domingo, 8 de janeiro de 2012
O amado rei do livro. Arnaldo
Niskier
Doutor
em educação, membro da Academia Brasileira de Letras e presidente do CIEE/Rio
Teremos um ano bastante rico em matéria de cultura.
Haverá, em 2012, a comemoração de dois significativos centenários: o do Barão
do Rio Branco e o de Jorge Amado, ambos pertencentes à galeria de imortais da
Academia Brasileira de Letras. O escritor baiano, pela grande aceitação popular
de seus livros, ultrapassou as fronteiras da literatura, tornando-se um dos
autores brasileiros que mais tiveram a obra vertida para a televisão e o
cinema. CORREIO BSB 08.01
É
difícil compreender o estilo de Jorge Amado por meio de interpretações
sociológicas ou teorias afins: corre-se o risco de não se ter a exata definição
da arte do escritor baiano. Também não terá sucesso quem fizer um paralelo
entre seus livros e os fatos históricos ocorridos nos períodos em que foram
escritos. Esses estudos críticos não levam em conta a liberdade de criação.
Jorge Amado criou um estilo jorgeamadiano, totalmente pessoal, indo muito além
de fundamentações teóricas, legando-nos obras inesquecíveis.
Cabe
aqui um parêntese para falar do crítico Antônio Cândido, cujo livro Formação da
literatura brasileira é considerado fonte de referência das mais confiáveis.
Apesar de usar os acontecimentos históricos e sociais localizados nos períodos
em que as obras foram escritas como critérios críticos para emitir suas opiniões,
sobre Jorge Amado ele procurou realçar a força poética dos romances analisados.
O
que vemos a seguir é uma declaração de amor de Antonio Candido, entusiasmado
pela simplicidade do estilo do autor de Jubiabá: “Na nossa literatura moderna,
Jorge Amado é o maior romancista do amor, força de carne e de sangue que
arrasta os seus personagens para um extraordinário clima lírico. Amor dos ricos
e dos pobres; amor dos pretos, dos operários, que antes não tinha estado de
literatura senão edulcorado pelo bucolismo ou bestializado pelos naturalistas”.
Como
se vê, trata-se de uma obra que consegue conquistar leitores e críticos com a
mesma intensidade. Para Alfredo Bosi, a criação de Jorge Amado teve uma
caminhada multifacetada no decorrer dos anos: iniciou com tintas de “romance
proletário”, passou por depoimentos líricos, seguiu a cartilha da pregação
partidária, se especializou na valorização da região cacaueira e, por fim, se
estabilizou na produção de crônicas de costumes provincianos.
A
obra do escritor baiano, adaptada para a televisão, obteve imenso sucesso de
audiência. E um fato adicional engrandece ainda mais essa façanha: depois da
exibição de cada uma das novelas, as edições dos livros se sucederam, revelando
sinergia muito forte entre as duas mídias. Graças à transposição de seus livros
para a televisão, foi revisto o mito, sustentado na época por alguns
intelectuais, de que a televisão estragava o gosto pela leitura ou impedia a
sua propagação.
Comprovei
esse fato em 1995 quando, a pedido do então presidente da ABL, Austregésilo de
Athayde, falei pela primeira vez na Casa de Machado sobre a existência de uma
nascente literatura eletrônica, fato que hoje se tornou realidade, com a
multiplicação de e-books, tablets, Kindles e outros recursos digitais.
Nas
muitas viagens que fiz ao longo da vida, visitei bibliotecas de várias
universidades, onde sempre encontrei versões dos seus romances. Não
necessariamente dos 37 livros, mas a maioria deles, nas línguas locais. Foi
assim em Seul, em Berkley, em Estocolmo, em Tóquio e em Telavive.
Ao lado de Pelé, Amado foi o brasileiro que mais
trabalhou pela imagem do país no exterior. Se um é o rei do futebol, o outro
pode ser considerado o rei do livro ou da palavra escrita. Um incomparável
contador de histórias.
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Lá vai o Brasil, subindo a ladeira
Jaime
Pinsky, Historiador, professor titular da Unicamp, diretor da Editora Contexto
Na cultura oral, os contadores de história eram
verdadeiros atores que relatavam episódios, reais ou imaginários, com
dramaticidade, acentuando passagens emocionantes, criando suspense, a ponto de
deixar insones os ouvintes, abalados com revelações e sugestões que a narrativa
apresentava. Ainda encontramos resquícios dessa cultura no interior do país,
mas ela se encontra em extinção, engolida pela TV, mais visual, acessível a
quase toda a população. CORREIO BSB
08.01
-
Talvez
a grande tragédia da cultura brasileira tenha sido passar, diretamente, da
cultura oral para a digital. Quando, finalmente, o Estado passou a considerar
essencial a alfabetização de toda a população (com qualidade muito, mas muito
discutível mesmo, diga-se de passagem) já era tarde. A internet, com todos os
seus produtos (e-mails, redes sociais, Twitter, Facebook), assim como a cultura
dos torpedos em celulares, promoveu não apenas uma nova linguagem (até aí, tudo
bem), mas um discurso sugestivo em vez de um outro argumentativo, portanto sem
coesão ou coerência, sem fluxo narrativo, sem começo, meio e fim.
Sempre
poderíamos argumentar que, para alguns, a frase curta, solta, é apenas uma
forma a mais de expressão, que pode perfeitamente coexistir com outras. De
acordo, mas isso só existe para os que antes aprenderam a estruturar o
pensamento logicamente. Para a maioria, o discurso argumentativo não passa de
uma forma antiga, superada, de comunicação entre os homens, uma espécie de
pré-história que se confunde com redigir à mão ou com velhas máquinas de escrever.
É
claro que a substituição das formas de comunicação tem a ver com um dos
aspectos mais relevantes da vida moderna, a pressa. Comemos depressa, devoramos
o nosso alimento em vez de degustá-lo mansamente. Amamos depressa e
substituímos impacientemente nossa antiga paixão por outra, mais fresca, que,
no entanto, não resistirá a nenhuma rusga, nenhuma crise. Usamos nossas roupas,
nossos carros, nossos computadores, nossos celulares até que eles nos pareçam
“superados”, não necessariamente por obsolescência real, mas psicológica. O
novo, sempre o novo. Afinal, não é para isso que trabalhamos?
A
sociedade de consumo venceu, o capitalismo darwinista (na expressão de Amós
Oz), competitivo, produtor de mercadorias, venceu. Ironicamente, o país ícone
dos comunistas até poucos anos atrás, a China, é o mais darwinista dos
produtores de mercadorias com obsolescência programada (pela má qualidade dos
componentes, ou pelo cansaço do usuário). A propaganda venceu, conseguiu
convencer a todos de que seríamos infelizes, verdadeira e profundamente
infelizes se não conseguirmos fazer dinheiro suficiente para comprar aquele
produto ou obter aquele serviço que nosso colega, nosso amigo, nosso conhecido
conseguiu.
Então,
para que ler um livro de Tomas Mann, que tem centenas de páginas e exige um
investimento intelectual mais sério, se podemos nos emocionar com capítulos de
novelas cafonas e óbvias? E o mais grave é que elas preenchem nossas
necessidades. Para que procurar um filme mais exigente, se consumimos os mesmos
filmecos que nossos filhos pequenos gostam, os que escondem a inexistência de
conteúdo por meio de uma forma cada vez mais elaborada, plágios não bem
disfarçados de verdadeiros criadores? Nossa incapacidade de desfrutar de
produtos intelectuais mais sofisticados pode ser percebida até na preocupação
de lermos e enviarmos mensagens de celular no meio de uma sessão de cinema, ou
da execução de um movimento lento de um concerto de Beethoven.
Tudo
isso me vem à cabeça a partir de notícia veiculada no Jornal da Cultura (TV
Cultura, São Paulo) desta última quarta-feira. Pesquisa feita com jovens da
periferia de São Paulo, sem formação universitária, mostra que eles estão
comprando automóveis e motos para seu transporte pessoal, para pagar em dois ou
três anos. Triste governo, incapaz de dotar a cidade de uma rede mínima de
transporte coletivo. Mas tristes garotos também. Perguntado sobre seus planos
após terminar de pagar o carro, um deles não hesitou em afirmar: “Comprar um
carro melhor”.
Despreparado, nem sequer cogita usufruir de bens
culturais produzidos pela humanidade, mas acredita que sair metaforicamente da
periferia é ter um carro como o de quem mora na área central da cidade. Como
não sabe ler e compreender, sua consciência social limita-se à percepção de tuiteiro,
a de que possuir é ser feliz. E assim vamos, valorosos e fortes, na frente da
Inglaterra, em busca do cetro de maior economia do mundo.
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Bairros de classe média abrigam cracolândias privês
Traficantes alugam apartamentos e casas na Vila
Mariana, Paraíso e Bela Vista para receber viciados FOLHA SP 08.01
-
Em
um espaço do tamanho de uma perua Kombi, seis homens dividem três cachimbos de
crack feitos com antenas de TV e latinhas de alumínio.
Cinco
deles estão sentados no chão. São iluminados por um lampião que contrasta com a
janela de vidros escurecidos. O outro está em pé. Observa a cena ao lado da
porta. Ali, não há móveis, tapetes, tampouco cortinas.
Passa
das 16h de uma sexta-feira nublada em São Paulo. O ambiente descrito acima
poderia ser em uma rua da cracolândia, na região central da cidade, mas não é.
Trata-se
do interior de um apartamento de classe média na Bela Vista, a poucas quadras
de um dos mais famosos corredores gastronômicos da metrópole, a rua
Avanhandava. Lá, usuários de crack alugam a sala, o quarto e a cozinha com um
único propósito: fumar a droga.
Com
três celulares no bolso, um senhor cabisbaixo, aparentando ter 60 anos, era o
responsável pela venda das pedras e também pelo aluguel do imóvel. Preço: R$ 10
(a pedra), mais R$ 10 pelo espaço usado para o consumo.
Antes
mesmo da operação da Polícia Militar, que cercou a cracolândia na semana
passada, a Folha percorreu, nos últimos seis meses, bairros como Vila Mariana,
Bixiga, Paraíso, Penha e Bela Vista.
Nesses
locais, a reportagem encontrou casas e apartamentos onde funciona um esquema
até então desconhecido das autoridades, as cracolândias privês.
Dentro
do apartamento da Bela Vista, o cheiro, uma mistura de tabaco, fumaça, óleo de
lampião queimado e suor, é forte. Dois jovens estão alucinados. Acabaram de
fumar a terceira pedra do dia. Entreolham-se e parecem apavorados, sem motivo
aparente.
Um
acaba de dar seu primeiro trago. Os outros três observam. Eles fumam cigarros.
Esperam a vez para terem a sensação que tanto aguardaram após uma manhã inteira
de trabalho em uma loja de informática ali perto.
As
cracolândias privês são extremamente lucrativas e seguras para o criminoso. Ele
ganha duas vezes: na venda da droga e na locação da área.
Para
o usuário, a maioria homens de classes baixa e média, com idades entre 18 e 35
anos, de diferentes profissões, é algo discretíssimo.
Nesses
ambientes, ele consegue fugir dos olhares de reprovação de moradores e também
do controle policial.
Para
entrar nesse submundo, é preciso ser apresentado por algum conhecido do
traficante. Deve-se seguir a principal exigência do local, só consumir a droga
vendida ali.
"Fique
esperto, aqui não entra pedra [de crack] de outro lugar", alerta o
traficante.
LUZ
DE LAMPIÃO
A
Folha visitou cinco imóveis, entre casas e apartamentos. Em dois deles, a
reportagem entrou acompanhada de um usuário, em tratamento, que conheceu na
cracolândia enquanto apurava outra história. Ele só aceitou apresentar o
repórter às cracolândias privês porque diz estar indignado com a quantidade de
jovens viciados na cidade.
À
primeira vista, por fora, não é possível perceber que em qualquer um desses
cinco lugares haja venda e consumo de drogas lá dentro.
Os
apartamentos, na Bela Vista e no Bixiga, são iluminados por lampiões. Possuem
pequenas brechas nas janelas, para não intoxicar quem está trancado lá. As
portas permanecem quase o tempo inteiro fechadas.
Para
ter acesso a eles, é preciso subir dois lances de escadas. Na sequência,
deve-se comprar a "pê" (pedra de crack) vendida na própria escadaria
e pedir que o vendedor autorize a entrada -vale registrar que o repórter não
comprou a droga.
Já
as casas, ou estavam abandonadas e foram invadidas ou haviam sido alugadas
pelos traficantes por preços baixíssimos por conta de seu mau estado de
conservação.
Elas
estão na Vila Mariana, Paraíso e Penha. Os muros têm mais de três metros de
altura. Os portões não têm brechas, o que impossibilita que alguém, do lado de
fora, observe o que acontece ali.
A
casa da Vila Mariana não é imunda como os cortiços fechados pela operação da
polícia no centro paulistano.
A
morada é simples. Fica em uma rua bem arborizada, próxima de um posto de
gasolina, rodeada por prédios residenciais. Dentro dela, poucos móveis. Uma
mesa e duas cadeiras na sala, onde ficam o "patrão" ou seu
subordinado. Ao todo, são 11 cômodos improvisados, transformados em quartos,
coletivos ou individuais. São divididos por finas paredes de madeira
compensada.
Há
dois tipos de cracolândia privê. Nos apartamentos, o usuário compra a pedra com
o traficante e a consome em um dos cômodos.
Na outra, vive no lugar, chamado "mocó".
Pode tomar banho, comer, dormir. O valor varia conforme a forma de pagamento.
Adiantado em dinheiro, R$ 210. Se for pagar no fim do mês, R$ 300.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
11º Encontro de Folias de Reis
“E
por que folia, se folia tem o sentido de brincadeira de mau gosto, baderna,
farra?”
Teremos,
no próximo dia 29, o 11º Encontro de Folia de Reis, na Praça da Matriz de
Campinas, em uma promoção da Secretaria Municipal de Cultura e Comissão Goiana
de Folclore. Terão participações grupos de foliões de todo o Estado, não para
competirem, mas para se apresentarem. O
POPULAR / GO 06/01/2012
-
O
ano passado a homenagem foi para Estrela Guia e este ano, os presentes: Ouro,
Incenso e Mirra. Já passaram de 80 grupos goianos registrados na secretaria. As
prefeituras deverão proporcionar as viagens e aqui terão o farto café da manhã
e o almoço calculado para 2 mil refeições.
Pinceladas
rapidinhas sobre os reis magos - a Igreja não os reconhece como santos; estão
citados apenas no Evangelho de São Matheus. Não foram reis, mas, sim,
conselheiros, adivinhadores, mágicos, encantadores e conheciam astrologia. E há
estudiosos que afirmam terem sido mulheres, os magos, e que foram 4 e 5, dando
até os nomes. Tradicionalmente são apenas 3: Melchior, jovem; Gaspar, idoso;
Baltazar, madurão. Da Pérsia a Belém o tempo consumido foi, segundo uns, de 13
dias, e outros, 33. Trouxeram, para presentear o Menino: ouro, que representa a
riqueza; incenso, a divindade, e mirra, a longevidade. Os seus ossos estão
guardados na Catedral de Colônia, Alemanha, em uma urna que pesa 300 quilos de
ouro maciço. Dizem os astrólogos que a Estrela Guia era um cometa; os ufólogos,
disco voador, e os espiritualistas, espírito de luz.
E
por que folia, se folia tem o sentido de brincadeira de mau gosto, algazarra,
anarquia, baderna, farra? É que a Folia de Reis, ou Folia dos Santos Reis,
Terno de Reis e Reisado (este no Nordeste), veio de Portugal, pelos padres
jesuítas, no século 16, em 1534, e lá era um grupo de homens católicos que saía
cantando e tocando instrumentos em louvor a um santo, percorrendo moradores
rurais e angariando dinheiro e prendas para a festa, que se daria na igreja da
comunidade.
Aqui,
anteriormente, os foliões, devotos dos Santos Reis, percorriam as residências
rurais à noite e montados a cavalo, como os magos que viajaram em camelos e
somente durante a noite. Depois passaram a girar durante o dia e a pé, parando
para os pousos, onde havia rezas, cantorias, comilança, cachaça e catira. Os
figurantes são nominados foliões, tendo, entre eles, o gerente, o mestre, o
embaixador, o alferes ou porta-bandeira, o capitão e, ainda, os palhaços ou bonecos,
que representam os espiões do Rei Herodes à procura do Menino. Eles brincam,
mexem com todos, vasculham tudo e ninguém se incomoda.
Na
chegada aos pousos, vencidos os "obstáculos", vem a cantoria:
"Senhor dono da casa, abra a porta, acenda a luz, recebei os Santos Reis e
o menino Jesus." Na saída, a despedida: "A bandeira se despede, vai
no giro de Belém, adeus senhores e senhoras, até pro ano que vem." Quem
faz o voto de girar uma Folia, fará por sete anos seguidos, caso contrário...
azar! A Folia começa a girar na véspera de Natal e vai até 6 de janeiro, que é
o Dia dos Santos Reis.
PS - O livro mais importante sobre o assunto é As
Viagens dos Reis Magos , do antropólogo da UFG Jadir Morais Pessoa, em parceria
com a francesa Madeleine Félix - Editora da UCG e, agora, na França, Ed.
L'Harmattan (jadirpessoa@hotmail.com) .
-
-
INTERCÂMBIO CULTURAL » Percussão
como instrumento de cidadania
Embalado
por compromisso social, o músico Ricardo Amorim (em destaque), que auxilia
jovens na arte e nos estudos, colhe prêmios e a doação de instrumentos musicais
CORREIO BSB 06.01
-
O
investimento, num primeiro momento, foi modesto: há uma década, partiu do
compromisso do professor brasiliense Ricardo Amorim com jovens de restrito
poder aquisitivo, no Recanto das Emas. Interessados em música, 12 alunos
compareceram para a ação social proposta por uma Igreja presbiteriana, mas a
limitação foi gritante para o professor da UnB, que, apostando em aulas com
instrumentos convencionais, deu-se conta da inexistência deles. “Então, comecei
a fazer um trabalho com percussão corporal, proposto de uma experiência com o
grupo Barbatuques (de São Paulo) e da orientação do falecido pesquisador
musical José Eduardo Gramani. O batuque no corpo veio como uma ferramenta
alternativa”, explica.
Com
o trabalho concentrado num instituto (o Batucar), criado em 2006, o projeto
Batucadeiros tem galgado posto em sucessivas premiações: reconhecido com o
prêmio Itaú Unicef (no âmbito regional), em 2009, acumulou o prêmio Anu
conferido pela Cufa (Central Única das Favelas), em 2010, e, entre 941
candidatos no país, acaba de ser um dos 14 selecionados pelo programa Rumos
Educação, Cultura e Arte (do Itaú Cultural).
“Além
de premiação em dinheiro, há a proposta de treinamento de encontros e de
transição do conhecimento, com capacitação e reciclagem. A seleção traz um
fôlego novo para a gente: dá uma condição de brilho e de projeção para o
projeto e mostra que o nosso caminho tem sido legal, e que a gente pode seguir
construindo nele”, comemora Ricardo Amorim. Aos 45 anos, o morador de Águas
Claras, formado em arranjo instrumental pelo Conservatório de MPB de Curitiba e
licenciado em música pela UnB, puxa da memória a marcante experiência com um
professor de violão, na época de aprendizado, no Guará. “Éramos de classe média
baixa, entre seis irmãos, e o professor Barbosa me deu aulas, de graça. Serviu
de inspiração e me abriu para o universo da generosidade”, conta.
Com
papel central fundamentado na arte — para criações de performances apoiadas por
canções, percussão corporal e violão —, o Batucar busca alargar os objetivos, otimizando
desempenhos escolares dos alunos. “Quando a gente chegou, eles não tinham
perspectivas de continuar estudando. O estudante da periferia também vive nessa
sociedade capitalista, então, ele também quer ter. Surgem trampos, isso quando
ele não cai nas mãos dos traficantes para servir de avião. A arte entra com os
componentes de paciência e reflexão, exigindo ordem, ensaio e planejamento. Sai
daí a experiência de conviver e de se relacionar com o outro”, explica o
professor. Driblando problemas que incluem a falta de acompanhamento dos pais,
mais de 500 jovens viram surtir a diferença proposta pelo músico.
Ciente
do fraco padrão exigido pela escola pública, Amorim investe no acompanhamento
pedagógico, para suprir evasão ou defasagem no campo da educação. “Não dá pra
ver os meninos tocando bem, mas com baixos índices de aproveitamento escolar.
Um dos problemas detectados com o programa foi o da consolidação da
alfabetização. O grande auxílio veio da ação dos multiplicadores. Vieram as
oportunidades de bolsas para os alunos de melhor desempenho e as transformações
dos índices de aprovação que partiram de 50% e culminaram em até 96% ”, explica
o orientador.
Foco
nas notas
Mais
de 15 alunos formados pelo Instituto Batucar, que realimentaram a cadeia de aprendizado
ou encontraram posição no mercado de trabalho, motivam o orgulho pleno. “O
complicado sempre é manter o ânimo e o foco dos alunos”, sintetiza o professor,
destacado pelo Rumos, que pinçou exemplos em meio à cultura tradicional, à
música, às artes cênicas e à audiovisual. Além de R$ 10 mil, os contemplados
participarão de um ciclo de viagens, numa proposta de intercâmbio que integrará
experiências de êxito comandas, em meios diversos, que vão do circo à
sonoridade de violino, passando ainda pela ginga de capoeiristas.
Com
cronograma de atividades a ser reaberto em 16 de janeiro, o instituto tem
perspectivas de revitalização asseguradas para o novo ano. Implantado em maio
de 2009, o projeto Batucadeiros Crescendo com Música, com participação do maestro
Emílio de César (ex-regente da Orquestra Sinfônica de Brasília), totalizou a
aquisição de quase 40 instrumentos. “Brinco que eles chegaram depois de 10
anos. Alunos e amigos doaram violinos, violoncelos, contrabaixos e violas”,
conta Ricardo Amorim.
Agente de cidadania, ele dá a dimensão da conquista
com o Rumos Educação, Cultura e Arte. “Nos trabalhos sociais, você entende que
o sistema tende a trabalhar para te desestimular. As instituições empenhadas,
porém, trabalham na paixão”, conclui Ricardo.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
EXECUTIVO » Verba
para investir em museus
Governo
federal garante R$ 2,8 milhões, recursos que serão aplicados em sete espaços
culturais no Distrito Federal. A medida tem o objetivo de melhorar e até
recuperar as unidades a fim de receber os turistas na Copa do Mundo, em 2014. CORREIO 03/12
-
Catetinho
é um dos espaços que serão beneficiados com os recursos: reforma em andamento
Os
museus do Distrito Federal vão ganhar um relevante aporte. O Ministério da
Cultura (MinC) repassará R$ 2,8 milhões ao governo local a fim de garantir a
modernização dos espaços. O objetivo é melhorar a infraestrutura dos prédios,
construídos na época da inauguração da capital da República. A fiscalização da
aplicação do montante será feita pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram),
órgão técnico vinculado ao MinC responsável por garantir os recursos federais.
“Existe um conjunto de investimentos que há muito tempo não se fazia em
Brasília e que agora o Ibram quer ajudar a melhorar”, afirma o presidente do
órgão, José do Nascimento Júnior.
Sete
espaços serão beneficiados com os recursos: Museu do Catetinho, da Cidade,
Memorial dos Povos Indígenas, Museu de Arte de Brasília, Nacional da República,
Vivo da Memória Candanga e Espaço Cultural 508 Sul. A modernização incluirá a
compra de novos equipamentos multimídia e audiovisuais. Também estão previstos
investimentos em segurança e na qualificação dos funcionários e renovação das
exposições.
Segundo
Nascimento Júnior, o repasse é resultado de uma série de discussões para a
realização de ações comuns entre o governo federal e o Executivo local. Entre
outras medidas, estão a criação de uma rede distrital de museus e a adaptação
das unidades para o Estatuto dos Museus. “Tem todo um conjunto de ações e
discussões feitas ao longo dos últimos anos que precisavam ter início prático”,
diz o presidente do Ibram.
Motivos
Um
dos principais motivos para o investimento no setor é o fato de Brasília ser
uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. A intenção é oferecer boas opções ao
turista que visitará a capital. Além disso, a própria cultura museológica tem
se ampliado no Brasil. De acordo com o Ibram, são 3.117 museus no país e a
média anual de visitação está em 25 mil pessoas por unidade. Isso significa que
78 milhões de pessoas têm ido a esses espaços. “O crescimento da economia tem
dado condições para as pessoas colocarem essas visitas na cesta básica”,
explica Nascimento Júnior.
Em
novembro, o GDF e o Ministério da Cultura se reuniram para discutir o projeto
Esplanada dos Museus. A proposta é construir cinco unidades até o campeonato
mundial de futebol: dos Esportes, de Arte das Américas, da Democracia, da
Biodiversidade e da Diversidade Cultural. O governo local estuda os locais
possíveis para instalar os novos espaços, enquanto o MinC está responsável por
captar recursos e estabelecer as parcerias. Além disso, o governador, Agnelo
Queiroz, deseja implantar uma gestão compartilhada do Museu da República com o
governo federal .
>>>
URBANISMO »
Centro histórico modificado
Mesmo
após 150 anos desde a fundação de Planaltina, algumas edificações do Setor
Tradicional resistem ao tempo. Outras, como o antigo Hotel Ouro . CORREIO
03/12
-
O
casarão da Dona Nigrinha, localizado na Rua 13 de Maio de Planaltina, acabou
colocado à venda: deterioração
A
paisagem bucólica de Planaltina se transformou com o passar do tempo. A
transferência da capital para o Planalto Central trouxe o desenvolvimento à
região, mas modificou a cidade antiga com ar interiorano. Carregadas de
histórias, as casas de adobe saíram de cena e deram lugar a construções
modernas e vultosas. As fotos guardam a única lembrança dos casarões coloniais
que abrigaram os primeiros moradores de Planaltina. Mais de 150 anos depois,
porém, algumas edificações ainda resistem à ação do tempo e do descaso.
Na
Rua Coronel João Quirino, no Setor Tradicional de Planaltina, a modernidade
venceu a preservação da história. O casarão onde funcionava o antigo hotel Ouro
Fino foi derrubado no fim de 2009 para a construção de um outro prédio. Os
moradores mais resistentes à transformação denunciaram o caso. “Os
proprietários destroem as casas aos poucos, longe dos olhos de todo mundo e
quando a gente vê não sobrou mais nada”, lamentou a presidente da Associação
dos Amigos do Centro Histórico de Planaltina, Simone dos Santos Macedo.
Já
o casarão da dona Nigrinha, localizado na Rua 13 de Maio, resiste em pé à ação
do tempo. Ele pertencia ao madeireiro Zé Baiano e à esposa, que deu nome à
construção. Após a morte do casal, o imóvel ficou para uma filha de criação,
que tenta vendê-lo. Para evitar uma nova destruição, Simone Macedo procura um
comprador interessado em preservá-lo. “Ele fica num ponto estratégico, entre
duas praças, mas está bastante deteriorado. Há um projeto de restauro feito por
um ex-aluno da Universidade de Brasília (UnB) e já sugerimos que a própria
instituição compre a casa”, adiantou.
Cuidado
A
preservação dos casarões depende da vontade dos donos. A antiga casa do avô
paterno da professora aposentada Marilda Guimarães, 68 anos, chama a atenção de
quem passa na esquina da ruas Hugo Lobo e 13 de Maio. Em 2007, o imóvel passou
por uma reforma e Marilda optou por manter a estrutura original. “Nossa família
é muito ligada à preservação, senti que tinha a obrigação de fazer isso”,
disse. O local serviu de moradia para o delegado e avô da professora na
primeira metade do século 20, Antônio Gonçalves Guimarães, e depois como
coletoria federal, onde os impostos eram cobrados. “No início, enfrentamos
resistência dos trabalhadores, que queriam usar materiais novos, mas precisei
mostrar a eles o valor da restauração”, contou Marilda.
E
foi esse cuidado que despertou a atenção da professora Maria Dalva Trivellato,
54 anos. Ela se mudou para Brasília há três meses e, desde dezembro, vive no
imóvel que já foi do delegado da cidade. “Me encantei com a fachada e vi que
estava para alugar. Pensei em morar aqui na hora”, lembrou. Um detalhe na
parede da garagem desperta a curiosidade de quem a visita. Marilda preservou um
pedaço da parede, feita de barro, e colocou uma identificação ao lado. “Achei
muito interessante esse cuidado, gosto muito desse trabalho. Quando morava em
Minas Gerais, meu passeio era visitar a cidade histórica de Ouro Preto”, contou
Maria Dalva.
A
dona do hotel O Casarão, Geralda Maria Vieira, 81 anos, também resistiu à ação
do tempo. Ela se mudou para Planaltina há 51 anos, comprou o imóvel e o mantém
até hoje. “A cidade cresceu muito, gosto do progresso, mas também de proteger
essa área que nos traz muitas lembranças”, defendeu. A casa fica na praça
Coronel Salviano Monteiro, no Setor Tradicional, próximo a outras edificações
que ainda estão de pé como os casarões da dona Morena e da dona Nilda, a antiga
Prefeitura e a Casa de Câmara e Cadeia. Até um pé de jenipapo está na lista de
tombamento da associação. “A gente ouve falar que ele serviu como a primeira
cadeia pública da região, queremos tombá-lo e recuperar a praça também”,
explicou Simone.
Dificuldades
Segundo
o superintende do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no
Distrito Federal (Iphan-DF), Alfredo Gastal, a grande dificuldade do governo é
proteger o patrimônio da destruição que ocorre atrás dos muros. “A maioria
desses prédios é particular, o que dificulta o processo de preservação”,
explicou. Ele desaprova o descaso com o Setor Tradicional, mas justifica que o
Iphan-DF também não tem estrutura para resolver o problema da região. “Isso é
complicado porque exige uma estrutura que não temos, mas estamos abertos a
discussões. Esse patrimônio merece ser preservado e o GDF pode fazer isso”,
sugeriu.
O
diretor de preservação da Secretaria de Cultura, Jonatas Barreto, explicou que
somente o Museu Histórico de Planaltina e a Igreja de São Sebastião são
tombadas pelo Governo do Distrito Federal, e o órgão não pode intervir nas
edificações que não são protegidas. “Precisamos começar um processo de
tombamento que é longo, precisa de muitos estudos e aprovações. Sabemos da
descaracterização, mas estamos de mãos atadas pela lei. Só podemos agir nas
imediações se houver interferência das edificações tombadas”, explicou. Ele
defende a educação patrimônio entre a população para evitar mais destruições.
Conservação
O
grupo surgiu em 2007 após uma parte da estrutura da igreja de São Sebastião ser
destruída. O episódio despertou em alguns moradores a necessidade de preservar
a cidade que guarda muitas histórias da ocupação do Planalto Central. Desde a
fundação,
os membros da associação trabalham para defender a
preservação e o tombamento do patrimônio histórico.
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Luiz
Carlos Prestes. Família doa acervo ao
Arquivo Nacional. O POPULAR 04.01
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Rio
- Um documento clandestino de fevereiro de 1976 acusando 233 integrantes do
regime militar de serem torturadores integra o acervo do líder comunista Luiz
Carlos Prestes (1898-1990), doado ontem por sua família ao Arquivo Nacional.
Entregue
a Prestes, então exilado em Moscou, na segunda metade dos anos 70, por
emissários do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Relatório da 4ª Reunião
Anual do organismo revela algumas surpresas. Uma delas: denúncias de tortura
foram repassadas por militares dissidentes, que continuavam nas Forças Armadas,
mas discordavam da ditadura de 1964. As 32 páginas datilografadas são apenas
parte da documentação que era mantida por Prestes, catalogada pela família em
sete pastas e cujo conteúdo será digitalizado e colocado na internet, à
disposição de pesquisadores.
"Eu
já vinha acumulando este acervo, havia alguns anos. Depois da morte do Prestes,
doei a maioria dos documentos para a Unicamp. E tem também um museu em
Tocantins, aonde eu mesmo levei a escultura e montamos um museu. Fiquei três
meses lá, pesquisando as cidades onde a Coluna (Prestes, movimento
revolucionário da segunda metade dos anos 20) passou e ainda recolhendo muitos
materiais de 1924, manifestos, jornalzinho, panfletos de quando a coluna
passou. Isso está tudo lá no museu", relatou Maria do Carmo Ribeiro, viúva
do líder comunista.
A
lista com os supostos torturadores foi divulgada na segunda metade dos anos 70,
pela imprensa alternativa, de oposição.
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CRÍTICA INSTRUMENTAL. Álbuns
reeditados recuperam dois momentos distintos de Gismonti. Dois
clássicos de Egberto Gismonti editados pelo selo alemão ECM retornam às
prateleiras nacionais: "Dança das Cabeças" e "Infância". FOLHA
SP 04.01
-
Representando
alguns dos momentos mais expressivos da carreira de Gismonti, 64, os discos
trazem formações e propostas distintas.
Gravado
em 1976, "Dança das Cabeças" é um duo com o percussionista Naná
Vasconcelos. Com temas sugestivos como "Tango" e
"Bambuzal", o trabalho de enorme repercussão e abriu o mundo aos dois
instrumentistas.
Gismonti
tem no piano e no violão seus veículos de expressão mais significativos. Entre
o popular e o erudito, ele desenvolveu uma obra refinada e de grande impacto
internacional.
"Infância",
que também está sendo editado em vinil, retrata um universo diferente. Registro
de 1990, o álbum é marcado pelo diálogo entre teclas e cordas, tendo o
acompanhamento de Nando Carneiro (sintetizadores), Zeca Assumpção (baixo) e
Jacques Morelenbaum (violoncelo).
Os
relançamentos fazem parte de uma nova parceria entre o ECM e a gravadora
paulista Borandá. Nos próximos meses, mais títulos do instrumentista voltarão
às lojas, ao lado de outras preciosidades do ECM.
DANÇA
DAS CABEÇAS /INFÂNCIA
ARTISTA
Egberto Gismonti
GRAVADORA
ECM/Borandá
QUANTO
R$ 44,90 (cada um)
AVALIAÇÃO ótimo ("Dança das Cabeças") e
bom ("Infância")
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