domingo, 4 de julho de 2010

ENTREVISTA/FLÁVIO CARNEIRO

Fonte: o popular 04/07

'O escritor sonha seu leitor'

Escritor premiado, o goiano Flávio Carneiro revela os segredos de quando está do outro lado desse diálogo entre criador e público. Em O Leitor Fingido, o autor fala de suas referências e de como encara a leitura sob a ótica de seu ofício.

-
O poeta é um fingidor. O leitor também?


Sim. Quando Fernando Pessoa, no poema já famoso, associa o poeta ao fingidor, está se referindo à capacidade do poeta de imaginar sobre o que é real (chega a fingir que é dor a dor que deveras sente), de lidar com o artifício (a arte) e ao mesmo tempo com a vida de cada dia. O leitor também vive nesse entrelugar. Quando lê é levado a imaginar e muitas vezes a viver de novo - sempre de modo diferente - coisas que já viveu e que agora retornaram, pela mágica literatura.


.

Em seu novo livro, você afirma que o leitor é um enigma. O autor tem como decifrá-lo?


O autor, enquanto escreve, convive com um leitor virtual, um leitor que não é de carne e osso. O escritor precisa desse fantasma para poder escrever, é ele que o guia. Depois do livro pronto, vem o
leitor real, que vai pegar o livro, vai gostar ou não, vai criar suas próprias interpretações. O primeiro leitor, o escritor consegue decifrar, caso contrário não conseguirá escrever uma linha. Mas o outro, o real, esse não, esse é pura incógnita.


.

Não dá ciúmes ao autor quando o leitor inventa algo inimaginável para quem escreveu?


Depende. Se esse algo inimaginável tiver a ver com a história, se for de fato uma leitura criativa e não um delírio do leitor, o escritor não tem por que sentir ciúme, pelo contrário, deve se sentir realizado por ter conseguido despertar em alguém o desejo de ser inventivo.


.

Citando Umberto Eco, você pontua que o século passado mostrou haver uma relação dialógica forte entre texto e leitor. Mas essa relação pode ocorrer se o "leitor" não consegue "ler"?

Essa relação não aconteceu só no século passado; acontece desde sempre, desde que se criou o primeiro texto e que este foi lido. Sobre a outra questão, é importante sim que o leitor esteja preparado. E essa preparação nem sempre é de natureza intelectual, embora isso também ajude bastante. O leitor precisa estar preparado para dialogar com o texto, para desconfiar dele e, sobretudo, criar junto com ele. O leitor que não consegue ler não é apenas aquele que não consegue decodificar o texto, mas aquele que quer tudo de mão beijada, aquele que quer ser "doutrinado" pelo texto. Aí não há diálogo.


.

Em seu livro, você fala de Jorge Luis Borges, Edgar Allan Poe, Clarice Lispector. Como não se perder em, para continuar citando Umberto Eco, "bosques da ficção" tão densos?


Não há como se perder. Foram autores que fui lendo vida afora, em épocas diferentes, com desejos diferentes e há lugar para todos, sem problemas.


.

Você acredita na "arte de não ler"?


No livro eu falo disso, da arte de não ler. Aí eu pretendia, sobretudo, desmontar esse mito de que o bom leitor é o que lê tudo. Não, não é. O bom leitor precisa saber escolher. Assim como o escritor não pode escrever tudo, já que seu ofício é muito mais de cortar do que o de acrescentar - quem se lança a escrever tudo é bem provável que não consiga escrever nada -, também o leitor deve exercitar o corte, até porque a vida é curta e os livros são muitos.


.

Ler é paixão, hábito, prática, vocação?


Tudo isso junto. E mais alguma coisa que não saberia definir.


-

Como você avalia o leitor da internet, que muitas vezes não tem a prática da leitura fora dela? A rede mundial de computadores ameniza ou agrava o problema do analfabetismo funcional?

Esse é um tema complexo, que não dá para analisar aqui. O que posso dizer, muito rapidamente, é que a internet oferece ao leitor a diversidade, como nunca foi oferecida antes. Mas oferece também a mesmice, na mesma proporção. Cabe ao leitor, como disse, saber escolher o que ler. E essa escolha implica o risco, o perigo. Acho que o leitor que lê apenas na rede e não vê interesse nenhum fora dela está buscando não a diversidade, mas a mesmice, a segurança de estar entre pares. A leitura não é isso, é uma aventura que pede coragem, ousadia, como a de, por exemplo, trocar um dia diante do monitor por uma tarde na biblioteca.

.


O escritor é hoje muito mais confrontado pelo leitor do que antes, sobretudo em ambientes digitais. Isso é bom ou é ruim? É inspirador ou intimidador?

Não sei se concordo que ele seja mais confrontado. Houve várias épocas de confronto, sobretudo quando se tratava de questões morais. Quantos escritores foram confrontados por leitores indignados com um personagem, uma cena que consideravam ofensivos, imorais? Hoje ele é confrontado virtualmente, mas houve épocas em que isso era cara a cara. O confronto - ou, melhor dizendo, o encontro - não é em si bom ou ruim. Pode ser maravilhoso quando você encontra leitores que realmente leram seus livros e estão querendo conversar sobre eles. E pode ser uma chatice sem tamanho se o leitor quiser falar mais dele mesmo do que de literatura.


.

O leitor sonha o mundo construído pelo autor. E o autor, ele sonha o leitor que irá lê-lo?

Sim, o escritor escreve movido por uma imagem do leitor. O escritor sonha seu leitor. E o leitor sonhado (ou fingido) é a garantia de que o leitor vai chegar ao final do seu livro.





Interpretação e superinterpretação

"Para a leitura, o texto nunca é outro, ele é múltiplo." O teórico Tzvetan Todorov sinaliza dessa forma o papel que o leitor deve desempenhar na apreensão de uma obra literária. O pensador Roland Barthes, por sua vez, adverte que a escrita "é a parte privada do ritual, ergue-se a partir das profundezas míticas do escritor, e se expande para fora de sua responsabilidade."

Portanto, a obra, para fazer referência a um terceiro autor que se debruçou sobre o assunto, Umberto Eco, é aberta por natureza, vulnerável a toda sorte de interpretações e compreensões. Mas o mesmo Eco, no famoso trabalho Interpretação e Superinterpretação, salienta que o leitor deve seguir "o caminho do texto", o que equivale a dizer que para tudo há limites, até para a leitura.

O que se visualiza é uma equação delicada. O não cerceamento da leitura precisa se adequar aos sentidos mais básicos do texto. Caso isso não seja observado, há o risco de o enunciado ser totalmente distorcido e o que era criação por parte do leitor passa a ser mera destruição da obra. Marcel Proust, no pequeno e influente ensaio Sobre a Leitura, admite que a tendência do leitor é querer que o autor lhe dê todas as respostas, mas ele reconhece que, caso isso ocorresse, a magia da literatura se esvairia. Para Proust, o papel do escritor é "dar-nos desejo". O teórico russo Mikhail Bakhtin aponta a "inconclusibilidade" como característica das obras de Dostoiévski, Rabelais e Goethe, o que lhes conferem maior valor literário. Uma inconclusão que cabe ao leitor resolver.


%%%%%%%%%%%%%%%%%%

ARTES VISUAIS
Brasilienses indicados ao Prêmio Pipa

Correioweb 04/07

Gê Orthof e Milton Marques foram selecionados em uma lista de 101 artistas que concorrerão a R$ 100 mil e bolsa de residência no exterior

Gê Orthof e Milton Marques pouco sabem sobre o Prêmio Pipa. Ouviram falar e leram a respeito em alguns jornais, mas surpresos ficaram mesmo quando descobriram estarem entre os 101 artistas indicados para concorrer ao prêmio de R$ 100 mil e a uma bolsa de residência no exterior. Organizado pelo Investidor Profissional, empresa administradora de fundos de investimento, e pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), o prêmio é o maior do país para artes plásticas e foi criado para mapear talentos em todas as regiões brasileiras. “Um dos objetivos do Pipa é incentivar a arte. No Brasil é difícil viver de arte e muitos dos artistas primeiro fazem uma carreira profissional para depois se dedicar à arte” explica Roberto Vinhaes, sócio da Investidor Profissional.

Um júri formado por 32 pessoas — entre artistas, galeristas, críticos e historiadores espalhados por todo o país — indicou até cinco nomes. Do total de 101 indicados, apenas os quatro mais votados vão integrar a lista de finalistas que participam de exposição no MAM/RJ entre setembro e novembro. Até lá, um júri de premiação ficará responsável por escolher o vencedor e um júri popular vai indicar o ganhador de prêmio de R$ 20 mil.

Como a intenção era apostar em artistas promissores ainda pouco conhecidos no circuito, mas reconhecidos por especialistas, a lista de 101 indicados gerou polêmica por incluir veteranos reconhecidos internacionalmente como José Bechara e Eduardo Frota. “Entre os indicados há vários estágios de reconhecimento”, avisa Vinhaes. “E o que quer dizer reconhecido? O barato é levantar essa discussão. Outra coisa é a dispersão, isso pode levar a vários pontos de vista relevantes.” A lista incluiu artistas de todas as regiões brasileiras, detalhe necessário para confirmar a intenção do Pipa de descentralizar as escolhas entre Rio de Janeiro e São Paulo.

Gê Orthof ficou surpreso com a indicação. “Para mim é super bacana, seu nome entra na roda. A indicação já é um prêmio, especialmente não estando no Rio nem em São Paulo. Acho que eles realmente olharam para o país inteiro”, acredita. Professor do Instituto de Artes Visuais da Universidade de Brasília (UnB), Orthof costuma realizar mais exposições no exterior do que no Rio e em São Paulo. Este ano, o artista tem mostras agendadas em Houston e Berlim. Em Brasília, Orthof está em duas mostras. Em Brasília: síntese das artes (Centro Cultural Banco do Brasil), o trabalho Son(H)adores propõe uma metáfora sobre sonhos e utopias, e em O poder não pode, criado para a coletiva Cidade imaginária (Galeria Marcantonio Vilaça), uma instalação questiona o visitante sobre as barreiras do poder público.

Para Milton Marques, cujas engenhocas já estiveram expostas na Bienal do Mercosul e na Bienal de Artes de São Paulo, a indicação para o Pipa não provocou surpresa nem curiosidade. “É só uma indicação, não espero muita coisa, não crio expectativa. O que tem gerado preocupação são os trabalhos que tenho desenvolvido. Não tenho espírito competitivo e prêmio é uma coisa meio de ego”, diz Marques. “Ando meio desiludido, a arte fica muito dentro de um métier, o artista vive isolado. E as pessoas têm cada vez menos interesse em arte. Achei que a indicação para o prêmio fosse pegadinha.”

%%%%%%%%%%%%

A sedução das livrarias

Com a economia em alta, a leitura entra no dia a dia do brasileiro. Grandes e pequenas lojas fazem de tudo para atrair clientes

Correioweb.com.br

Dez anos depois do surgimento das primeiras megastores, frequentar livrarias virou hábito de boa parte da população brasiliense. Com um mix sedutor nas prateleiras — músicas, filmes, atrações culturais e gastronômicas —, as gigantes atraíram uma boa parcela das classes A e B, ajudando a alavancar a leitura de livros no Brasil, que na última década passou de 1,8 livro ao ano para 3,7 livros. “As livrarias têm papel preponderante no crescimento do índice de leitura no país, mas estão muito concentradas nos grandes centros”, alerta Rosely Boschini, presidenta da Câmara Brasileira do Livro.

A oferta do mix música-livros-filmes começou na década de 1990, inspirada em um modelo americano para atrair clientes. As livrarias passaram a oferecer CDs, DVDs, cafés expressos, palestras e peças teatrais. Também não se esqueceram do público infantil, para quem existe internet, contadores de histórias e até pequenos shows de rock.

Espalhadas pelas grandes cidades, as gigantes esvaziaram as pequenas e tradicionais livrarias de quadras e bairros, levando parte delas à falência — principalmente as que não acompanharam as mudanças no mercado. No entanto, o conceito de livrarias cheias de atrativos também foi diretamente responsável pela reestruturação, pela modernização e pela sobrevivência de muitas outras de pequeno e médio portes.

“Quem não mudou, morreu. Nós nos recriamos”, afirma Cida Caldas, coproprietária do Sebinho, da 406 Norte. Cida ampliou a loja, passando a oferecer CDs, DVDs e HQs usados, e incorporou um espaço gastronômico, com internet, além de café ao ar livre. “Hoje temos novos clientes, gente que vem aqui trabalhar, e os antigos estão mais satisfeitos. Financeiramente, a mudança também foi positiva em relação à venda de livros”, diz.

Outra livraria brasiliense que reciclou após a entrada das megalivrarias foi a Dom Quixote. Ao perceber que o mercado para as distribuidoras estava ficando reduzido, Márcio Castagnaro, 39 anos, decidiu diversificar seu negócio, abrindo lojas em pontos estratégicos da cidade. Deu certo. Nos últimos 10 anos, a empresa inaugurou seis filiais na cidade (entre elas, no aeroporto, na rodoviária e no Centro Cultural Banco do Brasil), trabalhando principalmente com livros de edições mais acessíveis e revistas. “Hoje, só não lê quem não quer”, destaca.

Impulsionada pelos bons números da economia e pela ampliação dos produtos oferecidos, as livrarias foram sendo incorporadas ao programa do brasiliense. “Em nossas lojas, o maior gasto médio por pessoa é do cliente de Brasília”, confirma Pedro Herz, dono da Livraria Cultura (rede com 11 lojas em todo o país, todas em shoppings).

A família do administrador Luciano Fonseca, 43 anos, é um exemplo da nova geração de frequentadores de livrarias na cidade. “Seria capaz de passar um dia inteiro aqui”, diz o carioca que lembra sem saudade do tempo em que ir a uma livraria não era prazeroso. “Era bem burocrático até”, diz. A esposa, Márcia Penna, 34 anos, também aproveita o acervo para conhecer novos livros de direito e legislação. “Bisbilhoto aqui, mas costumo comprar a maioria deles pela internet”, diz, reforçando uma tendência global.

Economia
Outra golias nesse mercado, com quase 100 lojas em todo o país (47 megastores), a Saraiva é um exemplo de empresa que cresceu alavancada pelo aumento de serviços oferecidos aos clientes. Pela internet, a empresa vende 12 mil livros por dia. Nos últimos cinco anos, as vendas aumentaram, em média, 36% ao ano. Um número expressivo e que demonstra que nunca o país esteve tão ligado às letras. Para Marcílio D’Armico, presidente da Saraiva, elas só tendem a crescer. “A economia vai bem, os livros estão mais baratos, o governo ampliou a compra e a distribuição de livros didáticos. Agora, é preciso investir na população, em como tornar a leitura um hábito”, avalia, retomando a questão para o investimento público em educação de base.

Um problema que também é lembrado pelo escritor e jornalista Galeno Amorim, diretor do Observatório do Livro e da Leitura, e coordenador da pesquisa nacional Retratos da Leitura no Brasil. “Mais gente está lendo, e também lendo mais. As grandes livrarias ajudaram nesse processo, mas principalmente entre as classes A, B. Ainda estão alijados dessa nova realidade 77 milhões de brasileiros, leitores de nenhum livro. Para esses — analfabetos e analfabetos funcionais — é necessário um investimento maciço em educação. É preciso acesso a bibliotecas e elas estão em estado precário, sucateadas, fechadas à noite e nos fins de semana”, aponta.

O número
15
Média/ano de livros lidos por um europeu


O número
3,7
Média do brasileiro


Perfil do leitor brasiliense

Consome mais livros de direito e legislação (voltados para concursos)

Gosta de best-sellers (literatura estrangeira)

Entre o público C e D, os religiosos e os de autoajuda têm maiores saídas

Compra mais nos fins de semana

De dia, o maior volume de compra se dá pela internet

No aeroporto, livros de bolso e revistas competem entre os mais vendidos

Em livrarias de centros culturais, livros de arte têm boa saída

Nas livrarias de quadra, os livros de catálogo sobre humanidades — sociologia, psicologia, filosofia, história e antropologia — são bem procurados

A literatura infantojuvenil também é bem comercializada na cidade e tende a crescer

Nos sebos tradicionais, as estrelas são os livros clássicos, os importados e os raros


Números na estante

77 milhões de brasileiros não leem livros

Dos livros lidos, 45% foram comprados em livrarias e 45% foram emprestados

43 milhões de brasileiros leem livros emprestados

22 milhões disseram ler porque ganharam livros de presente

18 milhões receberam livros gratuitos do governo

7 milhões baixaram livros da internet

(fonte: Pesquisa Retratos da Leitura)

TOSTÃO

Brasil eliminado

.FSP 03/07

Desta vez não havia Zidane, mas Sneijder e Robben. Não é só o Brasil que tem craques

O BRASIL fez o melhor primeiro tempo e o pior segundo tempo da Copa. No primeiro, poderia ter feito mais de um gol. No segundo, quando perdia por 2 a 1, foi todo para a frente, e a Holanda teve mais chances de fazer o terceiro que o Brasil de empatar.
O Brasil, que, durante os quatro anos sob o comando de Dunga, fez um grande número de gols em jogadas aéreas, levou dois gols nesse tipo de lance.
O Brasil, que, durante quatro anos, procurou um lateral esquerdo, levou dois gols em jogadas que se iniciaram por esse setor.
O Brasil, que sempre teve um armador pela direita para ajudar Maicon (Elano ou Daniel Alves), nunca teve um armador pela esquerda para ajudar Michel Bastos. Desse lado, começaram as duas jogadas dos gols holandeses.
O Brasil, que tinha uma grande preocupação com as faltas violentas e com as expulsões de Felipe Melo, teve o jogador expulso quando o time perdia e precisava reagir. O atleta de Cristo Felipe Melo, que deu um excelente passe para o gol do Brasil, escreveu em seu Twitter, na véspera da partida: "O melhor de Deus ainda esta por vir. Creiam". Deus não gosta de jogador violento.
Foi uma repetição da Copa do Mundo de 2006, quando o Brasil foi eliminado nas quartas de final pela França. Lembro que, na época, assisti à partida ao lado de Clóvis Rossi, perplexo com a atuação de Zidane. Desta vez não havia Zidane, mas havia Sneijder e Robben. Não é só o Brasil que tem craques.
Dunga disse, após o jogo, que trocou Luis Fabiano por Nilmar para aproveitar sua velocidade. No momento em que o Brasil perdia e tinha de pressionar e usar as jogadas aéreas, seria muito melhor um ótimo cabeceador do que um velocista.
As virtudes do Brasil, bastante conhecidas antes da partida, como o excelente contra-ataque, as jogadas aéreas e a qualidade de seu goleiro (que falhou no gol) e de seus defensores, não acabaram por causa de uma derrota. As deficiências do Brasil, como a falta de mais talento na lateral esquerda e no meio-campo e o despreparo emocional de Felipe Melo para disputar uma Copa, ficaram ainda mais evidentes.
Como em 2006, o Brasil foi eliminado por um time de mesmo nível técnico. Não houve surpresa. Temos de valorizar o adversário. Precisamos terminar com a nossa prepotência de achar que o Brasil é sempre melhor.

%%%%%

Flip abre venda de ingresso na segunda

FSP 03/07

Para minimizar problema com alta procura, organização aumenta entradas para o público que for a Paraty

Tíquetes para a oitava edição do evento, que vai de 4 a 8 de agosto e homenageará Gilberto Freyre, vão custar R$ 40

Os ingressos para a oitava edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que vai de 4 a 8 de agosto e tem como homenageado Gilberto Freyre, começam a ser vendidos na próxima segunda-feira, por internet, telefone e em pontos físicos em oito cidades (leia ao lado).
Segundo os organizadores, o número de entradas disponíveis para o público será o maior desde que o evento foi criado, em 2003.
Dos 850 ingressos para cada mesa literária da Tenda dos Autores, onde ocorrem os principais debates, 75% serão postos à venda.
O restante é distribuído entre patrocinadores, equipe técnica e acompanhantes dos convidados -universo que nos últimos anos recebeu cotas maiores, informou a assessoria do evento, sem precisar o percentual.
A medida é uma maneira de atenuar um problema recorrente da festa, a procura por ingressos para as mesas muito superior à oferta, o que força muitos interessados em acompanhar os debates a fazê-lo na Tenda do Telão, que os transmite ao vivo.
Serão 19 mesas neste ano, reunindo 35 convidados, 20 deles estrangeiros. Estão na lista o anglo-indiano Salman Rushdie (que já participara em 2005), o italiano Antonio Tabucchi a chilena Isabel Allende, além do roqueiro Lou Reed e dos cartunistas Robert Crumb e Gilbert Shelton, todos americanos.

AUMENTO
Os tíquetes para a Tenda dos Autores custam R$ 40 -um reajuste de 33% em relação ao ano passado, quando custaram R$ 30-, mesmo preço do show de abertura (Edu Lobo, Renata Rosa com Marcelo Jeneci e Quarteto de cordas da Academia da Osesp) e da conferência inaugural (de Fernando Henrique Cardoso, com Luiz Felipe de Alencastro como debatedor).
Para a Tenda do Telão, que possui 1.200 lugares (mais de 90% disponíveis ao público, segundo a organização), o valor foi mantido em R$ 10.
No ano passado o encontro literário reuniu 20 mil pessoas em Paraty.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Supremo dá liminar a senador "ficha suja"

Decisão autoriza candidatura de Heráclito Fortes (DEM), condenado pelo TJ-PI por "conduta lesiva ao patrimônio público"

FSP 02/07

Gilmar Mendes entende que, como o caso já está em análise no Supremo, condenação não pode prejudicar o político



Pela primeira vez, o STF (Supremo Tribunal Federal) proferiu uma decisão que suspendeu os efeitos da Lei da Ficha Limpa em relação a um candidato que possui, em sua ficha criminal, uma condenação por colegiado (mais de um juiz).
O beneficiado é o senador Heráclito Fortes (DEM-PI), que já foi condenado em segunda instância pelo Tribunal de Justiça do Piauí por "conduta lesiva ao patrimônio público" quando era prefeito de Teresina (1989-1993).
Ele, porém, recorreu da decisão ao Supremo. O caso começou a ser analisado pela 2ª Turma do tribunal no fim de 2009, mas foi paralisado por um pedido de vista do atual presidente Cezar Peluso.
O senador, então, entrou com um pedido para suspender sua condenação até que o julgamento termine, sob o argumento de que ele poderia ter seu registro eleitoral negado agora, mas ser absolvido pelo Supremo depois.
A lei prevê a inelegibilidade de políticos condenados por um colegiado, mas permite que recorram e obtenham recurso suspensivo. Fortes teme ser enquadrado.
Ontem, o ministro do STF Gilmar Mendes acolheu o pedido ao entender que, como o caso já está em andamento, a condenação não pode prejudicar o senador, que tentará a reeleição.
Mendes decidiu suspender a condenação de Fortes, livrando-o, momentaneamente, da inelegibilidade. "A urgência da pretensão cautelar parece evidente, ante a proximidade do término do prazo para o registro das candidaturas", disse o ministro.
A decisão de Mendes vale até que o STF termine de julgar o recurso do senador.
Conforme a lei, fica inelegível por oito anos a partir da punição o político condenado por crimes eleitorais (compra de votos, fraude, falsificação de documento público), lavagem e ocultação de bens, improbidade administrativa, entre outros.
Também ontem, o ex-deputado estadual Carlos Gratz (PSL-ES) entrou com uma reclamação no STF pedindo a inconstitucionalidade da lei. Com ao menos duas condenações por colegiado, ele deve ficar inelegível.
A ação foi distribuída para a ministra Cármen Lúcia. Se o tribunal concordar, a decisão valerá apenas para ele.
Gratz argumenta que a lei contraria o entendimento do STF, que considerou, em 2008, que só pode ficar inelegível aquele que tiver contra si uma condenação sem possibilidade de recurso.

%%%%%%%%%%

A lei que trava a ciência brasileira

RUBENS NAVES

FSP 02/07

É bem possível que outra invenção gerada no Brasil seja engavetada, até que empresa estrangeira nos venda tratamento similar


A capacidade criativa da ciência nacional pode beneficiar os brasileiros de forma mais profunda que qualquer conquista esportiva, mas está praticamente impedida de competir. Por isso, nestes dias em que tanto discutimos nossos talentos, vale a pena olhar além dos gramados africanos.
Tomemos o exemplo de um novo tratamento de lesões nas articulações com a utilização de células-tronco, aperfeiçoado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tão comuns no futebol, lesões no joelho e tornozelo estão entre as que poderão ser curadas por essa técnica, desde que ela se mostre viável, segura e eficaz ao longo de um processo de aprimoramento tecnológico e testes clínicos.
Esse processo demanda investimentos consideráveis e sujeitos a riscos, uma vez que nessa atividade, como no esporte, não há garantia de sucesso. É aí, na hora em que precisam fazer parcerias para desenvolver e comercializar invenções, que nossas equipes de ciência e tecnologia se deparam com "regras de jogo" desfavoráveis. O alvo principal do novo tratamento é o grande contingente de brasileiros que sofrem com problemas articulares. O sistema público de saúde é, portanto, seu grande comprador potencial.
Ocorre que o tratamento vem sendo desenvolvido por uma pequena empresa incubada no Polo de Biotecnologia do Rio de Janeiro (Bio-Rio), e a legislação de compras e contratações públicas, em especial a lei nº 8.666/93, faz exigências que, na prática, quase sempre eliminam a possibilidade de pequenas empresas vencerem licitações.
É bem possível, portanto, que mais uma invenção gerada no Brasil seja engavetada, até que uma grande empresa estrangeira nos venda um tratamento similar registrado em países onde a legislação mais estimula a inovação.
A exigência de pregões, nos quais o único critério de escolha é o menor preço, ou de licitações burocráticas e morosas trava o setor de ciência e tecnologia, que demanda flexibilidade, agilidade e critérios específicos. Nos casos em que a lei autoriza a dispensa da licitação, a interpretação restritiva dos órgãos de controle desestimula ou impede o uso da exceção legal.
Para transformar essa situação, um grupo liderado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pela Academia Brasileira de Ciências, do qual tive a honra de participar, elaborou proposta simples, mas de grande impacto. Trata-se de autorizar as instituições de ciência e tecnologia e as agências de fomento a realizar suas compras, contratações e parcerias com base em regulamento próprio.
A proposta libera os agentes da inovação das amarras da lei nº 8.666/93, preservando a atuação dos órgãos de controle; concede maior autonomia em troca de mais transparência e prestação de contas.
Se transformada em lei, a proposta, apresentada na 4ª Conferência de Ciência, Tecnologia e Inovação, permitirá que o potencial inventivo da ciência nacional sirva efetivamente ao desenvolvimento do país. Uma meta que merece torcida e apoio de todos nós.

RUBENS NAVES, 67, advogado, é professor licenciado da Faculdade de Direito da PUC/SP. Foi presidente da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente de 2002 a 2006.

%%%%%%%%

Custos da burocracia

FSP 02/08

Estudo da Fiesp quantifica os prejuízos calamitosos causados ao país por excesso de normas tributárias e velhos entraves cartoriais

Manicômio tributário: a expressão, utilizada por um especialista em direito administrativo, não soa exagerada para caracterizar um país em que convivem 63 tributos diferentes, regidos por um conjunto de normas que, nos últimos 20 anos, tem sofrido a média de 34 alterações por dia.
"O que acaba ocorrendo", diz o professor Carlos Ari Sundfeld, da Fundação Getúlio Vargas, "é um parasitismo nosso, dos advogados, para se aproveitar dessa confusão". O parasitismo, para utilizar o mesmo termo, replica-se na própria estrutura do poder público, criando camadas e mais camadas de funcionários encarregados de zelar pela observância -ou de facilitar a desconsideração- das regras que produzem sem cessar.
A dimensão dos custos com burocracia no Brasil foi quantificada em recente estudo da Fiesp. São R$ 46,3 bilhões por ano, mais do que todos os gastos com saneamento básico previstos no PAC 2 para os próximos quatro anos.
Num cálculo mais dramático, pode-se dizer que o prejuízo anual devido à fúria dos regulamentos públicos é aproximadamente mil vezes maior do que o total dos gastos emergenciais provocados pela recente calamidade das enchentes no Nordeste.
Desses R$ 46,3 bilhões, quase a metade (R$ 20 bilhões) corresponde ao que se perde com o tsunami tributário. Mas o pesadelo se estende, como é notório, para as incontáveis autorizações, alvarás, processos e impedimentos que, do mero registro de uma empresa familiar até fabulosas obras governamentais, emperram qualquer iniciativa econômica e colocam o Brasil entre os países mais burocráticos do mundo.
Segundo o Banco Mundial, a terra do "jeitinho" e dos bacharéis está na 129ª posição, entre os 183 países pesquisados.
Não se trata apenas da herança cultural ibérica, ou de alguma cisão entre a mentalidade, digamos, latina e a tradição anglo-saxônica. Portugal e Itália, apesar do folclore que possa cercá-los, situam-se em muito melhor colocação nesse levantamento.
Outras circunstâncias, como o desdobramento administrativo nas esferas municipal, estadual e federal, ou a própria importância do investimento estatal na economia do país, contribuem para solidificar tal situação.
O mais perverso é que todo mecanismo burocrático, de qualquer modo, sempre aparenta ter alguma razão para existir; no mínimo, destina-se a sobrepor um novo controle sobre a ineficiência dos que o precediam.
Grandes doses de ousadia, portanto, e mesmo de voluntarismo, seriam necessárias para que alguma liderança política decidisse adotar uma agenda transformadora nessa questão.
Por diferentes motivos, o perfil dos principais candidatos à Presidência não parece corresponder a esse desafio -o que torna ainda mais oportuno o estudo da Fiesp agora divulgado.
Tanto a reforma tributária quanto uma reforma ainda maior do próprio Estado dependem de esforços de mobilização e pressão que não dizem respeito apenas às entidades empresariais, mas aos interesses de toda a população.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

KENNETH MAXWELL

UOL.COM.BR

Yo-Yo Ma

Yo-Yo Ma concluiu recentemente uma visita ao Brasil, com concertos de sucesso na Sala São Paulo e no restaurado Teatro Municipal do Rio.
Nascido em Paris, filho de pais chineses, sua família se transferiu para Nova York quando o menino tinha cinco anos. Criança prodígio, Yo-Yo Ma estudou na escola Juilliard de música. Tendo se formado na Universidade Harvard, hoje vive em Cambridge, Massachusetts, com a professora de alemão Jill Horner e os dois filhos do casal. É um dos mais versáteis e talentosos músicos do mundo.
Com seu violoncelo de 1733, construído pelo veneziano Domenico Montagnana, ou com seu Davydoff Stradivarius de 1712, Yo-Yo Ma se tornou um instrumentista de amplo alcance, igualmente confortável na execução de clássicos do barroco, Gabriel Fauré, Rachmaninoff e George Gershwin.
Em suas apresentações brasileiras, foi acompanhado pela pianista Kathryn Stott. Ma gravou 80 DVDs e ganhou 16 prêmios Grammy.
Recentemente, o professor Henry Louis Gates Jr., diretor do Centro de Estudos Afro-americanos de Harvard, destacou Yo-Yo Ma em sua série "Faces of America", para a rede de TV pública PBS.
O professor Gates traçou as origens da família de Yo-Yo Ma na China e descobriu que, durante a Revolução Cultural, um parente do violoncelista havia escondido uma genealogia da família, salvando-a da destruição. A árvore genealógica mostra 18 gerações da família Ma, remontando a 1217.
Yo-Yo Ma é famoso por seu trabalho com o projeto "Silk Road" [Estrada da Seda], que celebra a grande rota comercial pela qual a seda chinesa atravessava a Ásia para chegar ao Oriente Médio e à Europa, e usa essa ideia como metáfora moderna para apresentações multiculturais e multidisciplinares que integram música, narrativas, imagens e animação.
O violoncelista tem se voltado cada vez mais às Américas em busca de inspiração. Entre seus mais bem-sucedidos trabalhos recentes, em palco e em disco, está "The Soul of Tango", gravação de peças do argentino Astor Piazzola.
Desde 2004, a música popular brasileira também tem encontrado espaço em seu repertório mundial, que inclui o álbum "Obrigado Brazil", premiado com o Grammy, no qual colabora com a violonista e cantora Rosa Passos, que atualizou de maneira maravilhosa a música de João Gilberto e Antonio Carlos Jobim.
Com sua abertura a novos sons e estilos, sua excelência pessoal, seu sólido treinamento clássico e sua evidente alegria na descoberta do que há de melhor em tradições ecléticas e diversificadas, Yo-Yo Ma é um verdadeiro "cosmopolita", no melhor sentido da palavra.

%%%%%%%%

Educação com método

Editorial UOL.com.br 01/07

A constatação de que alunos de escolas públicas de São Paulo que usam apostilas de sistemas de ensino se saem melhor na prova de avaliação dos estudantes do ensino fundamental enseja reflexões sobre a educação no país.
Do lado das preocupações, o que o estudo realizado pelos pesquisadores Paula Louzano, Francisco Soares e Ana Carolina Zogbi sugere é que, de um modo geral, os professores não estão sendo capazes de estruturar suas aulas de forma eficaz. Basta oferecer-lhes um sistema que organiza um pouco melhor a disposição dos conteúdos -e o tempo em sala- para obter melhorias significativas no desempenho dos alunos.
De acordo com a pesquisa, que foi apresentada em seminário patrocinado pela Fundação Lemann, o ganho médio dos estudantes que se valiam de apostilas foi de cinco pontos na Prova Brasil. A escala utilizada por esse exame pressupõe uma progressão de 12 pontos a cada ano. Isso significa que a adoção de um sistema de ensino equivale, grosso modo, a meio ano de aulas.
Tais resultados mostram o quanto há a avançar na formação dos professores, em especial no que diz respeito à estruturação das aulas. Não é de hoje que se suspeita que as faculdades de pedagogia dedicam tempo demais a elucubrações teóricas e sacrificam aspectos mais essenciais da tarefa de ensinar a ensinar.
O lado positivo da história é que se abre um novo leque de opções para melhorar a qualidade do ensino público. As secretarias de educação e o próprio Ministério da Educação precisam estudar seriamente a possibilidade de adotar, pelo menos em algumas situações, sistemas padronizados.
Eles podem não ser a materialização dos mais elevados ideais pedagógicos, mas, se funcionam melhor do que os métodos hoje oferecidos, seria uma temeridade dispensá-los com base apenas em preferências ideológicas.