sexta-feira, 4 de março de 2011

CARLOS HEITOR CONY

Se a canoa não virar

Fonte: folha.uol.com.br 04/03

Amavam-se e tudo o mais, o resto do mundo, da vida, perdia significação e prazer; assim era no Carnaval


NO FUNDO, no fundo, desprezavam o Carnaval. Tinham muito no que pensar, no que falar e, sobretudo, no que fazer: amavam-se e tudo o mais, o resto inteiro do mundo e da vida perdia significação e prazer. O que não fosse de um e de outro, inexistia. E assim era no Carnaval.
Como todo mundo, fugiam da cidade, se enfurnavam em hotéis, motéis e bibocas ao longo de Búzios, Cabo Frio e Arraial do Cabo -e ali curtiam o sol, as caipirinhas, os camarões torrados. E, quando as praias ficavam desertas, eles chegavam a se amar na areia, quentes de sol, salgados de mar.
Mas tudo tem seu dia. Ou melhor: sua noite. Num desses Carnavais, eles acordaram no meio da noite. A praia estava deserta, o vento carregava a areia fina e salgada das praias e incomodava. Caíram mais uma vez no mar e voltaram para o motel. Ao longe, o som cadenciado de um baile.
Todos estavam no Carnaval e eles decidiram assuntar. Não custava. Com panos e fitas improvisaram fantasias. Ela transformou a toalha de praia num saiote de havaiana -e como tinha ancas fortes e coxas redondas, ficou muito bem.
Ele descobriu uma bermuda, ela colocou umas flores em cima -pronto. Eram dois havaianos completos e podiam ser admitidos no melhor baile da cidade, o que exigia fantasia ou rigor.
Tomaram duas caipirinhas reforçadas para livrar a cara daquele vexame e lá foram. Nunca tinham ido a um baile juntos, nunca tinham feito Carnaval e havia certa expectativa, certo mistério na primeira vez.
Para facilitar as coisas, na porta do clube uma barraquinha vendia máscaras de pano, imitação pobre das máscaras de Veneza e de seu Carnaval. Ele ficou parecendo o Zorro, ela, a colombina, com a mesma máscara negra que não dava para esconder os olhos enormes e verdes.
Sentiram-se estranhos naquele mundo que fazia alegria e suor. Eles nem suavam nem estavam propriamente alegres: eram felizes -o que é diferente. Mais duas caipirinhas e aí a orquestra explodiu, explodiram as mulheres de todos os cantos. Combinaram que cada um se viraria sozinho -para ver no que ia dar. Se desse nalguma coisa.
Ele não era bom de dança nem de Carnaval, mas com as caipirinhas acumuladas até que deu para o gasto. Uma mulher queimada de sol, com uma túnica romana molhada de suor, segurou-o pela nuca e levou-o para o miolo da pista.
Já naquele tempo não havia música nova de Carnaval, o repertório era um compacto de sucessos antigos e, assim, ele conseguiu cantar a jardineira que caiu do galho, chegou o general da banda, se a canoa não virar eu chego lá, mais de mil palhaços no salão, atravessando o deserto do Saara o sol estava quente e queimou a nossa cara, olha a cabeleira do Zezé, você partiu, saudade me deixou, a estrela Dalva no céu desponta e a lua anda tonta...
A mulher da túnica romana tinha um vago cheiro de maconha misturado ao cheiro do suor, talvez fosse uma conhecida, nunca se sabe. A orquestra atacou o Bigorrilho, bigorrilho foi quem me ensinou a tirar o cavaco do pau, nada fazia sentido mas de repente estavam juntos, as pernas quase enroscadas: fazia sentido.
De repente, também, ele viu passar ao lado um saiote havaiano escondendo ancas fortes e duas coxas redondas. Largou a recém-companheira e foi atrás da havaiana, era aquilo que a sua carne pedia e exigia. Mas a havaiana pulava sozinha, sumia, aparecia aqui e ali, sumia, que diabo de mulher aquela.
Ele arrancou a máscara que o incomodava, disposto a achar aquela havaiana -a única que merecia uma traição, um bode. Pronto, lá estava ela, dançando para a orquestra, de costas para o resto do salão. Ele chegou perto, tomou-a pelo ombro. "Saravá, meu pai, vou te benzer..." A música era agora um velho ponto de macumba estilizado para o salão.
A havaiana virou o rosto, pelo buraco da máscara ordinária ele viu os dois olhos verdes, olhos que a identificavam, mais do que as ancas fortes e as coxas redondas.
O Carnaval, para eles, terminou ali. Foram para a praia amar mais uma vez. Ao longe, ouviam a cantoria da festa que vibrava no ar, mais forte do que as ondas que arrebentavam no corpo deles. A canoa virou, mas eles chegaram lá.

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Brasil tem 58 orquestras, que dependem dos governos

Fonte: folha.uol.com.br 04/03

Em debate da Folha, especialistas falaram da música clássica no país, apontando Osesp como exemplo de padrão internacional

"A Osesp fez de São Paulo um modelo do que pode ser música clássica bem-sucedida no Brasil. Mas o investimento público continua sendo obrigatório."
A frase foi dita pelo diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, Arthur Nestrovski, no debate "Música clássica no Brasil hoje", promovido pela Folha, em sua sede, na noite da última quarta-feira.
O encontro também contou com a presença de Nelson Kunze, editor da revista "Concerto", Cacá Machado, ex-diretor do Centro de Música da Funarte, e Sidney Molina, crítico de música clássica da Folha. Todos estiveram de acordo em um tema: sem incentivo público, não há excelência musical no Brasil.
"Música clássica e ópera não vingam no mercado. As orquestras dependem de vontade política", disse Nelson Kunze, ilustrando: "Nos anos 1980, houve uma ótima orquestra na Paraíba, que existiu porque o governador gostava".
Kunze defendeu que as orquestras precisam fincar bases para se defender das trocas de governo: "Se a orquestra se capilariza na sociedade, ela ganha força. É o caso da Osesp, a única manifestação cultural no Brasil que conseguimos medir com régua internacional".
Além da Osesp, os debatedores elogiaram os exemplos da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, regida por Fábio Mechetti, e da Orquestra Sinfônica Brasileira, do Rio de Janeiro, regida por Roberto Minczuk.
Nestrovski apontou que o Brasil tem, hoje, de acordo com o guia "Viva Música", 58 orquestras. "Mas não existe uma liga de orquestras para coordená-las", completou.
Cacá Machado disse que grande parte dos programas públicos é assistencialista. "Um editalizinho aqui para os compositores não vai resolver situação nenhuma."

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GASTOS PÚBLICOS

Fonte: correioweb.com.br 04/03

Por onde escoa nosso dinheiro

Em época de cortes no Orçamento, governo desperdiça verbas que poderiam ser economizadas, como o pagamento de aluguel de prédios vazios e passagens aéreas por valores acima da média

As emendas parlamentares estão no alvo dos cortes de R$ 50 bilhões no Orçamento da União. Mas a gastança não é apenas obra de políticos acostumados a transformar verbas públicas em obras de pouca utilidade. Grande parte do dinheiro é desperdiçada com a falta de administração criteriosa, voltada para a função essencial do Estado: promover o bem-estar dos cidadãos. O governo paga mais caro do que deveria por passagens aéreas. Gasta com aluguéis de prédios vazios enquanto imóveis públicos são usados por quem não deveria. Aposentadorias são pagas a gente que já morreu. O Correio relata abaixo e nas próximas duas páginas exemplos do mau uso do dinheiro público. Casos como um contrato de aluguel iniciado em novembro pelo Instituto do Patrimônio

Histórico e Artístico Nacional (Iphan) ao custo mensal de R$ 488 mil por um prédio que não tem data para ficar pronto, ou da compra de passagens aéreas por valores superiores aos que seria possível se houvesse maior planejamento e antecedência na compra. Além disso, a falta de controle do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) fez com que R$ 1,67 bilhão tenham sido depositados em 2010 em contas de aposentados já enterrados. Na Câmara, servidores apadrinhados por deputados ocupam imóveis avaliados em mais de R$ 30 milhões. Dinheiro que poderia servir para reformar prédios destinados a acomodar parlamentares, colocando fim ao auxílio-moradia de R$ 3 mil por mês que resulta em uma conta de mais de R$ 18 milhões a cada ano.

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O Estado da arte

Fonte: folha.uol.com.br 03/03


Galerias do Rio e de Recife se mudam para São Paulo, acirrando disputa por artistas já representados por casas locais, sintoma de um mercado de arte que está cada vez mais aquecido

Não é indolor a entrada de uma galeria de arte no mercado. E se esse mercado é forte como o de São Paulo hoje, novos jogadores no pedaço causam alvoroço e provocam fraturas nos relacionamentos entre artistas e galeristas.
No fim do mês, uma casa do Rio e outra de Recife se juntam na capital paulista, criando um entreposto central para seus territórios de origem. Laura Marsiaj, carioca, e Mariana Moura, pernambucana, abrem a Moura Marsiaj em Pinheiros, no lugar da extinta galeria Oeste.
"Já estou de mala e cuia para São Paulo", disse Marsiaj àFolha. "Tínhamos a necessidade de uma representação maior na cidade, somos duas galerias se unindo e cobrindo todo o território."
Mas nem tudo está vindo nessa mudança. Ficarão no Rio alguns de seus artistas já representados em São Paulo por outras galerias, caso de Barrão e Mauro Piva, da Fortes Vilaça, Lenora de Barros, da Millan, Iole de Freitas, da Raquel Arnaud, e Márcia Xavier, da Casa Triângulo.
Moura está deixando para trás um forte time representado em São Paulo pela galeria Nara Roesler -Artur Lescher, José Patrício, Laura Vinci e Gil Vicente, que mostrou seus desenhos de assassinatos de líderes políticos na última Bienal de São Paulo.
Em abril, quatro sócios, todos colecionadores, abrem a galeria Transversal, na Barra Funda, com um elenco tímido de nove artistas, mas que deve ganhar vulto com o tempo e arrisca atrair também nomes de outras casas.
Chamado choque de representações, a situação de um artista representado na mesma cidade por mais de uma galeria é comum em mercados desenvolvidos, como o norte-americano e o europeu, mas é um sintoma de que o mercado nacional entra numa nova fase, turbinado pelo forte interesse global.
Uma obra de Adriana Varejão acaba de ser arrematada em Londres por R$ 3 milhões, recorde de preço para um artista brasileiro vivo.
De olho em valores cada vez mais altos, galeristas alijados do centro financeiro do país agora se esforçam para levantar suas bandeiras em São Paulo, acirrando a disputa por artistas num mercado cada vez mais acelerado.
Enquanto em suas cidades de origem Laura Marsiaj e Mariana Moura estão entre as casas mais fortes do mercado, representando artistas consagrados, as duas tentam engrossar o time com jovens autores na cena paulistana.

CASAMENTO E DIVÓRCIO
Mesmo antes de abrir as portas, a Moura Marsiaj já tirou a pintora Renata De Bonis da galeria Oscar Cruz e a fotógrafa Amanda Melo da Zipper. Enquanto isso, Hildebrando de Castro, que começou a expor no Rio, na Laura Marsiaj, agora preferiu ficar na paulistana Oscar Cruz.
"Estamos com a política de não estimular esse tipo de comportamento", diz Mariana Moura sobre a troca de galerias por parte dos artistas. "A gente prefere manter a situação assim como está pelo menos por um tempo, mas é claro que essas mudanças de galeria sempre vão existir."
Mas também serão sempre indesejadas caso o artista que decide romper a relação seja um nome rentável para a casa. "Relação artista-galerista é como casamento", resume a marchande Nara Roesler. "Se algum não quiser ficar mais conosco, e não é isso que eu sei, ele tem o direito de trocar de escuderia."
Sobre o fim da relação com Amanda Melo, Fabio Cimino, da Zipper, usou palavras que lembram mesmo um rompimento amoroso. "Cada um segue o seu caminho, cada um escolhe o melhor", afirmou o galerista. "Espero que ela seja feliz para sempre."
Lenora de Barros já disse se sentir às vezes no meio da relação entre os titãs Laura Marsiaj e André Millan. "Minha galeria-mãe é a Millan", conta a artista. "A Laura Marsiaj chegou a conversar comigo para mudar há uns anos, e eu disse não, mas isso tudo foi bacana, sem confusão."
Enquanto isso, Millan pretende fazer o caminho inverso, abrindo uma filial de sua galeria, uma das mais importantes do país, no Rio, sem descartar possíveis choques com algumas casas cariocas.
No caso, Amilcar de Castro e Miguel Rio Branco, dois dos nomes mais fortes do time da Millan, são representados no Rio pela galeria Silvia Cintra.
"Acho complicado o artista ter duas galerias na mesma cidade, é uma coisa sem sentido, não existe", diz Millan. "Mas não há uma regra, penso que deve haver sempre uma escolha do artista."
Fora da arena dos gigantes, pequenas galerias que surgem no cenário recrutam nomes novos para não estremecer relações de mercado, caso da galeria Transversal.
"A gente se preocupou em não pegar nenhum artista de outra galeria para não gerar inimizades", diz João Grinspum Ferraz, um dos sócios. "Tem uma resguarda ética."

quarta-feira, 2 de março de 2011

CRÍTICA INSTRUMENTAL

Disco póstumo inédito expressa lirismo e leveza do estilo do clarinetista Paulo Moura


Fonte: folha.uol.com.br 02/03


Um projeto iniciado por Paulo Moura (1932-2010) há mais de cinco anos acaba de ganhar vida.
Primeiro disco póstumo do mais talentoso clarinetista brasileiro, "Alento" surge com faixas inéditas realizadas em algumas das últimas sessões conduzidas pelo músico, morto em julho do ano passado.
Era 2005 quando Moura convidou o flautista Paulo Martins para realizar algo com ele, nada formal, sem planejamentos prévios.
Até 2009, os músicos se encontraram diversas vezes para experimentar e testar novos sons. E foram nessas reuniões esparsas e descompromissadas que brotaram as faixas de "Alento".
Moura mantinha-se em boa forma destilando uma clarineta macia, reconfortante, sensual até, como pode ser comprovado em "Mulatas e etc.", um dos temas do músico resgatados no álbum.
Das nove composições presentes no trabalho, cinco trazem sua assinatura. "Abertura 3D" inicia o disco com lirismo. Após a entrada conduzida por violoncelo e violino, uma sutil camada percussiva forma a delicada base rítmica sobre a qual sopros e cordas deslizam.
O esquema se mantém em "Road Movie", na qual a clarineta de Moura dialoga mais vivamente com o violino de Daniel Guedes, em uma fluidez discursiva sem espaços para arroubos virtuosísticos ou exibições supérfluas.
Martins, antigo aluno de Moura, agregou ao projeto o pessoal do Teatro do Som, grupo que fundou na década de 1980.
A diversidade instrumental que marca a passagem de um tema a outro, que vai do trio de "Oju Obá" ao septeto de "Abertura 3D", não compromete, contudo, a unidade deste trabalho.
À clarineta e à flauta juntam-se diferentes instrumentos de corda (baixo, violão, violoncelo e violino), percussão, teclado e até uma gaita, trazendo um colorido dinâmico ao disco.
É apenas no final que o tom escorrega um pouco. "Troca de Olhares" e "De Volta a Alexandria" fecham a obra em um nível abaixo do verificado no restante de "Alento". Com seus teclados e sintetizadores, acabam por exalar certo aroma "smooth jazz" desnecessário.

ALENTO

ARTISTA Paulo Moura e Teatro do Som
LANÇAMENTO Biscoito Fino
QUANTO R$ 34, em média
AVALIAÇÃO bom

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Atraso em pagamentos a Pontos de Cultura é de cerca de R$ 60 mi

Fonte: folha.uol.com.br 02/03


O Ministério da Cultura acumula cerca de R$ 60 milhões de pagamentos em atraso para Pontos de Cultura no país. Na cifra estão incluídos atrasos no pagamento de prêmios e editais, todos relacionados ao projeto.
Os pontos são locais selecionados pelo Ministério da Cultura para articular e impulsionar ações que já acontecem nas comunidades.
A estimativa foi informada ontem à Folha pelo secretário executivo do MinC, Vitor Ortiz. Ele adiantou também que a programação de como será o pagamento dos valores em atraso será definida até meados de março.
O levantamento sobre os pagamentos atrasados do governo Lula ainda não foi concluído. "Os Pontos de Cultura são uma prioridade da gestão da ministra Ana de Hollanda", disse Ortiz.
Do total, ao menos R$ 12 milhões se referem a SP. O MinC atrasou o pagamento de 200 Pontos no Estado.
Cada um deles deveria ter recebido, em dezembro, R$ 60 mil. Esses locais fazem parte de um convênio que reúne 300 Pontos de Cultura.
O atraso gerou protestos. Na semana passada, um grupo de 50 coordenadores de Pontos de Cultura foi a Brasília reclamar. O secretário executivo disse que o ministério tenta uma renegociação com produtores culturais.

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ORÇAMENTO

Tesourada atinge o combate ao crime

Fonte: correioweb.com.br 02/03

Técnicos dos ministérios da Justiça e do Meio Ambiente avaliam que o corte de gastos em viagens e diárias prejudicará operações da Polícia Federal e a atuação do Ibama na prevenção dos delitos ambientais

Um Estado com menos poder de fiscalização e de polícia. Essa é apenas uma parte dos efeitos mais práticos dos cortes de R$ 50 bilhões no Orçamento da União, cujo detalhamento pela equipe econômica do governo de Dilma Rousseff já desencadeou uma mobilização nos ministérios: os gestores ainda decidem onde cortar (veja quadro ao lado). Ao longo do ano, em razão da diminuição dos gastos com diárias e passagens, o governo federal vai perder capacidade de fiscalização dos crimes ambientais — principalmente em áreas mais isoladas, como a Amazônia — e de combate à corrupção, já que haverá um menor deslocamento de agentes da Polícia Federal.

Dentro dos ministérios do Meio Ambiente (MMA) e da Justiça, os cortes primordiais serão os relacionados a viagens dos servidores. Técnicos das duas pastas ouvidos pelo Correio ressaltam a consequência dessa tesourada específica: a diminuição de operações da PF e de combate a crimes ambientais, empreendidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).


O corte no MMA será de R$ 398,1 milhões, o equivalente a 37% do orçamento inicialmente previsto para este ano. No Ministério da Justiça, pasta a qual a PF está subordinada, a tesourada é ainda mais expressiva: será R$ 1,52 bilhão a menos, ou 64% de todo o montante aprovado para 2011. Nos dois ministérios, a constatação é de que a diminuição das viagens prejudicará as operações de combate ao crime. Isso porque o deslocamento de agentes, principalmente na repressão a crimes ambientais, é necessário na maioria das operações desenvolvidas.


As tentativas de reforço de pessoal também serão em vão, pelo menos para este ano. As chances de os 200 novos analistas do MMA — selecionados por concurso no início deste ano — serem convocados são remotas. Já o concurso para 1.000 agentes da PF, antes previsto, não deve ocorrer.


Reflexos
No MMA, além dos cortes em passagens, diárias e contratações de concursados, a tesoura deve atingir servidores terceirizados, inclusive os que estão lotados em órgãos como o Ibama, o Instituto Chico Mendes (responsável pelas unidades de conservação federais) e a Agência Nacional de Águas (ANA). Há dois anos, quando o ministério precisou cortar gastos, foi necessário adiar a instalação de unidades do Instituto Chico Mendes e do Serviço Florestal Brasileiro (SFB). Agora, comunidades tradicionais poderão sentir a escassez de convênios por parte do MMA.


Os cortes anunciados pelo governo Dilma podem reduzir as ações da PF, que muitas vezes utilizam grandes contigentes de agentes que se deslocam de outras regiões. “As nossas operações terão de ser redimensionadas”, afirma o vice-presidente do Sindicato dos Policiais Federais do Distrito Federal, Flávio Werneck. “A partir do momento em que os efetivos usados diminuem, existem reflexos.”


O temor dentro da PF é de que haja uma diminuição das operações especiais, que são aquelas que reúnem maior número de efetivo, originadas de apurações de longo prazo (veja ao lado algumas das operações desenvolvidas nos últimos anos). A avaliação é que as investigações em si não sofrerão abalos, já que muitas vezes dependem de poucos agentes. O problema será no momento em que a ação for desencadeada. “Todo o planejamento operacional terá de ser revisto”, observa Werneck, ressaltando que os problemas podem aparecer já a partir do segundo semestre deste ano.


Quando tomou posse, em 14 de janeiro, o diretor-geral da PF, Leandro Daiello Coimbra, disse que sua prioridade será dar continuidade às grandes operações. No Ministério da Justiça, o temor é que o Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci) seja afetado, atingindo também outros projetos, como de capacitação das polícias. O ministério informou que ainda não sabe quais áreas serão atingidas, mas ressaltou que não haverá paralisação das atividades de qualquer setor ou programas, que serão apenas “readequados”. “Vamos tentar fazer mais com aquilo que temos. Estamos buscando todos os mecanismos de gestão”, disse ontem o ministro José Eduardo Cardozo. Ele afirmou que o Pronasci, um dos carros-chefes de sua pasta, não sofrerá alterações. “O Pronasci continua intocável.”

terça-feira, 1 de março de 2011

Ensino público e leigo

Fonte: folha.uol.com.br 01/03 (EDITORIAL)



O fato de 98 mil escolas públicas e privadas -metade dos estabelecimentos do país- oferecerem ensino religioso, constatado em reportagem desta Folha, vem apenas confirmar o estado de confusão em que se encontra esse aspecto sensível da separação entre igreja e Estado no Brasil.
Colégios particulares podem, é evidente, oferecer até ensino confessional, com vistas a instilar nas crianças e nos jovens uma determinada fé. A escolha é dos pais.
Na rede oficial, contudo, a ambiguidade da legislação tem permitido que religiões se insinuem nas salas de aula, o que é descabido. Trata-se de violação flagrante ao artigo 19 da Constituição Federal, que veda à União, aos Estados e aos municípios manter com cultos religiosos ou igrejas "relações de dependência ou aliança".
A dificuldade reside em que outro dispositivo da Constituição (art. 210) admite o ensino religioso, de matrícula facultativa, como disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental. O proselitismo é proibido pela Lei de Diretrizes e Bases da educação, mas praticado em mais de um estabelecimento.
Resulta da ausência de regulamentação mais clara que cada Estados se vê livre para adotar padrões díspares nas redes de ensino fundamental. Quatro deles (AC, BA, CE e RJ) enveredam pelo ensino confessional.
Outros 22 optam por um sistema interconfessional, em que as principais religiões definem um conjunto de valores a transmitir -em prejuízo das denominações minoritárias, presume-se, e do pluralismo religioso. Só o Estado de São Paulo fixou uma interpretação inequívoca e coerente com a noção de Estado leigo, em favor do ensino de história das religiões (o que não exclui, por certo, que uma ou outra escola venha a desrespeitar a diretriz).
Para dirimir a questão, o ideal seria uma emenda constitucional eliminando a exigência do ensino religioso. Diante da improbabilidade de que tal solução prospere, por força da influência de igrejas e cultos, resta aguardar uma manifestação terminante do Supremo Tribunal Federal em favor da laicidade do Estado, quando se pronunciar sobre ação direta de inconstitucionalidade movida pelo Ministério Público Federal.

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CARLOS HEITOR CONY

Fonte: folha.uol.com.br 01/03



Moacyr Scliar

RIO DE JANEIRO - Ao longo de muitos anos no ofício, raríssimas vezes comentei os livros lançados no mercado editorial. Não faz muito, abri uma exceção para Moacyr Scliar, escrevi sobre seu último romance, "Eu vos abraço, milhões". Partindo de um verso de Schiller na "Ode à alegria", o mesmo poema que Beethoven aproveitou para compor sua "Nona Sinfonia", ele contou a história de uma geração atraída pelas conquistas sociais do comunismo romântico que se espalhou pelo mundo após a revolução soviética de 19l7.
A mesma geração que mais tarde se desencantou e se arrependeu de ter queimado o "Dom Casmurro" -um "romance burguês para burgueses". Uma geração que não chegou a ser perdida, como o próprio Scliar nunca se perdeu em sua honesta e brilhante trajetória humana e intelectual.
A repercussão de sua morte, no último domingo, que continuará por muito tempo ainda, lembrou seus méritos como escritor de primeiríssimo time, dono de uma obra que engrandece o nosso tempo cultural e literário. Para os que conviveram com ele, a perda foi funda e dolorosa.
No meu caso, perdi uma referência afetiva e posso dizer que clínica. Nos últimos anos, ele foi uma espécie de âncora que tomava conta de minha saúde. Ele queria saber tudo, ver os exames que eu fazia, examinar os remédios que me receitavam. Uma amizade mais do que fraterna, quase paternal da parte dele. Embora mais moço, tomava conta de mim -e será difícil, agora, frequentar a ABL sem ele.
Viajamos pelo mundo, Paris, Barcelona, Guadalajara, Buenos Aires, praticamente por todas as capitais brasileiras, era impressionante a maneira modesta, mas eficiente que sabia usar com os diversos auditórios que o buscavam. Valeu, Scliar, valeu muito, valeu tudo.

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Produtos em inglês perdem mercado

Fonte: folha.uol.com.br 01/03



Nomes estrangeiros prejudicam a propaganda boca a boca nas classes populares de itens de beleza e higiene

Natura e Jequiti preferem usar nomes nacionais; algumas marcas ainda ligam outro idioma a luxo

O crescimento do consumo de produtos de higiene e cuidado pessoal pelas classes mais baixas gera desafios para a indústria brasileira.
De acordo com Renato Meirelles, do Data Popular, as embalagens ainda contêm uma série de nomes em inglês -ou outros idiomas-, dificultando o entendimento do consumidor popular.
"Como 69% dos consumidores das classes C, D e E fazem propaganda boca a boca, se eles não sabem pronunciar o nome dos produtos, a força de marketing se perde", afirma Meirelles.
Muitas marcas ainda recorrem ao antigo clichê de que os nomes em outro idioma trazem sofisticação aos produtos, diz Ana Cristina Puttini, gerente de identidade verbal da consultoria de marcas Interbrand.
"Faz parte da estratégia de passar uma ideia sofisticada, mas acho que não é por aí. Não acredito que o consumidor deixaria de comprar um perfume, por exemplo, porque ele tem o nome em português", afirma.
Puttini diz também que muitas marcas comercializadas no país se espelham em empresas estrangeiras.
Para ela, porém, os termos em inglês ou outros idiomas podem deixar de ser problema no curto prazo.
"O público tem acesso a informações em computador -os nomes das redes sociais, por exemplo, são em outras línguas. Tem gente que não sabe pronunciar hoje, mas rapidamente saberá."

NA CONTRAMÃO
A especialista em marcas cita a brasileira Natura como referência em termos de nomes. A fabricante de cosméticos vai na contramão do mercado e baseia sua estratégia em exaltar o Brasil.
A Jequiti, que tem produtos baratos que atraem a classe C, também tem nomes em português na maioria de seus produtos, como o protetor solar Fotosim e a linha de maquiagem Elas.

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VLADIMIR SAFATLE

Fonte: folha.uol.com.br 01/03



O fim da tolerância?

Hoje, faz 261 dias que a Bélgica está sem governo. A incapacidade de gerir os conflitos entre flamengos e valões chegou a um ponto dificilmente imaginável em qualquer outro país. Esse seria, no entanto, um fato sem maior interesse para o resto do mundo se não fosse, na verdade, uma espécie de sintoma ampliado da regressão política que assola toda a Europa.
Sintoma que diz respeito à destruição social gerada atualmente pela noção de "identidade nacional".
No fundo, a crise belga é o resultado da crença de que duas identidades nacionais não podem ocupar o mesmo espaço. Uma colonizará a outra com sua língua, seus costumes, suas crenças.
Essa ideia está por trás, por exemplo, do crescimento espetacular do partido xenófobo francês Front National com seu discurso, digno da época das Cruzadas, de que a identidade francesa será destruída pela invasão árabe.
Há alguns dias, saiu uma pesquisa mostrando que sua candidata a presidente, Marine Le Pen, tinha 20% das intenções de voto para a eleição presidencial do ano que vem.
Tal relação paranoica à identidade nacional é ainda o motor do crescimento dos partidos de extrema-direita na Holanda, na Dinamarca, na Suíça, na Hungria, na Suécia, na Itália, entre tantos outros.
Talvez seria o caso de dizer que não conseguiremos nos livrar da guinada extremista enquanto não tivermos coragem de dizer que a era das identidades nacionais acabou. Não há como conservar a noção de identidade nacional sem recairmos na tendência de associar Estado, nação e povo.
Pois uma das maiores conquistas da modernidade foi compreender o Estado moderno como uma instituição que, por só reconhecer relações igualitárias e universalistas, não se submete às tendências comunitaristas que aparece toda vez que alguém levanta a voz para falar da identidade do povo francês, flamengo, brasileiro, judeu, árabe.
Podemos viver muito bem em países que aceitam a mutação constante de suas culturas e línguas e o caráter múltiplo de seus costumes.
Nos últimos dias, David Cameron, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, todos governantes em baixa de popularidade, procuraram fazer seus cidadãos esquecerem da crise econômica que assola seus países colocando na pauta do debate o "fim do multiculturalismo".
Contudo poderíamos dizer que o multiculturalismo fracassou por não ser suficientemente multicultural. Ele nunca conseguiu realmente integrar imigrantes como sujeitos políticos, partilhar poder e compreender que a verdadeira multiplicidade não é a soma de identidades isoladas onde cada um "tolera" o outro.
A verdadeira multiplicidade é o movimento de dissolução das identidades em direção à construção de universalidades realmente inclusivas.