sexta-feira, 9 de abril de 2010

Exposição revela um novo olhar sobre as favelas

FSP 08/04

Mostra na Casa Brasileira reúne estudiosos em torno do tema; reurbanização substituiu erradicação desses espaços

Mudança na forma de encarar as favelas começou no Rio, na década de 60; exposição terá ainda uma visita guiada a Paraisópolis


Há mais arquitetos de renome fazendo obras em favelas de São Paulo do que em qualquer outra área da cidade. De Ruy Ohtake a Marcelo Ferraz, do escritório Piratininga ao Elemental, do Chile, todos têm projetos em áreas que não têm esgoto nem rua.
O fenômeno pode ser visto como um comentário sobre o conservadorismo do mercado imobiliário. Mas a principal novidade parece estar na outra ponta: as favelas paulistanas estão mudando.
Uma exposição que abre hoje no Museu da Casa Brasileira, "Cidades Informais do Século 21", traz algumas pistas dessas mudanças. Ela mescla o que a Prefeitura de São Paulo mostrou na Bienal de Roterdã, na Holanda, com debates. O italiano Bernardo Secchi, um dos mais influentes estudiosos do urbanismo, e o americano Alfredo Brillembourg, que tornou-se conhecido por implantar teleférico num morro de Caracas, debaterão com brasileiros como Sérgio Magalhães, que atuou no mais bem-sucedido programa brasileiro nessa área, o Favela-Bairro, no Rio (veja a programação completa em www.mcb.org.br). Erradicação de favela, ação que PT, PSDB e Paulo Maluf apoiavam, virou palavrão. A nova ordem é reurbanizar. "O olhar do arquiteto sobre a favela mudou. A ideia da exposição é convidar o público a mudar esse olhar também", diz Marisa Barda, curadora da mostra.
Para ajudar a quebrar o preconceito, uma van sairá, às quartas-feiras, do museu para uma visita guiada à favela de Paraisópolis, no Morumbi. Paraisópolis é a favela paulistana que recebeu a segunda maior dotação de recursos da prefeitura, de R$ 400 milhões, logo atrás de Heliópolis (R$ 430 milhões).

Crise do modernismo
Magalhães tem dados históricos que apontam que essa mudança na forma de encarar as favelas começou no Rio de Janeiro. Em 1968, a prefeitura do Rio urbanizou três favelas, segundo ele, a partir de ideias do economista e arquiteto Carlos Nelson Ferreira dos Santos (1943-1989): Brás de Pina, Mata Machado e Morro União.
O projeto de Carlos Nelson gerou em 1994 o Favela-Bairro.
Como ocorre hoje em São Paulo, a remoção só é feita quando a casa está em área de risco ou no caminho de uma nova rua.
O programa pioneiro de 1968 e o Favela-Bairro marcam o fim da influência do modernismo na urbanização, que previa um modelo único de cidade e encarava a favela como um desvio a ser corrigido, na visão de Magalhães. A própria paisagem do Rio, segundo ele, explica por que foi lá que a diversidade urbanística das favelas começou a ser aceita no país.
Em São Paulo, a crise do urbanismo modernista demorou mais tempo para empurrar bons arquitetos para as favelas.
O arquiteto Fernando de Melo Franco, do escritório MMBB, cita duas razões para esse descompasso: 1) o urbanismo paulistano só se preocupou com o trânsito por causa da ênfase na produção; 2) os que atuavam em favelas estavam mais ocupados com organização política do que com projetos. "Em São Paulo, a experiência em favelas era a política de mutirões, de organizar a população pelos canteiros de obra. E aí você pensa pouco em urbanismo."


CIDADE INFORMAL DO SÉCULO 21

Quando: de ter. a dom., das 10h às 18h; até 9/5
Onde: Museu da Casa Brasileira (av. Faria Lima, 2.705, tel. 0/xx/11/3032-3727)
Quanto: R$ 4; grátis dom. e feriados

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LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

Uma viagem à China de hoje – FSP 09/04

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Ainda bem que a economia brasileira está ligada de forma muito forte ao desenvolvimento chinês

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A CABO DE chegar de uma viagem à China. Foram 15 dias conversando com autoridades do governo e visitando algumas fábricas de automóveis e caminhões na região sul do país de Mao. Não foi uma viagem de turista, mas a de um observador da dinâmica econômica desse incrível país.
Uma primeira observação é a de que, mesmo na capital, Pequim, podemos encontrar, lado a lado, a moderna e a velha China. No interior, esse contraste é ainda mais chocante. De um lado, as construções modernas e mesmo futuristas do boom imobiliário dos últimos anos. De outro, os velhos becos com suas casas modestas e empilhadas uma ao lado das outras. Junto aos modernos hotéis, administrados pelas cadeias internacionais mais famosas, podemos encontrar nos bairros mais afastados da milenar capital chinesa ainda os restaurantes populares que vi na minha primeira viagem, em 1984.
Mas, como disse anteriormente, o meu centro de atenção era a moderna economia chinesa e a forma como está organizada hoje. A presença do Estado é dominante. Em conversas com dirigentes de bancos e outras empresas estatais, isso fica muito claro. Todos estão amarrados a prioridades e metas dos Planos Quinquenais herdados da época do comunismo ortodoxo. E o respeito hierárquico ao quadro de dirigentes políticos do país é absoluto.
Mas aprendi também que, embora o Estado seja o controlador das empresas, existe entre elas uma profunda competição por mercados e eficiência, inclusive lucros. E os resultados obtidos na gestão das empresas é um dos mais importantes indicadores para subir na hierarquia do governo.
A geração atual de dirigentes chineses é quase toda formada por engenheiros que administraram com sucesso a implantação da gigantesca usina hidrelétrica de Três Gargantas. Essa característica de meritocracia -não baseada em bônus financeiros mas de poder na esfera política- talvez seja uma das causas mais importantes por trás do sucesso chinês nesta última década.
Por outro lado, percebe-se que o país de referência para a elite chinesa são os Estados Unidos. Um dos dirigentes com quem conversei longamente me perguntou por que a China é obrigada a comprar a soja brasileira de multinacionais americanas.
Procurei explicar as características especiais da relação comercial e financeira dessas empresas com os agricultores brasileiros, mas temo que não tenha sido entendido. E não por culpa do meu excelente tradutor chinês.
Outra surpresa foi encontrar nas empresas visitadas uma preocupação muito forte com a absorção de tecnologia ocidental e uma busca na melhoria de seus produtos. Fica claro que existe uma diferença muito grande na tecnologia usada nos produtos para exportação e para o mercado local. Mas, no longo prazo, o setor industrial vai superar o atraso atual em relação às economias mais avançadas e assumir a liderança em setores de ponta.
Outro motivo de espanto, em reunião com o dirigente de uma enorme fábrica de motores, foi saber que os operários trabalhavam oito horas por dia, 28 dias por mês. Lembrei-me de que, no Brasil, os sindicatos estão tentando aprovar no Congresso uma lei que limita em 40 horas a semana do trabalhador.
Ainda bem que a economia brasileira está ligada de forma muito forte ao desenvolvimento chinês. Essa vai ser uma das fontes mais importantes para nosso crescimento econômico na próxima década. É só ter juízo.


LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS , 67, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

quinta-feira, 8 de abril de 2010

ELIO GASPARI - FSP 07/04

De Cazemiro@edu para Demóstenes.Torres@gov

Desde o século 19, o negro livre é uma encrenca para as nossas leis, eu que o diga


ILUSTRE SENADOR Demóstenes Torres,
Quem lhe escreve é Cazemiro, um Nagô atrevido. Faço-o porque li que o senhor, um senador, doutor em leis, sustenta que a escravidão brasileira foi uma instituição africana. Referindo-se aos 4 milhões de negros trazidos para o Brasil, vosmicê disse o seguinte: "Lamentavelmente, não deveriam ter chegado aqui na condição de escravos, mas chegaram..."
Vou lhe contar o meu caso. Eu cheguei ao Rio de Janeiro em julho de 1821 a bordo da escuna Emília, junto com outros 354 africanos. O barco era português e o capitão, também. Fingia levar fumo para o Congo, mas foi buscar negros na Nigéria e, na volta, acabou capturado pela Marinha inglesa. Desde 1815, um tratado assinado por Portugal e Grã Bretanha proibia o tráfico de escravos pela linha do Equador.
Quando a Emília atracou no Rio, fomos identificados pelas marcas dos ferros. A minha, no peito, parecia um arabesco. Viramos "africanos livres". Livres? Não, o negro confiscado a um traficante era privatizado e concedido a um senhor, a quem deveria servir por 14 anos. O Félix Africano, resgatado em 1835, penou 27 anos. Doutor Demóstenes, essa lei era brasileira.
A turma da Emília trabalhou na iluminação das ruas e no Passeio Público. Algumas mulheres tornaram-se criadas. A gente se virou, senador. Havia senhores que compravam negros mortos, trocavam nossas identidades e não nos liberavam. As marcas a ferro nos ajudaram.
Alguns de nós conseguiram juntar dinheiro. Como estávamos sob a supervisão dos juízes ingleses, em 1836 compramos lugar num barco. Dos 354 que chegaram, talvez 60 retornaram à África.
Como doutor em leis, vosmicê sabe que o Brasil se comprometeu a acabar com todo o tráfico em 1830. Entre 1831 e 1856 chegaram 760 mil negros, os confiscados devem ter sido 11 mil, ou 1,5%. Aquela propriedade da Marinha, na Marambaia, onde às vezes o presidente brasileiro descansa, era um viveiro de escravos contrabandeados. Não apenas a escravidão do Império era uma instituição brasileira, como assentava-se no ilícito, no contrabando.
Outro dia eu encontrei o Mahommah Baquaqua, mais conhecido nos Estados Unidos do que no Brasil. Ele foi capturado no Benin, lá por 1840, vendido a um padeiro em Pernambuco e revendido no Rio ao capitão do navio "Lembrança".
Em 1847, o barco fez uma viagem ao porto de Nova York e lá o Baquaqua fugiu. Teve a proteção dos abolicionistas, razoável cobertura jornalística, estudou e escreveu um livro contando sua história (inédito em português, imagine). Fazia tempo que eu queria perguntar ao Baquaqua por que, em suas memórias, não contou que, de acordo com as leis brasileiras, o seu cativeiro era ilegal. Ele diz que esqueceu, mas que, se tivesse lembrado, não faria a menor diferença.
Senador Demóstenes, a escravidão foi brasileira, assim como é brasileira uma certa dificuldade para lidar com os negros livres. Eu que o diga.
Axé,
Cazemiro
P.S.: Há uma referência ao caso da Emília no artigo "A proibição do tráfico atlântico e a manutenção da escravidão", da professora Beatriz Gallotti Mamigonian, publicado recentemente na coletânea de ensaios "O Brasil Imperial". Que Xangô apresse a publicação de seu livro sobre os "africanos livres" no Brasil.

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CLÓVIS ROSSI

Subdesenvolvidos. E felizes – FSP 08/04

SÃO PAULO - Não deixa de ser uma cruel ironia que o Brasil seja tratado universalmente como potência emergente no momento em que sua cidade mais bonita submerge por inteiro.
Os patrioteiros de plantão dirão que qualquer cidade se afogaria com tanta chuva. É verdade, mas é só parte da verdade. Menos mal que o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o governador, Sérgio Cabral, tiveram o bom senso de acrescentar "problemas estruturais" ao excesso de chuva como responsáveis por tamanho estrago.
"Problemas estruturais", do tipo ocupação selvagem de encostas, como afirmou Cabral, é uma maneira elegante de dizer que o Rio, como o Brasil, não é emergente, é subdesenvolvido.
Pena que Deus, ou a natureza, ou quem seja, vira e mexe envie lembretes a respeito. Hoje, no Rio; ontem, em São Paulo; anteontem, em Angra dos Reis; antes de anteontem, em Santa Catarina; amanhã, sabe-se lá onde.
No mesmo dia em que os jornais se ocupavam com a tragédia carioca, saía pesquisa de uma financeira que pretendia mostrar que estamos emergindo, mas que prova o inverso. Ficamos sabendo que a classe C (ou classe média) foi a que mais se expandiu em 2009, sinal de que já não somos tão pobres.
Não? Vejamos: a renda familiar (a familiar, não a individual) mensal da classe C é de R$ 1.276, o que dá um pouco mais do que dois salários mínimos e bem menos do que os R$ 1.995,28 que o Dieese considera o valor necessário (do mínimo, não da classe média, que, como o nome indica, deveria estar acima).
Comparemos agora com a Espanha, o país rico mais "comparável" com o Brasil: cada desempregado espanhol recebeu em fevereiro, na média, 900, equivalentes a R$ 2.110, ou 65% mais que a renda da classe média brasileira. E os desempregados espa
nhóis não são chamados de emergentes.

CARLOS HEITOR CONY

A condição humana FSP 08/04

RIO DE JANEIRO - O recente temporal que se abateu sobre o Rio, bem como as tragédias vividas pelo Chile, pelo Haiti e, em doses menores, por outras regiões deste mundo, demonstraram mais uma vez a dicotomia da condição humana em seus aspectos principais: o bem e o mal.
Em primeiro lugar, o bem. Foram comoventes os atos de solidariedade nas tragédias recentes. Para o Haiti e para o Chile, foram canalizados recursos substanciais de todas as partes do mundo. Aqui no Rio, aqueles que a mídia chama de "populares" arriscaram a própria vida para salvar os feridos. O mesmo ocorreu nas cidades atingidas pelos recentes terremotos. Ponto favorável para a condição humana.
Ao mesmo tempo, e nos mesmos cenários, despontou a selvageria com saques e assaltos, que demonstraram os dois lados da mesmíssima condição humana.
Aqui no Rio, os congestionamentos facilitaram assaltos. Os carros abandonados nos alagamentos foram saqueados, como saqueados foram os supermercados do Chile e do Haiti.
Garantem que em algum ponto do universo há um Senhor de barbas brancas que desde o início dos tempos toma nota dos atos humanos para posterior recompensa ou castigo. Foi assim que abriu as cataratas do céu para inundar a Terra com o dilúvio, salvando apenas um justo.
Esse Senhor de barbas brancas deve ter dificuldade para julgar a sua própria criação. Há justos que salvam vidas e dão exemplos de solidariedade e de amor ao próximo. Há vândalos que nada respeitam e aproveitam a tragédia, a aflição do instante para tirar vantagens, muitas vezes insignificantes, só pelo prazer ou pela obrigação de exercer o lado sinistro da condição humana. Um dilúvio não resolve a questão.

De graça
Vladimir vira Cineclube no Conic

Fonte: Correioweb.com.br 08/04


O Conic, que no passado reuniu importantes salas de cinema, volta a ter um espaço de exibição. Trata-se do Cineclube Vladimir Carvalho, que abre as portas amanhã, às 10h, no Espaço Cultural Arildo Dória,(SDS, Ed. Venâncio III, sbj. Brasília/DF). Integrante dos 50 anos da capital federal, o projeto exibe Brasília segundo Feldman, de Vladimir Carvalho; e o Cinema de Vladimir Carvalho; de Maria Maia. “O local será vitrine para lançamentos de filmes recentes e antigos, de ficção e documentários, de longas e curtas, seguidos de debates, contando sempre com profissionais da área para fomentarem a discussão”, conta Francisco Inácio de Almeida, um dos organizadores. O cineclube homenageia o cineasta Vladimir Carvalho (foto) “devido à influência de seu estilo de cinematografia documentária inovador e a ligação de amor que tem com Brasília”.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Nova imortal da ABL, Cleonice Berardinelli estreia fardão feminino – FSP 07/04

A escritora e professora universitária Cleonice Berardinelli, 93, nova imortal que passou a ocupar a cadeira número oito da Academia Brasileira de Letras (ABL), tomou posse ontem estreando o novo fardão feminino, que diferencia o traje oficial das mulheres, até então igual ao masculino.
No modelo, desenhado pelo estilista Guilherme Guimarães, o tom verde e os bordados dourados foram mantidos, mas a camisa recebeu modelagem mais comprida e folgada que a masculina.
Professora universitária, especialista em literatura portuguesa, Cleonice venceu a eleição realizada em 16 de dezembro do ano passado, com 30 votos, dos 39 no total, tendo o professor e político Ronaldo Costa Couto, ex-ministro de José Sarney, como principal concorrente.
Durante o discurso, Cleonice revelou ao público que conhecera aos nove anos o fundador da cadeira número oito, o poeta Alberto de Oliveira (1857-1937), a quem recitou poemas em um inusitado encontro em São Lourenço (MG), em 1926.
Professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da PUC do Rio, Cleonice disse que guarda até hoje, 84 anos depois, o livreto onde Oliveira escrevera um verso para ela.
À vontade entre os novos confrades acadêmicos, dentre os quais quatro foram seus alunos, ela recebeu o diploma das mãos de Domício Proença Filho e o colar de Antonio Carlos Secchin.
Considerada a maior especialista brasileira em Luís de Camões (1524-1580) e Fernando Pessoa (1888-1935), Cleonice graduou-se em letras neolatinas pela Universidade de São Paulo (USP).
Nos 113 anos da Academia, Cleonice é apenas a sétima mulher a tornar-se imortal.

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RUY CASTRO

Dívida cruel - FSP 07/04

RIO DE JANEIRO - "O que teremos de pagar por tanta beleza?", perguntou o poeta Ezra Pound a respeito de Veneza. Pound, que morou e morreu por lá, sabia a resposta: há "acqua alta", a água que sobe um pouco todo ano, há séculos, e, um dia -até 2100, dizem os apocalípticos-, acabará por submergir a cidade. Nesse caso, Veneza estará pagando pela ousadia de seus arquitetos de construir uma cidade que, na sua imodéstia, podia competir com a inspiração divina.
Mas, no caso do Rio, a beleza se originou dessa própria inspiração dita divina. Ou terão sido os homens os responsáveis pelo recorte da baía, o gigante de pedra, o traçado das areias, a onipresença do verde? E, sendo assim, por que teríamos de pagar? A não ser que fosse por isso mesmo -porque, embora não soubéssemos, previa-se uma espécie de pedágio pelos séculos em que tivemos o Rio para nós.
Pode ser também que nosso crime seja o de não termos cuidado dessa beleza como deveríamos. Fomos soberbos com suas matas e imprevidentes com suas encostas, impermeabilizamos seu chão e aprisionamos suas águas. Por que o Rio, que, nos séculos 17 e 18, tomou brejos, pântanos e alagadiços, não consegue conter a água que cai do céu? Mas, também nesse caso, por que a culpa acumulada durante várias gerações teria de ser expiada justamente na nossa vez?
Há cem anos se sabe que inundações são inexoráveis na zona do Maracanã, na lagoa Rodrigo de Freitas, no Jardim Botânico. Em jovem, eu próprio já atravessei a praça da Bandeira e os largos da Lapa e do Machado com água pela cintura. E a cidade, que começou a subir os morros em 1565, não se preparou para quando os morros resolvessem deslizar em direção à ela.
Apenas no último meio século, tivemos 1966, 1967, 1988, 1996 e, agora, 2010. Chega de pagar.

ANÁLISE

Na web, é preciso atuar com moderação - FSP 07/04

Como toda revolução nas comunicações, a internet produziu uma série de efeitos inesperados com os quais sociedades e governos precisam lidar. Por vezes, não existem nem mesmo instrumentos jurídicos para abordar as novas realidades.
É nesse contexto que o governo apresenta seu projeto de marco regulatório civil para a rede. A proposta, que vai a consulta pública antes de ser encaminhada para o Congresso, parece equilibrada.
Ela ao menos soube escapar dos excessos que marcaram o polêmico projeto de legislação penal para a internet -apelidado de Lei Azeredo- que tramita no Legislativo.
Em suas versões iniciais, o substitutivo do senador tucano previa que cada internauta se cadastrasse antes de logar-se na rede e exigia que os provedores atuassem como policiais, monitorando os passos cibernéticos de seus clientes e os delatando à menor suspeita de abuso. Essas invencionices acabaram ceifadas da proposta.
Quando se trata de regular a internet, é preciso atuar com moderação, pois eventuais excessos legiferantes, dado o caráter transnacional da rede, acabam se revelando inócuos e até mesmo contraproducentes.
O paralelo é com a invenção dos tipos móveis por Johannes Gutenberg, em torno de 1455. Antes da imprensa, o número de manuscritos em circulação na Europa se contava em milhares. Cinco décadas depois, em 1500, havia mais de 9 milhões de livros no Velho Continente. No início, foram impressas bíblias, hagiografias, livros de orações e material religioso. Logo, porém, vieram obras laicas e, pior, as "subversivas".
Em 1559, a Igreja Católica emite o primeiro "Index Librorum Prohibitorum" (catálogo dos livros proibidos). A censura estava institucionalizada.
O contexto, entretanto, era o da Reforma e da Contrarreforma. O índex e as fronteiras não bastaram para evitar que livros subversivos para um lado fossem impressos nas terras do adversário e voltassem contrabandeados a seu público-alvo.
Com a internet, onde basta um "enter" para navegar por terras estrangeiras, é impossível controlar ideias e o que o Direito chama de delitos de opinião. E não se pode afirmar que isso seja um mal.

Governo quer regra para conflito na internet

Proposta exime de responsabilidade judicial provedor que, notificado, tirar do ar conteúdo e avisar responsável pelas informações

Hoje, por falta de amparo legal, blogueiros e provedores são acionados na Justiça por comentários ou conteúdos postados por terceiros


Em que momento o responsável pela hospedagem de blogs e sites ou pelo conteúdo pode ser responsabilizado pelas informações postadas? Na opinião do governo, que finaliza uma proposta de regulamentação da internet, só a partir do momento em que é notificado de irregularidades -como calúnia e difamação- e não age.
Hoje, por falta de amparo legal, blogueiros e provedores são acionados na Justiça por comentários ou conteúdos postados por terceiros, o que gera insegurança jurídica e impede inovações na rede, diz Ronaldo Lemos, coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio e um dos articuladores da proposta.
"Atualmente é a imprevisibilidade total. As decisões são contraditórias, mas existe uma corrente forte que entende que o provedor é responsável."
A proposta que deverá ser apresentada em consulta pública pelo governo nesta semana cria um mecanismo extraoficial de solução de conflitos nos casos que envolvem denúncia de calúnia, difamação, crimes e ilícitos na rede. Além disso, exime de responsabilidade num eventual processo judicial os provedores que seguirem o estabelecido na lei.
Segundo o modelo, o provedor receberia notificações (via e-mail ou formulário) de pessoas que se sintam atingidas por informações postadas em páginas nele hospedado.
A partir desse aviso -argumentado e com dados pessoais do notificante-, o provedor retiraria do ar aquele conteúdo e avisaria o responsável pelas informações sobre a notificação.
O autor poderia decidir manter o conteúdo fora do ar ou restabelecê-lo. Nesse caso, o provedor estaria livre de futuras responsabilizações judiciais, que ficariam limitadas ao autor, diz Guilherme de Almeida, coordenador do marco civil.
Esse mesmo modelo seria usado com relação a comentários postados em páginas, pessoais ou não. O autor dos comentários seria notificado pelo responsável pela página, podendo manter ou não a opinião.
Nesse momento, diz Lemos, a responsabilidade pela opinião postada poderia ser assumida por qualquer outra pessoa que se identifique ou pela sociedade civil organizada, como um grupo de defesa da liberdade na internet.
Não há um tempo previsto para a notificação e a contranotificação nem para o tempo em que o conteúdo fique fora do ar. Almeida diz que a intenção é que seja de minutos.
A proposta de responsabilização civil trata apenas de conteúdos de terceiros, diz Lemos. Um site de notícias, com conteúdo editorializado, continuaria como hoje. Da mesma forma, provedores podem ignorar a proposta do marco e continuar com o modelo atual, passíveis de serem acionados judicialmente, diz Almeida.
Para Lemos, a proposta -inspirada em experiências americanas e europeias- trará a segurança jurídica necessária para que plataformas como YouTube e iTunes passem a ser desenvolvidas no Brasil.
Para Eduardo Parajo, presidente da Abranet (uma das entidades que reúne os provedores), é positivo criar um mecanismo de definição das responsabilidades nas redes. Ele, porém, vê com cautela o modelo de retirada do conteúdo extrajudicial.
"Eu aceito qualquer notificação que receber? E se eu não gosto de alguém e quero prejudicá-lo? Transformar uma ordem judicial [forma atual de retirada de conteúdo] em notificação é complicado."

terça-feira, 6 de abril de 2010

USP, até quando para tão poucos? FSP 06/04

DANTE PEIXOTO, JOANA SALÉM e PAULO TAUYR


Até quando teremos esse descaso com as políticas de permanência estudantil?
Até quando o diálogo será apenas um discurso?




DESDE QUE foi fundada, a USP sempre fechou suas portas para a ampla maioria da população. Isso devido não apenas ao excludente processo do vestibular e à insuficiência no número de vagas oferecidas mas também ao descaso com a necessidade de permanência do estudante na universidade, fazendo com que muitos estudantes carentes não consigam nela permanecer após serem aprovados no processo seletivo.
As políticas de permanência estudantil são necessárias para tornar efetiva a gratuidade do ensino público, garantida pela Constituição. São elas que asseguram que aqueles que não têm condições de se manter por recursos próprios tenham uma rede de apoio (moradia, alimentação, transporte) propiciada pela universidade.
Portanto, longe de ser privilégio ou benefício concedido "por caridade" pela universidade, a existência de políticas de permanência estudantil é um direito que faz com que o direito à educação se torne efetivo e concreto, e não um privilégio de poucos.
A USP tem um orçamento de aproximadamente R$ 3 bilhões, dos quais destina à permanência estudantil menos de 3%. Em 2010, o valor global destinado às políticas de permanência cresceu de R$ 85 milhões para R$ 87 milhões, entretanto o montante distribuído de acordo com critérios socioeconômicos diminuiu de R$ 38 milhões para R$ 31 milhões, o que representa cerca de 1% do orçamento da USP. A permanência estudantil, portanto, não é uma prioridade para a administração da universidade. Além disso, há distorção nos critérios.
Nos últimos anos, a Coordenadoria de Assistência Social (Coseas), ligada à reitoria, passou a utilizar critérios acadêmicos para a seleção dos alunos para as bolsas. É um contrassenso: o aluno de baixa renda que ainda não acessou o direito à assistência pode, compreensivelmente, apresentar menor desempenho acadêmico por conta de condições adversas que justamente o fazem buscar o direito.
A Reitoria da USP, desde 2006, vem propagandeando sua política de inclusão social, chamada Inclusp. Contudo, é uma política tímida, que visa aumentar de 26% para 30% o número de alunos provenientes de escolas públicas ingressos na USP.
Só em São Paulo, os estudantes da escola pública representam 82% do alunado, contra 18% da escola privada. Há uma inversão no acesso à universidade sustentada pela exclusão social estruturante do projeto histórico da USP, que, apesar de pública, é controlada pelos mesmos grupos de poder há décadas. Do contrário, de onde vem a extrema dificuldade da USP para se democratizar? E, sobretudo, até quando será assim?
Essas críticas e propostas têm sido apresentadas pelos estudantes ano a ano e solenemente ignoradas pelos reitores. Dito isso, chegamos, então, à atual situação levantada pelo reitor João Grandino Rodas ("USP, "quousque tandem'?", "Tendências/Debates", 28/3): os estudantes do Conjunto Residencial da USP que ocupam a sede da Coseas.
Tal situação se deu porque os estudantes não viram outra alternativa. Além da patente insuficiência e distorção das atuais políticas, a Coseas tem se mostrado ausente no diálogo, e existem relatos de invasões de privacidade por parte do órgão, com controle de reuniões e assembleias. Além disso, os estudantes, maiores interessados, devem ter acesso aos critérios de seleção das bolsas e participar, com professores, administradores e assistentes sociais, da formulação desses critérios.
Por fim, não podemos deixar de pontuar nossa discordância com as insinuações do reitor, que desprestigia e chama de minoritários os movimentos que a comunidade universitária desenvolveu ao longo das últimas décadas.
São esses movimentos os principais responsáveis pela manutenção da qualidade que a USP ainda tem hoje, pois eles lutaram por ampliação dos recursos, autonomia financeira, contratação de professores, ampliação das vagas e ampliação das políticas de permanência e resistem aos que querem colocar a USP a serviço dos interesses eleitorais do governo estadual.
Assim, restam as perguntas que não calam: até quando teremos esse descaso com as políticas de permanência estudantil? Até quando o diálogo será apenas um discurso? Até quando, USP, será de tão poucos e para tão poucos?


DANTE PEIXOTO, 23, estudante de engenharia ambiental da USP, JOANA SALÉM, 23, estudante de história da USP, e PAULO TAUYR, 28, estudante de pós-graduação em arquitetura da USP, são membros do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da USP.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

CIRURGIA PLÁSTICA
Regras para operações

Fonte: Correioweb.com.br 05/04


A morte de Kelma Gomes, sete dias após uma lipo, deve acelerar protocolo de segurança sobre os procedimentos e resultar num acordo que prevê a preservação de provas em clínicas

A morte de Kelma Macedo Ferreira Gomes, 33 anos, provocará alterações nas regras e nos procedimentos cirúrgicos ligados à estética e à reparação corporal. Além de acelerar a redação final de protocolo de segurança voltado para a exigência de medidas básicas em intervenções ocorridas no Distrito Federal, a tragédia em torno da mulher que perdeu a vida sete dias depois de passar por uma operação em Goiânia (GO) promoverá modificações na política de preservação de provas em casos semelhantes. As mudanças serão amadurecidas ao longo da semana.

As duas iniciativas envolvem o Ministério Público do Distrito Federal (MPDF), um dos principais responsáveis pela investigação do caso — a outra apuração segue na 23ª Delegacia de Polícia, no P Sul. A segunda delas será tomada por conta de dificuldades para garantir a realização do exame cadavérico de Kelma. O promotor de Defesa dos Usuários dos Serviços de Saúde (Pró-Vida), Diaulas Ribeiro, impediu a liberação do corpo no mesmo dia da morte, ocorrida na última sexta-feira. Se dependesse de um hospital de Ceilândia e dos parentes da vítima, os restos mortais seriam enterrados sem necropsia.

A interferência da Pró-Vida provocou a revolta dos familiares. Eles acreditam que o desfecho do caso não tem relação com a lipoescultura realizada em uma clínica da capital goiana. Para Diaulas, porém, a situação precisa ser investigada com profundidade — a mulher passou mal quatro dias depois da intervenção e estava internada no Hospital São Francisco, em Ceilândia, desde terça-feira. Laudo preliminar do Instituto de Medicina Legal (IML) aponta para morte em decorrência de pneumonia e embolia pulmonar. O resultado oficial deve ser conhecido em 15 dias.

Para evitar futuras confusões, Diaulas quer que hospitais, clínicas especializadas e sindicatos médicos candangos assinem um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o MPDF para evitar liberações de corpos em casos de morte suspeita. “Vamos fazer isso para segurança e preservação de provas em cirurgias das mais variadas. No caso da Kelma, mesmo havendo suspeita(1), a família quis fazer o enterro. Com esse TAC, vamos impedir a destruição de provas, mesmo que seja feita de boa-fé”, explicou.

A Pró-Vida também se juntou à Vigilância Sanitária do DF, à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e à Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) para a criação de normas a serem usadas em plásticas realizadas no DF e no Brasil. “Hoje, as regras não são muito claras. Existem 17 clínicas especializadas em cirurgia plástica no DF. Vamos fazer um pente-fino em todas elas para ver o certo e o errado”, afirmou. As informações serão incluídas em um protocolo de segurança capaz de exigir procedimentos básicos nas operações estéticas realizadas na capital do país (leia quadro).

Reuniões e debates
A morte de Kelma também mobilizará entidades médicas e sindicais de Goiás ao longo da semana. O Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego) entrou em contato com o MPDF e pediu o envio de informações sobre o caso. Não se descarta, assim, uma possível colaboração do órgão na investigação. A vítima se submeteu à operação no Hospital Goiânia Leste, no Setor Universitário, em Goiânia. O médico responsável é membro associado da SBCP. Tem pelo menos 11 anos de experiência profissional e detém o título de especialista em cirurgia plástica.

O Cremego também deve participar de encontro promovido em caráter de urgência pelo

SBCP. A reunião servirá para debater a frequência com que mulheres perdem a vida na Região Centro-Oeste por conta de intervenções estéticas. Pelo menos nove — cinco em Goiás e quatro na capital do país — não resistiram a procedimentos cirúrgicos realizados na última década.

Kelma assessorava o ministro das Cidades, Márcio Fortes, havia oito anos. Era casada e deixou dois filhos, de 3 e 8 anos. A família mora no Setor O, em Ceilândia. Ela se submeteu a uma lipoescultura às 6h30, em 26 de março. Recebeu alta e voltou de carro para Brasília, acompanhada do marido, às 8h do dia seguinte.

1 - Comoção
O velório e o enterro de Kelma ocorreram no fim da tarde de sábado no Cemitério de Taguatinga. A tia da vítima, Leila Cardoso, 47 anos, contou que a sobrinha consultou especialistas em Brasília e em Goiânia antes de realizar a operação. O cirurgião do hospital goiano teria sido o único a concordar com a plástica na barriga de Kelma.

Mudanças previstas

O Ministério Público do DF quer reforçar as regras das cirurgias estéticas e de reparação. Confira alguns pontos em discussão:

As operações de lipoescultura deverão ocorrer somente em clínicas que tenham Unidade de Terapia Intensiva (UTI) à disposição.

O paciente contará obrigatoriamente com dois médicos de prontidão na sala de operação. Além do cirurgião plástico, pode-se exigir a presença de um clínico geral para agir em caso de emergência.

As clínicas terão de reservar um banco de sangue exclusivo para quem for se submeter a qualquer intervenção cirúrgica.

Sociedade
No banco dos réus do Conselho de Medicina

Fonte: Correioweb.com.br 05/04


O casal Laci e Fernando comemora julgamento de neurologistas, psiquiatras e ortopedistas do Exército no CRM do Distrito Federal. Os médicos militares são acusados de cometerem crimes éticos


O julgamento de 18 médicos pelo Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) será acompanhado de perto pelos dois principais personagens que se dizem vítimas de perseguição dos profissionais de saúde. O sargento Laci Marinho de Araújo e o ex-militar Fernando Alcântara de Figueiredo comemoraram a decisão do CRM-DF em avaliar o comportamento de neurologistas, psiquiatras, ortopedistas e clínicos-gerais acusados de crimes éticos. O ato teria ocorrido durante o tratamento de Laci, que ficou conhecido em maio de 2008 depois de ter assumido relacionamento homossexual com Fernando.

Aconselhado por seus advogados a não falar com a imprensa, pois ainda faz parte do Exército e precisa evitar qualquer outro tipo de discriminação, Laci, por meio de seu companheiro, afirmou que essa é uma vitória não só para ele, mas para toda a sociedade. “Eu e Laci acreditamos que o nosso caso é mais do que uma luta pelos direitos dos homossexuais, é um caso de direitos humanos mesmo. E a sociedade tem uma visão deturpada a respeito da atuação dos CRMs, pois eles, dificilmente, ficam contra os médicos, a não ser que envolva morte. E durante reunião do conselho, todos os membros votaram por acatar a denúncia. Isso é inédito”, disse Fernando.

Ele denunciou que por muito tempo os médicos do Exército forjaram laudos, várias vezes sem a presença de Laci, dizendo que ele tinha capacidade plena para continuar na atividade, sendo que médicos civis apontavam para uma possibilidade de ele ter esclerose múltipla. “Os militares inventavam que ele tinha depressão por acreditar que estava sendo perseguido. Mas a gente descobriu que havia uma ordem superior lá dentro mandando dar alta médica. Eu não conseguia entender como uma pessoa que não tinha condições nem de levantar da cama podia ter alta. Descobrimos, depois, que ele tem uma doença rara, esclerose do lobo temporal”, disse. Quando os militares descobriram a relação de mais 10 anos, a perseguição aumentou, segundo Fernando.

“Antes a perseguição existia, pois, eu, Fernando, tinha feito algumas denúncias políticas lá dentro. Depois da descoberta, tudo piorou. Temos gravações em que os médicos afirmam essa perseguição. A coisa é tão suja que os conselheiros consideraram também como uma tortura psicológica”, completou. A intolerância ao fato foi tão grande, segundo Fernando, que o Exército decidiu separar os dois e transferir um para cada estado.

Laci foi para Osasco (SP) e Fernando para São Leopoldo (RS). Portanto, a dupla conseguiu na Justiça o direito de permanecer em Brasília. “Depois de todos esses episódios, temos que comemorar a decisão do CRM. Agora, outras pessoas que vivem a mesma situação lá dentro não vão ter mais medo de denunciar. E nem a gente vai ver mais casos de pessoas que se suicidam, pois não aguentam tanta pressão”, disse Fernando. Ele comemorou também o fato de que a Procuradoria da República no DF já começou a processar os envolvidos.

Decisão inédita
O advogado de Fernando e Laci disse ao Correio que o julgamento do CRM é uma medida inédita. Segundo Lúcio França, os médicos militares ficam sob proteção de uma Lei nº 6.681/79(1) que foi criada na época da ditadura e não são enquadrados no Código de Ética Médica. “Desde aquela época eles assinavam laudos de tortura, por exemplo, a mando dos militares superiores. Pior do que isso era o fato de que eles participavam da tortura para atestar se a pessoa era capaz de aguentar o sofrimento. Como eles tinham essa lei, que vigora até hoje, não se preocupavam com processos éticos”, afirmou. Por isso, ele classificou o ato do CRM como uma vitória. “É sinal que as coisas no país estão avançando”, completou.

Agora, França quer tentar a mesma vitória perante o conselho do estado de São Paulo. De acordo com ele, após participar de um programa de televisão em São Paulo para reafirmar a homossexualidade, Laci foi preso por ter sido considerado desertor das Forças Armadas. Nesse tempo, como destacou o advogado, o sargento foi discriminado da mesma forma. “Se conseguirmos, será mais uma vitória. Não só de Laci, mas de todas as pessoas vítimas desses procedimentos. Os direitos dos pacientes precisam ser respeitados”, completou.

O Correio tentou entrar em contato com os conselheiros do CRM, mas a assessoria informou que até que seja julgado, eles não podem se manifestar sobre o caso. De acordo com o Código de Ética Médica, “o processo ético profissional, nos conselhos de medicina reger-se-a pelo código de ética médica e tramitará em sigilo processual”. A assessoria adiantou que, se condenados, esses médicos poderão receber desde uma simples advertência e censura ou até suspensão ou cassação do registro profissional. Os advogados dos acusados têm um prazo de 30 dias para apresentar a defesa.

1 - Livres de ações
Art. 5º – Os médicos, cirurgiões-dentistas e farmacêuticos militares, no exercício de atividades técnico-profissionais decorrentes de sua condição militar, não estão sujeitos à ação disciplinar dos conselhos regionais nos quais estiverem inscritos, e sim, à da Força Singular a que pertencerem, à qual cabe promover e calcular a estrita observância das normas de ética profissional por parte dos seus integrantes.

Se conseguirmos, será mais uma vitória. Não só de Laci, mas de todas as pessoas vítimas desses procedimentos”

Lúcio França, advogado do sargento Laci Marinho de Araújo



O número
18
Número de médicos militares que serão julgados pelo Conselho Regional de Medicina do DF


Memória
Prisão em rede nacional

Em maio de 2008, numa entrevista bombástica à revista Época, os sargentos do Exército Laci de Araújo e Fernando Figueiredo assumiram que viviam juntos, em união estável, desde 1997. A revelação abriu uma crise dentro das Forças Armadas. Mas a gota d’água ocorreu dias depois, quando o casal apareceu no programa SuperPop, apresentado por Luciana Gimenez, na Rede TV, ao vivo, reafirmando a relação homossexual.

Enquanto a atração televisiva se estendia além do horário normal da programação, devido à grande audiência, a Polícia do Exército cercava o prédio da emissora, em Barueri, Grande São Paulo, para efetuar a prisão do sargento. A apresentadora se disse assustada com a ação. “Em sete anos de SuperPop, é a primeira vez que passo por uma situação dessa”, afirmou na época.

A chegada do carro militar foi mostrada pelas câmeras do programa. O sargento Laci se desesperou ao saber o que estava ocorrendo. “Eu vim em rede nacional para resguardar a minha vida porque a televisão atinge mais pessoas do que a revista. Se eu for preso, eu vou morrer, será queima de arquivo”, declarou o militar, ao vivo. Ao que Luciana respondeu, também demonstrando aflição: “O que eu posso fazer? Você veio aqui por livre e espontânea vontade”.

domingo, 4 de abril de 2010

MÙSICA
Tempo de colheita

O trio Sá, Rodrix & Guarabyra lança primeiro disco de inéditas desde 1973. O álbum chega às lojas um ano depois da morte súbita de Zé Rodrix

Os músicos Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix e Guttemberg Guarabyra têm uma história em comum que continua mesmo depois de o trio Sá, Rodrix & Guarabyra se transformar na dupla Sá & Guarabyra, em 1973. Uma prova de que a relação entre os três não teve um ponto final com a separação é o álbum Amanhã, que acaba de ser lançado, assinado novamente pelo trio. O disco de canções inéditas sela a reaproximação lenta e gradual, que começou em 1982, quando Zé Rodrix fez uma participação no lançamento do álbum 10 anos juntos, da dupla formada por seus antigos companheiros.

“Depois que lançamos o segundo LP, Terra, em 1973, o trio se desmanchou cheio de ressentimentos. Passamos um tempo sem nos falarmos, mas por volta de 1980, não me lembro bem como, começamos a nos ver de novo”, conta Sá. O reencontro aconteceu de forma espontânea, com a participação de Rodrix no show dos 10 anos e em apresentações da dupla em São Paulo. “Por volta de 1994, ele participou como arranjador e apoio vocal em outro disco nosso, Sá & Guarabyra. Desde que mudei (do Rio) de novo para São Paulo, em 1989, nos víamos regularmente, mas só pensamos em voltar com o trio a partir do convite que a produção do Rock’n’Rio 3 fez à dupla para um show, em 2000”, lembra o músico.

Em 2001, o trio gravou um ao vivo, Outra vez na estrada. Mas o reencontro em disco de estúdio, segundo Sá, demorou porque as gravadoras recusavam a ideia de fazer um álbum só de inéditas. “Não queríamos isso. Achávamos que a hora não era de regravar”, diz ele. Em 2008, um patrocínio da Caixa permitiu finalmente a gravação de Amanhã. “Foi gostoso de fazer, mas demandou muito tempo de ensaio, arranjos e composição. Só ficou pronto mesmo, mixado e masterizado cerca de um mês antes do falecimento do Rodrix. E aí passou-se quase um ano até podermos lançá-lo, resolvidos os trâmites legais de praxe”, conta Luiz Carlos Sá.

Um ano de morte
Amanhã sai quase um ano depois da morte de Zé Rodrix, em maio de 2009. Sá lembra que, na época da gravação, nada os faria supor que o amigo estivesse doente. “Ele trabalhava direto, com grande disposição e trabalhou no disco até a mixagem final, pouco antes de morrer. No fim de semana anterior à morte dele, fizemos três shows em três cidades diferentes e ele estava em grande forma. Foi inacreditável”. A disposição de Rodrix era tanta, que sobrava energia, inclusive, para os embates no processo de produção.

“Sempre falamos e discutimos muito em estúdio. Isso foi uma das causas da separação em 1973. Mas só voltamos em 2000 por ter a certeza de que estávamos suficientemente maduros para superar as discórdias naturais de sermos três individualidades fortes e de formações musicais ao mesmo tempo semelhantes e diferentes, o que tanto dificultava as coisas quanto nos abria novas portas para a criação”, analisa. Sá ressalta que a admiração mútua ligava os três e que o fato de Amanhã ser o primeiro CD de estúdio que gravavam desde 1973 tornou-o “um bocado desgastante a princípio, mas depois engrenamos bem e fomos em frente”.

O repertório inclui composições feitas solitariamente por cada um dos integrantes do trio (Marina, eu só quero viver e Nós nos amaremos, de Guarabyra, Novo Rio e Amar direito, de Sá, Caminho de São Tomé e Amanhã, de Rodrix), parcerias dos três (Dia do rio, Cidades meninas e Logo eu, saudade) e colaborações de Vitor Martins (com Sá e Guarabyra em Amanhece um outro dia) e Pedrão Baldanza (com Sá, em Os 10 mandamentos do amor). “O fato de estarmos sempre fazendo shows, por irônico que pareça, tirou muito do nosso tempo de compor juntos, já que só conseguíamos nos encontrar na estrada. Começamos a fazer alguma coisa via internet, mas só começamos a compor de novo juntos quando fui para São Paulo e praticamente morei lá uns seis meses, compondo e ensaiando com eles num flat perto da casa do Guarabyra, na Vila Mariana”, lembra Luiz Carlos Sá.

Com a perda do amigo, Sá e Guarabyra tiveram que enfrentar uma série de trâmites legais, que acabaram se revelando menos árduos do que eles imaginavam. “Fomos surpreendidos pela possibilidade de lançar o CD. Pensamos que esses trâmites só fossem ser resolvidos lá para o fim do ano. Mas vamos estrear em São Paulo (eles tocaram ontem e voltam hoje ao Sesc Vila Mariana) e esperamos cair no mundo de novo, com saudades do Zé, mas também com a alegria de podermos levar o nome dele e a obra que fizemos juntos a todos os palcos onde pisarmos”, conclui.

A dois
10 anos juntos foi o quinto de 12 álbuns que Sá & Guarabyra lançaram entre 1974 e 1999. Nesse período, a dupla colecionou sucessos, fossem composições próprias, como Sobradinho e Peixe voador, ou interpretações de músicas alheias, caso de Espanhola e Caçador de mim. Conseguiram também a proeza de emplacar três sucessos especialmente compostos para a trilha sonora da novela Roque Santeiro (Globo, 1985): ABC de Roque Santeiro, Dona e
Verdades e mentiras.

Rock rural
O trio Sá, Rodrix & Guarabyra se formou no início dos anos 1970 e gravou dois discos, Passado presente e futuro (1972) e Terra (1973), nos quais apresentavam um estilo classificado de rock rural — uma mescla que ia do rock à música caipira. Hoje, Luiz Carlos Sá acredita que o termo não se aplica ao que se ouve em Amanhã. “É apenas um rótulo confortável, que serve para definir um nicho quase que exclusivamente nosso. Às vezes não somos rock. Outras não somos rurais. E outras ainda nem rock nem rurais”.

sábado, 3 de abril de 2010

Era bom demais

Fonte: Correioweb 03/04

Os anos 1980, período de efervescência cultural de Brasília, foram marcados por bares de onde surgiram grandes nomes da música brasileira

Cássia Eller tinha vergonha de encarar o público, vestia-se como um garoto e relutou muito antes de aceitar o convite para cumprir longa temporada de dois anos no Bom Demais. Mas foi no bar existente na 706 Norte que, ao exibir um timbre incomum e impressionante performance cênica, a cantora seria descoberta pelo brasiliense e decolaria para a fama e o sucesso.

O Bom Demais, que funcionou entre 1984 e 1990, ao servir de plataforma de lançamento da futura estrela do pop rock nacional, entrou para a história como um mítico ponto de encontro de artistas, intelectuais e de apreciadores da boa música na cidade. “As pessoas iam ao Bom Demais para curtir, em silêncio, o show dos músicos, cantores e bandas que se apresentavam ali”, lembra-se, nostálgica, Cristina Roberto, dona do espaço e hoje proprietária de requisitado bufê e de bistrô, com o mesmo nome, no Centro Cultural Banco do Brasil.

Ex-produtora artística, Cristina fala com orgulho do palco pelo qual passaram os nomes mais importantes da música em Brasília, naquele período. “Posso passar por saudosista, mas nos anos 1980 vivíamos uma efervescência artístico-cultural impressionante em Brasília, e os bares tinham importância fundamental no processo, ao abrir espaço para músicos de diferentes estilos. De Renato Mattos ao grupo Instrumental e Tal, liderado por Toninho Horta; do forrozeiro Beirão aos roqueiros do Little Quail, muita gente tocou no Bom Demais. Mas foi Cássia quem fez o bar entrar para a história.”

Isso mesmo: bares como Bom Demais têm importante papel na construção da história da música na capital. Como esquecer o Só Kana, no Centro Comercial Gilberto Salomão, um dos lugares preferidos pelo pessoal do punk rock — entre eles o Aborto Elétrico — para plugar seus instrumentos e fazer toscas apresentações de no máximo 15 minutos, na primeira metade da década de 1980. Ou do Chorão (302 Norte), reduto da MPB, mais ou menos na mesma época, assim como o Cavaquinho (405 Sul) e o Camisa Listrada (Galeria Nova Ouvidor, no Setor Comercial Sul).

Palquinho
No Gilbertinho, como se tornou conhecido o conglomerado de bares da praça que havia na QI, destacava-se o Barzinho, por oferecer música ao vivo. Foi lá que surgiu uma certa Zélia Cristina, que hoje ocupa posição de destaque na moderna música popular brasileira como Zélia Duncan (o sobrenome artístico vem da família). “Quando eu cantava no Barzinho, acompanhada pelo grande Nelson Faria, via passar em frente ao palquinho da casa garotos com cabelo tipo moicano e headfones tapando os ouvidos. Ficava espantada com aquela atitude provocadora, agora facilmente compreensível, vinda de quem tinha o punk rock como religião e abominava a MPB”, recorda-se.

Rosa Passos não conviveu com situações como essa. Muito pelo contrário. As pessoas que iam ao Amigos (105 Norte, onde hoje funciona A Tribo, restaurante de comida natural) ouvi-la admiravam seu jeito bossanovista de ser, mesmo interpretando samba ou bolero. “Cantar no Amigos foi uma experiência muito boa para mim. Lá, num ambiente intimista, o contato direto com o público me deu cancha. Eu tinha liberdade para escolher o repertório e era acompanhado por músicos talentosos como Lula Galvão, Jorge Helder, Miranda e Gamela”, conta Rosa, com vitoriosa carreira internacional, aplaudida como diva do jazz.

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No Brasil, há resistência ao formato e ao preço de leitores digitais – FSP 03/04

É preciso digitalizar mais títulos em português; nos EUA, venda é crescente


Editores e livreiros que foram ao 1º Congresso Internacional do Livro Digital, encerrado na quarta, em São Paulo, saíram com quase tantas incertezas quanto entraram. Em três dias de palestras, pouca informação foi agregada à constatação de que algo vai mudar no setor, mas não se sabe quando nem como. A única certeza: no Brasil não é para já.
Além do preço elevado dos leitores eletrônicos, todos importados, e da escassa disponibilidade de títulos em português, não há estatísticas sobre o mercado nacional.
Um tímido passo foi dado com a apresentação de uma pesquisa qualitativa, encomendada pela Câmara Brasileira do Livro e pela Imprensa Oficial de SP ao Observatório do Livro, sobre a expectativa do leitor convencional sobre o livro digital. Em entrevistas com grupos de leitores das classes A e B em São Paulo, Rio, Porto Alegre e Recife, constatou-se que há resistência ao formato e ao atual preço dos leitores eletrônicos.
O preço tido como aceitável de um e-reader variou de R$ 1.500 (SP) a R$ 300 (Recife). Por um e-book, os grupos disseram topar pagar 1/4 do valor de capa de um livro normal.
Dois convidados americanos (representando a Barnes & Noble e o IDPF, fórum internacional de publicações digitais) apresentaram números do mercado dos EUA, o mais desenvolvido. Segundo dados da associação de editoras, as vendas de livros eletrônicos em 2009 somaram US$ 165,8 milhões, contra US$ 53,5 milhões em 2008, aumento de 213%.
O diretor do IDPF, Michael Smith, avaliou que a negociação de preços que a Kobo (fabricante de um e-reader "popular") fará em breve com editoras americanas "vai mudar para sempre" o mercado. E disse que, para popularizar o modelo no Brasil, é necessário digitalizar mais títulos em português.
Ocorre que, no congresso, quase nada se falou sobre como passar o conteúdo do papel para o meio digital, tema crucial. Em vez disso, convidados internacionais repisaram a tese de que o mercado editorial precisa aproveitar o potencial da internet e das redes sociais.
O presidente da Feira de Frankfurt, Juergen Boos, afirmou que, "com a internet dando a todos a chance de publicar livros, a seleção de conteúdo passa a ser um diferencial maior" e conclamou os empresários a usar a rede para descobrir o perfil dos usuários.
"Não é para ficarmos apavorados. Nesse aspecto, o congresso foi positivo. Mas, quando formos começar a fazer, como vamos operacionalizar? Isso faltou mostrar", resumiu Luís Fernando Araújo, da editora Artes e Ofícios (PA).

quinta-feira, 1 de abril de 2010

SAÚDE
Por uma vida menos sedentária

Informações da Pnad, compiladas pelo IBGE, mostram que a prática de exercícios físicos ainda é apenas uma boa intenção para a maioria dos brasileiros. Acima dos 14 anos, apenas 10,2% fazem atividades

Um levantamento divulgado ontem pelo Instituto Brasleiro de Geografia e Estatística (IBGE), com informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) e do Ministério da Saúde, aponta que o brasileiro ainda é um povo bastante sedentário. Os dados, de 2008, revelaram que apenas 41,4 milhões de pessoas a partir de 14 anos — ou 10,2% dos brasileiros nessa faixa-etária — se declaram relacionadas a alguma atividade física ou esporte, de acordo com os critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS). A entidade classifica como pessoa ativa aquela que pratica alguma atividade pelo menos três vezes por semana, durante 20 minutos. O sedentarismo foi comprovado também em um levantamento inédito do Pnad sobre as principais atividades de lazer do brasileiro e descobriu que os vilões da saúde são a TV e computador. Cerca de 175 milhões pessoas tinham o hábito de ficar cerca de três horas em frente à televisão, enquanto que 56,2 milhões — ou 29,6% — se ocupavam no computador.

Fabrício Martins, 31 anos, representa bem o perfil da pesquisa. Sedentário há pouco mais de um ano, o publicitário usa as horas vagas para navegar pelos sites preferidos quando sai do trabalho. Juntando as horas de trabalho e de lazer ele fica até 15 horas em frente ao equipamento. “Pretendo mudar a rotina e adotar a caminhada do trabalho para a casa, que dá uns três quilômetros. Está faltando só força de vontade”, brinca. Com os programas televisivos, ele é menos assíduo, mas está na média dos brasileiros, de acordo com a pesquisa: três a quatro horas.

O baixo número de pessoas ativas é visto com preocupação pelo Ministério da Saúde, que associa o sedentarismo a doenças crônicas. “O sedentarismo leva ao sobrepeso e à obesidade e aparece como fator fundamental do desenvolvimento de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão. Isso impacta diretamente na qualidade de vida e no perfil de mortalidade”, afirmou o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, durante a coletiva de divulgação dos dados, no Rio de Janeiro. No levantamento, 59,5 milhões de pessoas, ou 31,5% do total, declararam ao menos uma doença crônica, diante de 52,6 milhões, ou 29,9%, em 2003. Os casos mais graves eram hipertensão, problemas de coluna e artrite.

A capacidade de se movimentar também entrou no foco da pesquisa. Atividades como pequenos consertos domésticos, subir escadas, ajoelhar-se ou até mesmo caminhar por um trecho de cem metros foram classificadas por 29,1% da população como uma atividade difícil de ser realizada. Dores na coluna, sedentarismo e envelhecimento da população são os principais motivos da falta de mobilidade.

De acordo com a coordenadora-geral de Vigilância de Agravos e Doenças não transmissíveis do Ministério da Saúde, Deborah Malta, o índice ajudará no fortalecimento de políticas públicas para enfrentar o problema. “Estamos apostando na política nacional de promoção da saúde que, só em 2009, repassou R$ 56 milhões a 1.500 municípios para realização de atividades que garantam uma população mais ativa.”

O levantamento apontou ainda que a parcela da população com acesso a plano de saúde teve um aumento de 24,5% para 26,3% entre 1998 e 2008. O crescimento maior foi na área rural, que teve um salto de 5,8% para 6,7%, durante o mesmo período. Na área urbana, o índice foi de 29,2% para 29,7%. A maioria dos associados está na região Sudeste, com 35,6% do total.

Já o grau de satisfação da população em relação ao sistema de saúde foi bem elevado. De acordo com a pesquisa, 86,4% dos entrevistados consideraram o atendimento “bom” ou “muito bom”. Associado a esse fator está o de que 96,3% deles conseguiram ser atendidos na primeira vez em que procuraram o serviço. “É bom observar a mudança na qualidade do serviço e a consolidação dos centros de saúde como a porta de entrada do Sistema Único de Saúde”, diz a coordenadora do ministério da Saúde, Deborah Malta. Ela explica que a mudança de hábito das pessoas colabora para aumentar o fluxo da atenção básica e desinchar os hospitais, por onde são feitos os procedimentos mais complexo. A jovem Bárbara Cristina, 16 anos, não tem do que reclamar. Mãe de Gustavo Henrique, de apenas 1 mês, ela utiliza os serviços do posto de Saúde nº 8, da Asa Sul, desde que nasceu, assim como os seis irmãos. O bom serviço, segundo ela, será transferido agora ao pequeno Gustavo. “Quero manter as consultas regulares e trazer meu filho porque sempre tive bom atendimento.”
Fonte: Correioweb.com.br 01/04

O sedentarismo leva ao sobrepeso e à obesidade e aparece como fator fundamental do desenvolvimento de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão”

José Gomes Temporão, ministro da Saúde

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Cafezinho após o almoço diminui risco de diabetes – FSP 01/04

Estudo inédito relaciona o horário de ingestão da bebida ao seu efeito protetor

Pesquisa de nutricionista da USP usou resultados de um acompanhamento feito na França com cerca de 70 mil mulheres durante 14 anos


Consumir ao menos uma xícara (125 ml) de café depois do almoço reduz os riscos de desenvolver diabetes tipo 2, aponta pesquisa desenvolvida por uma nutricionista da USP (Universidade de São Paulo). O trabalho foi publicado na revista "American Journal of Clinical Nutrition".
A pesquisadora usou dados de um estudo francês que acompanha quase 70 mil mulheres com idades entre 41 e 72 anos desde 1990. Para relacionar o consumo de café das voluntárias e a menor incidência de diabetes, comparou dados de 1993 a 2007.
"O consumo de café já foi ligado ao efeito protetor contra o diabetes tipo 2 em outros trabalhos. A diferença desta pesquisa é que relacionamos os horários da ingestão", explica a nutricionista Daniela Sartorelli, professora do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, autora do estudo.
As mulheres que consumiram café após o almoço tiveram risco 34% menor de ter diabetes. A proteção não foi encontrada naquelas que tomaram café em outro momento.
No período estudado, 1.415 participantes desenvolveram a doença. Entre as pacientes que tomaram no mínimo 125 ml de café na hora do almoço, 374 se tornaram diabéticas. O restante delas (1.051) não ingeria a bebida nesse horário ou a consumia em quantidades inferiores.
Versões cafeinadas ou não, com ou sem açúcar apresentaram os mesmos benefícios. "Mas 60% delas consumiam sem açúcar e, quando o adicionavam, era em quantidade bem menor do que aqui no Brasil", ressalta a nutricionista.
Segundo a pesquisadora, apesar de o estudo ter sido realizado somente com mulheres, provavelmente os resultados podem ser extrapolados para os homens, já que outros estudos que relacionaram café e diabetes foram realizadas com ambos os sexos. Ainda não é possível, no entanto, apontar por quais mecanismos a bebida protege contra a doença.
Para Sartorelli, uma possível explicação é a menor absorção de ferro causada pela ingestão da bebida. "Indivíduos com estoque de ferro aumentado têm risco maior de desenvolver diabetes. Esse fator poderia proteger a pessoa, se a maior quantidade de ferro for ingerida no almoço", diz.

Quantidade
Estudos já publicados que relacionaram a menor incidência de mortalidade por diabetes entre bebedores de café apontam que as substâncias presentes na bebida melhoram a sensibilidade do organismo à insulina, hormônio responsável por facilitar a entrada da glicose nas células do corpo.
Essas substâncias também evitam a oxidação das células beta, localizadas no pâncreas, que são responsáveis por produzir o hormônio.
"Os trabalhos já divulgados sugerem que o mais importante é a quantidade de café ingerida, e não o horário de consumo", diz o cardiologista Luiz Antônio Machado César, do InCor (Instituto do Coração), onde pesquisa sobre café e problemas cardiovasculares.
Recomenda-se beber ao menos duas xícaras de 150 ml para obter benefícios. Mas a indicação da bebida para prevenir o diabetes ainda não pode ser usada na prática médica.
"Não creio que o consumo de café, isoladamente, seja capaz de promover benefícios clínicos significantes em termos de impacto populacional", contrapõe Augusto Pimazoni, coordenador do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Hospital do Rim e Hipertensão da Unifesp e do Centro de Diabetes do hospital Oswaldo Cruz.

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Discriminação de gênero persiste no trabalho e na política

"A discriminação a esta escala, décadas após terem sido assumidos compromissos nacionais e internacionais, é sintomática de uma crise de responsabilização", define o relatório de entidade ligada às Nações Unidas

(reporterbrasil.com.br 30/03)

As mulheres recebem salários, em média, 17% menores do que o dos homens. Em empregos formais, um em cada 8 homens pode alcançar altos cargos. A probabilidade de ascender na carreira e atingir postos de comando é bem distinta para as mulheres: apenas uma em cada 40.

As desigualdades de gênero relacionadas ao mercado de trabalho aparecem com destaque no relatório "Progresso das Mulheres do Mundo 2008/2009", do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem), entidade ligada à Organização das Nações Unidas (ONU).

"As diferenças salariais entre homens brancos e mulheres negras são de quase 75%, ou seja, uma diferença gritante", declara Rebeca Reichman Tavares, representante do Unifem Brasil e Cone Sul.

O estudo revela ainda que o emprego das mulheres está cada vez mais ligado a cadeias produtivas globais, nas quais "as relações de responsabilização são frequentemente pouco claras". As mulheres formam, por exemplo, 85% da mão de obra na zona de exportação de Bangladesh. Os mecanismos de responsabilização nessas zonas, aponta o relatório, são muitas vezes limitados a códigos de conduta voluntários das próprias empresas, que relutam em adotar normas internacionais de trabalho decente.

Dados relacionados à saúde das mulheres também chamam a atenção. Na África Subsaariana, por exemplo, são três mulheres infectadas com o vírus HIV para cada dois homens; e em algumas partes do mundo, uma em cada 10 mulheres morre devido a causas relacionadas com a gravidez, apesar dos meios de prevenção da mortalidade materna serem economicamente viáveis e amplamente conhecidos. "A discriminação a esta escala, décadas após terem sido assumidos compromissos nacionais e internacionais, é sintomática de uma crise de responsabilização", define o relatório.

Entre 1998 e 2008, a porcentagem média de mulheres parlamentares a nível nacional (nos cerca de 200 países pesquisados) saltou de 8% para 18,4%. As quotas ou medidas especiais temporárias são, segundo o Unifem, uma forma comprovada de assegurar o progresso: as mulheres ocupam uma média de 19,3% das cadeiras parlamentares em países que aplicaram alguma forma de quotas, comparativamente a 14,7% em países sem quotas.

"É muito difícil de entender porque as mulheres que são muito bem educadas ainda não estão atingindo níveis de tomada de decisão, nem no setor privado, nem em participação política", completa Rebeca. Ela destaca que as leis brasileiras de defesa dos direitos das mulheres ainda encontram barreiras nos aparatos de segurança pública e no Poder Judiciário.

Os compromissos governamentais de igualdade de gênero, conclui o relatório, são importantes, mas "é provável que nunca passem de palavras no papel a não ser que sejam reforçados por avaliações de desempenho dos funcionários públicos e medidas correctivas nos casos de fracasso no desempenho".

A Repórter Brasil entrevistou a representante da Unifem para o programa de rádio Vozes da Liberdade. Confira trechos da entrevista:

Repórter Brasil - O número de mulheres responsáveis pelo sustento do lar aumentou de 25% para 34%. Mesmo assim, as mulheres ainda sofrem com a desigualdade no mercado de trabalho?
Rebecca Tavares
- Sim. A desigualdade entre salários de homens e de mulheres ainda é muito grande e o problema não é só porque as mulheres exercem funções diferentes dos homens.

Muitas mulheres trabalham em funções diferenciadas e que pagam menores salários. Mas muitas mulheres que exercem a mesma função que um homem estão ganhando significativamente menos que o homem pelo mesmo tipo de trabalho. A gente pode atribuir isto à discriminação, infelizmente.

Mesmo quando as mulheres têm o mesmo nível de escolaridade que o homem ou a mesma experiência, existe essa brecha no salário entre os gêneros e isso é mais gritante quando falamos das mulheres negras. As diferenças salariais entre homens brancos e mulheres negras são de quase 75%.

Os dados de educação também chamam a atenção: 57% das crianças que não frequentam a escola são meninas. Isso se refletirá na manutenção das desigualdades de gênero?
Eu creio que sim. Mas essa situação está melhorando. Devemos reconhecer que o Brasil tem progredido bastante na educação: as meninas e as mulheres frequentam mais a escola. Elas já estão se graduando cada vez mais.

Os números estão melhorando significativamente nessas duas últimas décadas. As mulheres já não caminham apenas para áreas acadêmicas tradicionalmente associadas às mulheres: como enfermagem, educação, administração de escritórios, esse tipo de função, de papéis de apoio.

O interessante também é que, mesmo que graduadas nas universidades, as mulheres ainda não têm tanta participação no poder público quanto os homens. É muito difícil de entender porque as mulheres que são muito bem educadas ainda não estão atingindo níveis de tomada de decisão, nem no setor privado, nem em participação política.

O número de leis sobre a igualdade de direitos e o combate à discriminação tem aumentado. Mas essas leis têm sido aplicadas?
Esse é outro problema. O Brasil é visivelmente muito progressista no sentido de legislação pró-mulher, que garanta os direitos da mulher, de defesa ao acesso à educação, ao trabalho e de proteção contra a violência. Mas temos um problema de implementação dessas leis porque os aparatos de segurança pública e do Poder Judiciário não respeitam sempre a aplicação dessas leis.

Temos conceitos e culturas ainda bem patriarcais dentro dos sistemas de segurança pública. O Judiciário ainda culpa a mulher, por exemplo, em casos de violência sexual ao dizer que ela estava usando uma "roupa provocante", ou dizem ainda que a mulher não necessita de um emprego mais bem pago porque ela vai deixá-lo logo para constituir sua família. Ainda são preconceitos tradicionais que são barreiras para a implementação dessas leis.