisse". Em 1888, em 13 de Maio, foi assinada a "Lei Áurea", que colocaria um fim à escravidão, com o crescimento da indústria no sudeste e o aparecimento do trabalho assalariado. A partir desses eventos, o negro passaria a ter um modo de vida, então, digno.

No entanto, isso não ocorreu. Por quê? Na época, havia inúmeras teorias racistas e a principal e mais arraigada na mentalidade da população era: negro é um estágio anterior dos brancos, tanto que havia "pesquisadores" empenhados em provar que o negro era menos evoluído. Ninguém conseguiu provar ou demonstrar tais teorias, porém elas contribuíram para o preconceito já existente. Em suma: negro não era gente. Além disso, a "Lei Áurea" apenas retirou o negro da condição de "objeto" e o pôs na sociedade totalmente "cru", sem estudo e nem preparo, portanto não havia condições de eles competirem com os imigrantes europeus e depois japoneses que desembarcavam aos milhares nos portos brasileiros. Os novos imigrantes eram atraídos pela possibilidade de emprego e de enriquecimento. Já para o governo da época, essa foi uma tentativa de "embranquecer" a população, pois uma das teorias então existentes era de que a miscigenação de "raças" (hoje temos clareza que não há outra raça além da humana) era prejudicial para um país e para os seres humanos. Assim o negro foi liberto, mas não garantiram meios para que ele pudesse sobreviver, e tudo isso ocorreu por causa da mentalidade até então existente.

O principal ainda era a ideia de que "preto é vagabundo", "preto não trabalha direito", "preto que não caga na entrada caga na saída" e outras inúmeras expressões e piadas que refletiam a mentalidade desse momento em que o negro entrava na sociedade. Por causa desse pensamento, sempre sobraram aos negros os piores serviços, pois o empregador não queria correr o risco de ter um funcionário "preguiçoso". Já o branco era muito mais trabalhador, tanto que, segundo o professor da Unesp, Dagoberto José Fonseca, surgiu a expressão "amanhã é dia de branco".

Largado às margens da sociedade, o ex-escravo e agora favelado fica a esmo nas grandes cidades, com dificuldade de encontrar emprego por não ter capacidade de competir com os imigrantes. Por estar desempregado e sempre criando o samba, dando risada, seu quadro foi agravado. Foram ratificados os estigmas de "vagabundo", "preguiçoso", "vadio" e, para piorar, eram alvos de piadas que mostravam a superioridade do branco, como: "Como preto sobe na vida? Quando explode o barraco" ou "Por que preto americano é melhor? Porque está nos Estados Unidos". Essas piadas foram transferidas atualmente para o pobre, para o gay. Por isso, atualmente, o politicamente correto se faz necessário para demonstrar que expressões tidas como "inofensivas" são racistas e pregam o preconceito devido a uma carga histórica já existente nelas. Portanto o preconceito, embora disfarçado, ainda persiste na sociedade brasileira por meio de ditados populares e não como dizem que ele está "nos olhos de quem vê", pois em cada expressão há uma origem de extrema discriminação. Atualmente isso ainda é propagado por meio de piadas, em especial.

O riso é, de certo modo, acusador das diferenças sociais. Há pessoas que dão risada das piadas anteriormente citadas, esse riso é o de quem concorda que essa é a atual situação do negro. O efeito humorístico nesse caso é criado pela hipérbole da situação deles nas cidades e, se essa situação não for mais evidente, não haverá mais o riso. Quando não houver mais humor, é porque a mensagem passada é um absurdo para a maioria da população e, então agora, o preto faz parte da maioria da sociedade. Isso evidencia como as cotas raciais são necessárias.

Mas e os brancos pobres? Embora a desigualdade social seja grande no País, o branco pobre tem maior facilidade em arrumar um emprego do que o preto pobre, por causa dos pensamentos anteriormente citados que dominam o subconsciente de pessoas ainda racistas. Tanto que, no início da década de 1990, era comum nos anúncios de emprego a exigência de "boa aparência". Por meio de uma investigação policial, verificou-se que a "boa aparência" era ser branco. Isso evidencia como o racismo ainda existe fortemente no Brasil. Quando houver mais negros e pardos ocupando cargos importantes, a ideia de que ele é "vagabundo", "preguiçoso" e "folgado" deixará de existir.

As cotas não constituem uma forma para acabar com a suposta "igualdade" existente, elas criarão possibilidades para que, no futuro, a sociedade seja mais igualitária. Ela o será quando o negro for colocado em maior evidência, quando for retirado dos empregos considerados menos importantes, quando for afastado dele o estigma de bandido e favelado, quando todos deixarem de rir de piadas racistas e outras insinuações que denigrem a sua imagem. Mas tudo isso leva tempo. Quanto tempo? O tempo até que todos deixarem de falar deles como minorias e passarmos a nos preocupar com a situação do ser humano e não mais da situação do negro.
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segunda-feira, 4 de março de 2013


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CULTURA POPULAR: Do Cordão Para A Literatura de Cordel.
Barbantes esticados e livretes pendurados dão origem à uma literatura do Nordeste rica em rimas e versos é o cordel, que ganhou este nome, pois, em Portugal, eram expostos ao povo amarrados em cordões,
estendidos em pequenas lojas de mercados populares ou até mesmo nas ruas.
http://www.blogpajeudagente.com
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A chegada do cordel no Brasil ocorreu no início da colonização, através dos portugueses. Na segunda
metade do século XIX começaram as impressões de folhetos brasileiros, com características próprias do país.

Os temas incluem desde fatos do cotidiano, episódios históricos, lendas, temas religiosos, entre outros. As façanhas do cangaceiro Lampião (Virgulino Ferreira da Silva, 1900-1938) e o suicídio do presidente Getúlio Vargas (1883-1954) são alguns dos assuntos de cordéis que tiveram maior tiragem no passado. Não há limite para a criação de temas dos folhetos. Praticamente todo e qualquer assunto pode virar cordel nas mãos de um poeta competente.

O estudante de História da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Cid Carlos, é um dos admiradores da literatura. Para ele, os cordéis multiplicam as histórias tanto na ficção quanto na realidade.
“Existe alguns historiadores que explicam o cordel a partir de um cenário brasileiro, como a guerra de Canudos que propiciou a história sobre Antônio Conselheiro que dá um tom heroico para a cultura nordestina de forma rimada e em versos nos cordéis”, afirmou Cid.

No Nordeste, a literatura de cordel é uma produção típica, sobretudo nos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Hoje também se faz presente em outros estados, como Minas Gerais, de Janeiro e São Paulo.

A Feira da Gente, realizada todo domingo na praça Sérgio Pacheco em Uberlândia, é um dos locais na cidade em que encontra-se cordéis para comprar. Cid Carlos é um dos vendedores e afirma que muitas pessoas tem curiosidade em conhecer a obra literária.

“Públicos acadêmicos conhecem mais os cordéis do que as outras pessoas, porém muitas pessoas se surpreendem com a literatura rimada que pode ser encontrada na feira, na revistaria do aeroporto de Uberlândia e na internet, sendo uma oportunidade do pessoal conhecer um pouco da cultura nordestina através dos cordéis”, concluiu..

Um grande exemplo de cordelista é Seu Lunga, um personagem tão folclórico que ninguém acredita sua existência real. Mas, ele existe. Natural de Juazeiro do Norte (CE), local aonde reside até hoje, é muito conhecido pela sua "delicadeza", dizem que ele é um sério candidato a Homem Mais Ignorante do Mundo pelo Guiness Book. Algumas histórias são verídicas, e outras são apenas piadas que fazem alusão a sua ignorância. Confira abaixo, um dos cordéis produzido por ele.

As proezas de Seu Lunga

Seu Lunga é cabra de bem
Porém é muito nervoso
Em perguntas idiotas
O homem perde o gozo
Das faculdades mentais
Vira o próprio satanás
Solta um palavrão trevoso.

Um belo carro de luxo
A famosa limosine
Chegou à concessionária
Tava exposta na vitrine
Lunga disse: --eu quero aquela
Dou até minha costela
Por aquela lamborguine.

O vendedor, à socapa,
Riu do momento bizarro
--Meu senhor, está enganado
Trocou o nome do carro
Lunga, bufando de raiva
Encorporou o Saraiva
Não adimitiu o sarro.

--Olhe aqui fi da broboinca
O automóvel é meu
Vou pagar com minha verba
Se entupa, seu fariseu
Dou o nome que eu quero
Joaquim, Chico ou Homero
Também ponho o de Romeu.

Uma semana depois
Lunga, no estacionamento
Foi saindo com o carro
Até passar por tormento
O alarme disparou
A polícia o abordou
Não teve nem argumento.

Era um carro igual ao dele
Não mudava nem a cor
O modelo, a capota
Pneu e radiador
Calota, marcha e breque
Iguais ao seu calhanbeque
Principalmente o motor.

Lunga tomou providência
Ali, no calor da hora
Pra não mais se confundir
Tirou da bota a espora
Riscou toda a pintura
Disse: --olhe que belezura
Quero ver trocar agora.
Ver Vídeo:
Os Poemas do Seu Lunga

Fonte: Cantigas e Cantos




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O risco das usinas sem reservatórios
O Seminário Brasilianas “Energias Alternativas” trouxe duas visões sobre o setor elétrico.
 www.luisnassif.com.br 27.02

A visão atual foi o sucesso dos leilões de energia e dos programas de energia alternativa. Ao longo dos últimos anos, além do etanol sucessivos programas e os leilões viabilizaram a energia eólica, deram o tiro de partida para a fotovoltaica.

Mas problemas ambientais provocaram uma mudança perigosa na matriz energética, com a perda gradativa da importância  relativa da hidroeletricidade e, mais que isso, dos reservatórios das usinas, trazendo um aumento de risco complicado.

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Esse alerta foi feito por Hermes Chipp, presidente do Operador Nacional do Sistema Elétrico e pelo professor Nivalde de Castro, do Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

O reservatório é como um armazenador de energia. No período chuvoso, parte da água é armazenada e serve para gerar eletricidade no período de seca.

Com essa segurança, a energia alternativa era utilizada em curtos períodos, quando o nível dos reservatórios baixava além de determinado limite.

Alguns anos atrás, o nível dos reservatórios garantia até dois anos de seca. Foi caindo. Com as novas hidrelétricas sendo construídas todas a fio d’água (sem reservatório), em 2013 os reservatórios garantirão 5,4 meses; em 2017, 4,3; em 2020, 3,5 meses.

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Essa involução cria fatores complicados de segurança. Há que se proceder a mudanças substanciais no modelo elétrico e na compra de energia.

O primeiro fator relevante é a questão da segurança energética – ou seja, garantir que não faltará energia. Por exemplo, hoje em dia em nome da sustentabilidade, montou-se um modelo que impede a formação de reservatórios. Como lembra Chipp, o modelo peca pela base. Sem os reservatórios, quando falta energia são despachadas as térmicas, movidas a óleo ou carvão.

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A existência de reservatórios é fundamental inclusive para viabilizar a alternativa. Por exemplo,  prevê-se uma expansão substantiva da energia eólica – energia limpa, sustentável. Só que a energia eólica não é perene. Há períodos de pouco vento. Portanto, quanto maior a produção de eólica, maior a necessidade da energia de reserva. Sem essa reserva, se terá que recorrer a energias garantidas. E aí se cai nas termoelétricas a carvão e diesel.

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Outro ponto relevante é mudar o critério de análise de preço. Hoje em dia, os leilões de energia levam em conta apenas o custo da geração – leva quem apresentar o preço mais baixo.

Ora, o custo final de uma determinada energia é a soma do custo de geração, mais o de transmissão e o de distribuição. Se uma usina é levantada em local distante, o custo de transmissão acaba fazendo com que chegue mais cara no consumidor final do que o de outra usina levantada em local mais próximo. Ou então ocorre de usinas construídas e desligadas do sistema por problemas de transmissão – que enfrentam problemas com diversas instâncias ambientais, com Ministério Público etc.

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Diz Chipp que os leilões precisam definir previamente a quantidade de cada tipo de energia que se pretende, a região a ser implantada, o custo final para o consumidor.

Mais que isso: é necessário rediscutir a questão dos reservatórios.


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Os caminhos da economia em 2013
Para entender os desafios atuais da economia. Coluna Econômica - www.luisnassif.com.br 28.02

O ciclo do desenvolvimento consiste nas seguintes etapas:

Formação da demanda, através do fortalecimento do mercado interno e das exportações.
Fortalecimento da produção interna, para atender à demanda.
O aumento da produção interna gera mais investimentos, que geram mais empregos, que fortalecem mais o mercado interno, completando-se o círculo virtuoso.

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Por enquanto há dificuldades em completar o segundo ciclo, apesar dos avanços da redução dos juros e melhoria do câmbio.

O fato do fator 2 não ter se completado faz com que todo aumento de demanda de produtos comercializáveis (aqueles negociados no mercado internacional) seja atendido pelas importações, gerando uma pressão nas contas correntes brasileiras.

No ano passado, o consumo de industrializados cresceu mais de 8%; a produção caiu 2,8%. No setor químico, o consumo aparente tem crescido 7,1% ao ano desde 2007. E a produção continua no mesmo patamar. Em cinco anos, houve estagnação interna, enquanto o aumento de consumo foi totalmente absorvido pelas importações.

A indústria química fechou 2012 com um déficit de US$ 28,1 bilhões. Em 2013, o buraco será maior. Apenas em janeiro o déficit em conta corrente foi de US$ 11 bilhões.

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As reservas internacionais permitem empurrar algum tempo com a barriga. Mas esse desequilíbrio terá que ser desmontado em algum momento, sob pena de uma crise futura nas contas externas.

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Trata-se de uma equação complexa. Os salários melhoraram, o emprego melhorou e existe mais crédito disponível para consumo. Como a produção interna não atende a essa demanda, há um aumento dos preços de serviço e de moradia e uma pressão nas contas externas.


Este é nó central. Para ser desarmado, exigiria um reajuste muito mais acentuado do câmbio. Mas aí se esbarra na outra perna da equação: os efeitos sobre a inflação e sobre a renda.

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No ano passado, procedeu-se a uma corajosa desvalorização cambial de cerca de 30%. Mas não se resolveu o problema da competitividade interna.

Além disso, o discurso desconexo do Ministro da Fazenda Guido Mantega lançou uma nuvem de imprevisibilidade sobre os agentes econômicos. Somado ao aumento dos preços de alimentos, provocou essa alta da inflação no final do ano passado e início deste ano.

Grandes fabricantes – como Nestlé, Gessy Lever, Procter & Gamble, conseguiram emplacar reajustes médios de 10% nos atacadistas. Esses reajustes concentraram-se no setor alimentício.

Pode-se tratar o problema com antibiótico ou antigripal. O antibiótico seriam medidas duras na área de crédito, com impacto sobre o consumo – e sobre o PIB. Não é o caso ainda.

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Tem-se um desafio imediato, que consiste em desarmar as expectativas inflacionarias, trabalho que vem sendo conduzido pelo discurso mais sólido do presidente do Banco Central Alexandre Tombini. O recuo recente dos preços de alimentos ajudará nessa empreitada.

Para compensar o câmbio apreciado, o governo vem procedendo a uma série de desonerações tributárias. Mas ainda se mostram insuficientes.

De qualquer modo, a estratégia está montada. Os próximos meses indicarão se foi bem sucedida ou exigirá dosagens maiores.
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A política de cotas ganhou mais uma (Elio Gaspari, jornalista)

Na essência da política de cotas há um aspecto que exaspera seus adversários: um estudante que vai para o vestibular sem qualquer incentivo de ações afirmativas tira uma nota maior que o cotista e perde a vaga na universidade pública. Quem combate esse conceito em termos absolutos é contra a existência das cotas, cuja legalidade foi atestada pela unanimidade do Supremo Tribunal Federal e aprovada pelo Congresso Nacional (com um só discurso contra, no Senado). É direito de cada um ficar na sua posição, minoritária também nas pesquisas de opinião.
FOLHA SP 27.02
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Uma coisa é defender as cotas quando a distância é pequena, bem outra seria admitir que um estudante que faz 700 pontos na prova deve perder a vaga para outro que conseguiu apenas 400. O que é diferença pequena? Sabe-se lá, mas 300 pontos seria um absurdo.

Os adversários das cotas previam o fim do mundo se elas entrassem em vigor. Os cotistas não acompanhariam os cursos, degradariam os currículos e fugiriam das universidades. Puro catastrofismo teórico. Passaram-se dez anos, e Ícaro Luís Vidal, o primeiro cotista negro da Faculdade de Medicina da Federal da Bahia, formou-se no ano passado e nada disso aconteceu. Havia ainda também as almas apocalípticas: as cotas estimulariam o ódio racial. Esse estava só na cabeça de alguns críticos, herdeiros de um pensamento que, no século 19, temia o caos social como consequência da Abolição.

Mesmo assim, restava a distância entre o beneficiado e o barrado. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais divulgou uma pesquisa que foi buscar esses números no banco de dados do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Neste ano, as cotas beneficiaram 36 mil estudantes. Pode-se estimar que em 95% dos casos a distância entre a pior nota do cotista admitido e a maior nota do barrado está em torno de 100 pontos. Em 32 cursos de medicina (repetindo, medicina) a distância foi de 25,9 pontos (787,56 contra 761,67 dos cotistas).

O Inep listou as vinte faculdades onde ocorreram as maiores distancias. Num caso extremo deu-se uma variação de 272 pontos e beneficiou uns poucos cotistas indígenas no curso de história da Federal do Maranhão. O segundo colocado foi o curso de engenharia elétrica da Federal do Paraná, com 181 pontos de diferença. A distância diminui, até que, no 20º caso, do curso de ciências agrícolas de Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Federal do Rio Grande do Sul, ela ficou em 128 pontos.

Pesquisas futuras explicarão como funcionava esse gargalo, pois se a distância girava em torno de 100 pontos, os candidatos negros e pobres chegavam à pequena área, mas não conseguiam marcar o gol. É possível que a simples discussão das ações afirmativas tenha elevado a autoestima de jovens que não entravam no jogo porque achavam que universidade pública não era coisa para eles. Neste ano, 864.830 candidatos (44,35%) buscaram o amparo das cotas.

A política de cotas ocupou 12,5% das vagas. Num chute, pode-se supor que estejam em torno de mil os cotistas que conseguiram entrar para a universidade com mais de cem pontos abaixo do barrado, o que vem a ser um resultado surpreendente e razoável. O fim do mundo era coisa para inglês ver.

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AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA »
Cortiço ontem e hoje
affonsors@uol.com.br
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Em meio a tantos centenários de nascimento (Graciliano Ramos, Rubem Braga, Vinicius de Moraes, etc.), é bom lembrar que, neste ano, é o centenário de morte de Aluísio Azevedo.  CORREIO BSB 04.02
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Maranhense, irmão de Arthur Azevedo, ele morreu em Buenos Aires em 1913.

Ainda hoje qualquer pessoa lê O cortiço com certa volúpia. Nas escolas, quando o professor pensa num texto capaz de suscitar interesse dos adolescentes tão ligados em iPods e computadores, surge logo aquele livro, que já virou filme, novela, teatro, história em quadrinhos, etc.

Encantado com sua vida e obra, pensei em fazer a tese de doutoramento sobre ele, antes de decidir pela obra de Drummond. Li tudo o que podia sobre ele, como aquela boa biografia escrita por Raimundo de Menezes publicada em 1957, centenário de nascimento de Aluísio. E fiz posteriormente uma análise de O cortiço, que causou polêmica e foi reeditada agora em Análise estrutural de romances brasileiros (Ed.Unesp).

As universidades e as academias deveriam aproveitar a data e reestudar sua obra. Está ali a sociedade brasileira de ontem e de hoje. Está ali germe do que seriam as “comunidades” atuais, que passaram ser (no Rio) Unidades de Política Pacificadora. Por que não fazem seminários comparando os cortiços daquele tempo, as favelas de ontem e as comunidades de hoje? Chamassem urbanistas, sociólogos, políticos, escritores, historiadores para rediscutir o Brasil a partir do que Aluísio espetacularmente flagrou em sua época.

Moro do lado de uma ex-favela e/ou comunidade no Rio. Quantas vezes, passando ali em frente, me ocorreu estar lendo/vendo cenas descritas por Aluísio há 150 anos. Agora, as coisas estão mais calmas. Não tem mais tiroteio. Mas a realidade da periferia das grandes cidades brasileiras (e latino-americanas) continua inscrita nas observações daquele romancista. Pensando continentalmente, já que ele morou em La Plata (Argentina), quem viu o filme argentino Elefante branco teve a sensação de estar revendo o Brasil de Cidade de Deus ou de Tropa de elite.

Há na vida de Aluísio coisas intrigantes. Não só o escândalo do romance O mulato. Sabe-se que era caricaturista, havia estudado artes plásticas e fazia desenho de seus personagens antes de descrevê-los. Mudou-se para a frente de uma favela para desenhar realisticamente seus tipos. Mas vivendo de escrever romances durante 16 anos, o que era uma proeza já no século 19 no Brasil, quando conseguiu um posto diplomático, perdeu em parte a motivação para escrever. Viveu na Espanha, Inglaterra, Uruguai, Paraguai, Argentina e Japão.

Me lembro de ter examinado na França, em 1982, uma tese em que havia trechos do livro que escreveu sobre o Japão e, posteriormente no Rio, de ter visitado, em Botafogo, um de seus sobrinhos de nome Aluísio que tinha alguns documentos do escritor.

Quando morava no exterior, o editor Garnier lhe pagou uma bolada por sua obra; pensava receber o dinheiro, mas seu amigo Graça Aranha, que era seu procurador, comprou um terreno para ele em Copacabana. Aluísio ficou decepcionado. É uma história meio confusa. Mas Valentin Magalhães, ressaltando que Aluísio ganhava o pão com literatura, assinalava ironicamente que “as letras brasileiras ainda não dão para a manteiga”.

Há exceções, claro.



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INCENTIVO FISCAL
Lei Rouanet é ferramenta relevante para cultura
Por Cristiane Olivieri, advogada da empresa Oliveiri & Signorelli.
Revista Consultor Jurídico 28/02

As notícias, quase sempre bombásticas, sobre o uso e a ideia de uso indevido dos recursos da Lei Rouanet geram, normalmente, indignação da sociedade.  Revista Consultor Jurídico, 28/02
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Notícias como a do blog da cantora Maria Bethânia vendem a necessidade de mudanças urgentes. Mas, com certeza, não será com uma decisão imperativa do governo, parcial porque essencialmente política, que alcançaremos essa melhora. Revista Consultor Jurídico, 28 de fevereiro de 2013
http://www.conjur.com.br/2013-fev-28/cristiane-olivieri-lei-rouanet-ferramenta-relevante-cultura
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Hoje, cada projeto é analisado por um parecerista técnico, e aprovado por um conselho formado por representantes da sociedade civil e do governo. A análise não é de mérito, mas sobre a adequação à lei e a viabilidade financeira. Em qualquer processo de seleção é inevitável que sejam contemplados projetos não unânimes, toscos, ou até mesmo discutíveis.

Mas a excelência, não só da arte, não se faz com a aplicação de fundos em projetos perfeitos (quem os definiria, afinal!?). É um investimento de risco.  A cultura é a medida e o espelho de uma sociedade, e se constroi pela contribuição de todos, da inclusão dos unânimes e dos estranhos, da aceitação do oposto. Não podemos mediar as escolhas pelo ponto de vista de uma classe, de um segmento, ou de um governante de plantão.

O governo é feito de pessoas, com visão de mundo, apoiadores, parceiros e oponentes. É parcial porque tem objetivos políticos. Não pode ser colocado acima do bem e do mal. Na verdade, a história mostra que os governantes, geralmente, criam balcões para os amigos do rei. O processo de seleção existente é muito mais eficiente que decisões governamentais, com viés político partidário.

A mesma lei que aprovou o blog de Maria Bethânia aprovou também diversos projetos de formação de artistas, de inclusão de crianças e jovens pela arte, de institutos e programas culturais gratuitos, de preservação de patrimônio etc. Cada um de nós terá razões para apoiar ou contestar essas decisões, mas não cabe ao processo de seleção excluir uma proposta de vídeos de poesias, disponibilizados online, gratuitamente, apenas porque envolve profissionais reconhecidos. Seria preconceito. Cabe, sim, uma análise orçamentária, e a garantia da distribuição democrática de seu resultado.

É importante também acrescentar que a discussão sobre projetos beneficiados é praticamente exclusiva da cultura. A maioria dos benefícios fiscais praticados pelo governo federal sequer tem processo de análise. São todos concedidos em atacado, como a redução dos impostos sobre venda de veículos, ou de eletrodomésticos da linha branca.  Mas, para esporte e cultura implantou-se a análise do varejo. E é bom frisar que, em 2009, a renúncia fiscal total para cultura representou 1,26% de todas as renúncias, enquanto que os setores de comércio e serviços ficaram com 30,7%, e a indústria, 19,89% (ou seja, 50,68% do total). E ninguém discute a pertinência ou a aplicação individual desses recursos pelo governo, os quais são muito mais robustos e suscetíveis a lobby.

A Lei Rouanet é ferramenta relevante para a produção cultural e para o público, que pode ter acesso às mais diversas produções, gratuitamente ou com preços populares, conforme as novas regras implantadas. E tem selecionado projetos relevantes. O governo já fiscaliza o processo geral. Não haveria nenhum ganho para a sociedade em conferir-lhe também o poder de escolha.

Cristiane Olivieri advogada da empresa Oliveiri & Signorelli


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CULTURA POPULAR: Do Cordão Para A Literatura de Cordel.
Barbantes esticados e livretes pendurados dão origem à uma literatura do Nordeste rica em rimas e versos é o cordel, que ganhou este nome, pois, em Portugal, eram expostos ao povo amarrados em cordões,
estendidos em pequenas lojas de mercados populares ou até mesmo nas ruas.
http://www.blogpajeudagente.com
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O risco das usinas sem reservatórios
O Seminário Brasilianas “Energias Alternativas” trouxe duas visões sobre o setor elétrico.
 www.luisnassif.com.br 27.02

A política de cotas ganhou mais uma (Elio Gaspari, jornalista)

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA »
Cortiço ontem e hoje
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Em meio a tantos centenários de nascimento (Graciliano Ramos, Rubem Braga, Vinicius de Moraes, etc.), é bom lembrar que, neste ano, é o centenário de morte de Aluísio Azevedo.  CORREIO BSB 04.02

INCENTIVO FISCAL
Lei Rouanet é ferramenta relevante para cultura
Por Cristiane Olivieri, advogada da empresa Oliveiri & Signorelli.
Revista Consultor Jurídico 28/02
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Produção literária
LUIZ AUGUSTO SAMPAIO,  da Academia Goiana de Letras

Conheço vários cidadãos que possuem “veleidades literárias”, mas que, ainda, não resolveram publicar seus textos. Muitos esperam pela chamada “maturidade intelectual”. DIÁRIO DA MANHÃ 02.03
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Não se arriscam a debutar no universo literário. A literatura brasileira, exemplificando, está cheia de autores precoces e de maduros, que não ficam a esperar o "enferrujamento" de boas ideias. Tenho dado conselhos a muitos deles para que publiquem o que se acha armazenado no cérebro. Dou, agora, apenas exemplos de pessoas que publicaram livros precocemente. Álvares de Azevedo, poeta romântico, morreu aos 21 anos, vítima de um tumor na região da bacia. Antes, porém, produziu centenas de páginas de poesias e prosas, que se acham entre as mais importantes do romantismo brasileiro. Poderia citar muitos outros autores precoces. Outro, Castro Alves, que encontrou o caminho literário e faleceu aos 24 anos, e, também, Rachel de Queirós, que escreveu O Quinze, com 19 anos; Clarice Lispector, nos deu Perto do Coração Selvagem, obra de uma maturidade extraordinária, escrita antes dos 20 anos; Ferreira Gullar, que até hoje brilha no cenário pátrio, disse certa vez: “se eu tivesse começado mais tarde, minha poesia seria muito mais pobre”. Há, entretanto, escritores que escreveram já mais idosos. Um exemplo é Pedro Nava, conceituado médico, que só começou a publicar para valer depois dos 40. Entre os estrangeiros, posso citar o português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura em 1998, que teve seu livro Ensaio sobre a Cegueira adaptado para o cinema e lançado em 2008, produzido no Japão, Brasil, Uruguai e Canadá. Este é um caso típico, pois sobredito romance importante saiu quando ele já possuía 54 anos. E você leitor, o que está esperando? Escreva e procure os meios necessários para dar à luz seu primeiro livro. Assim, o espero. Navegar é preciso enquanto é tempo.

(Luiz Augusto Sampaio,

da Academia Goiana de Letras



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CORREIO BSB 28.02



LITERATURA »
Poesias na porteira
O premiado escritor Wilson Pereira se une ao fotógrafo Antonio Nepomuceno para uma viagem lírica no livro Reflexos do tempo, que junta imagens e palavras de um tempo de delicadeza
Reflexos do tempo
De Wilson Pereira e Antonio Nepomuceno. Edição de autor, 84 páginas. R$ 40.
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A infância está guardada em um local seguro e confortável na memória do poeta Wilson Pereira. Nesse lugar mora um menino crescido em fazenda, soltinho e travesso, feliz da vida, um garoto que o poeta resolveu moldar em forma de versos. Reflexos do tempo, que tem lançamento marcado para hoje no restaurante Vila Madá (Deck Norte), nasceu de uma parceria com o fotógrafo Antonio Nepomuceno e propõe uma visita cheia de ternura a um passado de contornos familiares aos dois autores. Napoleão também é menino de fazenda, de porteira larga e horizontes a perder de vista. “Escrevo muito sobre a infância”, avisa Pereira, mineiro de Coromandel ,e autor de uma vasta bibliografia de literatura infantojuvenil. “Até os 12 anos vivi na fazenda e esse período ficou muito marcado na lembrança.”

As perdas do pai e de um irmão ainda em tenra idade fizeram Pereira constatar muito cedo a efemeridade da vida e a presença incontornável da morte. Mais tarde, o poeta entenderia por que o francês Paul Valéry insistia na ideia de que a “infância é a pátria da poesia”. “A infância é uma recorrência entre os poetas e tenho isso muito forte em mim: um menino que, de certa forma, não cresceu, mas não é um Michael Jackson ou um Peter Pan. É um menino que sobrevive no homem, um menino que luta contra o tempo para permanecer na memória do homem.”

Colagens
A edição cuidadosa traz os poemas impressos em papel-vegetal e as imagens sobre fundo amarelado, uma maneira de remeter ao tempo passado e ao material desgastado de fotografias antigas. O tom direto e simples dos versos carrega o leitor para as colagens de Napoleão. Em Rebrincando, o poeta conta: “Eu brinco hoje/com o menino/que aos poucos/já me foge./O meu menino/brincava de ser/grande em mim./Hoje eu brinco/de mim pequeno/comigo,/brinco de ter sido”. Há uma postura melancólica, mas nunca triste, na maneira como Pereira revisita suas memórias. E, claro, a imagética da infância aparece em praticamente todos os versos.

Também mineiro, Napoleão começou a construir as imagens de Reflexos do tempo como um projeto individual durante oficinas do fotoclube f/508. “Falei para Wilson e ele me sugeriu de fazer as fotos sobre uns poemas”, conta o fotógrafo. “Peguei principalmente a infância, o desenvolvimento humano em cima dos poemas, a maturidade. Queria que as fotos fossem ligadas aos poemas, mas que tivessem vida própria.” Muitos dos versos falam em espelhos, por isso Nepoleão utilizou reflexos para construir as fotomontagens. Em algumas imagens, incorporou, inclusive, fotos antigas, de família, e desenhos infantis feitos pela própria neta. O diálogo entre os poemas e as imagens ajuda a transportar o leitor para um universo lírico e lúdico.


Os versos

Além
Por esta terra
não voltas a passar

acabou-se a estrada,

há uma estrela sobre o mar:

nada
ou tens de voar.

Tantos
Eu fui tantos
que a vida esqueceu
muitos de mim
em mins
que ainda sou eu

Pelas ruas do passado
O meu menino
vai-me fugindo
com seu passinho
apressado
pelas ruas antigas
do passado.

Filho da mãe!

Um dia
Eu sempre acordava cedo
para brincar.

Um dia meus brinquedos
se esqueceram
e não foram me acordar.

Levantei um pouco mais tarde
e fui trabalhar.