domingo, 8 de janeiro de 2012


O amado rei do livro.    Arnaldo Niskier
Doutor em educação, membro da Academia Brasileira de Letras e presidente do CIEE/Rio
Teremos um ano bastante rico em matéria de cultura. Haverá, em 2012, a comemoração de dois significativos centenários: o do Barão do Rio Branco e o de Jorge Amado, ambos pertencentes à galeria de imortais da Academia Brasileira de Letras. O escritor baiano, pela grande aceitação popular de seus livros, ultrapassou as fronteiras da literatura, tornando-se um dos autores brasileiros que mais tiveram a obra vertida para a televisão e o cinema. CORREIO BSB 08.01 


É difícil compreender o estilo de Jorge Amado por meio de interpretações sociológicas ou teorias afins: corre-se o risco de não se ter a exata definição da arte do escritor baiano. Também não terá sucesso quem fizer um paralelo entre seus livros e os fatos históricos ocorridos nos períodos em que foram escritos. Esses estudos críticos não levam em conta a liberdade de criação. Jorge Amado criou um estilo jorgeamadiano, totalmente pessoal, indo muito além de fundamentações teóricas, legando-nos obras inesquecíveis.

Cabe aqui um parêntese para falar do crítico Antônio Cândido, cujo livro Formação da literatura brasileira é considerado fonte de referência das mais confiáveis. Apesar de usar os acontecimentos históricos e sociais localizados nos períodos em que as obras foram escritas como critérios críticos para emitir suas opiniões, sobre Jorge Amado ele procurou realçar a força poética dos romances analisados.

O que vemos a seguir é uma declaração de amor de Antonio Candido, entusiasmado pela simplicidade do estilo do autor de Jubiabá: “Na nossa literatura moderna, Jorge Amado é o maior romancista do amor, força de carne e de sangue que arrasta os seus personagens para um extraordinário clima lírico. Amor dos ricos e dos pobres; amor dos pretos, dos operários, que antes não tinha estado de literatura senão edulcorado pelo bucolismo ou bestializado pelos naturalistas”.

Como se vê, trata-se de uma obra que consegue conquistar leitores e críticos com a mesma intensidade. Para Alfredo Bosi, a criação de Jorge Amado teve uma caminhada multifacetada no decorrer dos anos: iniciou com tintas de “romance proletário”, passou por depoimentos líricos, seguiu a cartilha da pregação partidária, se especializou na valorização da região cacaueira e, por fim, se estabilizou na produção de crônicas de costumes provincianos.

A obra do escritor baiano, adaptada para a televisão, obteve imenso sucesso de audiência. E um fato adicional engrandece ainda mais essa façanha: depois da exibição de cada uma das novelas, as edições dos livros se sucederam, revelando sinergia muito forte entre as duas mídias. Graças à transposição de seus livros para a televisão, foi revisto o mito, sustentado na época por alguns intelectuais, de que a televisão estragava o gosto pela leitura ou impedia a sua propagação.

Comprovei esse fato em 1995 quando, a pedido do então presidente da ABL, Austregésilo de Athayde, falei pela primeira vez na Casa de Machado sobre a existência de uma nascente literatura eletrônica, fato que hoje se tornou realidade, com a multiplicação de e-books, tablets, Kindles e outros recursos digitais.

Nas muitas viagens que fiz ao longo da vida, visitei bibliotecas de várias universidades, onde sempre encontrei versões dos seus romances. Não necessariamente dos 37 livros, mas a maioria deles, nas línguas locais. Foi assim em Seul, em Berkley, em Estocolmo, em Tóquio e em Telavive.

Ao lado de Pelé, Amado foi o brasileiro que mais trabalhou pela imagem do país no exterior. Se um é o rei do futebol, o outro pode ser considerado o rei do livro ou da palavra escrita. Um incomparável contador de histórias.
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Lá vai o Brasil, subindo a ladeira
Jaime Pinsky,  Historiador, professor titular da Unicamp, diretor da Editora Contexto
Na cultura oral, os contadores de história eram verdadeiros atores que relatavam episódios, reais ou imaginários, com dramaticidade, acentuando passagens emocionantes, criando suspense, a ponto de deixar insones os ouvintes, abalados com revelações e sugestões que a narrativa apresentava. Ainda encontramos resquícios dessa cultura no interior do país, mas ela se encontra em extinção, engolida pela TV, mais visual, acessível a quase toda a população. CORREIO BSB 08.01 

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Talvez a grande tragédia da cultura brasileira tenha sido passar, diretamente, da cultura oral para a digital. Quando, finalmente, o Estado passou a considerar essencial a alfabetização de toda a população (com qualidade muito, mas muito discutível mesmo, diga-se de passagem) já era tarde. A internet, com todos os seus produtos (e-mails, redes sociais, Twitter, Facebook), assim como a cultura dos torpedos em celulares, promoveu não apenas uma nova linguagem (até aí, tudo bem), mas um discurso sugestivo em vez de um outro argumentativo, portanto sem coesão ou coerência, sem fluxo narrativo, sem começo, meio e fim.

Sempre poderíamos argumentar que, para alguns, a frase curta, solta, é apenas uma forma a mais de expressão, que pode perfeitamente coexistir com outras. De acordo, mas isso só existe para os que antes aprenderam a estruturar o pensamento logicamente. Para a maioria, o discurso argumentativo não passa de uma forma antiga, superada, de comunicação entre os homens, uma espécie de pré-história que se confunde com redigir à mão ou com velhas máquinas de escrever.

É claro que a substituição das formas de comunicação tem a ver com um dos aspectos mais relevantes da vida moderna, a pressa. Comemos depressa, devoramos o nosso alimento em vez de degustá-lo mansamente. Amamos depressa e substituímos impacientemente nossa antiga paixão por outra, mais fresca, que, no entanto, não resistirá a nenhuma rusga, nenhuma crise. Usamos nossas roupas, nossos carros, nossos computadores, nossos celulares até que eles nos pareçam “superados”, não necessariamente por obsolescência real, mas psicológica. O novo, sempre o novo. Afinal, não é para isso que trabalhamos?

A sociedade de consumo venceu, o capitalismo darwinista (na expressão de Amós Oz), competitivo, produtor de mercadorias, venceu. Ironicamente, o país ícone dos comunistas até poucos anos atrás, a China, é o mais darwinista dos produtores de mercadorias com obsolescência programada (pela má qualidade dos componentes, ou pelo cansaço do usuário). A propaganda venceu, conseguiu convencer a todos de que seríamos infelizes, verdadeira e profundamente infelizes se não conseguirmos fazer dinheiro suficiente para comprar aquele produto ou obter aquele serviço que nosso colega, nosso amigo, nosso conhecido conseguiu.

Então, para que ler um livro de Tomas Mann, que tem centenas de páginas e exige um investimento intelectual mais sério, se podemos nos emocionar com capítulos de novelas cafonas e óbvias? E o mais grave é que elas preenchem nossas necessidades. Para que procurar um filme mais exigente, se consumimos os mesmos filmecos que nossos filhos pequenos gostam, os que escondem a inexistência de conteúdo por meio de uma forma cada vez mais elaborada, plágios não bem disfarçados de verdadeiros criadores? Nossa incapacidade de desfrutar de produtos intelectuais mais sofisticados pode ser percebida até na preocupação de lermos e enviarmos mensagens de celular no meio de uma sessão de cinema, ou da execução de um movimento lento de um concerto de Beethoven.

Tudo isso me vem à cabeça a partir de notícia veiculada no Jornal da Cultura (TV Cultura, São Paulo) desta última quarta-feira. Pesquisa feita com jovens da periferia de São Paulo, sem formação universitária, mostra que eles estão comprando automóveis e motos para seu transporte pessoal, para pagar em dois ou três anos. Triste governo, incapaz de dotar a cidade de uma rede mínima de transporte coletivo. Mas tristes garotos também. Perguntado sobre seus planos após terminar de pagar o carro, um deles não hesitou em afirmar: “Comprar um carro melhor”.

Despreparado, nem sequer cogita usufruir de bens culturais produzidos pela humanidade, mas acredita que sair metaforicamente da periferia é ter um carro como o de quem mora na área central da cidade. Como não sabe ler e compreender, sua consciência social limita-se à percepção de tuiteiro, a de que possuir é ser feliz. E assim vamos, valorosos e fortes, na frente da Inglaterra, em busca do cetro de maior economia do mundo.

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Bairros de classe média abrigam cracolândias privês
Traficantes alugam apartamentos e casas na Vila Mariana, Paraíso e Bela Vista para receber viciados FOLHA SP 08.01

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Em um espaço do tamanho de uma perua Kombi, seis homens dividem três cachimbos de crack feitos com antenas de TV e latinhas de alumínio.

Cinco deles estão sentados no chão. São iluminados por um lampião que contrasta com a janela de vidros escurecidos. O outro está em pé. Observa a cena ao lado da porta. Ali, não há móveis, tapetes, tampouco cortinas.

Passa das 16h de uma sexta-feira nublada em São Paulo. O ambiente descrito acima poderia ser em uma rua da cracolândia, na região central da cidade, mas não é.

Trata-se do interior de um apartamento de classe média na Bela Vista, a poucas quadras de um dos mais famosos corredores gastronômicos da metrópole, a rua Avanhandava. Lá, usuários de crack alugam a sala, o quarto e a cozinha com um único propósito: fumar a droga.

Com três celulares no bolso, um senhor cabisbaixo, aparentando ter 60 anos, era o responsável pela venda das pedras e também pelo aluguel do imóvel. Preço: R$ 10 (a pedra), mais R$ 10 pelo espaço usado para o consumo.

Antes mesmo da operação da Polícia Militar, que cercou a cracolândia na semana passada, a Folha percorreu, nos últimos seis meses, bairros como Vila Mariana, Bixiga, Paraíso, Penha e Bela Vista.

Nesses locais, a reportagem encontrou casas e apartamentos onde funciona um esquema até então desconhecido das autoridades, as cracolândias privês.

Dentro do apartamento da Bela Vista, o cheiro, uma mistura de tabaco, fumaça, óleo de lampião queimado e suor, é forte. Dois jovens estão alucinados. Acabaram de fumar a terceira pedra do dia. Entreolham-se e parecem apavorados, sem motivo aparente.

Um acaba de dar seu primeiro trago. Os outros três observam. Eles fumam cigarros. Esperam a vez para terem a sensação que tanto aguardaram após uma manhã inteira de trabalho em uma loja de informática ali perto.

As cracolândias privês são extremamente lucrativas e seguras para o criminoso. Ele ganha duas vezes: na venda da droga e na locação da área.

Para o usuário, a maioria homens de classes baixa e média, com idades entre 18 e 35 anos, de diferentes profissões, é algo discretíssimo.

Nesses ambientes, ele consegue fugir dos olhares de reprovação de moradores e também do controle policial.

Para entrar nesse submundo, é preciso ser apresentado por algum conhecido do traficante. Deve-se seguir a principal exigência do local, só consumir a droga vendida ali.

"Fique esperto, aqui não entra pedra [de crack] de outro lugar", alerta o traficante.

LUZ DE LAMPIÃO

A Folha visitou cinco imóveis, entre casas e apartamentos. Em dois deles, a reportagem entrou acompanhada de um usuário, em tratamento, que conheceu na cracolândia enquanto apurava outra história. Ele só aceitou apresentar o repórter às cracolândias privês porque diz estar indignado com a quantidade de jovens viciados na cidade.

À primeira vista, por fora, não é possível perceber que em qualquer um desses cinco lugares haja venda e consumo de drogas lá dentro.

Os apartamentos, na Bela Vista e no Bixiga, são iluminados por lampiões. Possuem pequenas brechas nas janelas, para não intoxicar quem está trancado lá. As portas permanecem quase o tempo inteiro fechadas.

Para ter acesso a eles, é preciso subir dois lances de escadas. Na sequência, deve-se comprar a "pê" (pedra de crack) vendida na própria escadaria e pedir que o vendedor autorize a entrada -vale registrar que o repórter não comprou a droga.

Já as casas, ou estavam abandonadas e foram invadidas ou haviam sido alugadas pelos traficantes por preços baixíssimos por conta de seu mau estado de conservação.

Elas estão na Vila Mariana, Paraíso e Penha. Os muros têm mais de três metros de altura. Os portões não têm brechas, o que impossibilita que alguém, do lado de fora, observe o que acontece ali.

A casa da Vila Mariana não é imunda como os cortiços fechados pela operação da polícia no centro paulistano.

A morada é simples. Fica em uma rua bem arborizada, próxima de um posto de gasolina, rodeada por prédios residenciais. Dentro dela, poucos móveis. Uma mesa e duas cadeiras na sala, onde ficam o "patrão" ou seu subordinado. Ao todo, são 11 cômodos improvisados, transformados em quartos, coletivos ou individuais. São divididos por finas paredes de madeira compensada.

Há dois tipos de cracolândia privê. Nos apartamentos, o usuário compra a pedra com o traficante e a consome em um dos cômodos.

Na outra, vive no lugar, chamado "mocó". Pode tomar banho, comer, dormir. O valor varia conforme a forma de pagamento. Adiantado em dinheiro, R$ 210. Se for pagar no fim do mês, R$ 300.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

11º Encontro de Folias de Reis
“E por que folia, se folia tem o sentido de brincadeira de mau gosto, baderna, farra?”
Teremos, no próximo dia 29, o 11º Encontro de Folia de Reis, na Praça da Matriz de Campinas, em uma promoção da Secretaria Municipal de Cultura e Comissão Goiana de Folclore. Terão participações grupos de foliões de todo o Estado, não para competirem, mas para se apresentarem. O POPULAR  / GO   06/01/2012
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O ano passado a homenagem foi para Estrela Guia e este ano, os presentes: Ouro, Incenso e Mirra. Já passaram de 80 grupos goianos registrados na secretaria. As prefeituras deverão proporcionar as viagens e aqui terão o farto café da manhã e o almoço calculado para 2 mil refeições.


Pinceladas rapidinhas sobre os reis magos - a Igreja não os reconhece como santos; estão citados apenas no Evangelho de São Matheus. Não foram reis, mas, sim, conselheiros, adivinhadores, mágicos, encantadores e conheciam astrologia. E há estudiosos que afirmam terem sido mulheres, os magos, e que foram 4 e 5, dando até os nomes. Tradicionalmente são apenas 3: Melchior, jovem; Gaspar, idoso; Baltazar, madurão. Da Pérsia a Belém o tempo consumido foi, segundo uns, de 13 dias, e outros, 33. Trouxeram, para presentear o Menino: ouro, que representa a riqueza; incenso, a divindade, e mirra, a longevidade. Os seus ossos estão guardados na Catedral de Colônia, Alemanha, em uma urna que pesa 300 quilos de ouro maciço. Dizem os astrólogos que a Estrela Guia era um cometa; os ufólogos, disco voador, e os espiritualistas, espírito de luz.

E por que folia, se folia tem o sentido de brincadeira de mau gosto, algazarra, anarquia, baderna, farra? É que a Folia de Reis, ou Folia dos Santos Reis, Terno de Reis e Reisado (este no Nordeste), veio de Portugal, pelos padres jesuítas, no século 16, em 1534, e lá era um grupo de homens católicos que saía cantando e tocando instrumentos em louvor a um santo, percorrendo moradores rurais e angariando dinheiro e prendas para a festa, que se daria na igreja da comunidade.

Aqui, anteriormente, os foliões, devotos dos Santos Reis, percorriam as residências rurais à noite e montados a cavalo, como os magos que viajaram em camelos e somente durante a noite. Depois passaram a girar durante o dia e a pé, parando para os pousos, onde havia rezas, cantorias, comilança, cachaça e catira. Os figurantes são nominados foliões, tendo, entre eles, o gerente, o mestre, o embaixador, o alferes ou porta-bandeira, o capitão e, ainda, os palhaços ou bonecos, que representam os espiões do Rei Herodes à procura do Menino. Eles brincam, mexem com todos, vasculham tudo e ninguém se incomoda.

Na chegada aos pousos, vencidos os "obstáculos", vem a cantoria: "Senhor dono da casa, abra a porta, acenda a luz, recebei os Santos Reis e o menino Jesus." Na saída, a despedida: "A bandeira se despede, vai no giro de Belém, adeus senhores e senhoras, até pro ano que vem." Quem faz o voto de girar uma Folia, fará por sete anos seguidos, caso contrário... azar! A Folia começa a girar na véspera de Natal e vai até 6 de janeiro, que é o Dia dos Santos Reis.

PS - O livro mais importante sobre o assunto é As Viagens dos Reis Magos , do antropólogo da UFG Jadir Morais Pessoa, em parceria com a francesa Madeleine Félix - Editora da UCG e, agora, na França, Ed. L'Harmattan (jadirpessoa@hotmail.com) .
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INTERCÂMBIO CULTURAL »  Percussão como instrumento de cidadania 
Embalado por compromisso social, o músico Ricardo Amorim (em destaque), que auxilia jovens na arte e nos estudos, colhe prêmios e a doação de instrumentos musicais CORREIO BSB 06.01

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O investimento, num primeiro momento, foi modesto: há uma década, partiu do compromisso do professor brasiliense Ricardo Amorim com jovens de restrito poder aquisitivo, no Recanto das Emas. Interessados em música, 12 alunos compareceram para a ação social proposta por uma Igreja presbiteriana, mas a limitação foi gritante para o professor da UnB, que, apostando em aulas com instrumentos convencionais, deu-se conta da inexistência deles. “Então, comecei a fazer um trabalho com percussão corporal, proposto de uma experiência com o grupo Barbatuques (de São Paulo) e da orientação do falecido pesquisador musical José Eduardo Gramani. O batuque no corpo veio como uma ferramenta alternativa”, explica.

Com o trabalho concentrado num instituto (o Batucar), criado em 2006, o projeto Batucadeiros tem galgado posto em sucessivas premiações: reconhecido com o prêmio Itaú Unicef (no âmbito regional), em 2009, acumulou o prêmio Anu conferido pela Cufa (Central Única das Favelas), em 2010, e, entre 941 candidatos no país, acaba de ser um dos 14 selecionados pelo programa Rumos Educação, Cultura e Arte (do Itaú Cultural).

“Além de premiação em dinheiro, há a proposta de treinamento de encontros e de transição do conhecimento, com capacitação e reciclagem. A seleção traz um fôlego novo para a gente: dá uma condição de brilho e de projeção para o projeto e mostra que o nosso caminho tem sido legal, e que a gente pode seguir construindo nele”, comemora Ricardo Amorim. Aos 45 anos, o morador de Águas Claras, formado em arranjo instrumental pelo Conservatório de MPB de Curitiba e licenciado em música pela UnB, puxa da memória a marcante experiência com um professor de violão, na época de aprendizado, no Guará. “Éramos de classe média baixa, entre seis irmãos, e o professor Barbosa me deu aulas, de graça. Serviu de inspiração e me abriu para o universo da generosidade”, conta.

Com papel central fundamentado na arte — para criações de performances apoiadas por canções, percussão corporal e violão —, o Batucar busca alargar os objetivos, otimizando desempenhos escolares dos alunos. “Quando a gente chegou, eles não tinham perspectivas de continuar estudando. O estudante da periferia também vive nessa sociedade capitalista, então, ele também quer ter. Surgem trampos, isso quando ele não cai nas mãos dos traficantes para servir de avião. A arte entra com os componentes de paciência e reflexão, exigindo ordem, ensaio e planejamento. Sai daí a experiência de conviver e de se relacionar com o outro”, explica o professor. Driblando problemas que incluem a falta de acompanhamento dos pais, mais de 500 jovens viram surtir a diferença proposta pelo músico.

Ciente do fraco padrão exigido pela escola pública, Amorim investe no acompanhamento pedagógico, para suprir evasão ou defasagem no campo da educação. “Não dá pra ver os meninos tocando bem, mas com baixos índices de aproveitamento escolar. Um dos problemas detectados com o programa foi o da consolidação da alfabetização. O grande auxílio veio da ação dos multiplicadores. Vieram as oportunidades de bolsas para os alunos de melhor desempenho e as transformações dos índices de aprovação que partiram de 50% e culminaram em até 96% ”, explica o orientador.

Foco nas notas
Mais de 15 alunos formados pelo Instituto Batucar, que realimentaram a cadeia de aprendizado ou encontraram posição no mercado de trabalho, motivam o orgulho pleno. “O complicado sempre é manter o ânimo e o foco dos alunos”, sintetiza o professor, destacado pelo Rumos, que pinçou exemplos em meio à cultura tradicional, à música, às artes cênicas e à audiovisual. Além de R$ 10 mil, os contemplados participarão de um ciclo de viagens, numa proposta de intercâmbio que integrará experiências de êxito comandas, em meios diversos, que vão do circo à sonoridade de violino, passando ainda pela ginga de capoeiristas.

Com cronograma de atividades a ser reaberto em 16 de janeiro, o instituto tem perspectivas de revitalização asseguradas para o novo ano. Implantado em maio de 2009, o projeto Batucadeiros Crescendo com Música, com participação do maestro Emílio de César (ex-regente da Orquestra Sinfônica de Brasília), totalizou a aquisição de quase 40 instrumentos. “Brinco que eles chegaram depois de 10 anos. Alunos e amigos doaram violinos, violoncelos, contrabaixos e violas”, conta Ricardo Amorim.

Agente de cidadania, ele dá a dimensão da conquista com o Rumos Educação, Cultura e Arte. “Nos trabalhos sociais, você entende que o sistema tende a trabalhar para te desestimular. As instituições empenhadas, porém, trabalham na paixão”, conclui Ricardo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012


EXECUTIVO »  Verba para investir em museus
Governo federal garante R$ 2,8 milhões, recursos que serão aplicados em sete espaços culturais no Distrito Federal. A medida tem o objetivo de melhorar e até recuperar as unidades a fim de receber os turistas na Copa do Mundo, em 2014.  CORREIO  03/12
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Catetinho é um dos espaços que serão beneficiados com os recursos: reforma em andamento

Os museus do Distrito Federal vão ganhar um relevante aporte. O Ministério da Cultura (MinC) repassará R$ 2,8 milhões ao governo local a fim de garantir a modernização dos espaços. O objetivo é melhorar a infraestrutura dos prédios, construídos na época da inauguração da capital da República. A fiscalização da aplicação do montante será feita pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), órgão técnico vinculado ao MinC responsável por garantir os recursos federais. “Existe um conjunto de investimentos que há muito tempo não se fazia em Brasília e que agora o Ibram quer ajudar a melhorar”, afirma o presidente do órgão, José do Nascimento Júnior.

Sete espaços serão beneficiados com os recursos: Museu do Catetinho, da Cidade, Memorial dos Povos Indígenas, Museu de Arte de Brasília, Nacional da República, Vivo da Memória Candanga e Espaço Cultural 508 Sul. A modernização incluirá a compra de novos equipamentos multimídia e audiovisuais. Também estão previstos investimentos em segurança e na qualificação dos funcionários e renovação das exposições.

Segundo Nascimento Júnior, o repasse é resultado de uma série de discussões para a realização de ações comuns entre o governo federal e o Executivo local. Entre outras medidas, estão a criação de uma rede distrital de museus e a adaptação das unidades para o Estatuto dos Museus. “Tem todo um conjunto de ações e discussões feitas ao longo dos últimos anos que precisavam ter início prático”, diz o presidente do Ibram.

Motivos

Um dos principais motivos para o investimento no setor é o fato de Brasília ser uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. A intenção é oferecer boas opções ao turista que visitará a capital. Além disso, a própria cultura museológica tem se ampliado no Brasil. De acordo com o Ibram, são 3.117 museus no país e a média anual de visitação está em 25 mil pessoas por unidade. Isso significa que 78 milhões de pessoas têm ido a esses espaços. “O crescimento da economia tem dado condições para as pessoas colocarem essas visitas na cesta básica”, explica Nascimento Júnior.

Em novembro, o GDF e o Ministério da Cultura se reuniram para discutir o projeto Esplanada dos Museus. A proposta é construir cinco unidades até o campeonato mundial de futebol: dos Esportes, de Arte das Américas, da Democracia, da Biodiversidade e da Diversidade Cultural. O governo local estuda os locais possíveis para instalar os novos espaços, enquanto o MinC está responsável por captar recursos e estabelecer as parcerias. Além disso, o governador, Agnelo Queiroz, deseja implantar uma gestão compartilhada do Museu da República com o governo federal .


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URBANISMO »   Centro histórico modificado
Mesmo após 150 anos desde a fundação de Planaltina, algumas edificações do Setor Tradicional resistem ao tempo. Outras, como o antigo Hotel Ouro . CORREIO  03/12
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O casarão da Dona Nigrinha, localizado na Rua 13 de Maio de Planaltina, acabou colocado à venda: deterioração

A paisagem bucólica de Planaltina se transformou com o passar do tempo. A transferência da capital para o Planalto Central trouxe o desenvolvimento à região, mas modificou a cidade antiga com ar interiorano. Carregadas de histórias, as casas de adobe saíram de cena e deram lugar a construções modernas e vultosas. As fotos guardam a única lembrança dos casarões coloniais que abrigaram os primeiros moradores de Planaltina. Mais de 150 anos depois, porém, algumas edificações ainda resistem à ação do tempo e do descaso.

Na Rua Coronel João Quirino, no Setor Tradicional de Planaltina, a modernidade venceu a preservação da história. O casarão onde funcionava o antigo hotel Ouro Fino foi derrubado no fim de 2009 para a construção de um outro prédio. Os moradores mais resistentes à transformação denunciaram o caso. “Os proprietários destroem as casas aos poucos, longe dos olhos de todo mundo e quando a gente vê não sobrou mais nada”, lamentou a presidente da Associação dos Amigos do Centro Histórico de Planaltina, Simone dos Santos Macedo.

Já o casarão da dona Nigrinha, localizado na Rua 13 de Maio, resiste em pé à ação do tempo. Ele pertencia ao madeireiro Zé Baiano e à esposa, que deu nome à construção. Após a morte do casal, o imóvel ficou para uma filha de criação, que tenta vendê-lo. Para evitar uma nova destruição, Simone Macedo procura um comprador interessado em preservá-lo. “Ele fica num ponto estratégico, entre duas praças, mas está bastante deteriorado. Há um projeto de restauro feito por um ex-aluno da Universidade de Brasília (UnB) e já sugerimos que a própria instituição compre a casa”, adiantou.

Cuidado

A preservação dos casarões depende da vontade dos donos. A antiga casa do avô paterno da professora aposentada Marilda Guimarães, 68 anos, chama a atenção de quem passa na esquina da ruas Hugo Lobo e 13 de Maio. Em 2007, o imóvel passou por uma reforma e Marilda optou por manter a estrutura original. “Nossa família é muito ligada à preservação, senti que tinha a obrigação de fazer isso”, disse. O local serviu de moradia para o delegado e avô da professora na primeira metade do século 20, Antônio Gonçalves Guimarães, e depois como coletoria federal, onde os impostos eram cobrados. “No início, enfrentamos resistência dos trabalhadores, que queriam usar materiais novos, mas precisei mostrar a eles o valor da restauração”, contou Marilda.

E foi esse cuidado que despertou a atenção da professora Maria Dalva Trivellato, 54 anos. Ela se mudou para Brasília há três meses e, desde dezembro, vive no imóvel que já foi do delegado da cidade. “Me encantei com a fachada e vi que estava para alugar. Pensei em morar aqui na hora”, lembrou. Um detalhe na parede da garagem desperta a curiosidade de quem a visita. Marilda preservou um pedaço da parede, feita de barro, e colocou uma identificação ao lado. “Achei muito interessante esse cuidado, gosto muito desse trabalho. Quando morava em Minas Gerais, meu passeio era visitar a cidade histórica de Ouro Preto”, contou Maria Dalva.

A dona do hotel O Casarão, Geralda Maria Vieira, 81 anos, também resistiu à ação do tempo. Ela se mudou para Planaltina há 51 anos, comprou o imóvel e o mantém até hoje. “A cidade cresceu muito, gosto do progresso, mas também de proteger essa área que nos traz muitas lembranças”, defendeu. A casa fica na praça Coronel Salviano Monteiro, no Setor Tradicional, próximo a outras edificações que ainda estão de pé como os casarões da dona Morena e da dona Nilda, a antiga Prefeitura e a Casa de Câmara e Cadeia. Até um pé de jenipapo está na lista de tombamento da associação. “A gente ouve falar que ele serviu como a primeira cadeia pública da região, queremos tombá-lo e recuperar a praça também”, explicou Simone.

Dificuldades

Segundo o superintende do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Distrito Federal (Iphan-DF), Alfredo Gastal, a grande dificuldade do governo é proteger o patrimônio da destruição que ocorre atrás dos muros. “A maioria desses prédios é particular, o que dificulta o processo de preservação”, explicou. Ele desaprova o descaso com o Setor Tradicional, mas justifica que o Iphan-DF também não tem estrutura para resolver o problema da região. “Isso é complicado porque exige uma estrutura que não temos, mas estamos abertos a discussões. Esse patrimônio merece ser preservado e o GDF pode fazer isso”, sugeriu.

O diretor de preservação da Secretaria de Cultura, Jonatas Barreto, explicou que somente o Museu Histórico de Planaltina e a Igreja de São Sebastião são tombadas pelo Governo do Distrito Federal, e o órgão não pode intervir nas edificações que não são protegidas. “Precisamos começar um processo de tombamento que é longo, precisa de muitos estudos e aprovações. Sabemos da descaracterização, mas estamos de mãos atadas pela lei. Só podemos agir nas imediações se houver interferência das edificações tombadas”, explicou. Ele defende a educação patrimônio entre a população para evitar mais destruições.

Conservação

O grupo surgiu em 2007 após uma parte da estrutura da igreja de São Sebastião ser destruída. O episódio despertou em alguns moradores a necessidade de preservar a cidade que guarda muitas histórias da ocupação do Planalto Central. Desde a fundação,
os membros da associação trabalham para defender a preservação e o tombamento do patrimônio histórico.
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Luiz Carlos Prestes.  Família doa acervo ao Arquivo Nacional. O POPULAR 04.01
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Rio - Um documento clandestino de fevereiro de 1976 acusando 233 integrantes do regime militar de serem torturadores integra o acervo do líder comunista Luiz Carlos Prestes (1898-1990), doado ontem por sua família ao Arquivo Nacional.

Entregue a Prestes, então exilado em Moscou, na segunda metade dos anos 70, por emissários do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Relatório da 4ª Reunião Anual do organismo revela algumas surpresas. Uma delas: denúncias de tortura foram repassadas por militares dissidentes, que continuavam nas Forças Armadas, mas discordavam da ditadura de 1964. As 32 páginas datilografadas são apenas parte da documentação que era mantida por Prestes, catalogada pela família em sete pastas e cujo conteúdo será digitalizado e colocado na internet, à disposição de pesquisadores.

"Eu já vinha acumulando este acervo, havia alguns anos. Depois da morte do Prestes, doei a maioria dos documentos para a Unicamp. E tem também um museu em Tocantins, aonde eu mesmo levei a escultura e montamos um museu. Fiquei três meses lá, pesquisando as cidades onde a Coluna (Prestes, movimento revolucionário da segunda metade dos anos 20) passou e ainda recolhendo muitos materiais de 1924, manifestos, jornalzinho, panfletos de quando a coluna passou. Isso está tudo lá no museu", relatou Maria do Carmo Ribeiro, viúva do líder comunista.

A lista com os supostos torturadores foi divulgada na segunda metade dos anos 70, pela imprensa alternativa, de oposição.


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CRÍTICA INSTRUMENTAL.   Álbuns reeditados recuperam dois momentos distintos de Gismonti.  Dois clássicos de Egberto Gismonti editados pelo selo alemão ECM retornam às prateleiras nacionais: "Dança das Cabeças" e "Infância". FOLHA SP 04.01
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Representando alguns dos momentos mais expressivos da carreira de Gismonti, 64, os discos trazem formações e propostas distintas.

Gravado em 1976, "Dança das Cabeças" é um duo com o percussionista Naná Vasconcelos. Com temas sugestivos como "Tango" e "Bambuzal", o trabalho de enorme repercussão e abriu o mundo aos dois instrumentistas.

Gismonti tem no piano e no violão seus veículos de expressão mais significativos. Entre o popular e o erudito, ele desenvolveu uma obra refinada e de grande impacto internacional.

"Infância", que também está sendo editado em vinil, retrata um universo diferente. Registro de 1990, o álbum é marcado pelo diálogo entre teclas e cordas, tendo o acompanhamento de Nando Carneiro (sintetizadores), Zeca Assumpção (baixo) e Jacques Morelenbaum (violoncelo).

Os relançamentos fazem parte de uma nova parceria entre o ECM e a gravadora paulista Borandá. Nos próximos meses, mais títulos do instrumentista voltarão às lojas, ao lado de outras preciosidades do ECM.

DANÇA DAS CABEÇAS /INFÂNCIA

ARTISTA Egberto Gismonti
GRAVADORA ECM/Borandá
QUANTO R$ 44,90 (cada um)
AVALIAÇÃO ótimo ("Dança das Cabeças") e bom ("Infância")