sexta-feira, 16 de abril de 2010

DANÇA - Mais um espaço perdido – Correioweb 16/04

A Associação Cultural Claudio Santoro, instituição civil sem fins lucrativos que promove o Seminário Internacional de Dança de Brasília, não ocupa mais as salas do Centro de Dança do Distrito Federal. Apesar de ter uma sede própria, desde 1994, a associação utiliza o espaço durante a semana do festival. Após anos de polêmica, na última quarta-feira, servidores da Secretaria de Cultura do DF foram até o local, trocaram as fechaduras e retiraram os objetos pertencentes à associação presidida por Gisèle Santoro.

Ela confirma que realmente ocupa algumas salas do prédio desde 1994 e que nunca foi firmado um convênio entre o GDF e a associação, apesar de, segundo Gisèle, issto ter sempre sido aceito por todos os governos locais. “Nós temos uma sede. A gente só precisa do centro na época do seminário de dança. Sempre utilizamos a infraestrutura do lugar e isso foi aceito por todos os governos. Mas a maneira como aconteceu agora, foi um desrespeito”, reclama. “Para fazer essa retirada, é necessário um mandado judicial. Meu advogado vai recorrer. É uma vergonha o trabalho que a gente faz e vem fazendo ao longo destses anos pela cidade, e ser tratado dessa maneira”, reclamou.

Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Cultura, Gisèle Santoro estava ciente da situação irregular e já havia sido notificada cinco vezes para deixar voluntariamente o prédio. Como em nenhuma das ocasiões isso ocorreu, os funcionários da secretaria, amparados pela Procuradoria do GDF, foram até o centro e retiraram todos os objetos. A assessoria de imprensa do órgão também informou que a Procuradoria vai pedir ressarcimento por todos esse anos em que Gisèle Santoro ocupou irregularmente o prédio.

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Brasília contrasta riqueza e desigualdade após quase 50 anos de existência

UOL NOTÍCIAS 16/04

Área: 5.801,937 km2

População em 2009: 2.606.885

PIB em 2007: R$ 99,945,620

Rica e desigual. Assim é possível definir a capital brasileira perto de completar 50 anos. Enquanto Brasília ostenta a maior renda per capta e o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país (considerando-se toda a região metropolitana), ela amarga o título de 16ª cidade mais desigual do mundo e a 4ª mais desigual do Brasil, segundo relatório divulgado recentemente pela ONU (Organização das Nações Unidas).

Os limites de Brasília ainda causam certa confusão. Para alguns, Brasília corresponderia apenas à área de uma das 30 regiões administrativas que compõem o Distrito Federal: o conhecido Plano Piloto. Entretanto, órgãos como a ONU e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) quando se referem a Brasília levam em consideração as informações de todas as regiões administrativas, que, juntas, têm uma população de 2.606.885 habitantes (número de 2009).

Apesar da desigualdade social, os indicadores socioeconômicos destas 30 regiões se assemelham aos de países de primeiro mundo. Os números mostram que a região está em uma situação bastante privilegiada em relação às outras unidades federativas brasileiras, principalmente pela infraestrutura (acesso à saúde, educação e saneamento básico) oferecida aos cidadãos.

Segundo informações do IBGE referentes ao ano de 2008, 98,2% dos domicílios urbanos do DF têm o lixo coletado, 95,4% estão ligados à rede geral de abastecimento de água e 99,8% têm ligação direta com a rede geral de esgoto. A cobertura de energia elétrica já cobre 100% dos domicílios.

Entretanto, um estudo elaborado pela Companhia de Planejamento do DF (Codeplan) com dados de 2004 constata a desigualdade apontada pela ONU. Enquanto em 2004 a renda domiciliar de 33,4% dos domicílios das cinco regiões administrativas com maior poder aquisitivo (Lago Sul, Sudoeste/Octogonal, Lago Norte, Brasília e Park Way) se caracterizava por rendimentos superiores a 20 salários mínimos, apenas 0,1% dos domicílios das duas regiões administrativas mais pobres (Estrutural e Itapoã) registravam o mesmo rendimento mensal.

"Brasília é um representativo das desigualdades registradas no Brasil inteiro", afirma o pesquisador Brasilmar Ferreira Nunes, autor do livro "A Fantasia Corporificada", que destaca as diferenças profundas entre todas as regiões administrativas do DF.

Para Clovis Scherer, supervisor técnico do escritório do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Econômicos) no DF, Brasília tem um histórico de desigualdade. “Muitas das pessoas que trabalharam na construção da capital ficaram por lá atraídas por melhores condições de emprego e moradia. Por serem menos qualificadas, elas não conseguiram entrar para o setor público, então ficaram na cidade tentando a sorte”.

Maria Piedade Morais, pesquisadora do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), afirma que o fato de Brasília ser uma área nova e bastante dinâmica pode ser considerado um dos geradores de desigualdade. “Áreas com estas características atraem muitas pessoas de outros Estados que buscam melhores condições de vida. Na maioria das vezes, estas pessoas são pouco qualificadas e trabalham por uma remuneração muito baixa, o que faz aumentar a desigualdade, já que os salários no setor público em Brasília são altíssimos”, explica.

Dados do IBGE de 2007 indicam que os migrantes ainda constituem a maioria da população residente na região metropolitana de Brasília (51,4%). As pessoas são principalmente oriundas das regiões Nordeste (25,4% da população total) e Sudeste (14,2%) do país.

Na opinião do pesquisador Nunes, a capital brasileira se mostra bastante generosa aos que se fixam nela. “Se a desigualdade na região é analisada desde o ponto de vista geracional, observa-se que os filhos dos que vieram ajudar na construção de Brasília estão hoje em uma condição educacional e, consequentemente, econômica melhor do que seus pais”, afirma.

Iraci Peixoto, coordenadora de estudos e pesquisas da Codeplan, aponta um diferencial entre a população de baixa renda de Brasília e de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. “A desigualdade econômica é grande, mas em Brasília mesmo os cidadãos com poder aquisitivo muito baixo têm acesso à infraestrutura que a região oferece, o que não acontece em outras cidades brasileiras”, assinala.

Como exemplo, Peixoto chama atenção para a taxa de escolarização da capital, que é a mais alta do país. Em Brasília, 98% das crianças entre 7 e 14 anos frequentam a escola. Em consequência, a cidade possui a menor taxa de analfabetismo: enquanto a média nacional é de 8,25%, em Brasília o índice de analfabetos situa-se em 3,37%.

Riqueza e bem-estar
De acordo com números de 2007, a renda per capita do DF (quantidade que cada habitante receberia caso o PIB fosse dividido igualmente entre toda a população) é a mais elevada do país. Enquanto a renda per capita brasileira era de R$ 13.515, a do DF chegava aos R$ 40.696, representando mais que o triplo da média nacional.

Para se ter uma ideia exata das desigualdades existentes na região, a Codeplan situou em um ranking todas as regiões administrativas existentes no DF no ano 2000, com base no IDH dos municípios brasileiros naquele momento. Na ocasião, caso a região administrativa Lago Sul fosse um país independente, seria o de melhor qualidade de vida do mundo, com um índice de 0,945, desbancando a Noruega que, naquele momento, ocupava o primeiro lugar. A região com o pior IDH na época, Brazlândia (0,761), se fosse um país, ocuparia a 90ª colocação no ranking. Ainda assim, ficaria à frente do Brasil (0,757), que ocupava o 93º lugar.

Desde 1991, o DF aparece em primeiro lugar na classificação do IDH elaborado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) --em 2000, quando foi feito o último estudo, o DF teve uma pontuação de 0,844.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mede os avanços alcançados por um país em três aspectos: vida longa e saudável (baseado na esperança média de vida ao nascer), acesso ao conhecimento (baseado na alfabetização e na escolarização) e nível de vida digno (baseado no PIB per capita associado ao poder de compra em dólares americanos). Os países são classificados dentro desses aspectos em valores médios entre 0 e 1, sendo que o 0 representa a ausência de desenvolvimento humano e o 1 significa um desenvolvimento humano total.

Das 19 regiões administrativas existentes em 2000, 12 estavam no grupo das regiões consideradas de alto desenvolvimento humano. As outras sete faziam parte do grupo de desenvolvimento humano médio. “Mesmo com as diferenças, nenhuma das regiões [administrativas] estava no grupo de baixo desenvolvimento humano”, afirma Iraci Peixoto.

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ELIANE CANTANHÊDE FSP 16/04

A despedida

BRASÍLIA - Lula começou a se despedir em grande estilo. Nas reuniões internacionais, como as várias de ontem em Brasília, agradece a convivência e lembra que, no ano que vem, não tem mais.
"Pessoalmente, eu me despeço do Ibas com o sentimento do dever cumprido, com orgulho, felicidade de ver que nossa ideia prosperou. Com a alegria de ter compartilhado com indianos e sul-africanos esta extraordinária aventura. Desafiamos a geografia e a inércia -e vencemos!", disse Lula, no final do encontro entre Índia, Brasil e África do Sul, no Itamaraty. O próximo será em outubro de 2011 e, portanto, com Serra, Dilma, Ciro ou Marina.
Além dos dois outros presidentes, de seus chanceleres e de centenas de funcionários, havia uma multidão de jornalistas. Foram 539 credenciados, de cinco países, porque, depois, começou uma outra reunião -ou uma outra despedida, a dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China).
Lula parecia impaciente, batucando a mão direita na esquerda, mas estava no seu habitat natural, sob holofotes, entre um presidente negro e outro de turbante, unindo países, mudando a história.
Quando ele se despediu, automaticamente puxou a memória desses últimos 16 anos de política externa brasileira, primeiro com Mr. Cardoso, agora com Lula. Com estilos diferentes, ambos fizeram o que na diplomacia e na vida internacional se costuma chamar de "great job".
FHC abriu as portas do mundo para o Brasil. Lula passou por ela e foi embora. O avanço brasileiro não tem volta. Mas como? Depois da elegância culta de FHC e da ousadia e da liderança de Lula, o que esperar do sucessor, ou sucessora?
Imagine Serra chato, Dilma mandona, Ciro grosseiro e Marina inexperiente em fóruns que se propõem a fortalecer a posição dos emergentes e a enfrentar a arrogância dos países ricos. Tem de ser feito, mas com jeito. Qual deles tem mais? Você é quem decide!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

TENDÊNCIAS/DEBATES FSP 15/04

Rumo à inteligência competitiva de Estado

CARLOS FREDERICO DE AGUIAR

É fundamental que o Brasil tenha uma visão estratégica sobre a necessidade de dispor de material de emprego militar próprio

DESDE O LANÇAMENTO da Estratégia Nacional de Defesa (END), em dezembro de 2008, enfim nos deparamos com as grandes mudanças preconizadas naquele documento de Estado.
Recentemente foram aprovadas alterações na lei complementar nº 97/ 99, que trazem importantes mudanças no setor da indústria brasileira de defesa, nas Forças Armadas e na organização do segmento como um todo. Trata-se de nova perspectiva sobre o tema defesa nacional, em que a sociedade organizada passa a ser também agente desse processo, que não é mais assunto exclusivo do governo.
Uma das questões mais sensíveis ao setor é a compra de material bélico.
Enquanto nossa dimensão geopolítica demanda poderes dissuasórios compatíveis com a nova realidade de "player" mundial do Brasil, o orçamento da União destinado à indústria de defesa não vem sendo integralmente cumprido, fruto de seguidos contingenciamentos.
Para reverter esse cenário, um dos principais pleitos das empresas é o estabelecimento de orçamentos impositivos e plurianuais que permitam a execução de programas de longo prazo, necessários à pesquisa e ao desenvolvimento de tecnologias de ponta.
Com a nova lei, surge a expectativa de que esse quadro mude para melhor. Afinal, uma das mudanças é a centralização das decisões de compra de material bélico em uma única secretaria do Ministério da Defesa, medida que, provavelmente, terá influência na redução dos custos, na otimização das tecnologias sensíveis e na eliminação de gastos sobrepostos.
Dessa forma, é fundamental que o Brasil tenha uma visão estratégica sobre a necessidade de dispor de material de emprego militar próprio. Ainda necessitamos definir "produto estratégico de defesa" e "empresa estratégica de interesse da defesa" como formas de salvaguardar os investimentos nacionais em tecnologias sensíveis.
O governo precisa aderir à tendência mundial de "inteligência competitiva de Estado", indicando com clareza quais são as áreas de interesse máximo e cuidando para que elas sejam desenvolvidas.
Nesse contexto, três são as temáticas por implementar rumo à "inteligência competitiva de Estado". Um corolário dessas medidas é o conceito de "centros de competência", ou "centros de excelência", que existe na Alemanha. O governo alemão, dentre as indústrias de defesa, investe na excelência de uma só empresa por segmento tecnológico, pois a criação de empresas de ponta concorrentes no país é um desperdício de recursos.
Some-se a isso a necessidade de atualizar e aperfeiçoar, em defesa, os mecanismos de "offset", que caracterizam os contratos governamentais de compra de sistemas de defesa em todo o mundo, para beneficiar verdadeiramente a indústria nacional; equilibrar as forças das empresas nacionais quando em negociação com as empresas estrangeiras, visando garantir a efetiva entrega de tecnologia de defesa ao domínio nacional.
Por fim, diferentemente de outros países que concedem benefícios fiscais aos produtos fabricados internamente, no Brasil não há taxação para produtos importados, e as empresas nacionais ainda são penalizadas com uma carga tributária de cerca de 40% sobre os produtos de defesa fabricados no país.
Essa medida impõe perversa desvantagem competitiva para a indústria de defesa nacional frente às estrangeiras.
A nova lei estabelece pontos importantes, mas ainda parecem insuficientes diante do que define a estratégia nacional de defesa, principalmente se considerarmos que, até o fim do ano, deverão ser definidos os mais significativos investimentos na área de defesa nacional.
Serão US$ 10 bilhões investidos em programa da Marinha para aquisição de submarinos, US$ 6 bilhões no programa da FAB de compra da aeronave de caça e de superioridade aérea FX-2 e US$ 10 bilhões no programa "Combatente do Futuro" do Exército.
O interesse do Brasil na área de defesa deve crescer na mesma velocidade em que o mundo vem aumentando o interesse pelo país.
É imperativo o permanente entrosamento entre os poderes Executivo e Legislativo, fato que está permitindo a concretização dessas importantes modificações para o arcabouço legal do setor de Defesa e para as Forças Armadas, e que também possibilitará a implementação da "inteligência competitiva de Estado".


CARLOS FREDERICO DE AGUIAR , 39, bacharel em direito, é presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (Abimde).

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Coleção mostra obra de Lupicínio Rodrigues FSP 15/04

Livro-CD, nas bancas no domingo, destaca vida e produção do compositor gaúcho, autor de "Nervos de Aço" e "Volta"

Tendo o primeiro sucesso lançado em 1938, Lupicínio tratou com maestria questões como traição, dor de cotovelo e vingança

Natural de Porto Alegre, onde nasceu em 1914 e morreu em 1974, Lupicínio Rodrigues é o compositor brasileiro que melhor utilizou-se de temas como dor de cotovelo, vingança e traição, sempre tratados com sofisticação em suas canções.
Autor de sucessos perenes como "Nervos de Aço", "Volta" e "Cadeira Vazia", Lupicínio Rodrigues é o tema do sexto livro-CD da Coleção Folha Raízes da Música Popular Brasileira, nas bancas no próximo domingo.
Lupicínio teve o primeiro sucesso, "Se Acaso Você Chegasse", em 1938, na voz de Ciro Monteiro. Nas duas décadas seguintes, foi gravado ainda por Orlando Silva, Linda Batista, Moreira da Vila e, em especial, por Francisco Alves, na época de músicas como "Esses Moços", "Vingança" e "Felicidade". Nos anos 70, foi também interpretado por Paulinho da Viola, Caetano, Gal Costa e Gil.
O autor do livro sobre Lupicínio Rodrigues é o músico Arthur de Faria e a edição traz biografia, discografia e fotos. No CD estão, entre outras, "Vingança", com Linda Batista, "Se Acaso Você Chegasse", com Elza Soares, "Judiaria", com Arnaldo Antunes, e "Nervos de Aço", com Paulinho da Viola.
A Coleção Folha Raízes da Música Popular Brasileira é composta por 25 livros-CDs, nas bancas aos domingos até 29 de agosto. Cada volume é dedicado a um compositor da primeira metade do século 20.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

TENDÊNCIAS/DEBATES - FSP 14/04

Oportunidades iguais na educação inclusiva

As pessoas com deficiência chegam à rede de ensino regular, mas têm tido nela oportunidades reais de desenvolvimento?

PAIS DE CRIANÇAS com deficiência têm grandes dilemas na educação de seus filhos: de que forma proporcionar a melhor educação, quais os melhores caminhos e como buscá-los.
Esses são desafios que vêm pautando os profissionais da educação e estão no centro das políticas públicas de governos comprometidos com a inclusão social em todo o mundo.
Exemplos de aceitação ou não de alunos com deficiência em escolas regulares surgem aos borbotões e nos fazem refletir sobre as diversas possibilidades de aprendizagem e desenvolvimento que uma educação inclusiva pode proporcionar.
No Brasil, de acordo com dados do Censo Escolar da Educação Básica de 2008, existem mais de 53 milhões de matrículas em quase 200 mil estabelecimentos educacionais. Nas salas comuns, o censo aponta a presença de cerca de 385 mil alunos com deficiência matriculados.
São milhares de alunos cegos, surdos, deficientes físicos e intelectuais ou com deficiências múltiplas estudando em escolas regulares. Em São Paulo, são 111 mil alunos com deficiência, segundo o censo de 2008.
Mas a pergunta que perpassa todos esses números é: as pessoas com deficiência chegam à rede de ensino regular, mas têm tido oportunidades reais de desenvolvimento? E quantos ainda estão fora?
Essa indagação coloca o desafio de encarar a inclusão da pessoa com deficiência a partir de um novo paradigma, na perspectiva da Convenção Internacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência, da qual o Brasil é signatário, cujo propósito é assegurar o desfrute pleno e equitativo de todos os seus direitos.
É garantir cidadania e dignidade a essas pessoas, visto que impedimentos de natureza física, intelectual ou sensorial podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade.
Para isso, é preciso construir uma nova visão, colocando a deficiência na lógica da cidadania e dos direitos.
Respeitar a diferença, mas proporcionar igualdade de oportunidades, sem discriminação ou preconceitos.
Cada um de nós tem habilidades e potencialidades a serem descobertas.
Cabe ao poder público e à sociedade em geral abrir portas para os múltiplos talentos. O ser humano apresenta multidemandas.
E é esse olhar que poderá modificar os modelos de gestão da política pública, por meio não de ações únicas, mas de ações intersetoriais, em prol da inclusão de fato.
A educação inclusiva está inserida nessa lógica, uma busca permanente e contínua da garantia de oportunidades de aprendizagem e de desenvolvimento da pessoa com deficiência, assegurando não só o seu acesso mas também (e mais importante) articulando a rede para atender o indivíduo na sua integralidade.
Ou seja, é garantir educação básica, educação complementar com o pós-escola, formação cidadã e até o ensino profissionalizante.
Mas as políticas públicas estão focadas nessa educação integral? A rede regular está preparada para atender o aluno com deficiência? São perguntas que devem direcionar o debate.
Pesquisas recentes mostram que, na prática, estamos longe de atingir esse objetivo, apesar dos inúmeros casos com êxito.
O preconceito ainda grassa na sociedade e, pasmem, no meio educacional. Pesquisa do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, realizada pela Fipe, sobre atitudes preconceituosas e práticas discriminatórias, apontou que 96,5% dos participantes afirmam ter preconceito ou apresentam algum distanciamento social em relação às pessoas deficientes. E sabem quem são os participantes dessa pesquisa? São professores, diretores, profissionais de educação, pais e também alunos.
Dia 14 de abril é o dia em defesa da educação inclusiva. Comemorado neste ano pela primeira vez na cidade de São Paulo, pretende pautar um debate para a efetivação da inclusão nas classes comuns do ensino regular dos alunos com deficiência, aqueles com transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação e as vítimas de preconceito e outros grupos excluídos da estrutura educacional vigente no país.
É imprescindível que as escolas considerem em sua organização pedagógica as diferenças entre alunos, contribuindo assim para a superação de preconceitos, para a valorização das diversidades e para a construção de uma sociedade mais equânime.
Assim, é notória a estrita relação entre a educação inclusiva e a melhora na qualidade do ensino.


FLORIANO PESARO, 42, sociólogo, é vereador de São Paulo pelo PSDB e autor da lei que instituiu na cidade o dia em defesa da educação inclusiva. Foi secretário municipal de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Paulo (gestões Serra e Kassab).

BRASÍLIA 50 ANOS - Preciosas páginas da história

Livro reúne farto material sobre a criação da capital, projeto à época considerado revolucionário

A notícia da inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960, correu o mundo. Com a proximidade do grande dia, dezenas de jornais internacionais destacaram a atitude do Presidente da República Juscelino Kubitschek em erguer a nova capital do Brasil em pouco mais de quatro anos. Alguns o trataram como corajoso e determinado. Outros o taxaram de louco. De uma forma ou de outra, a cidade que tomou forma em meio ao cerrado ganhou destaque nos grandes jornais do planeta. Cinquenta anos depois, o grupo de comunicação Santafé Ideias selecionou as 60 reportagens de maior destaque em um livro de 144 páginas intitulado Do concreto ao papel — o nascimento de Brasília na imprensa mundial. As pesquisas foram feitas em arquivos públicos nacionais e na British Library(1), em Londres (Inglaterra). Os exemplares serão lançados dia 20 próximo e distribuídos em escolas e bibliotecas públicas e aos chefes de estado do mundo.

Além do planejamento da cidade, os traços do urbanista Lucio Costa e do arquiteto Oscar Niemeyer chamaram a atenção dos estrangeiros. O jornal inglês The Times, por exemplo, deu destaque a algumas fotos em vez de produzir um texto corrido. Outros impressos publicaram o mapa de Brasília com a distribuição dos bairros da cidade — a rodoviária e o centro político no corpo do avião e as asas Norte e Sul tomadas por prédios de apartamentos. “É legal ver como os outros países enxergaram a construção de Brasília e o Brasil naquela época. É emocionante”, comemora a coordenadora do projeto, Flávia Gomes. “O Brasil era um país de pouca expressão internacional. Nos surpreendeu como a construção de Brasília ganhou espaço na mídia internacional”, disse o jornalista Etevaldo Dias, presidente da Santafé Ideias.

A capa colorida do livro se contrapõe ao preto e branco das páginas velhas de jornal. Os exemplares reunirão reportagens em 11 idiomas diferentes, traduzidas para português e inglês. Todas elas serão ilustradas com o fac-símile da página do jornal impresso publicado há 50 anos. E ainda disponibilizarão curiosidades sobre o veículo de comunicação. Grande parte desses jornais, como o britânico Financial Times, circula até hoje. Para contextualizar a época e a situação, os organizadores ainda reuniram os depoimentos de jornalistas que cobriram a festa de inauguração de Brasília. Entre eles, está o atual vice-presidente do Correio Braziliense, Ari Cunha. “O livro terá um valor didático. Poderá ser usado em aulas de história e geografia sobre a construção de Brasília”, acredita Etevaldo.

Rico acervo
Foram dois meses de trabalho. Como os jornais são velhos e foram digitalizados por microfilmagem, algumas páginas estavam ilegíveis. Ainda assim, é possível decifrar as informações. Uma matéria do jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, publicada em 21 de abril de 1960, enaltece a nova capital. “O Brasil amanhece em nova capital. No vasto Planalto Central, Brasília, o sonho acalentado desde os inconfidentes, surge no centro de gravidade do país para comandar a conquista do interior e trazer até ela a civilização que se espraia pelo Atlântico. Há pouco mais de três anos, ela existia apenas na imaginação de homens e era esboço sobre uma prancheta”, está escrito no primeiro parágrafo. Os jornais espanhóis criavam verdadeiras poesias em torno da cidade (veja quadro).

Durante a pesquisa, foram encontrados 150 jornais que citaram a inauguração de Brasília de alguma forma. Os coordenadores do projeto ainda procuraram exemplares da Rússia e da China. À época, porém, os dois países comunistas não tinham relações diplomáticas com o Brasil e ignoraram o fato. Etevaldo Dias acredita que muito da história de Brasília esteja espalhada pelo país. E, por isso, defende a unificação das informações em livros como este. “Foi difícil capturar informações dos primeiros 50 anos. Como serão os próximos 50, então? Brasília precisa de um trabalho sério para guardar a própria história”, defende.

Serão lançados, no dia 21, 15 mil exemplares do livro — sendo 5 mil na versão de luxo e 10 mil na standard. “Este livro é o mais amplo registro de nascimento de Brasília na mídia nacional e internacional. É o único produto sobre 21 de abril e os primeiros registros de Brasília para o aniversário dos 50 anos”, anuncia Etevaldo. A empresa idealizadora do projeto passou às mãos do Governo do Distrito Federal os direitos autorais do trabalho. Dessa forma, o governo poderá reproduzir as obras e utilizar o conteúdo da forma que desejar.

1 - Um superacervo
Abriga relíquias e tem uma das coleções mais ricas do mundo. Em 1971, o governo reuniu em um único prédio os acervos de diversas instituições do país, entre elas o Departamento de Livros Impressos do Museu Britânico, fundado em 1753. Inaugurado pela rainha Elizabeth II em 1998, a British Library abriga em seus 14 andares — seis estão no subsolo — cerca de 40 milhões de itens. O acesso às enormes salas de leitura, com capacidade para até 1.200 pessoas, é selecionado. O segundo andar abriga uma exposição permanente com os mais valiosos tesouros da coleção.

O que disseram

Jornal La Vanguardia Española — Espanha
Brasília, a nova capital do Brasil, foi construída em quatro anos, segundo os projetos de um único artista: o arquiteto Oscar Niemeyer. Tanto na sua arquitetura quanto na sua concepção urbanística, é o mais novo (projeto) que existe no mundo. É uma cidade de grandes espaços prevista para um trânsito muito intenso, cujas ruas, em vez de se cruzarem, passam umas em cima das outras mediante pontes, de onde os pedestres terão calçadas e rampas especiais para circular, com a concentração de atividades econômicas em determinados bairros. Com tudo isso, Brasília será um modelo para a construção das cidades do futuro, que se inspirará em suas normas urbanísticas próprias para fazer frente aos novos tempos.

L’unita – Itália
Esta manhã, às 8h, a capital do Brasil deixará de ser o Rio de Janeiro para ser uma nova cidade: Brasília, como havia decretado apenas cinco anos atrás o presidente da República Juscelino Kubitschek. (…) Mudar o centro político, fazer com que este coincida com o centro geográfico e nele concentrar a atividade econômica: esta é a explicação oficial de Brasília. Na realidade, agora, o Brasil precisa afirmar-se como nação frente ao capitalismo americano que, há muito tempo, pôs as mãos sobre boa parte da economia brasileira e do qual o capitalismo brasileiro tenta libertar-se. A Região Norte do país, com todos os seus recursos que serão, sem dúvida, algum dia, valorizados, é a mais próxima dos Estados Unidos, ao alcance da mão e das suas ambições; enquanto que o Rio, a capital, fica muito longe daquelas terras.


Um altar para a Esplanada

A Arquidiocese de Brasília montou um grande altar na Esplanada dos Ministérios. O símbolo maior sobre o espaço, um palco de celebrações, é uma hóstia partida sobre uma cruz. O monumento, que fica no local por cerca de dois meses e será palco de diversas missas ao ar livre, também vai receber o XVI Congresso Eucarístico Nacional, de 13 a16 de maio.

Nas comemorações católicas dos 50 anos, o arcebispo de Brasília, dom João Braz de Aviz, celebrará uma missa nos moldes daquela rezada na inauguração da cidade. A cerimônia, feita a pedido do Governo do Distrito Federal, será ao ar livre e terá início às 23h do dia 20 próximo. “Juscelino Kubitschek quis entrar no primeiro minuto do dia da inauguração da capital federal em uma missa. A celebração, na época, ocorreu em frente ao Palácio do Planalto”, lembrou o arcebispo.

No dia 22, uma nova missa será realizada, já na Catedral de Brasília. A celebração, que ocorrerá às 12h, será a primeira do templo após sua reforma, e comemorará os 50 anos da catedral. A missa de comemoração foi atrasada em um dia, para não chocar com as festas do aniversário da cidade. Coforme lembrou o monsenhor Marcony Vinícius Ferreira, pároco da catedral e vigário-geral da Arquidiocese de Brasília, 21 de abril será reservado para os shows. “O dia 21 será um evento de massa, e vamos deixar para os shows”, afirmou.

Muitos desafios
Para dom João, a Igreja Católica tem participação importante na história de Brasília, que ele chama de “um sonho que se realizou.” “Também acompanhamos diversos momentos políticos. Brasília, nesse sentido, tem a característica de ser intensa e imprevisível. E temos grandes desafios pela frente. Celebramos 50 anos com uma crise política como essa e fortes contrastes sociais. Acredito que o caminho para resolver isso é o diálogo, sem excluir nem duvidar da colaboração de todos”, falou.


Senado antecipa cerimônia


O Senado Federal comemorou o cinquentenário de Brasília antecipadamente. Em uma sessão deliberativa de quase três horas no plenário da Casa, 10 parlamentares subiram à tribuna para discursar. Havia 49 senadores presentes. A sessão lembrou também a data da morte de Tiradentes, inconfidente mineiro executado há 218 anos. A homenagem foi requerida pelo senador Cristovam Buarque (PDT-DF), o primeiro a relatar, na cerimônia, a importância histórica da cidade.

O senador classificou como “as duas grandes epopeias brasileiras” as datas memoráveis — a morte do mártir e a inauguração da capital. “Mas um país não se faz apenas de heróis se esses heróis não ajudam a construir a história com a grandeza dos gestos nacionais. Não apenas o gesto de um indivíduo como Tiradentes, mas o gesto de uma nação inteira. E é aqui que entra a epopeia de Brasília”, completou.

De acordo com Buarque, a data de inauguração de Brasília não foi decidida de forma aleatória. “Juscelino Kubitscheck, ao escolher essa data, quis prestar uma homenagem a Tiradentes, para lembrar a todos do heroísmo de um homem e da epopeia de uma nação.” Em seguida, a senadora Marisa Serrano (PSDB-MS) destacou como a criação de Brasília impulsionou o crescimento econômico do país: “É inquestionável que a construção de Brasília mudou a fisionomia de todo o Centro-Oeste e, sem exagerar, podemos dizer que de todo o vasto interior brasileir”.

Os senadores relembraram histórias de JK e dos candangos. O primeiro a tocar no assunto do escândalo que recentemente envolveu o DF foi o senador Adelmir Santana (DEM-DF). Ele fez um apelo aos brasilienses para que não deixem de celebrar os 50 anos da cidade e que acreditem em uma renovação. “Brasília é modernidade, é empreendedorismo, é crença no futuro do Brasil. Brasilienses, vamos festejar a nossa cidade(...) . Ainda que não se faça presente a figura governamental nas comemorações que se processam nesta Casa, a iniciativa da comemoração merece os nossos aplausos”, concluiu. Correioweb.com.br 14/04

MARCELO COELHO

Leituras privadas, livros públicos FSP 14/04

O Kindle e os iPods tornam o ato de ler e de ouvir música muito mais secreto



IPOD, IPAD, iPhone, Bluetooth: não me perguntem a diferença entre uma coisa e outra. Quase nunca uso o celular e acho isso uma felicidade.
Minha reação varia entre pena, horror, medo e desprezo quando vejo aquelas filas de fanáticos esperando a abertura da loja onde comprarão o mais recente brinquedo eletrônico, que, daqui a pouco, estará completamente obsoleto. Esperar continua a ser uma grande virtude. Eu teria, sem dúvida, me dado mal se tivesse cedido ao impulso de comprar uma TV de plasma há alguns anos atrás; parece que não dá muito certo e, de todo modo, barateia com o passar do tempo.
Em matéria de eletrônicos, minha única política tem sido a de usar até que quebrem. Aí, é claro, não chego ao extremo de mandar para o conserto: isso seria xiita nos dias que correm.
Como meu velho toca-discos ainda funciona, posso até saborear a secreta vingança de ver o vinil voltando à moda; no túmulo, talvez, outros motivos existirão para quem me encontrar sorrindo. Leio, entretanto, meu horóscopo do dia e corrijo o andor deste artigo.
"Capricórnio. Hoje pode ser um daqueles dias em que você ri por dentro da miséria alheia, dos erros e das cabeçadas, que outros, mais empolgados, crentes e ingênuos, cometeram, tentando acertar e viver melhor. Tire esse dedo da cara dos outros e não seja chato achando que sabe tudo." Certo. Tiro o dedo da cara dos outros e deixo-o livre, quem sabe, para tocar algum dia a tela sensível de um iPad, se tal aparelho vier a cair nas minhas mãos.
Por enquanto, a única coisa que vi parecida foi o Kindle, que um amigo trouxe dos Estados Unidos. A vontade de comprar veio na hora; pouco tempo depois, sumiu. O livro eletrônico da Amazon me pareceu bonitinho, elegante, e suas vantagens práticas (em viagem, por exemplo) não me deixaram indiferente. Mas espero.
E, enquanto espero, topo com um novo argumento a favor do livro tradicional. Não aquelas elegias ao cheiro do papel, à rugosidade da encadernação etc., que tendem a esquecer as folhas que se rasgam, que se despregam da lombada, que indelevelmente registram (compro muito livro usado) as marcas de esferográfica, além da coriza de seus antigos donos.
Leio, na edição traduzida do "New York Times", que a Folha trouxe encartada na segunda-feira, um problema mais grave. Coisas como o Kindle e o iPad acabam com as capas dos livros.
Desaparece, diz Motoko Rich na sua reportagem, o prazer bisbilhoteiro de ver o que a outra pessoa está lendo no avião, no metrô ou na sala de espera.
Desaparece também a vaidade de mostrar ao próximo que livro você está lendo. A nova-iorquina Bindu Wiles, por exemplo, ostentou durante um bom tempo, em suas viagens no metrô, o romance "Anna Karenina", de Tolstói. Orgulhava-se disso, e não haverá Kindle folheado a ouro e cravejado de cristais Swarowski que substitua essa pequena pretensão.
Mas há soluções para tudo. Um site chamado "librarything" funciona como uma espécie de Facebook só para leitores de livros. Você põe ali a lista dos livros que andou lendo (o que é um bom registro, aliás, para depois de uns anos perceber o quanto esqueceu das próprias leituras).
A lista inclui automaticamente a capinha do livro e mostra quantas outras pessoas o leem também. É claro que daí surgem indicações de livros parecidos, salas de discussão, tudo o que você quiser.
O caso da americana Bindu Wiles, que gosta de aparecer com um Tolstói a caminho do trabalho, leva a pensar em outro fenômeno. Costumamos achar que toda novidade tecnológica contribui para dissolver a esfera da vida privada.
Celulares, como se sabe, não respeitam a intimidade de ninguém. Eis que o livro eletrônico e também os iPods tornam o ato de ler ou de ouvir música muito mais secreto do que era antigamente. Alguns séculos atrás, só se lia em voz alta; música era acontecimento público. Agora, também o cinema e a televisão se individualizaram em telas portáteis, como joguinhos eletrônicos.
Lamento pelas capas dos livros, tantas vezes lindas. Mas, da oração protestante à leitura de um gibi, é a vida privada que não cessa de se fortalecer ao longo do tempo; talvez todas as invasões de "reality shows" e bisbilhotices na internet não passem, na verdade, dos últimos gritos desesperados de uma coisa prestes a desaparecer: a vida em comum.

marcelofsp@uol.com.br

segunda-feira, 12 de abril de 2010

LUIZ FELIPE PONDÉ FSP 12/04

"Mrs. Dalloway"


Ver a si mesma como estrangeira na própria alma é o pesadelo da personagem de Woolf




MORAVA EU num kibutz em Israel. No final do dia de trabalho físico extenuante, lia na porta do meu quarto, ensaiando meus primeiros cachimbos. Durante alguns meses devorei livros da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941). Entre eles, um que me marcou excepcionalmente foi "Mrs. Dalloway", publicado em 1925.
Revi o maravilhoso "As Horas" (2002), com Nicole Kidman. E sempre quando vejo esse filme me lembro de como ela foi essencial, ainda que de modo pontual, em minha visão de mundo. No fundo, sempre suspeitei de que cada dia é mais um dia sob o risco de ser devorado pelo sentimento último da melancolia.
Às vezes na vida se faz necessário rompimentos com o cotidiano para que possamos ver melhor o sentido do que fazemos, ou a total falta de sentido. A vida se degrada facilmente na rotina de tentar mantê-la funcionando, por isso a derrota, como no livro "Mito de Sísifo" (1942), de Albert Camus, pode ser a condição necessária para a consciência repousar em paz consigo mesma. Vencer sempre pode ser um inferno.
Na época, atravessando minha primeira (de várias) crises com minha formação médica então em curso, busquei fugir para alguma fronteira do mundo. Trabalhei no deserto do Neguev algumas vezes e posso dizer que o pôr do sol no deserto vazio é uma experiência de dar inveja. A possibilidade de caminhar pelo deserto, como me disse certa feita o escritor israelense Amós Oz, refaz a alma porque vemos nosso rosto refletido na poeira. O deserto nos ensina a humildade, e a humildade é sempre imbatível. Humildade nada tem a ver com humilhação, mas, ao contrário, humildade fala da consciência de que somos efêmeros como o vento. E só como efêmeros que podemos perceber a dádiva que é respirar. Há um modo misterioso em como o deserto chama seu nome quando você está disposto a ouvi-lo.
Na época, já sabia que Virginia Woolf havia se suicidado e, por isso mesmo, quis conhecer sua obra. Nunca fui um deprimido clínico, mas sempre me surpreendi pelo fato de não sê-lo. Muitas vezes pareceu-me que, se fosse viver pelo que a razão me diz, já teria sucumbido à melancolia profunda. O que me encantou em Mrs.
Dalloway
foi seu esforço em ser normal e feliz e acreditar em si mesma e na sua fidelidade à rotina. No dia em que se passa a história, ela organiza uma festa em sua casa. Manter a vida aí se equipara ao esforço descomunal de erguer uma festa quando, no fundo, ela se sente vazia e sem razões para festejar. Entre uma alma triste e uma rotina vazia, ela opta pela segunda como falta de escolha porque não pode confiar na tristeza.
Penso no número enorme de pessoas que se levantam pela manhã assim como quem carrega um corpo que não é seu. Mrs. Dalloway é o fim de quem ingenuamente acredita que as coisas sempre darão certo, bastando festejar a rotina comum. Não, a rotina é indiferente à nossa fidelidade, podendo nos destruir mesmo quando a servimos como a um senhor todo poderoso. O pesadelo de Mrs. Dalloway é se ver como estrangeira em sua própria alma.
Aprendemos com ela que a vida não é necessariamente bela e que tentar negar isso é uma forma de permanecer escravo de sua possível monstruosidade.
No fundo de nossa alma habitam monstros que a muito custo se mantêm em silêncio. Esses monstros, quando o mundo silencia, surgem na superfície mostrando o ridículo de nossa batalha diária.
Quantas vezes mulheres apenas suportam o choro de seus filhos, sofrendo no fundo da alma o horror que é ser obrigada a amá-los quando não sentem por eles nada parecido com amor materno, mas apenas o incômodo causado por aqueles pequenos intrusos em suas vidas.
Quantos homens sufocam diante da certeza de que já vivem uma vida sem amor, sem afeto e sem desejo, mas que isso é tudo que suportam ao lado de suas esposas. Quantos filhos sofrem por se sentir indiferentes para com o destino dos pais idosos, tentando convencer a si mesmos de que o amor pelos pais seria o certo, mas que nada conseguem além de desejar vê-los mortos e assim se sentirem livres finalmente.
Entre as funções da civilização, uma é a tentativa de calar esses monstros criando ritos, rituais, festas para celebrar a frágil vitória contra essas criaturas deformadas, atormentadas pelo completo desinteresse pela vida. A verdade é que não há como civilizá-las, a não ser ensiná-las que elas não têm lugar no mundo dos vivos e que, por isso, devem sucumbir à rotina da infelicidade como norma da vida.

+livros – REVISTA MAIS FSP 11/04

Caldeira fervente

Em nova obra, historiador diz que esquerda brasileira se enganou na interpretação do Brasil e afirma que país não era refém da metrópole

RAFAEL CARIELLO
DA EQUIPE DE EDITORIALISTAS

Processos de revisão histórica exigem trabalho redobrado. Não basta chamar atenção para fatos que antes passavam despercebidos ou explicar, de maneira inédita, o passado.
Uma vez estabelecida a nova interpretação, é hora de perguntar: como foi possível que os pesquisadores de décadas passadas não vissem isso? O que levou historiadores, por tanto tempo, a se "enganar"?
Já faz mais de duas décadas que a visão sobre o passado colonial brasileiro tem mudado radicalmente. O novo livro de Jorge Caldeira, "História do Brasil com Empreendedores", cumpre o importante trabalho de sintetizar e divulgar boa parte dos trabalhos acadêmicos recentes que contribuíram para essa empreitada.
Mas vai além, ao buscar uma explicação para a vigência da interpretação anterior, que prevaleceu na maior parte do século passado.
Ficou para trás, como mostra Caldeira, a ideia de uma América portuguesa pobre e espoliada pelas metrópoles europeias. Passou a prevalecer a interpretação de uma economia mais dinâmica e uma sociedade muito mais complexa do que as explicações que colocavam ênfase na dependência colonial deixavam ver.
As razões do atraso do país são mais recentes e determinadas não pela transferência de recursos para Portugal, mas pelas escolhas que uma elite política e econômica, residente no Brasil, fez.
A contribuição inédita de Caldeira, autor da importante biografia de Irineu Evangelista de Sousa, "Mauá - Empresário do Império" (Cia. das Letras), está na segunda tarefa, para a qual é dedicada metade de seu novo livro.
Ele diz ter descoberto, de maneira fortuita, uma espécie de véu ideológico no trabalho de Caio Prado Jr. (1907-90), pai das explicações hegemônicas sobre o país entre os anos de 1930 e 1980.
Há mais de uma década, enquanto pesquisava para seu doutorado em ciência política, na USP, ele notou semelhanças impressionantes entre trechos das obras de Prado Jr. e do historiador conservador Oliveira Vianna (1883-1951).
A visão que Prado Jr. -autor marxista e referência para gerações de pesquisadores de esquerda- tinha do Brasil havia sido cunhada, em grande medida, por Vianna, pensador antiliberal e crítico da democracia representativa, diz.
Parte da esquerda brasileira, portanto, seria herdeira direta do pensamento conservador da virada do século 19 para o 20. Ambas, às vezes pelas mesmas razões, às vezes por motivos diversos, leram mais de quatro séculos de história como a narrativa de um país cronicamente inviável.
Foi Vianna, antes de Prado Jr., quem colocou o "latifúndio" no centro de seu modelo explicativo sobre as razões do atraso brasileiro. Para o conservador, as consequências da importância exacerbada da fazenda exportadora eram sobretudo políticas.
A sociedade brasileira se via reduzida à oposição entre senhores e escravos, e entre eles uma massa de homens dependentes dos proprietários, incapazes de se associar livremente e criar o substrato social necessário para a vigência, mais tarde, da democracia.
Daí por que o modelo liberal -incluindo o voto direto- era estranho ao país e não deveria ser importado, dizia Vianna. Prado Jr. foi diretamente influenciado por esse modelo.

O capital ficava aqui
Caldeira compara trechos extensos das obras dos dois autores para mostrar os empréstimos interpretativos do historiador marxista -que, no entanto, centrou esforços na explicação das consequências econômicas do "latifúndio agrário-exportador".
Por ser montada sobre uma base material de grandes fazendas voltadas para o comércio externo, a América portuguesa -segundo o modelo de Prado Jr. e da explicação hegemônica sobre o país depois dele- era pobre, dependente, desprovida de lógicas política e ideológica próprias tanto quanto de dinamismo econômico interno.
Versão falhada, mero simulacro, da sociedade europeia e, mais tarde, da americana. Pesquisas recentes, citadas por Caldeira, demonstram que a explicação estava errada. O país não só dispunha de um dinâmico mercado interno já no século 18 como boa parte da riqueza que sua elite acumulava não era transferida para Portugal -ao contrário, era reinvestida na própria colônia.
Do ponto de vista social, a maior parte da população não era composta por senhores ou escravos, mas por homens livres, mestiços, que estavam longe de ser meros agregados dos poderosos.
Muitos eram lavradores ou comerciantes, e a forma mais comum de propriedade não era o latifúndio, mas o sítio, o pequeno pedaço de terra trabalhado pela família. Apenas um décimo da população livre era proprietária de escravos.
Forçando bastante a analogia com os tempos atuais, é como se as pesquisas das últimas décadas tivessem descoberto uma enorme "classe C" no passado colonial do país -além de uma pujante elite financeira.
São esses os "empreendedores" da obra de Caldeira: não só os traficantes de escravos e "banqueiros" que se encontravam no topo da pirâmide econômica mas também os pequenos comerciantes e lavradores, bandeirantes e proprietários de pequenas manufaturas.
O comércio era intenso, a colônia enriqueceu e, ao final do século 18, o Brasil já era indubitavelmente mais rico que sua metrópole, Portugal. O caminho para a acumulação não estava na produção em grande escala de mercadorias, como viria a acontecer em todo o mundo depois da Revolução Industrial. Na América portuguesa, exatamente como nos países europeus do Antigo Regime, eram os grandes comerciantes que enriqueciam.
Acumulavam recursos e emprestavam dinheiro aos proprietários. Mas também havia comércio e investimento em menor escala, espalhados de forma capilar pela colônia. Eram esses canais que permitiam a acumulação de recursos, o reinvestimento na produção e o enriquecimento material -para falar em termos atuais, o "crescimento do PIB".
Não se trata ainda de capitalismo. Não havia relações contratuais ou de troca monetária em larga escala, como hoje. Para investir, e enriquecer, os "empreendedores" dependiam de relações de confiança, da teia de vínculos sociais que criavam. Ao casar, criar laços de compadrio ou de dependência, a sociedade colonial se reproduzia segundo uma lógica que não era "utilitarista", que não visava simplesmente o lucro, mas que não excluía o ganho material.

Fiado e dote
Esse modelo misto já foi flagrado por outros historiadores, e Caldeira tenta uma sistematização para o caso brasileiro. O adiantamento de bens ou recursos, a instituição do "fiado", o empréstimo e o dote criavam canais que levavam ao enriquecimento do credor ao mesmo tempo em que se baseavam em relações pessoais.
Sem esse "capital", não se poderia explicar de onde o interior da colônia tirava recursos para se reproduzir materialmente, para ampliar seus negócios -da criação de gado ao plantio de alimentos para a venda no mercado interno.
Como se vê, há analogias óbvias, da "classe C" à expansão do crédito, entre essa interpretação renovada do Brasil Colônia e certa euforia econômica atualmente vivida pelo país. Mas seria um erro fazer de uma o reflexo da outra. As pesquisas que mudaram a compreensão sobre o passado do país tiveram seu grande impulso em um momento completamente diferente, entre o final dos anos 80 e início dos 90, quando o ambiente político e econômico no Brasil era outro.
Não será surpresa, no entanto, se a atual atenuação do secular complexo de vira-latas dos brasileiros contribuir para uma maior difusão desses trabalhos.


HISTÓRIA DO BRASIL COM EMPREENDEDORES

Autor: Jorge Caldeira
Editora: Mameluco (tel. 0/ xx/11/ 3123-0110)
Quanto: R$ 49 (336 págs.)

Aonde os emergentes querem chegar? FSP 11/04

O debate sobre cooperação para desenvolvimento tem sido feito pela perspectiva dos países doadores, a favor ou contra a ajuda externa


DOIS EVENTOS centrais para os países emergentes serão realizados em Brasília em abril: a Cúpula Índia-Brasil-África do Sul (Ibas) e a Cúpula Brasil-Rússia-Índia-China (Bric).
O Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG, na sigla em inglês), que tem sua sede em Brasília (DF), tem o privilégio de estar envolvido com as cúpulas de chefes de Estado, especialmente por meio da organização do Fórum Acadêmico do Ibas: um Diálogo de Políticas Públicas.
Esperamos que esses encontros tenham grande ressonância para o futuro da cooperação Sul-Sul, assim como para o novo papel dos países emergentes na política global. A primeira década do século 21 tem sido marcada pela intersecção de três debates que anteriormente haviam sido realizados em domínios separados e com interação limitada: a governança econômica mundial, a cooperação internacional para o desenvolvimento e, por fim, a política externa dos Estados nacionais.
Tradicionalmente, o debate sobre a governança econômica global tem sido realizado nos âmbitos do G8, do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização Mundial do Comércio (OMC).
O debate sobre cooperação internacional para o desenvolvimento tem sido feito a partir da perspectiva dos países doadores, focalizando a ajuda externa, seja a favor ou seja contra.
As estratégias de política externa têm sido balizadas pela perspectiva de interesses estratégicos nacionais e, apesar de iniciativas específicas enraizadas na história da Guerra Fria, foram tipicamente bilaterais no seu âmbito e natureza.
O rápido aumento do número de economias emergentes como "global players" está levando a uma significativa reavaliação dos pressupostos fundamentais da governança econômica global em matéria de voz, influência e poder. Eu gostaria de ressaltar, nesse âmbito, a crescente participação desses países na cooperação para o desenvolvimento, representando uma força potencial para a promoção do crescimento inclusivo.
Esse papel está enraizado em um profundo compromisso histórico com os países do Sul e se baseia na solidariedade política com outras nações em desenvolvimento.
Por
essa razão, as cúpulas Ibas e Bric são notícias de primeira página em todo o mundo. A divisão entre as esferas bilateral, regional e global de estratégias de política externa tornou-se mais difusa e novos espaços são abertos para a atuação dos países emergentes na questão da promoção do desenvolvimento.
Chamo a atenção para algumas questões centrais. Será que a ascensão das economias desses emergentes anuncia apenas uma ampliação do chamado "grande jogo", tendo como único resultado um espaço a mais para os países emergentes em seu envolvimento com o G20?
Ou será que tais países aproveitarão a oportunidade para consolidar um novo paradigma de cooperação para o desenvolvimento, mais inclusivo, que garanta que os frutos do crescimento cheguem a todos os cidadãos?
Representarão os agrupamentos plurilaterais, como o Ibas e o Bric, novos caminhos para a cooperação entre os países em desenvolvimento? Estamos confiantes de que o Fórum Acadêmico do Ibas: um Diálogo de Políticas Públicas estimulará a reflexão sobre novas possibilidades para a cooperação Sul-Sul e contribuirá para a promoção do crescimento inclusivo na agenda de diálogo entre Índia, Brasil e África do Sul em momento tão crítico para a projeção dos países emergentes no cenário global.

RATHIN ROY, doutor em economia pela Universidade de Cambridge (Reino Unido), é diretor do Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

LUIZ FELIPE PONDÉ FSP 12/04

"Mrs. Dalloway"


Ver a si mesma como estrangeira na própria alma é o pesadelo da personagem de Woolf




MORAVA EU num kibutz em Israel. No final do dia de trabalho físico extenuante, lia na porta do meu quarto, ensaiando meus primeiros cachimbos. Durante alguns meses devorei livros da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941). Entre eles, um que me marcou excepcionalmente foi "Mrs. Dalloway", publicado em 1925.
Revi o maravilhoso "As Horas" (2002), com Nicole Kidman. E sempre quando vejo esse filme me lembro de como ela foi essencial, ainda que de modo pontual, em minha visão de mundo. No fundo, sempre suspeitei de que cada dia é mais um dia sob o risco de ser devorado pelo sentimento último da melancolia.
Às vezes na vida se faz necessário rompimentos com o cotidiano para que possamos ver melhor o sentido do que fazemos, ou a total falta de sentido. A vida se degrada facilmente na rotina de tentar mantê-la funcionando, por isso a derrota, como no livro "Mito de Sísifo" (1942), de Albert Camus, pode ser a condição necessária para a consciência repousar em paz consigo mesma. Vencer sempre pode ser um inferno.
Na época, atravessando minha primeira (de várias) crises com minha formação médica então em curso, busquei fugir para alguma fronteira do mundo. Trabalhei no deserto do Neguev algumas vezes e posso dizer que o pôr do sol no deserto vazio é uma experiência de dar inveja. A possibilidade de caminhar pelo deserto, como me disse certa feita o escritor israelense Amós Oz, refaz a alma porque vemos nosso rosto refletido na poeira. O deserto nos ensina a humildade, e a humildade é sempre imbatível. Humildade nada tem a ver com humilhação, mas, ao contrário, humildade fala da consciência de que somos efêmeros como o vento. E só como efêmeros que podemos perceber a dádiva que é respirar. Há um modo misterioso em como o deserto chama seu nome quando você está disposto a ouvi-lo.
Na época, já sabia que Virginia Woolf havia se suicidado e, por isso mesmo, quis conhecer sua obra. Nunca fui um deprimido clínico, mas sempre me surpreendi pelo fato de não sê-lo. Muitas vezes pareceu-me que, se fosse viver pelo que a razão me diz, já teria sucumbido à melancolia profunda. O que me encantou em Mrs.
Dalloway
foi seu esforço em ser normal e feliz e acreditar em si mesma e na sua fidelidade à rotina. No dia em que se passa a história, ela organiza uma festa em sua casa. Manter a vida aí se equipara ao esforço descomunal de erguer uma festa quando, no fundo, ela se sente vazia e sem razões para festejar. Entre uma alma triste e uma rotina vazia, ela opta pela segunda como falta de escolha porque não pode confiar na tristeza.
Penso no número enorme de pessoas que se levantam pela manhã assim como quem carrega um corpo que não é seu. Mrs. Dalloway é o fim de quem ingenuamente acredita que as coisas sempre darão certo, bastando festejar a rotina comum. Não, a rotina é indiferente à nossa fidelidade, podendo nos destruir mesmo quando a servimos como a um senhor todo poderoso. O pesadelo de Mrs. Dalloway é se ver como estrangeira em sua própria alma.
Aprendemos com ela que a vida não é necessariamente bela e que tentar negar isso é uma forma de permanecer escravo de sua possível monstruosidade.
No fundo de nossa alma habitam monstros que a muito custo se mantêm em silêncio. Esses monstros, quando o mundo silencia, surgem na superfície mostrando o ridículo de nossa batalha diária.
Quantas vezes mulheres apenas suportam o choro de seus filhos, sofrendo no fundo da alma o horror que é ser obrigada a amá-los quando não sentem por eles nada parecido com amor materno, mas apenas o incômodo causado por aqueles pequenos intrusos em suas vidas.
Quantos homens sufocam diante da certeza de que já vivem uma vida sem amor, sem afeto e sem desejo, mas que isso é tudo que suportam ao lado de suas esposas. Quantos filhos sofrem por se sentir indiferentes para com o destino dos pais idosos, tentando convencer a si mesmos de que o amor pelos pais seria o certo, mas que nada conseguem além de desejar vê-los mortos e assim se sentirem livres finalmente.
Entre as funções da civilização, uma é a tentativa de calar esses monstros criando ritos, rituais, festas para celebrar a frágil vitória contra essas criaturas deformadas, atormentadas pelo completo desinteresse pela vida. A verdade é que não há como civilizá-las, a não ser ensiná-las que elas não têm lugar no mundo dos vivos e que, por isso, devem sucumbir à rotina da infelicidade como norma da vida.

+livros

Caldeira fervente

Em nova obra, historiador diz que esquerda brasileira se enganou na interpretação do Brasil e afirma que país não era refém da metrópole

RAFAEL CARIELLO
DA EQUIPE DE EDITORIALISTAS

Processos de revisão histórica exigem trabalho redobrado. Não basta chamar atenção para fatos que antes passavam despercebidos ou explicar, de maneira inédita, o passado.
Uma vez estabelecida a nova interpretação, é hora de perguntar: como foi possível que os pesquisadores de décadas passadas não vissem isso? O que levou historiadores, por tanto tempo, a se "enganar"?
Já faz mais de duas décadas que a visão sobre o passado colonial brasileiro tem mudado radicalmente. O novo livro de Jorge Caldeira, "História do Brasil com Empreendedores", cumpre o importante trabalho de sintetizar e divulgar boa parte dos trabalhos acadêmicos recentes que contribuíram para essa empreitada.
Mas vai além, ao buscar uma explicação para a vigência da interpretação anterior, que prevaleceu na maior parte do século passado.
Ficou para trás, como mostra Caldeira, a ideia de uma América portuguesa pobre e espoliada pelas metrópoles europeias. Passou a prevalecer a interpretação de uma economia mais dinâmica e uma sociedade muito mais complexa do que as explicações que colocavam ênfase na dependência colonial deixavam ver.
As razões do atraso do país são mais recentes e determinadas não pela transferência de recursos para Portugal, mas pelas escolhas que uma elite política e econômica, residente no Brasil, fez.
A contribuição inédita de Caldeira, autor da importante biografia de Irineu Evangelista de Sousa, "Mauá - Empresário do Império" (Cia. das Letras), está na segunda tarefa, para a qual é dedicada metade de seu novo livro.
Ele diz ter descoberto, de maneira fortuita, uma espécie de véu ideológico no trabalho de Caio Prado Jr. (1907-90), pai das explicações hegemônicas sobre o país entre os anos de 1930 e 1980.
Há mais de uma década, enquanto pesquisava para seu doutorado em ciência política, na USP, ele notou semelhanças impressionantes entre trechos das obras de Prado Jr. e do historiador conservador Oliveira Vianna (1883-1951).
A visão que Prado Jr. -autor marxista e referência para gerações de pesquisadores de esquerda- tinha do Brasil havia sido cunhada, em grande medida, por Vianna, pensador antiliberal e crítico da democracia representativa, diz.
Parte da esquerda brasileira, portanto, seria herdeira direta do pensamento conservador da virada do século 19 para o 20. Ambas, às vezes pelas mesmas razões, às vezes por motivos diversos, leram mais de quatro séculos de história como a narrativa de um país cronicamente inviável.
Foi Vianna, antes de Prado Jr., quem colocou o "latifúndio" no centro de seu modelo explicativo sobre as razões do atraso brasileiro. Para o conservador, as consequências da importância exacerbada da fazenda exportadora eram sobretudo políticas.
A sociedade brasileira se via reduzida à oposição entre senhores e escravos, e entre eles uma massa de homens dependentes dos proprietários, incapazes de se associar livremente e criar o substrato social necessário para a vigência, mais tarde, da democracia.
Daí por que o modelo liberal -incluindo o voto direto- era estranho ao país e não deveria ser importado, dizia Vianna. Prado Jr. foi diretamente influenciado por esse modelo.

O capital ficava aqui
Caldeira compara trechos extensos das obras dos dois autores para mostrar os empréstimos interpretativos do historiador marxista -que, no entanto, centrou esforços na explicação das consequências econômicas do "latifúndio agrário-exportador".
Por ser montada sobre uma base material de grandes fazendas voltadas para o comércio externo, a América portuguesa -segundo o modelo de Prado Jr. e da explicação hegemônica sobre o país depois dele- era pobre, dependente, desprovida de lógicas política e ideológica próprias tanto quanto de dinamismo econômico interno.
Versão falhada, mero simulacro, da sociedade europeia e, mais tarde, da americana. Pesquisas recentes, citadas por Caldeira, demonstram que a explicação estava errada. O país não só dispunha de um dinâmico mercado interno já no século 18 como boa parte da riqueza que sua elite acumulava não era transferida para Portugal -ao contrário, era reinvestida na própria colônia.
Do ponto de vista social, a maior parte da população não era composta por senhores ou escravos, mas por homens livres, mestiços, que estavam longe de ser meros agregados dos poderosos.
Muitos eram lavradores ou comerciantes, e a forma mais comum de propriedade não era o latifúndio, mas o sítio, o pequeno pedaço de terra trabalhado pela família. Apenas um décimo da população livre era proprietária de escravos.
Forçando bastante a analogia com os tempos atuais, é como se as pesquisas das últimas décadas tivessem descoberto uma enorme "classe C" no passado colonial do país -além de uma pujante elite financeira.
São esses os "empreendedores" da obra de Caldeira: não só os traficantes de escravos e "banqueiros" que se encontravam no topo da pirâmide econômica mas também os pequenos comerciantes e lavradores, bandeirantes e proprietários de pequenas manufaturas.
O comércio era intenso, a colônia enriqueceu e, ao final do século 18, o Brasil já era indubitavelmente mais rico que sua metrópole, Portugal. O caminho para a acumulação não estava na produção em grande escala de mercadorias, como viria a acontecer em todo o mundo depois da Revolução Industrial. Na América portuguesa, exatamente como nos países europeus do Antigo Regime, eram os grandes comerciantes que enriqueciam.
Acumulavam recursos e emprestavam dinheiro aos proprietários. Mas também havia comércio e investimento em menor escala, espalhados de forma capilar pela colônia. Eram esses canais que permitiam a acumulação de recursos, o reinvestimento na produção e o enriquecimento material -para falar em termos atuais, o "crescimento do PIB".
Não se trata ainda de capitalismo. Não havia relações contratuais ou de troca monetária em larga escala, como hoje. Para investir, e enriquecer, os "empreendedores" dependiam de relações de confiança, da teia de vínculos sociais que criavam. Ao casar, criar laços de compadrio ou de dependência, a sociedade colonial se reproduzia segundo uma lógica que não era "utilitarista", que não visava simplesmente o lucro, mas que não excluía o ganho material.

Fiado e dote
Esse modelo misto já foi flagrado por outros historiadores, e Caldeira tenta uma sistematização para o caso brasileiro. O adiantamento de bens ou recursos, a instituição do "fiado", o empréstimo e o dote criavam canais que levavam ao enriquecimento do credor ao mesmo tempo em que se baseavam em relações pessoais.
Sem esse "capital", não se poderia explicar de onde o interior da colônia tirava recursos para se reproduzir materialmente, para ampliar seus negócios -da criação de gado ao plantio de alimentos para a venda no mercado interno.
Como se vê, há analogias óbvias, da "classe C" à expansão do crédito, entre essa interpretação renovada do Brasil Colônia e certa euforia econômica atualmente vivida pelo país. Mas seria um erro fazer de uma o reflexo da outra. As pesquisas que mudaram a compreensão sobre o passado do país tiveram seu grande impulso em um momento completamente diferente, entre o final dos anos 80 e início dos 90, quando o ambiente político e econômico no Brasil era outro.
Não será surpresa, no entanto, se a atual atenuação do secular complexo de vira-latas dos brasileiros contribuir para uma maior difusão desses trabalhos.


HISTÓRIA DO BRASIL COM EMPREENDEDORES

Autor: Jorge Caldeira
Editora: Mameluco (tel. 0/ xx/11/ 3123-0110)
Quanto: R$ 49 (336 págs.)

Aonde os emergentes querem chegar? FSP 11/04

O debate sobre cooperação para desenvolvimento tem sido feito pela perspectiva dos países doadores, a favor ou contra a ajuda externa


DOIS EVENTOS centrais para os países emergentes serão realizados em Brasília em abril: a Cúpula Índia-Brasil-África do Sul (Ibas) e a Cúpula Brasil-Rússia-Índia-China (Bric).
O Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG, na sigla em inglês), que tem sua sede em Brasília (DF), tem o privilégio de estar envolvido com as cúpulas de chefes de Estado, especialmente por meio da organização do Fórum Acadêmico do Ibas: um Diálogo de Políticas Públicas.
Esperamos que esses encontros tenham grande ressonância para o futuro da cooperação Sul-Sul, assim como para o novo papel dos países emergentes na política global. A primeira década do século 21 tem sido marcada pela intersecção de três debates que anteriormente haviam sido realizados em domínios separados e com interação limitada: a governança econômica mundial, a cooperação internacional para o desenvolvimento e, por fim, a política externa dos Estados nacionais.
Tradicionalmente, o debate sobre a governança econômica global tem sido realizado nos âmbitos do G8, do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização Mundial do Comércio (OMC).
O debate sobre cooperação internacional para o desenvolvimento tem sido feito a partir da perspectiva dos países doadores, focalizando a ajuda externa, seja a favor ou seja contra.
As estratégias de política externa têm sido balizadas pela perspectiva de interesses estratégicos nacionais e, apesar de iniciativas específicas enraizadas na história da Guerra Fria, foram tipicamente bilaterais no seu âmbito e natureza.
O rápido aumento do número de economias emergentes como "global players" está levando a uma significativa reavaliação dos pressupostos fundamentais da governança econômica global em matéria de voz, influência e poder. Eu gostaria de ressaltar, nesse âmbito, a crescente participação desses países na cooperação para o desenvolvimento, representando uma força potencial para a promoção do crescimento inclusivo.
Esse papel está enraizado em um profundo compromisso histórico com os países do Sul e se baseia na solidariedade política com outras nações em desenvolvimento.
Por
essa razão, as cúpulas Ibas e Bric são notícias de primeira página em todo o mundo. A divisão entre as esferas bilateral, regional e global de estratégias de política externa tornou-se mais difusa e novos espaços são abertos para a atuação dos países emergentes na questão da promoção do desenvolvimento.
Chamo a atenção para algumas questões centrais. Será que a ascensão das economias desses emergentes anuncia apenas uma ampliação do chamado "grande jogo", tendo como único resultado um espaço a mais para os países emergentes em seu envolvimento com o G20?
Ou será que tais países aproveitarão a oportunidade para consolidar um novo paradigma de cooperação para o desenvolvimento, mais inclusivo, que garanta que os frutos do crescimento cheguem a todos os cidadãos?
Representarão os agrupamentos plurilaterais, como o Ibas e o Bric, novos caminhos para a cooperação entre os países em desenvolvimento? Estamos confiantes de que o Fórum Acadêmico do Ibas: um Diálogo de Políticas Públicas estimulará a reflexão sobre novas possibilidades para a cooperação Sul-Sul e contribuirá para a promoção do crescimento inclusivo na agenda de diálogo entre Índia, Brasil e África do Sul em momento tão crítico para a projeção dos países emergentes no cenário global.

RATHIN ROY, doutor em economia pela Universidade de Cambridge (Reino Unido), é diretor do Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

sábado, 10 de abril de 2010

Exposição anuncia novo museu de cultura popular em SP – FSP 10/04

"Puras Misturas", que ocupará o antigo prédio da Prodam, une peças colhidas por Mário de Andrade e artefatos indígenas a obras de arte contemporânea

São Paulo começa, amanhã, a pagar uma dívida histórica com alguns dos mais importantes nomes da cultura nacional.
"Puras Misturas", que ocupará o antigo prédio da Prodam, dá a largada oficial à criação do Pavilhão das Culturas Brasileiras. A mostra, que será aberta com a apresentação de grupos musicais -da congada ao hip-hop- traz a público o conceito de um museu há anos prometido.
A "alma" do museu, não só pelas obras, mas por seu significado conceitual, é o material colhido na Missão de Pesquisas Folclóricas empreendida por Mário de Andrade, em 1938.
Seu estofo será o acervo do antigo Museu do Folclore Rossini Tavares de Lima, desalojado do Ibirapuera no ano 2000. Sua contemporaneidade estará nas obras de artistas populares que, desde 2009, vêm sendo adquiridas pela prefeitura.
A tentativa de descolar do museu a etiqueta "folclore" e tratar a arte popular, simplesmente, como arte, fica evidente no recorte da exposição. Ex-votos, bonecas de pano e xilogravuras são vistas, à vontade, entre obras de Brecheret, Vicente do Rego Monteiro e Ronaldo Fraga - sim, o estilista.
Na tentativa de aproximar o público dos objetos, os curadores colocaram, à disposição dos visitantes, 65 bancos moldados por índios, artesãos ou designers de grife, como Sergio Rodrigues. Certamente, Mário de Andrade, Aloísio Magalhães e Lina Bo Bardi, defensores da arte "popular" que alguns "eruditos" custam a aceitar, não recusariam esses assentos.
Resta, agora, aguardar o início do restauro do pavilhão, que terá projeto de Pedro Mendes da Rocha. Desenhado por Oscar Niemeyer, o edifício abrigou, na década de 1950, a Bienal de Artes, mas, quase como que simbolizando o descaso com a cultura, acabou por abrigar, por décadas, a Prodam, empresa municipal de informática.

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25 anos sem Cora

Fonte: o popular 10/04

Programação na cidade de Goiás relembra a data com debates literários

Em 10 de abril de 1985, exatamente há 25 anos, o Brasil perdia uma de suas poetas mais estimadas. Cora Coralina, aos 95 anos de idade, morria em um hospital de Goiânia, mas sua poesia permaneceu e conquistou ainda mais leitores, sendo reconhecida em todo o País pela singeleza e pelo lirismo.

Para lembrar a data, o Museu Casa de Cora, sediado na Casa da Ponte, antiga residência da autora, em parceria com a Universidade Federal de Goiás, Universidade Estadual de Goiás e a Irmandade Bom Jesus dos Passos, da cidade de Goiás, promove uma série de atividades de hoje até a quinta-feira.

As homenagens terão início às 19h de hoje, com uma celebração em ação de graças na Igreja de São Francisco, perto da Rodoviária, às margens do Rio Vermelho. A cerimônia contará com a apresentação de um poema de Cora, Meu Epitáfio, declamado por Elenizia da Mata e Daniel Melo. Esses versos foram gravados na lápide de Cora Coralina, que foi sepultada na cidade de Goiás. Alunos do curso de Letras da UEG do câmpus da cidade prepararam algo especial em memória da maior escritora da terra, que vão apresentar na celebração.

Na terça-feira, dia 13, começa a 3ª Jornada de Estudos Coralineanos, dedicados à análise de diversos aspectos da poética da autora, no Auditório Brasilete Caiado, na sede da UEG em Goiás. A palestra de abertura do evento será A Morte Sob a Visão da Literatura, às 19h, proferida pelo professor, crítico e escritor José Fernandes. No dia 14, o professor Gonçalo Armijos Palácios vai falar, no mesmo local, também às 19h, sobre um tema próximo: A Visão da Morte na Perspectiva da Filosofia. No último dia de atividades, na quinta, será exibido o longa-metragem As Tranças de Maria, de Pedro Rovai, filme que é uma adaptação de um poema famoso de Cora. A sessão será na UEG, às 19h. Todos os eventos têm entrada franca.

De acordo com Marlene Velasco, diretora do Museu Casa de Cora, os debates foram pensados para aproximar mais a comunidade e os estudantes da obra da poeta. “Este ano, como estamos lembrando os 25 anos da perda da Cora, resolvemos abordar a questão da morte. As discussões tratam de como a morte é mostrada e trabalhada na literatura.”

Ela afirma que esse tipo de iniciativa é importante em razão de as informações a respeito de Cora Coralina não serem tão disseminadas quanto se imagina, nem mesmo na cidade em que nasceu e da qual se tornou um dos símbolos. “Muita gente de Goiás ainda não viu o filme Tranças de Maria, por exemplo.”

Ana Lins dos Guimarães Peixoto, Cora Coralina, nasceu na antiga capital goiana em 20 de agosto de 1889. A poesia era uma de suas paixões já na juventude, mas não pode exercê-la por muito tempo, em razão dos preconceitos que cercavam as mulheres de seu tempo e, depois, por determinação do marido, com quem viveu no interior de São Paulo por quase 50 anos.

Sua saída de Goiás foi cercada de polêmica, já que o homem com quem formaria família era bem mais velho e já fora casado, um escândalo no início do século 20. Na volta à cidade, retomou a posse da casa que fora de seus pais e lá começou a escrever. Sua poesia e seus doces encantaram turistas e intelectuais, como Carlos Drummond de Andrade, autor da crônica que a alçaria à fama nacional. Em 1984, ganhou o Troféu Jabuti.