domingo, 4 de março de 2012
Literatura engajada. Ganhador do Nobel de Literatura, o nigeriano Wole
Soyinka é o grande nome da 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em abril.
Militância política e luta pelos excluídos se misturam em sua obra Correio BSB 04/03
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Wole
Soyinka foi o primeiro e único africano negro a ganhar o Prêmio Nobel de
Literatura. Aconteceu em 1986, e somente em 1986. Desde então, não houve outro
representante da literatura da África Negra na lista de laureados. Até hoje,
Soyinka acredita que o prêmio foi mais importante para o resto do mundo do que
para ele mesmo. Poeta, dramaturgo, militante e ex-guerrilheiro, o autor é
conhecido como ativista político engajado em causas humanitárias e históricas.
Soyinka lutou durante a guerra civil que sucedeu a independência da Nigéria,
viu desfilar inúmeros governos militares, foi preso e nunca deixou da
transportar para seus escritos, especialmente as peças de teatro, situações
políticas relativas à história da terra natal.
Soyinka
vai precisar contar tudo isso aos brasilienses em abril. O autor é um dos
convidados da 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, de 14 a 23 de abril, e
nunca foi traduzido por aqui. A Nigéria é berço de alguns dos melhores autores
da África negra de língua inglesa. Pátria de Chimamanda Adichie e Chinua
Achebe, ambos traduzidos para o português, produz uma literatura ancorada na
tentativa de mesclar a tradição oral épica das grandes histórias africanas à
narrativa contemporânea focada nos conflitos do continente nos séculos 20 e 21.
Aos 78 anos, Soyinka defende a autenticidade de uma literatura que nem sempre
circula à vontade pelo planeta.
Pragmatismo
O
escritor mora em Abeokuta, cidade de menos de 1 milhão de habitantes no oeste
da Nigéria, mas passa partes do ano em Los Angeles, onde dá aulas em uma
universidade. Deixou os Estados Unidos há oito anos, mas manteve os
compromissos acadêmicos. Soyinka é muito pragmático quanto ao futuro da
Nigéria. O país enfrenta onda terrorista provocada por extremistas islâmicos do
grupo Boko Haram. Em 2011, esses radicais foram responsáveis por mais de 400
mortes em atentados na região norte do país. Durante muitos anos, a maioria
muçulmana e a minoria cristã conviveram harmonicamente, mas o fundamentalismo
que se espalha do Oriente Médio à África fez estragos na última década e
movimentos separatistas assombram a Nigéria, também machucada por sucessivas
ditaduras.
Soyinka
sempre fez questão de se pronunciar sobre essas situações e chegou a escrever
peças, como King Baabu, para satirizar o autoritarismo das ditaduras africanas.
Também publicou livros de ensaios sobre a literatura do continente que viraram
referência para quem estuda o tema. Myth, litterature and the african world,
Art, dialoque and outrage: essays on litterature and culture e The open sore of
a continent são bons pontos de partida para entender o pensamento do escritor.
Do Brasil, ele conhece a Bahia e Brasília. Soyinka visitou a capital há duas
décadas. Na época, achou a cidade “pouco orgânica”. Pelo telefone, ele
conversou com o Correio sobre o engajamento político como escritor e os
problemas atuais da Nigéria.
A
Nigéria está passando por situação complicada. Como o senhor avalia os recentes
atentados?
A
situação está realmente muito desoladora. O que está acontecendo é que estamos
nos aproximando do vírus do extremismo religioso que infectou outras partes do
mundo. O que acontece na Nigéria é que os políticos estão sendo manipulados
pelas fontes que contestam o poder.
Seria
algo próximo de uma guerra civil religiosa?
Não,
de maneira alguma. O que está acontecendo é que alguns políticos utilizam como
base de sustentação do poder soldados religiosos fanáticos. E a agenda desses
políticos é bem diferente da visão desses terroristas que eles estão utilizando.
Os terroristas estão, obviamente, motivados por uma visão religiosa extremista
muito estreita e perigosa de uma sociedade islâmica. Antes disso tudo
acontecer, a Nigéria já estava em situação difícil, com muitos muçulmanos sendo
mortos no país. Temos cidades predominantemente muçulmanas, como Kano, e eles
estão sendo violentamente atacados e bombardeados. E há, definitivamente, uma
contestação intraislâmica acontecendo entre diferentes escolas do Islã. Não é
uma guerra civil religiosa, é muito mais uma guerra política na qual alguns
políticos estão usando a religião como instrumento. E, o que é pior, agora eles
descobriram que os terroristas que estão lutando contra eles porque acham que
eles não são muçulmanos puros o suficiente. É uma situação muito complexa e não
tem muito a ver com os conflitos religiosos de outras sociedades.
O
senhor acha que isso vai piorar? Como vê o futuro?
Sou
muito pragmático. Sei muito bem que as pessoas sucumbem à força de um
extremismo quando a sociedade está desintegrada e é isso que acontece na
Nigéria. Eles não têm escolha e não têm uma luz no fim do túnel. Se eu vejo
essa luz ou não, não é importante, o importante é que, para criar essa luz no
fim do túnel, a cegueira precisa ser derrubada por uma nuvem branca que cruze a
paisagem e traga educação, cultura, e até uma resposta militante, se
necessário, para garantir uma vida comum.
A
colonização africana tem algo a ver com isso?
Se
você está falando da criação artificial e forçada de estados nações com
elementos culturais muito diferentes que foram obrigados a ficar juntos, claro,
olhando desse ponto de vista isso tudo que acontece hoje é uma consequência da
política colonial. Mas o que está acontecendo hoje na Nigéria é largamente uma
contestação do controle de uma nação por diferentes setores. E estamos falando
de setores que lideram a corrupção, estamos falando dos efeitos de uma economia
baseada na circulação do petróleo, o que faz o poder ser muito mais lucrativo e
atrativo do que em outras nações. É uma situação muito complexa. Mas é claro
que a imposição colonial está na origem dos problemas.
Acha
que seria possível a África negra passar por algo como uma Primavera Árabe?
As
pessoas falam da Primavera Árabe e não há dúvida do efeito desse despertar de
pessoas que estiveram durante muito tempo mergulhadas em uma longa tradição de
controle feudal de ditaduras seculares, de esquecimento de direitos humanos,
esse despertar de uma sociedade incrivelmente anômala, da manipulação do poder
por uma minoria, então sim, essa consciência inclui os países africanos.
Desde
que o senhor ganhou o Nobel, nenhum outro autor da África negra ganhou o
prêmio. Acha que olhamos pouco para a cultura e para a literatura africana?
Eu
não acho que o Nobel deveria ser um objetivo, ou um selo da riqueza literária
ou da arte de uma sociedade. Há uma infinidade de autores maravilhosos na lista
do Nobel, autores de todos os lugares e todos os continentes. A África tem um
excelente material de diversos autores contemporâneos.
Como
a literatura pode falar pela África?
Simplesmente
sendo verdadeira, recuperando a história, contestando os valores externos que
se tem da África, sendo genuinamente fiel ao dar ao mundo um ponto de vista
africano.
O
que seria uma narrativa africana?
Se
você for na tradição oral encontra muitas narrativas épicas que não estão
contaminadas, como o griô tradicional. São narrativas que não estão distorcidas
por narrativas ocidentais porque elas vêm de uma longa tradição passada de
família para família. Se você partir daí, há autores como Mazisi Kunene que
contam a autêntica história dos zulus, por exemplo. São autores que adotam essa
metodologia: não repetem o que os griôs fizeram ao longo dos séculos, mas
escrevem selecionadamente sobre parte desse material voltados para a vida
contemporânea. São narrativas com o mesmo aspecto interior da tradição, mas
levando em conta as distorções do mundo externo. Isso seria uma narrativa
autêntica africana. Ela não ignora o contato com o mundo real africano, não
ignora o fato de a África não ter permanecido em um estágio de não contaminação
do discurso, mas leva em conta a vida real e atual dos africanos.
O
senhor tem uma longa história de militância pelos direitos humanos. É uma
causa?
É
uma maneira de defender minha perspectiva do mundo. Não reconhecer o fato de
que a humanidade nasceu com direitos é reduzir os homens a animais. Uma minoria
muito pequena, a minoria que depende da perda de direitos humanos, reina
suprema sobre seres humanos ditando para eles condições de animais domésticos.
A falta de respeito aos direitos humanos reduz a humanidade a uma condição
subumana. Para mim, é difícil não assumir um compromisso em relação a isso, não
posso entender que direitos humanos sejam circunscritos, mesmo quando se trata
de tradições seculares.
>>>
Affonso
Romano de Sant'Anna
"Não
existe o 'personal' para tudo? Tenha uma pessoa para buscar o seu livro como um
infatigável cão de caça" . Como comprar um livro >> www.affonsoromano.com.br
O POPULAR/GO 04.03
-
Tenho
em casa um livro intitulado Como ler um livro. Parece piada, mas é um livro
sério. Os autores são dois americanos (Mortinmer e Van Doren). Foi publicado
nos anos 1940. É um livro prático, bem americano. No fim, há até uma lista de
obras a serem lidas e sugestões de trabalho. Terminada a leitura, você se
convence de que o título do livro era muito apropriado, porque mesmo a maioria
das pessoas que sabe ler não sabe como ler um livro.
Há
tempos que penso em escrever algo em torno de “Como comprar um livro”. Parece
também um título de brincadeira. A primeira e instintiva resposta é: “Uai!
Basta ter algum dinheiro entrar na livraria e pronto”.
Antes
fosse. Vejamos. Suponhamos que você tenha o tal dinheiro para adquirir o livro.
(Embora ter dinheiro pareça natural para alguns, para a imensa maioria dos
brasileiros isso ainda é um problema.) Mas suponhamos que, tendo dinheiro, você
pertença à minoria dos que leem livros. (Até hoje não se sabe ao certo se os
que compram livros no Brasil são 10 ou apenas 1 milhão de pessoas entre os 200
milhões.) Mas digamos que você, leitor de jornal, queira comprar um livro. Aí
tem duas alternativas: ou vai a uma livraria ou procura na internet. Se você
pretende ir a uma livraria, vai ter alguns problemas. Se mora num bairro com
várias livrarias, é, em princípio, uma pessoa de sorte. Se mora alhures, a
coisa complica. Quando muito, terá alguma papelaria, não livraria. Se vive no
interior, aí complicou de vez. A maioria das cidades brasileiras não tem livrarias.
Há cerca de 6 mil municípios e temos só umas 3 mil livrarias, a maioria
concentrada em certos bairros das grandes capitais.
Mas
suponhamos que você tenha a sorte de entrar numa livraria. As maiores têm bares
e restaurantes para atrair a clientela. Mas você está lá para comprar livro,
não é? Você leu no jornal que o livro tal foi lançado. Mas como os jornais
concorrem uns com os outros na pressa das notícias, o livro ainda não chegou à
livraria. Se o livreiro for atento, pode anotar seu endereço e lhe avisar. Se
você não for obsessivo, vai comer um sanduíche e esquecer o livro.
Se
o livro que procura saiu há algum tempo, o atendente na maioria das vezes vai
ao computador verificar. Metade das vezes ele diz que o livro está esgotado ou
apenas no estoque. Isso nem sempre é verdade. Você pensa: depois eu volto. E
não volta. Perdeu-se uma venda.
Portanto,
sugiro: você tem que ter um livreiro de confiança como antigamente se tinha o
contrabandista que lhe fornecia uísque. Não existe o “personal” para tudo?
Tenha uma pessoa para buscar o seu livro como um infatigável cão de caça. As
livrarias mais inteligentes têm que criar um serviço de entrega a domicílio,
como pizzarias fazem com a pizza.
Mas
você, contemporâneo da informática, mora no interior e resolve usar a internet.
Todo mundo diz que é fácil, maravilhoso. Não é bem assim. Pode tentar na “Cultura”,
na “Saraiva”. Mas a coisa mais complicada é comprar na “Estante Virtual”.
Tentei várias vezes e desisti. Cheguei até a localizar o endereço da livraria
no interior de São Paulo para encomendar diretamente o livro. Ou seja, comprar
ingresso de cinema e teatro é fácil. É mais fácil até comprar os livros na
“Amazon”, no exterior.
Outra
alternativa é “baixar” o livro no seu Ipad. Mas isso funciona melhor para os
livros estrangeiros, a lista de livros nacionais é pequena e, em geral, você
tem que ser uma fera em informática, quase um engenheiro da Nasa, para ter
êxito nessa operação de “baixar” algo.
Daqui
a 10 anos, quando alguém ler esse artigo, vai se espantar, porque tudo será
diferente. Melhor? Pior? Imprevisível. O que escrevo aqui hoje —“Como publicar
um livro”— pode não valer para amanhã. Daqui a 10 anos não sei se haverá
livrarias, se haverá editoras. Segundo uns pensadores franceses, o “autor”
morreu há muito e apenas esqueceu de se deitar no caixão.
>>>
MUITO PRAZER - Jô OLIVEIRA » Cangaceiro
do traço Como comprar um livro
-
"Estou
ferrado!", confessa o artista gráfico pernambucano/brasiliense Jô
Oliveira, de 67 anos. Até junho, ele precisa entregar cerca de 400 desenhos da
versão do Grande Sertão: Veredas em quadrinhos, com roteiro de Ziraldo. Ele já
está com 60% do trabalho pronto, mas a editora Globo não liberou as imagens
para divulgação. Jô é um pernambucano/brasiliense de dimensão internacional.
Estreou com a história A guerra do reino divino, na revista Linus, da Itália,
na época, a mais importante publicação do gênero. Ganhou por duas vezes o
prêmio Asiago de melhor selo do mundo. Já ilustrou mais de 50 livros. Os
cangaceiros das histórias foram traduzidos na Argentina, na Grécia, na Espanha,
na Itália e na Dinamarca. Nesta entrevista, ele evoca a sua trajetória, fala
sobre a versão do Grande Sertão: Veredas e sobre a leitura na era virtual.
Como
começou a desenhar?
Eu
nasci na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco. Mas os meus pais foram morar em
Campina Grande, na Paraíba, quando eu tinha 5 anos. Certa vez, um vizinho
desenhou e deixou um sulco no traço no papel. Fui lá, desenhei em cima e ele
ficou impressionado.
Quer
dizer, começou com uma mentira?
Exato,
eu tinha 6 anos e, a partir daí, nunca mais parei de desenhar.
O
que desenhava?
Eram
bonecos, mas aí entraram os quadrinhos na minha vida. Vivíamos a penúria do
pós-guerra, a gente juntava garrafas e conseguia o dinheiro para ir ao cinema.
O grande lance eram aqueles seriados americanos horrorosos. A gente trocava
gibis na porta do cinema e passava a semana inteira lendo.
Que
gibis vocês liam?
Gibis
americanos. Os primeiros brasileiros surgiram com o Mundo Ilustrado: O anjo,
Jerônimo — O herói do sertão e, mais tarde, o Saci Pererê, do Ziraldo.
Havia
preconceito dos seus pais em deixar o filho seguir uma profissão “sem futuro”?
Não,
o desenho sempre foi a minha salvação, sempre abriu os caminhos. Ganhei lugar
para morar e bolsa de estudos.
Em
que momento encaminhou o gosto pelo desenho para uma profissão?
Quando
tinha 15 anos, meus pais se mudaram para o Mato Grosso do Sul. Comecei a
estudar, fiz um curso por correspondência pela Escola Panamericana de Arte.
Eles tentavam conseguir alunos com uma história em quadrinhos engraçada. O
último quadro era o cara sentado perto da piscina cercado por um bando de
mulheres lindas. Depois, fui para o Rio de Janeiro, passei no vestibular para a
Escola de Belas Artes, estudava de manhã e trabalhava nas Lojas Sears à tarde.
Mas veio o AI-5, minha paixão era o desenho animado, gostava da produção dos
países socialistas, pois era mais artística e crítica. Ganhei uma bolsa e
fiquei seis anos estudando em uma escola muito boa da Hungria.
Quando
Brasília entrou em sua vida?
O primeiro contato que tive com Brasília foi
em 1961, com a mudança dos meus pais do Mato Grosso do Sul para cá. Me
apaixonei desde o primeiro momento. Para chegar levava três dias: primeiro era
preciso viajar do Mato Grosso até Bauru; de lá, ia para São Paulo e, só então,
vinha para Brasília. Não tinha nada, a gente viajava quilômetros sem ver uma
casa, e, de repente, despontava Brasília no meio do cerrado. Era fascinante.
O
que é fascinante em Brasília?
Primeiro,
toda a mudança. O Brasil da minha infância era medieval e agrícola. Os filmes
de destaque nos Estados Unidos e na Europa chegavam aqui muitos anos depois de
lançados. Brasília é o retrato do desenvolvimento do país. O centro de Brasília
é de Primeiro Mundo, o Brasil já chegou ao futuro, claro que com muita miséria
em volta. Mas, antigamente, você saía do Recife e demorava 11 dias para chegar
a Aquidauna, no Mato Grosso do Sul. Hoje, você faz a viagem em três horas.
Então, veja a diferença que Brasília fez para o desenvolvimento do interior do
Brasil.
O
senhor estudou artes gráficas na Europa. Qual a maior riqueza do cordel de um
ponto de vista internacional?
O cordel nos liga à Europa medieval. Na época
da minha infância, o Brasil ainda era muito medieval. Nossos vizinhos
acreditavam que o mundo acabaria depois de três dias de escuridão total.
O
que é interessante no cordel do ponto de vista visual?
O
cordel me interessa pela narrativa, não sou escritor, mas sempre me interessei
em contar histórias com as imagens. O nordestino se ligou, de uma maneira
inexplicável, a uma tradição secular europeia e, ao mesmo tempo, reinventou
essa tradição ao modo dele.
Qual
a visão que teve do Brasil depois de morar na Europa?
A gente percebe que não é o centro do mundo e
isso é muito importante pela modéstia e, ao mesmo tempo, por estimular a
vontade de mostrar o que temos de bom. Depois, percebemos que não somos uma
ilha. Temos uma coisa maravilhosa de conviver com culturas diferentes. Sem
querer, o Brasil é um país globalizado. Tudo que as pessoas pregam como bom ou
ideal a gente já tem: o multiculturalismo, a miscigenação, a convivência da
multipliciddade étnica. O Brasil começa a ser visto com outros olhos, não é
mais república de bananas.
E
como surgiu o projeto de fazer uma versão em quadrinhos do Grande Sertão:
Veredas, do Guimarães Rosa?
É
um convite do Ziraldo, tenho muita gratidão por ele. Me encontrei com ele, pela
primeira vez, em Luca, na Itália e, a partir daí, ele publicou todas as
histórias de cangaço que eu tinha desenhado na revista A guerra do reino
divino, pela editora do Pasquim, a Codecri. Fui fã de carteirinha do Saci
Pererê. Ali, percebi que era possível fazer quadrinhos nacionais. Tenho paixão
pelo Guimarães Rosa. Mas o meu sonho era fazer quadrinhos com os contos dele.
Grande Sertão é muito extenso. Não tem nada de computador, são mais de 60
personagens, faço em papel de seda ou vegetal e mando para eles. Eles colocam
os balões. Aí eu redimensiono.
O
que é fascinante no Grande Sertão?
É
o desafio, são mais de mil desenhos. No mínimo, gasto um dia para desenhar e
depois tem de colorir. É pena que o tempo seja tão curto.
Grande
Sertão: Veredas é um livro considerado difícil, mas você o coloca em versão de
história em quadrinhos, uma linguagem incorporada pelos jovens. Que perspectiva
isso abre?
Ah,
sempre gostei disso. Sempre insisti que o caminho do quadrinho brasileiro é a
escola. Porque você não pode se dedicar à cultura sem visar a educação. Não sou
um pintor que suja uma tela e ganha milhões. O grande drama é conquistar novos
leitores, principalmente com todos os canais de comunicação disponíveis nos
dias de hoje. A leitura é o caminho, não há salvação para quem é pobre a não
ser a educação. O quadrinho é só um convite à leitura do livro. Todo mundo
detesta a literatura porque a escola te obriga a ler. Mas se você vê as imagens
e acha uma coisa linda, isso pode te estimular a ler o livro.
Qual
é o barato do selo?
O
selo faz parte da cultura oficial, tem colecionadores, museus, corre o mundo
inteiro. É gratificante, nossa passagem pela Terra é rápida e todo mundo
gostaria que ficasse alguma coisa. É bobo, porque a gente morre e tudo se
apaga. Mas tenho orgulho porque representa a cultura popular brasileira. Na
verdade, o Brasil foi premiado com o meu trabalho.
E
como vê a cultura em Brasília?
É
muito dominada pela cultura oficial, é muito estanque e elitista, as coisas que
vêm de fora são muito caras.
O
que deveria ser feito para desenvolver a cultura?
Acho
que fugir da cultura oficial dos espetáculos. O CCBB deveria se dedicar mais a
projetos que contemplassem as crianças e a preparação de público.
E
como seria possível retomar a conexão entre cultura e educação?
Não
tenho a fórmula, mas na época do governo do Cristovam Buarque havia um programa
muito interessante. Eles convidaram 100 escritores para visitar as escolas, os
alunos recebiam os livros e liam antes. É ridiculamente barato. Certa vez, fui
a Planaltina e eles fizeram uma teatralização de um livro meu com a história de
um tamanduá e das formigas. Quando cheguei, os alunos estavam fantasiados, todo
mundo participava. Isso cria um outro interesse pela leitura e pelo livro.
Porque a maioria dos adolescentes acha que todo grande escritor já morreu.
Como
foi a experiência de publicar a revista Risco na década de 1970?
Saíram
só três edições. Mas o barato disso tudo é que fica. Recentemente, houve uma
grande exposição e a capa de Risco imensa ampliada, o Super-Homem aparece
levado por um cangaceiro.
Como
vê a adaptação das histórias em quadrinhos para o cinema? O que achou do
Tintim?
Não
gosto de super-heróis. Achei muito mecânica a versão do Tintim. O desenho
animado é melhor. Agora, é muito bonito. Talvez o desenho animado em computador
seja a maior expressão visual de nosso tempo. Rio, do Carlos Saldanha, é cheio
de nuances, é uma maravilha.
Como
vê as possibilidades abertas pelas novas tecnologias para as artes visuais?
Fico
decepcionado. Estamos no momento em que tudo mundo copia todo mundo.
E
do ponto de vista da leitura, as novas tecnologias ajudam ou atrapalham?
Uma
das coisas que afastava as crianças da leitura era a tela. Agora, ninguém vai
perceber que está lendo. A tela do tablet vai jogar a favor da leitura.
Projetos
que Jô gostaria de fazer
»
Uma saga sobre a história de Brasília
»
Uma série de livros das peças de Shakespeare em versão de cordel para crianças
»
O Decamerão, de Giovanni Boccaccio
»
Macunaíma, de Mário de Andrade
»
Contos de Guimarães Rosa
»
Versão quadrinizada de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Esse
projeto será realizado em parceria com a escritora Lucília Garcez
>>>
FERREIRA GULLAR. Poesia é ouro
sem valia
Com
a poesia é assim mesmo. Não só por vender pouco, o poeta sabe que não escreve
para vender. FOLHA SP 04.03
-
De
quando em vez, vem um poeta jovem me pedir que lhe consiga uma editora para
publicar seu livro de estreia. Só estando com a cabeça na lua para pretender
uma coisa dessas. Para consolá-lo costumo citar o exemplo de poetas, hoje
consagrados, que tiveram que publicar seu primeiro livro a sua própria custa.
Mas tem que ser assim mesmo, já que livro de poesia vende pouco e de poeta
desconhecido não vende nada. Nenhum editor, em seu juízo perfeito, entra numa
fria dessas.
Lembrei-me
disso ao escrever um texto sobre Manuel Bandeira e mais uma vez deparei-me com
o assunto. A edição de seu primeiro livro de poemas "A Cinza das
Horas", foi paga por ele; a do segundo, "Carnaval", a mesma
coisa. Só vários anos depois, teve um livro lançado por uma editora.
E
Carlos Drummond de Andrade? Seu primeiro livro, "Alguma Poesia",
apareceu como lançado pelas Edições Pindorama, que não existia, por ter sido,
na verdade, impresso na Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais e pago pelo
poeta em suaves prestações, descontadas de seu salário. O segundo livro,
"Brejo das Almas", saiu por uma cooperativa; o terceiro,
"Sentimento do Mundo", ele pagou de seu bolso e distribuiu toda a
edição (150 exemplares) entre amigos e escritores. Só o quarto livro -aos 40
anos de idade- foi lançado por uma editora, a José Olympio, que passou a
editá-lo.
Mas
estes são apenas uns poucos exemplos, entre os quais poderia incluir-me, pois
não teria editado meu primeiro livro se não fosse a ajuda de minha mãe. O
segundo livro, paguei-o de meu bolso. Só tive um livro de poemas lançado por
uma editora - que faliu em seguida - 13 anos após minha estreia. Acolhido por
uma editora importante, somente 30 anos depois.
Com
a poesia é assim mesmo. E não só por vender pouco; também porque, no fundo, o poeta
sabe que não escreve para vender. Lembro-me que eu mesmo diagramei "A Luta
Corporal", um livro tão fora das normas que provocou um atrito com a
gráfica que o imprimiu. É que poeta não quer apenas escrever os poemas; quer
fazer o livro mesmo. Poeta gosta de fazer livros. Por exemplo, João Cabral,
quando estava em Barcelona, comprou uma pequena gráfica artesanal em que editou
"Psicologia da Composição" mas também livros de outros poetas
brasileiros e espanhóis.
Exemplos
não faltam. Décio
Victorio,
os poucos livros que publicou, ele mesmo os diagramou, escolheu o tipo de
letra, o papel, o tamanho, tudo, e pagou uma gráfica para compô-los e
imprimi-los. Quando tomei a iniciativa de conseguir uma editora que lançasse
seus livros, rejeitou.
Outro
exemplo é Cláudia
Ahimsa.
Ela bolou todos os seus livros, buscou uma gráfica, pagou e os editou. No
último deles, então, "A Vida Agarrada", até a capa foi criação sua,
capa que já é, por si só, uma obra de arte: ela se fez fotografar sem a cabeça,
num vestido que parece ao mesmo tempo renda e rede de pescar, com vários
caranguejos vivos, presos a ele. Para completar, os seus braços, que parecem
metidos em luvas, estão na verdade pintados de azul cobalto.
Não
se pode esquecer, além do mais, que as novas tecnologias favorecem essa mania
dos poetas de produzirem não apenas os poemas mas também os livros.
Foi
o caso da Geração Mimeógrafo que, como o próprio nome diz, nasceu com o
mimeógrafo e se valeu dele para fazer seus livros. Neste caso, juntaram-se
alguns fatores que lhe imprimiram um caráter próprio: a redescoberta do
poema-piada de Oswald de Andrade, que inspiraria poetas como Leminski e Chacal.
Eles o usaram como um modo de reagir à censura imposta às artes pelo regime
militar.
É
verdade que a censura prévia -que vinha restringindo a atividade do teatro, do
cinema e da música- os milicos não conseguiram impor ao livro, graças à pronta
reação de Jorge Amado e Erico Verissimo, que ameaçaram não mais editar seus
livros no Brasil.
Fora
isso, o mimeógrafo veio facultar aos poetas jovens imprimir seus próprios
livros, sem ter de recorrer a editoras. Eles os imprimiam e iam vendê-los nas
ruas, nos bares, na porta de teatros e cinemas. É claro que assim ganharam a
simpatia dos leitores, tornando-se conhecidos e, graças a isso, despertaram o
interesse dos editores.
>>>
Livro digital ainda 'patina' em catálogo de
editoras. Até o
momento, as obras eletrônicas são quase iguais às versões impressas. Desafio do mercado editorial é usar os potenciais
de aparelhos como tablets para inovar o ensino FOLHA SP 04.03
-
Um
mês após o governo anunciar que comprará até 900 mil tablets para docentes e
alunos da rede pública, as principais editoras de livros didáticos se preparam
para entrar em um novo mercado milionário: o digital.
A
compra de tablets pela União tem um custo previsto de R$ 330 milhões.
Algumas
editoras até já possuem versões do material para a plataforma tablet. Porém,
organização e conteúdo são bem similares aos dos livros
"tradicionais", em papel.
Das
seis grandes editoras ouvidas pela reportagem, duas ainda não têm versões
digitais do material didático e, das que possuem, apenas três trazem recursos
digitais complementares, como áudios, vídeos e animações.
As
editoras afirmam, porém, que até 2013 vão acelerar as mudanças digitais.
NOVIDADES
Para
o ano que vem, a Edições SM pretende trazer ferramentas que personalizem o
conteúdo didático conforme a necessidade do aluno.
A
FTD disse que desenvolve versões digitais do material para "inovar e criar
novas perspectivas educacionais".
Ática
e a Scipione afirmam que em 2013, em todas as versões digitais, o estudante
poderá responder os exercícios no próprio livro.
Desde
1985, essa característica foi desaparecendo das obras em papel porque o
Programa Nacional do Livro Didático instituiu o término da compra pelo governo
de livros que não poderiam ser reutilizados.
Editoras
como a Moderna e Edições SM só disponibilizam, gratuitamente, a versão digital
para quem compra o livro em papel. A utilização do recurso vale durante o
período do ano letivo.
O
mesmo não acontece com a Ática e a Scipione, que permitem a compra da edição
eletrônica por 80% do valor de capa do livro "tradicional". Nesse
caso, o acesso à versão digital não caduca.
O
recurso de leitores de tela, utilizados por deficientes visuais, ainda não foi
adotado por nenhuma das editoras. Por enquanto, existe apenas a possibilidade
de aumento da letra e das imagens exibidas no aparelho.
ENSINO
NOVO?
"Pelo
que vemos hoje, o aluno continua lendo o material no tablet como se estivesse
lendo no papel", diz Sérgio Amaral, coordenador do Laboratório de Novas
Tecnologias Educacionais da Unicamp.
Para
ele, falta às editoras usar "toda a potencialidade do aparelho, como a
convergência com as lousas digitais".
No
mês passado, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, defendeu o papel da
escola como agente de inclusão digital.
sábado, 3 de março de 2012
Diretor de secretaria
O
CNJ aprovou o texto da resolução que define normas para a escolha e nomeação
dos diretores de secretaria das varas do trabalho. Pela nova regra, eles
deverão ser indicados pelo juiz titular da vara onde irão atuar e ser, de
preferência, bacharéis em Direito. O popular/GO 03.02
>>>
Justiça
empurra para advocacia bacharéis despreparados, diz OAB portuguesa.
-
>>>>
A
Justiça e o Direito nos jornais deste sábado/03.02.
http://www.conjur.com.br/2012-mar-03/noticias-justica-direito-jornais
>>>>>
Livro
exalta piano popular brasileiro
Pianista,
arranjadora e compositora, Elenice Maranesi acaba de lançar o livro Piano Book,
uma coleção de partituras que evidenciam as especificidades do piano popular
brasileiro.(…)
http://www.emb.com.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=365:livro-exalta-piano-popular-brasileiro&catid=1:mais-noticias&Itemid=33
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LITERATURA
Portugal
Telecom abre inscrição e anuncia mudanças FOLHA SP 03.02
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DE
SÃO PAULO - O Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, que
completa dez anos, abre hoje inscrições para a edição de 2012.
Até
o dia 25, escritores podem inscrever livros pelo site www.premioportugaltelecom.com.br.
A
partir desta edição, o Portugal Telecom vai premiar três categorias: romance,
poesia e conto/crônica. O vencedor de cada uma recebe R$ 50 mil.
Dentre
eles será escolhido o ganhador do grande prêmio do evento, que também leva R$
50 mil.
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LIVROS
Edição
de "Mussolini" perde dez capítulos
Biografia do líder fascista, publicada no Brasil pela Nova Fronteira no
ano passado, não alerta leitores sobre cortes
Autor
diz que redução de 500 páginas não lhe agradou, mas afirma tê-la aceito para
viabilizar publicação no país FOLHA SP 03.02
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"Por
que não começar pelo começo?", pergunta o historiador francês Pierre
Milza, 79, na primeira frase do primeiro capítulo da edição francesa de
"Mussolini", publicada pela Fayard, em 1999.
O
questionamento é bastante oportuno ao leitor da edição brasileira da biografia
do primeiro-ministro italiano entre 1922 e 1943, lançada pela Nova Fronteira em
2011.
O
interessado em conhecer a vida do Duce -líder, em italiano- terá que se
contentar em ler a história retratada por Milza somente do 11º capítulo em diante,
que aborda Mussolini já no auge do regime.
A
assessoria da Nova Fronteira diz que reduzir a obra de 988 páginas para 488,
"foi uma decisão editorial".
Foram
extraídos, além dos dez primeiros capítulos, as notas e o índice onomástico
-fundamentais no gênero. A edição ainda deixa de fora 38 fotos. Prática comum
no mercado, a condensação em "Mussolini", porém, não é comunicada aos
leitores.
Pierre
Milza, especializado na Itália dos séculos 19 e 20, diz que as mudanças não lhe
agradaram, mas que as aceitou para "viabilizar a publicação do livro no
Brasil".
"É
difícil falar de Mussolini, o Duce, sem ter na cabeça a sua infância e
juventude, o ingresso no socialismo, as rupturas no Partido Socialista
italiano, que o fizeram o número dois do partido, ou sem lembrar de quando ele
virou redator-chefe do [jornal] 'Poppolo d'Italia'".
Segundo
a assessoria da Nova Fronteira, só o responsável pela edição, Heitor Aquino
Ferreira, poderia falar sobre os cortes. Procurado pela Folha, Ferreira (cujo
trabalho não é creditado no livro) não quis se pronunciar.
"DÉJÀ-VU?"
Milza
faz menções ao passado do Duce em outros capítulos, mas, em alguns pontos, a
edição deixa escapar ao leitor que falta alguma coisa.
Logo
na página 7, quando aborda o tempo que a família de Mussolini levou para se
mudar para Roma, o primeiro parágrafo começa assim: "Já vimos que foram
precisos sete anos...". Já vimos? Não. Esse fato não é mencionado nas
páginas anteriores.
A
omissão de dez capítulos afeta a obra? "Infelizmente, sim", lamenta
Milza. "É difícil tratar da segunda parte da vida de Mussolini sem a
primeira. Ele era socialista revolucionário, sindicalista revolucionário e vai
se tornar nacionalista e reacionário."
Autor
de mais de 30 livros, Milza recebeu por "Mussolini" dois prêmios importantes
em 2000: o Guizot-Calvados e o da Société des Gens de Lettres (a academia de
francesa letras).
A
produção de Pierre Milza continua: acaba de terminar "Les Derniers Jours
de Mussolini" (os últimos dias de Mussolini), está na fase de correção das
provas de uma biografia do revolucionário Giuseppe Garibaldi e começando uma
obra sobre os 17 encontros entre Mussolini e Hitler, durante 1934 e 1944.
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Coleção
destaca as guerras que envolveram o Brasil.
Oitavo volume traz, no próximo
dia 11, fotos tiradas nos séculos 19 e 20. Em tempos de paz, imagens servem como
registro de momentos dramáticos e violentos que marcaram o país FOLHA SP 03.02
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As
guerras parecem hoje uma realidade distante para a maioria dos brasileiros,
vistas como fatos mais relacionados ao cotidiano de outros países. Mas houve um
tempo em que o Brasil se transformava à custa da violência.
A
índole pacífica da população, sublinhada por antropólogos ao longo da história,
não os impediu de se envolver em batalhas sangrentas.
As
fotos do oitavo volume da Coleção Folha Fotos Antigas do Brasil retratam os
conflitos mais importantes em que o país esteve envolvido entre 1864 e 1945.
Das
guerras externas -a do Paraguai (1864-1870) e a Segunda Guerra Mundial
(1939-1945)- aos confrontos internos, como a Revolução Constitucionalista
(1932), as imagens vão do século 19 aos anos 1950.
Dividido em cinco partes temáticas: "Guerras e
Batalhas", "Confrontos e Registros Oficiais",
"Império", "República Velha" e "Era Vargas", o
livro reúne fotos dos principais conflitos envolvendo o país.
São
imagens registradas por anônimos e por pioneiros como Marc Ferrez (1843-1923) e
Claro Jansson (1877-1954). Muitas delas foram feitas sob encomenda para
legitimar a ação dos vencedores.
A
coleção, dedicada a apresentar algumas das fotografias mais importantes
realizadas no país entre 1840 e 1960, tem 20 volumes.
A
série, que procura mostrar grandes acontecimentos e cenas do cotidiano, é um
registro ilustrado da história do país -uma narrativa do cotidiano contada por
intermédio da fotografia.
As
cenas foram captadas por fotógrafos que entraram para a história como
testemunhas oculares e protagonistas da consolidação da fotografia como arte no
Brasil.
As
cerca de 900 imagens que compõem os livros desta coleção fazem parte dos
principais acervos do país, como o do Instituto Moreira Salles (apoiador da
coleção), o do Arquivo Público do Estado de São Paulo e o da Fundação Pierre
Verger.
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Paixão de colecionador pela obra de Proust é tema de livro
Perfumista
Jacques Guérin salvou da destruição relíquias do escritor francês FOLHA SP 03.02
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"Querelle
de Brest" (1957), o enigmático livro do francês Jean Genet, leva a seguinte
dedicatória: "A Jacques G.".
Quem
seria o misterioso personagem, cujo sobrenome o escritor achou por bem proteger
do escândalo da obra?
Tratava-se
do perfumista Jacques Guérin (1902-2000), abastado proprietário da indústria
Parfums d'Orsay, mecenas de artistas e um colecionador insaciável e
discretíssimo de relíquias literárias.
Pouco
antes de sua morte, Guérin despachou para leilões internacionais e instituições
francesas o seu patrimônio precioso e numeroso: manuscritos de Rimbaud,
Apollinaire, Radiguet, Satie...
Acima
de todos esses artistas, Guérin amava Marcel Proust (1871-1922) e passou a vida
a reunir tudo o que pôde do autor de "Em Busca do Tempo Perdido".
Essa
paixão é o tema de "Sobretudo de Proust", da jornalista italiana
Lorenza Foschini.
Trata-se
de um pequeno livro, misto de reportagem, biografia ligeira e história
literária, sobre as aventuras de Guérin para salvar da destruição os objetos
relacionados ao seu ídolo. Seus esforços esbarram no heroísmo.
LACUNAS
E INCERTEZAS
Graças
a ele, importantes manuscritos de Proust estão preservados -outros se perderam
para sempre, queimados pela cunhada do escritor.
Graças
a ele, o Museu Carnavalet, em Paris, exibe hoje os móveis do quarto em que
Proust redigiu a "Recherche" e guarda a sete chaves uma famosa
relíquia: o sobretudo de lã, forrado de pele de lontra, com que o escritor,
asmático, se protegeu do frio nos últimos anos de vida.
Foschini
pratica uma espécie de jornalismo romanceado, lírico, que emociona o leitor e
impulsiona a leitura (sobretudo a dos Proust-maníacos), mas acaba deixando
muitas lacunas e incertezas pelo livro afora.
Jacques
Guérin -colecionador crucial do século 20- ainda aguarda uma obra de maior
fôlego, mais precisa e mais ambiciosa.
SOBRETUDO
DE PROUST
AUTORA
Lorenza Foschini
EDITORA
Rocco
TRADUÇÃO
Mario Fondelli
QUANTO
R$ 21,50 (112 págs.)
AVALIAÇÃO
bom
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